Tumulto em Honduras: solidariedade com a resistência

Conforme nos aproximamos dos 11 anos do golpe de direita apoiado pelos EUA em Honduras, a resistência contra o liberalismo continua. Ken Livingston | Morning Star - Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Foto: Peg Hunter)

Em 2009, eu fui um dos co-fundadores do Comitê de Emergência Contra o Golpe em Honduras e, desde então, tenho tentado acompanhar os acontecimentos e os movimentos de resistência. Apesar da repressão enfrentada – incluindo assassinatos –, a resistência continuou.

Muitos dos que se opuseram ao regime golpista podem ter se sentido vingados quando foi informado recentemente que os promotores dos EUA alegaram em um importante processo judicial que o presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, era um co-conspirador da quadrilha de tráfico de cocaína de seu irmão.

O irmão de Hernández, Tony, foi condenado em 2019 por traficar enormes remessas de cocaína para os EUA, fazendo uso das conexões políticas de seu irmão. No processo, subornos de milhões de dólares teriam sido usados para financiar as campanhas eleitorais de Hernández.

Antes do julgamento do suposto narcotraficante hondurenho Geovanny Fuentes, os promotores dos EUA apresentaram ao tribunal documentos em que o presidente Hernández disse que queria enfiar “drogas no nariz dos gringos” e fazer a agência antidrogas dos EUA, a DEA, “pensar que Honduras estava lutando contra o narcotráfico” enquanto colocava seu irmão no controle das atividades do narcotráfico.

Hernández negou qualquer cumplicidade no tráfico de drogas, mas o caso representa um problema para o novo governo dos Estados Unidos. O apoio de governos anteriores ao regime golpista se baseou, em parte, em seu aparente compromisso de enfrentar o tráfico de drogas na região após levar a frente uma onda de extradições.

Desde o golpe que derrubou o então presidente Manuel Zelaya em 2009, uma sucessão de governos de direita se mantiveram no poder de forma corrupta em Honduras, com significativo apoio diplomático e financeiro dos EUA.

O programa progressista de Zelaya incluiu reformas no salário mínimo e na distribuição da terra, apoio aos direitos sexuais e reprodutivos, às comunidades LGBTQ e mudanças para enfrentar a pobreza e a violência que impulsionam a migração.

As próximas eleições presidenciais estão marcadas para novembro, com Hernández podendo se candidatar depois que a Suprema Corte derrubou a proibição de sua reeleição, apesar de sua vitória em 2017, que foi bastante contestada na época.

Enquanto isso, os assassinatos de ativistas ambientais e de direitos humanos em Honduras persistem, e o país continua a sofrer com o crime organizado e a corrupção em meio à pandemia de Covid-19.

Martin Pandy, líder da comunidade Corozal, de maioria indígena Garífuna, foi recentemente assassinado por pistoleiros, junto com outras duas pessoas.

Há quase dois anos, quatro membros da Ofraneh, a Organização dos Povos Afro-Indígenas Garífuna de Honduras, foram sequestrados por homens fortemente armados vestindo uniformes e distintivos da polícia nacional. A Ofraneh tem resistido a incursões ilegais de empresas de banana e óleo de palma, entre outras, e, mais recentemente, à grilagem de terras para empreendimentos habitacionais e turísticos.

Apesar de uma campanha internacional, as autoridades hondurenhas não deram respostas e nada fizeram para controlar as gangues de criminosos que atacam os territórios indígenas.

O crime organizado e a corrupção são problemas profundos que sustentam uma sociedade profundamente desigual em Honduras. Suas elites poderosas e corruptas se beneficiam enormemente do desenvolvimento voraz dos recursos naturais do país. 38% da população urbana vive abaixo da linha da pobreza, chegando a mais de 60% nas áreas rurais.

A pandemia e o efeito de dois furacões devastaram a economia, que deverá ter uma contração recorde de 8%.

Isso levará ainda mais pessoas ao desemprego e à pobreza, que são os principais motores, seguidos pelo crime e pela violência, das caravanas de migrantes hondurenhos que se deslocam para o norte em busca de um novo lar nos Estados Unidos.

Porém, muitos dos migrantes não estão indo além da vizinha Guatemala, onde o exército e a polícia estão usando gás lacrimogêneo e escudos de choque para bloquear seu caminho. Quase 3 mil migrantes já foram deportados para Honduras. As organizações de direitos humanos exigem que os direitos de asilo e a dignidade dos migrantes sejam respeitados.

Ao contrário de Trump, que reprimiu os migrantes do México e do Triângulo Norte de Honduras, Guatemala e El Salvador, o presidente Biden disse que financiará um pacote de ajuda de quatro anos, no valor de 4 bilhões de dólares, aos países do Triângulo Norte para resolver as causas da migração.

No entanto, o lapso de tempo entre a implementação e os resultados significa que terá pouco efeito nos planos imediatos dos migrantes durante a temporada de primavera e verão.

Biden também tem propostas para combater a corrupção na região, por meio de uma nova equipe no Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro e mais funcionários dos Departamentos de Justiça e do Tesouro nas embaixadas dos EUA.

Ele também sugeriu a criação de uma comissão regional anticorrupção nos moldes de uma iniciativa anterior bem-sucedida na Guatemala.

No entanto, o histórico do presidente Hernández não inspira nenhuma confiança de que tal iniciativa será bem-sucedida. Em janeiro de 2020, seu governo fracassou em chegar a um acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA) para renovar o mandato da Missão de Apoio à Luta contra a Corrupção.

Mais recentemente, um processo judicial movido por um amplo esquema de corrupção envolvendo 12 milhões de dólares de fundos públicos desviados para fins políticos está sendo desmantelado por um tribunal hondurenho.

Desde a queda do governo progressista de Zelaya, governos de direita em Honduras mantiveram os cargos com apoio dos EUA, apesar da ampla dissensão e protestos generalizados no país, além da crítica internacional pela vitória fraudulenta de Hernández nas eleições de 2017.

O governo britânico também tem sido cúmplice em ajudar tais governos a sobreviver. Quando Boris Johnson era secretário de estado para as Relações Exteriores, o governo sancionou a venda de equipamentos de interceptação de telecomunicações para Honduras, suspeitos de terem sido usados ​​em atividades de vigilância contra organizações e indivíduos que protestavam contra o regime ilegítimo e repressivo de Honduras.

São esses pilares de apoio ao governo hondurenho e suas elites políticas e econômicas que devem ser removidos – e o povo de Honduras deve ser apoiado para retomar a longa jornada rumo à justiça social.