Vida e morte de Jair Bolsonaro

Bolsonaro não é mais o que foi em 2018: uma passagem só de ida para o governo. Se banqueiros desembarcarem, o Partido Fardado também o fará. Por Pedro Marin | Revista Opera

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O ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente da Repùblica, Jair Bolsonaro e oministro da Casa Civil, Braga Neto, durante a cerimônia de assinatura da Medida Provisória que moderniza o ambiente de negócios no país (Índice Doing Business). ( Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Dentre seus Ensaios, Montaigne dedicou um específico à morte. “Entre senhoras e festas, imaginavam que eu andasse preocupado a remoer algum ciúme ou à espera inquieta de qualquer acontecimento, enquanto, na realidade, meu pensamento se orientava para não sei quem que, dias antes, ao sair de festa semelhante, entregue ao ócio, ao amor e às doces recordações, fora tomado de febre e morrera. E considerava que coisa análoga me aguardava de tocaia”, escreve em um trecho, citando, logo após, Lucrécio: “Em breve, o tempo presente já não será, e não poderemos lembrá-lo”.

Este pequeno trecho nos assombra com duas lições importantes para a política e para a crise que vivemos. A primeira, atribuível ao próprio Montaigne, quase constitui um poema maquiaveliano: as coisas tendem naturalmente à mudança e à ruína; até aquele que hoje deixa uma festa acompanhado, entregue ao amor e ao que há de doce, tomba em febre e morre amanhã. Quem hoje triunfa, amanhã amarga a derrota; assim a fortuna faz com os homens que, para dela se abrigar, só podem contar com a própria virtú. A segunda lição, essa de Lucrécio, estende o problema ao presente, que em breve não será. A lição se pronuncia a partir do presente, não a posteriori, como a de Montaigne sobre o homem que morreu.

Olhemos com a mente envenenada pelas duas lições ao inédito evento que vivemos na última semana em nosso país: a demissão ou renúncia simultânea de três comandantes das Forças Armadas, logo após a aparente demissão do ministro da Defesa. Quer tenhamos esse acontecimento como maior ou menor, ele gerou um desafio grande à análise – aquela que é passo primeiro da virtú – na medida em que foi envolto por uma dúzia de especulações e “furos” midiáticos contraditórios, e, igualmente, por ter sido tomado com tanto alarme que todas as lentes focaram nesse objeto, ignorando o passado que há pouco era presente; poucos parecem poder lembrá-lo. Com tantas peças faltando, sobrevalentes ou sobrepostas – Xerazade sobrevive de contar mil e uma histórias, e aparentemente em nossa época e País veste coturnos e cochicha – talvez o mais importante seja justamente tirar de foco o objeto, rememorando alguns outros acontecimentos importantes.

Adeus à Lava Jato

A essa altura já é um fato sancionado pelo Supremo Tribunal que a Operação Lava Jato consistiu em uma série de conchavos e ações ilegais, tomadas pelo Ministério Público e o juiz Sérgio Moro, com o evidente objetivo de acelerar a derrocada do governo petista e impedir um novo mandato de Lula.

Cá está a parte que o Tribunal não sancionará: a Lava Jato consistia também uma espécie de partido; o do caos, e suas estranhíssimas relações com o FBI norte-americano, os “cursos de liderança” recebidos pelo Departamento de Estado e as conversas com este para criar um “fundo Lava Jato” sugeriam, no mínimo, que a operação era o cavalo no qual Washington apostava. De fato, a dimensão continental que tomou o chamado lawfare e a prometida política do atual presidente norte-americano, Joe Biden, de promover cruzadas anticorrupção na América Latina, deixam muito mais do que impressões digitais no passado da operação brasileira.

No entanto, como argumentava a interlocutores quando escrevia o livro que dediquei ao Partido Fardado, a Lava Jato era, em termos militares, mais artilharia do que infantaria; o caos gerado pelo bombardeio teria necessariamente de levar a uma posterior ocupação e estabilização, e esta não poderia ser feita pelas mesmas táticas usadas pela operação e, provavelmente, não poderia triunfar por distorções dentro do sistema político, mas por um novo ordenamento. Para fundá-lo, como a todos, seria necessária a força.

Que já nos primeiros anos do governo Bolsonaro a Lava Jato tenha se esvaziado na medida em que os militares ganhavam cada vez mais posições não é um fato desprezível, nem casual, e só os ingênuos poderiam crer que este evento se deu pelo fim da corrupção no país, como sugere o presidente, ou pela iluminação de uns certos setores do sistema político, que descobriram, como por mágica, as irregularidades do modus operandi da operação. Sobraria o argumento de que a Lava Jato chegou, com seus métodos, a uma miríade de agrupamentos poderosos que, agora, estavam tendo sua vingança; mas isto explicaria somente os atores da morte da Lava Jato, não a razão de seu sucesso nem porque foram bem sucedidos agora. A Lava Jato morreu por esgotamento; porque sua tarefa histórica foi cumprida e ela não tinha condições, pela sua própria natureza, de liderar o próximo momento.

De fato, seu efeito foi tão destruidor que essa nova fortuna, que ela ajudou a gerar, não pôde sequer ser recebida pelos seus herdeiros naturais, é dizer, a velha direita neoliberal, que labutara por anos contra o petismo. O novo consórcio se formou com um deputado esquecido, de corte protofascista e carismático; o grande capital financeiro, representado por Paulo Guedes; a Lava Jato, em 2018 ainda colhendo certa popularidade, representada na figura de Sérgio Moro; e o Partido Fardado, que já desde 2016 saía da caserna para achar seu lugar ao sol.

Como venho insistindo já há muito tempo, Bolsonaro foi filho solitário da fortuna, e sua falta de virtú fica evidente quando, nos afastando dos alarmismos midiáticos, lembramos que o presidente rachou o partido pelo qual foi eleito e não conseguiu constituir o seu próprio; perdeu Sérgio Moro; se jogou nos braços do Centrão (movimento que sequer ele operacionalizou, e sim o agora ministro da Defesa, Braga Netto); amargou derrotas nas eleições municipais, enquanto ressurgia a força da direita tradicional; acumulou ao longo dos meses uma longa mancha de dúvidas sobre sua idoneidade e a de sua família; rusgou com governadores e com todos os Poderes da República – jogando inclusive alguns de seus cães, que terminaram presos ou com tornozeleiras, contra alguns deles –, e se tornou, com destaque, o líder mais imprestável do planeta em meio à pandemia da Covid-19. Não contente com isso, apostou todas suas fichas, de forma irresponsável, na reeleição de Donald Trump e acabou perdendo; como previ, “talvez seja precisamente por [Bolsonaro] manejar muito bem a política externa do Brasil (dentro de sua concepção, isto é, se alinhando aos ianques) que venha a ressurgir a força militar – talvez timidamente, talvez abertamente, esmagando-o. Porque, como sabemos, deste tipo de alinhamento pode surgir toda sorte de fagulhas, e, já que a tutelagem sobre nosso país é crucial ao império, ele pode, sem dúvidas, buscar outros príncipes, estes sim com ‘armas próprias’, para o principatibus brasileiro.”

Como um presidente tão inapto pôde se manter? A resposta é encontrada em quatro partes: primeiro, porque a força hegemônica da esquerda brasileira, o petismo, se manteve inerte, em parte por suas próprias confusões e derrotas, em parte porque tinha seus movimentos restritos pela perseguição; segundo, porque a fração liderada por Guedes até o momento se mantinha feliz, a despeito das dores sofridas pelo povo brasileiro (em grande parte por elas); terceiro, porque o Partido Fardado manteve-se na retaguarda, protegendo o presidente em troca de expandir seu poder pouco a pouco; quarto, porque o Centrão, câmara baixa da burguesia e sindicato de gatunos, pensou por bem manter o presidente e ir cobrando-lhe o apoio. Abutres, como se sabe, são leitores de Montaigne e Lucrécio, e por vezes preferem esperar a morte transformar o que é vivo do que alçar vôo em busca de comida; e mesmo quando há morte, não desprezam a carniça, antes dela se alimentam.

Tudo muda

A mudança de posição de qualquer um desses atores exporia a fragilidade do governo e forçaria uma mudança, ao menos em parte, na relação dos outros atores com Bolsonaro. É isso o que vimos ocorrer na última semana.

Primeiro, a derrota da Lava Jato trouxe a volta, ao menos por ora, de Lula. Sua elegibilidade ainda não é certa e também consistiria em uma ingenuidade crer que todos os esforços movidos contra ele cessarão, mas a própria especulação sobre sua candidatura já reordena a aceitabilidade de Bolsonaro, pela pressão da grande burguesia, pelo preço mais alto do Centrão, pela concorrência sobre quem disputará as eleições contra o Partido dos Trabalhadores.

Segundo, a inoperância do governo sobre a pandemia começou a cobrar seu preço entre o grande capital. Como sabem de cor o mantra “toda crise traz uma oportunidade”, aproveitaram a crise e o morticínio e com ele lucraram, expandindo a concentração de capital em meio à quebra dos médios e pequenos. No entanto, a aposta que fizeram partia do pressuposto de uma estabilização, mais cedo ou mais tarde. O anúncio da efetividade das vacinas era o sino que queriam ouvir depois de alguns meses se movimentando; o jantar estaria servido.

Mas não foi isso o que ocorreu no Brasil. Enquanto as mortes arrefeciam em outros países, e a vacinação avançava, no Brasil batíamos diariamente o recorde de mortos e a vacinação caminhava lentamente, sem perspectiva de melhora, e como reflexo direto da gestão do presidente. Punha-se em perspectiva dois perigos: o da instabilidade política e econômica, por um lado, causada pelas mortes em massa, ou a diminuição ou paralisação da produção e circulação de mercadorias.

A burguesia se movimentou. Primeiro, na “Carta dos 500”, algo consistente com o pedido por um copo de água em meio a um incêndio, mas depois em reuniões do grande empresariado com os presidentes da Câmara e do Senado, estas um tom acima da carta. O presidente da Câmara, Arthur Lira, eleito com o apoio de Bolsonaro, chegou a falar mais grosso do que seu antecessor, um suposto opositor do presidente, quando mencionou “remédios amargos, alguns fatais” caso o presidente não se aprumasse.

Esses movimentos levaram a uma das demandas dos banqueiros: a demissão do infame ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Como José Luís Fiori lembra, este fato, quase esquecido em meio à chamada crise militar, não é pequeno: já há muito tempo o presidente sustentava e protegia seu estulto ministro. Sua demissão mostra mais uma vez a fraqueza do capitão.

Evitar a morte

Remeto às lições do início para repetir lições antigas: todo partido busca sobreviver e, garantindo-se, se expandir. “Na luta, se deve sempre prever a derrota, e a preparação dos próprios sucessores é tão importante quanto aquilo que se faz para obter a vitória”, como escreveu Gramsci. É aqui que surge verdadeiramente a importância de tudo o que foi escrito até o momento.

O Partido Fardado volta a quartelizar a política – o que é verdadeiramente seu objetivo, não “politizar os quartéis” – no governo de Michel Temer, não no de Bolsonaro. Essa observação é fundamental para que não caiamos na fabulação de que é Bolsonaro, o excepcional, quem traz de volta os militares. Antes o contrário. Se existiam antes de Bolsonaro, certamente podem existir depois, e garantir essa existência constitui seu primeiro impulso.

Neste aspecto, tudo é, por ora, só névoa e conjectura: até que ponto está no melhor interesse desse partido que busca um porvir sustentar o atual governo, e até que ponto seria mais útil descartá-lo? Por que via de ação optará o Partido Fardado no futuro; a “regular”, via acordos, cargos e chapas presidenciais, ou a excepcional? Nenhum desses cenários está ainda claro, mas que todos estejam abertos aos militares já nos diz muito.

Para a primeira pergunta, algumas questões. Efetivamente, Bolsonaro não é mais o que foi em 2018: uma passagem só de ida para o governo. A fortuna já não é a mesma e a ausência de virtú do líder já está plenamente demonstrada. Ainda que o presidente possa garantir alguma base eleitoral para 2022, seu encolhimento é previsível. Segundo, o fator Lula se apresenta. Como sinalizou e reforçou em entrevista a Reinaldo Azevedo, a lógica de uma nova candidatura sua seria tender ao centro, o que imporia a implosão de uma boa parte das candidaturas até aqui previstas e possivelmente criaria uma armadilha em que somente dois candidatos podem chegar ao segundo turno, mas ambos enfrentam enorme rejeição.

Aqueles que buscam uma terceira via fazem um cálculo simples: sem lançar mão de novas traquinagens judiciais, é mais fácil tirar Bolsonaro da corrida eleitoral e substituí-lo do que Lula. Uma candidatura Moro, Dória ou Huck teria mais sucesso se opondo a Lula se Bolsonaro não estivesse na disputa, e possivelmente seja mais de sua preferência concorrer contra o petista do que contra o capitão (o melhor, é certo, é não concorrer contra nenhum dos dois; criar uma via única de terceiras vias). Se for inevitável que Lula tome o lugar que pretendiam ocupar contra Bolsonaro – o “centro”, que por essas bandas anda bem destro – que passem à posição que Bolsonaro pretendia ocupar contra Lula.

É assim que as classes dominantes, seus defensores e representantes, vão ordenando uns aos outros mutuamente. Se esta for a via escolhida pela direita neoliberal, só será possível garantir um impeachment com a anuência dos militares. Os militares, por sua vez, buscariam assegurar a continuidade de seu partido não só com a subida de Mourão – que a essa altura não resultaria muito feliz –, mas em alguma composição para 2022 e, em caso de uma vitória de Lula, de certo poderiam ser convocados a “resolver o problema político”, talvez sob a alegação de alguma fraude, como tem sido o gosto da direita continental. O Centrão só abriria o processo tendo garantida a concordância dos militares e o apoio do grande capital. E o grande capital, para além dos cálculos econômicos do momento, de certo também já faz cálculos políticos para 2022; faria mais esta aposta no futuro se tivesse garantido que Mourão, substituindo Bolsonaro, não lhes seria trágico no presente. Se os banqueiros seguirem na atual toada, é certo: todos os outros seguirão, inclusive os militares. Não podemos estar seguros de que a demissão de Azevedo se tratou disso, mas estaria dado um sinal claro se, aos poucos, os militares desembarcassem – bastaria que um deles, Mourão, ficasse.

É sinistro: já superamos a marca dos 300 mil mortos por Covid-19, e para nossa elite, nossos generais, nossos deputados, nossos presidenciáveis, a forma pervertida de fazer o exercício de Montaigne, filosofando sobre a própria morte, é preparar os meios para se posicionarem da melhor forma em 2022 e, a partir de então, seguir provocando-a ao povo, senão da doença que potencialmente mata a todos, da que mata, como escreveu João Cabral de Melo Neto,

“de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).”