A Revolta da Páscoa e a União Soviética: um capítulo inédito da grande rebelião da Irlanda

Pesquisas em arquivos soviéticos antigos mostram a extensão do interesse da URSS pela Revolta da Páscoa, na Irlanda. Por Brendan McGeever | Open Democracy - Tradução de Nara Castro para a Revista Opera

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(Imagem: Estúdio Gauche)

É início de julho de 1920. Roddy Connolly, um adolescente que participara da Revolta da Páscoa, viaja sem passaporte em um cargueiro pelos fiordes noruegueses. O destino: a Rússia soviética. Quando se aproxima da costa norte da Península de Kola, o barco é desviado do curso por uma tempestade que o empurra cerca de 250 milhas em direção ao Polo Norte. Após episódios de enjoo, eles acabam atracando em uma Murmansk sitiada, onde Connolly inicia uma viagem ferroviária de três dias pela Rússia devastada pela Guerra Civil. Finalmente, ele chega à revolucionária Petrogrado, bem a tempo da abertura do Segundo Congresso Mundial da Internacional Comunista. Ao chegar, ele é saudado calorosamente por Vladimir Lênin, que o informa que não apenas leu o livro de seu pai, Labour and Irish History, mas o considera superior aos seus contemporâneos no movimento socialista europeu.(1)

O pai de Roddy era James Connolly, o revolucionário escocês-irlandês que liderou a Revolta da Páscoa de 1916. Embora realizada por um número relativamente pequeno de soldados mal armados, a revolta teve consequências totalmente desproporcionais à força militar de seus participantes. Ela desencadeou uma série de eventos que resultaria na formação de uma República Irlandesa independente. O centenário desse evento histórico se aproxima e há um capítulo que ainda não foi contado: a história de como a Revolta foi lembrada na União Soviética.

A Revolta da Páscoa despertou a imaginação dos revolucionários bolcheviques assim que as notícias sobre os acontecimentos viajaram pela Europa. Em uma carta de 1936 dirigida à Nora Connolly, filha de James Connolly, Leon Trotsky recordou o impacto que a revolta teve sobre ele: “O trágico destino de seu corajoso pai encontrou-me em Paris durante a guerra. Eu o carrego fielmente em minhas lembranças”. Outros revolucionários russos ficaram igualmente comovidos. Em 1916, o bolchevique Platon Kerzhentsev vivia em Nova Iorque, na mesma pensão que o poeta e romancista irlandês Padraic Colum. Quando as notícias da revolta vieram à tona, Kerzhentsev ofereceu ajuda financeira a Colum para que ele pudesse regressar à Irlanda. A ligação de Kerzhentsev com a Revolta seria duradoura: após a Revolução de Outubro de 1917, ele se estabeleceu como uma das principais autoridades soviéticas na história da Irlanda, publicando vários panfletos e monografias que explicavam a Revolta da Páscoa para o público soviético.

Lênin e a Revolta da Páscoa

O mais famoso dos encontros soviéticos com a Revolta foi o de Lênin. Enquanto o exército de Connolly tomava o Escritório Geral dos Correios em Dublin e erguia a bandeira tricolor irlandesa, Lênin escrevia sua teoria sobre o imperialismo e a autodeterminação nacional. Ao sentir que os acontecimentos na Irlanda confirmavam sua nova perspectiva, Lênin considerou a Revolta como um “golpe decisivo contra o poder do imperialismo inglês”. Por isso, ele ficou horrorizado quando companheiros bolcheviques como Karl Radek denunciaram a Revolta como um “putsch” realizado por nacionalistas sonhadores “pequeno-burgueses”. 

Essa disputa estava longe de ser trivial, pois atingia o cerne de um dos principais problemas enfrentados pelos bolcheviques: como desenvolver uma estratégia revolucionária em um contexto imperial como a Rússia, onde questões nacionais e de classe estavam interligadas. Isso se tornou um problema de ordem prática quando os bolcheviques chegaram ao poder em outubro de 1917, pois de repente foram confrontados com a difícil tarefa de unificar o multinacional Estado soviético. Curiosamente, a Revolta da Páscoa se tornou uma pedra de toque nos debates do partido. O exemplo da Irlanda foi citado repetidamente em discursos de líderes bolcheviques que defendiam o princípio da autodeterminação nacional. Lênin acabou triunfando e em 1922 foram estabelecidas várias repúblicas soviéticas semi-independentes. A Revolta da Páscoa, portanto, desempenhou um papel na formação da União Soviética.

Apesar de possuir detratores, a Revolta da Páscoa contou com uma recepção esmagadoramente positiva na União Soviética a partir dos anos 20. Quando as primeiras considerações soviéticas sobre a revolta foram publicadas, elas invariavelmente destacavam o “heroísmo” e a “coragem” daqueles que dela participaram. Durante os primeiros anos do Estado soviético, a revolta também serviu como um importante recurso simbólico de esperança que apontava para as possibilidades de revolução na Europa.

A Revolta da Páscoa em uma era de descolonização

No entanto, quando ficou claro que a revolução não havia se materializado no oeste, a atenção bolchevique se voltou para os movimentos de libertação do Sul Global. Nesse contexto de mudanças, as interpretações soviéticas do pós-guerra da Revolta da Páscoa passaram por uma sutil transformação. Reformulada como uma luta especificamente anticolonial, semelhante às que estavam acontecendo na Nigéria, no Egito e na Índia, a Revolta foi reposicionada em uma lente soviética que estava voltada para o mundo em processo de descolonização.

O interesse soviético pela Revolta da Páscoa sempre existiu. Entre 1918 e 1963, foram publicados na União Soviética pelo menos 25 trabalhos especificamente sobre o levante. O interesse foi catapultado em 1966, quando o 50º aniversário da Revolta foi celebrado no 23º Congresso do Partido e em várias outras reuniões em Moscou. Dois anos depois, o centenário do nascimento de James Connolly também foi celebrado na capital soviética e, em 1969, uma tradução russa dos escritos de Connolly foi publicada pela editora oficial do partido. Em meio ao renovado interesse, foram publicadas biografias soviéticas de Connolly e, nas universidades de Moscou, foram escritas teses de doutorado sobre a importância da Revolta da Páscoa.

Traduzindo a Revolta da Páscoa para o russo bolchevique

Entretanto, apesar de todo o entusiasmo, há muito tempo os escritores soviéticos enfrentavam dificuldades para compreender as complexidades de classe, religião e nacionalidade no contexto irlandês. Quando H.G, Wells chegou ao Kremlin em 1920, o líder do Partido, Grigorii Zinoviev, o interrogou sobre a Revolta da Páscoa, perguntando “quais você considera serem os proletários, os membros do Sinn Féin de Ulster?” De acordo com Wells, Zinoviev era totalmente incapaz de entender a situação irlandesa.

Um dos principais problemas enfrentados por aqueles que tentavam propor uma interpretação “soviética” da Revolta da Páscoa era seu aparente caráter religioso. Quando a Proclamação Irlandesa foi lida do lado de fora do Escritório Geral dos Correios em Dublin, na Páscoa de 1916, ela começava com as palavras “Em nome de Deus….”. Os autores soviéticos tendiam a evitar citar essas linhas explicitamente religiosas.

A definição de um nome soviético adequado para a “Revolta da Páscoa” também trouxe grandes dificuldades. O termo russo para “Páscoa”, especialmente se usado em sua forma adjetiva (paskhal’noe), arriscava enquadrar o evento como distintamente religioso. Várias alternativas foram, portanto, adotadas, incluindo “A revolta Irlandesa”, “A revolta de Dublin” e “Páscoa Sangrenta”. Em 1966, alguns escritores soviéticos simplesmente começaram a chamá-la de “Páscoa Vermelha”. Dessa forma, a Revolta foi traduzida para a linguagem da Revolução Russa: o Exército Civil Irlandês passou a ser chamado de “Guardas Vermelhas” e o Exército Britânico tornou-se o “Terror Branco”.

James Connolly: o “Lênin irlandês”

Considerando o grande elogio de Lênin a James Connolly, não é surpreendente que a maioria dos soviéticos, ao tratarem da Revolta da Páscoa, dessem a ele uma grande ênfase. Na década de 1960, quando a revolta passou a ser cada vez mais reverenciada e até mesmo mitificada na imprensa bolchevique, os escritores soviéticos rotineiramente se referiam a Connolly como o “Lênin irlandês”.

No entanto, as avaliações soviéticas anteriores não haviam sido tão favoráveis em relação a Connolly. Em 1936, Kerzhentsev descreveu Connolly como um radical “não-marxista” que falhara em “superar seus erros sindicalistas”. Na segunda edição da Grande Enciclopédia Soviética, Connolly foi igualmente criticado por não ter conseguido distinguir entre os elementos “proletários” e “pequeno-burgueses” da Revolta.

Nem todas as considerações sobre Connolly eram tão claramente políticas. Um artigo de 1966 no periódico soviético Ogonek descrevia Connolly como um “homem musculoso e robusto, com um rosto largo e olhos sempre brilhantes”, quase como se ele fosse um dos heroicos monumentos soviéticos das ruas de Moscou. Em outro lugar, ele foi descrito como um homem da classe trabalhadora que “gostava de rir, dançava com entusiasmo e apreciava uma cerveja à noite”.

Diz a lenda que Lênin falava inglês com sotaque irlandês. O que está claro, porém, é que os bolcheviques liam a história irlandesa com uma entonação soviética.

Notas:
(1)  Este relato é baseado na vívida descrição de Charlie McGuire sobre a viagem de Connolly à Rússia. Ver C. McGuire, Roddy Connolly and the Struggle for Socialism in Ireland, Cork: Cork University Press, 2008, pp. 20, 31-32.