Dona Ivone Lara: sambista, enfermeira e “feminista sem saber”

Além de mulher pioneira e estrela imortal no samba, Dona Ivone Lara foi enfermeira, braço direito de Nise da Silveira e criança-prodígio. Por Bruno Ribeiro | Revista Opera

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(Foto: Silvana Marques / SESCSP)

A história do samba está repleta de personagens que transcederam o campo da música para assumir um papel de destaque na vida do País. Uma dessas figuras é Dona Ivone Lara, nascida Yvonne Lara da Costa, cujo centenário foi erroneamente celebrado no último dia 13 de abril. O equívoco da efeméride está no fato de que a cantora e compositora carioca não veio ao mundo em 1921, conforme consta em sua certidão de nascimento, mas em 1922 (isso porque a sua mãe adulterou o documento para aumentar a idade da menina em um ano e, assim, fazer com que ela fosse aceita num colégio interno, em 1932).

Ainda que tivesse sido “apenas” uma cantora de timbre inconfundível e uma melodista inspirada, Dona Ivone já teria seu lugar no panteão dos grandes sambistas da história. Sua contribuição à música popular brasileira, no entanto, foi além de sua obra: pioneira, abriu caminho para que mulheres fossem aceitas como compositoras dentro das escolas de samba do Rio de Janeiro, numa época em que o machismo ditava ainda mais o comportamento social.

Segundo a historiadora Rachel Valença, coautora do livro Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba, Dona Ivone foi “feminista sem saber”. Não porque teria sido contestadora ou engajada — ela nunca se apresentou dessa forma —, mas pela representatividade que inspirou nas mulheres negras desde que decidiu assumir as rédeas de sua carreira artística. 

O ponto de partida para sua visibilidade, que iria consagrá-la no meio do samba, diz muito sobre a consciência que a compositora tinha de seu próprio valor: foi quando decidiu não mais deixar que seu primo, o lendário Mestre Fuleiro, apresentasse sambas que ela compunha como se fossem dele.

Como todas as agremiações carnavalescas da época, o Império Serrano, fundado em 1947, não admitia mulheres na ala de compositores. Ivone Lara compunha desde criança, mas o machismo vigente a impedia de mostrar suas músicas em público. Mulher compondo samba de terreiro e de partido-alto não era levada a sério. Durante 20 anos, Fuleiro assinou e cantou os sambas que a moça fazia em segredo. Foi a forma que encontrou de levar sua arte aos ouvidos do povo. Todo mundo aplaudia, mas quem levava os méritos era um homem.

Em 1965, cansada dessa situação, Ivone enfrentou o preconceito e brigou para ser aceita na ala de compositores de sua escola. Revelou que era a autora de vários sambas cantados pela comunidade, argumentou de modo assertivo que deveria ter o direito de ser aceita e mostrou que sabia compor melhor do que muitos homens da agremiação. Venceu pela insistência — e pelo talento. 

Nesse mesmo ano, o Império Serrano desfilou com o samba Os Cinco Bailes da História do Rio, de sua autoria com Bacalhau e Silas de Oliveira. Diz a lenda que Silas e Bacalhau já tinham a letra do samba, mas estavam com dificuldades para achar a melodia certa. A chegada de Dona Ivone seria providencial à parceria: o papel com a letra lhe foi entrega na porta de um botequim em Madureira e a sinuosa melodia lhe veio na hora, como que soprada pelo vento. Resultado: o Império foi vice-campeão do Carnaval e o samba entrou para a história. A partir deste momento, Ivone Lara passa a ser vista como parte da intelectualidade popular, esfera onde mulheres quase nunca eram escutadas.

 

Enfermeira e braço direito de Nise da Silveira

Se não bastasse sua luta dentro do universo das escolas de samba, Ivone teve participação importante na luta antimanicomial e na defesa da saúde pública no Brasil. Formada em Enfermagem, com especialização em Terapia Ocupacional, trabalhou em hospitais psiquiátricos de 1947 a 1977, e atuou no Serviço Nacional de Doenças Mentais como auxiliar da psiquiatra Nise da Silveira, principal referência brasileira na luta contra o eletrochoque e pelos direitos das pessoas com sofrimento mental. 

Durante os mais de 30 anos em que trabalhou com a doutora Nise, a sambista utilizou a música como ferramenta para o tratamento de transtornos psíquicos. Após os plantões, que podiam durar até 48 horas, ia pessoalmente falar com comerciantes nos bairros para obter patrocínio e comprar instrumentos musicais. Dessa forma criou uma oficina de música para socializar com pacientes e funcionários do Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro (hoje Instituto Nise da Silveira), onde trabalhava. 

Como braço direito de Nise da Silveira, Ivone Lara percorreu milhares de quilômetros no estado do Rio em busca de mães, pais e filhos que haviam abandonado familiares no hospício. Ela acreditava — e conseguiu provar — que o resgate dos vínculos com a família, assim como o contato com a música, era uma porta que se abria à recuperação ou reinserção social dos pacientes, contribuindo com o avanço da luta antimanicomial no Brasil. Parte dessa história é contada no filme Nise – O Coração da Loucura, no qual a atriz Roberta Rodrigues interpreta a jovem Ivone Lara. 

Criança-prodígio e compositora aos 12 anos

Nascida no bairro de Botafogo, em família pobre, a compositora ficou órfã muito cedo: aos 3 anos de idade, perdeu o pai. Aos 11, a mãe. Passou quase toda a sua infância e adolescência no Colégio Municipal Orsina da Fonseca, internato onde adquiriu a base de sua educação formal. Ali teve aulas de música e canto coral com Lucília Villa-Lobos, mulher do maestro Heitor Villa-Lobos, que via nela uma “criança-prodígio”.

As férias eram passadas no Morro da Serrinha, berço do Império Serrano, onde seu tio, Dionísio Bento da Silva, irmão de sua mãe, era proprietário de uma casa. Era comum que por lá passassem músicos importantes, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. O tio de Ivone era integrante de um grupo de choro e promovia saraus no quintal de casa. Foi com ele que a menina aprendeu a tocar cavaquinho. 

Sua primeira composição foi feita em 1934, aos 12 anos. Segundo a própria Ivone Lara, ela estava chorando porque queria uma boneca para brincar e não tinha. Para tentar acalmá-la, seus primos Fuleiro e Hélio lhe deram um passarinho tiê-sangue. Ao mostrá-lo para a avó, que era moçambicana, esta lhe disse que o pássaro se chamava “Oialá-Oxá”. Então a menina sentou-se na soleira da porta, com o tiê nas mãos, e começou a cantarolar algo. A música viria a ser gravada muitos anos mais tarde, na coletânea Quem Samba…Fica, de 1974.

“Todos os versos que eu fazia eram para este passarinho. Ele era a minha boneca, a minha distração, era tudo pra mim. Com meu tiê eu conversava o dia inteiro. Meus primeiros versinhos foram todos dedicados a ele”, contou a compositora em entrevista à TVE, em 1985. 

 

Estreia em disco: “artista depois de velha”

Aos 17 anos, terminada a sua estadia no internato, Ivone Lara ingressa na Faculdade de Enfermagem do Rio e logo começa a trabalhar como plantonista de emergência. Aos 25 presta concurso do Ministério da Saúde e é aprovada. Foram 37 anos de bons serviços prestados à área da saúde, sem nunca deixar de cantar e compor. O samba era a sua maior diversão nos dias de folga. A dedicação exclusiva à música, no entanto, teria início somente em 1977, quando ela se aposenta como servidora pública.

Em 1978, Dona Ivone Lara lança seu primeiro álbum solo — Samba, Minha Verdade, Minha Raiz, onde se destacam algumas faixas, entre elas Andei para Curimá. Esta música é simbólica por explicitar uma característica que seria marcante na obra da compositora: a forte presença da herança africana contida no partido-alto, no jongo e no samba de roda, que seriam a base de quase tudo o que ela criou enquanto viveu. Outro exemplo é Axé de Ianga, gravado no álbum Sorriso Negro, de 1981. 

No aspecto específico da letra, Axé de Ianga evoca o vocabulário das pessoas do Morro da Serrinha que Dona Ivone conheceu quando criança. Esta tradicional comunidade carioca nasce com a abolição da escravatura, quando negros livres passam a fazer moradia nos morros. A maioria dessas famílias vinha de países africanos de língua portuguesa, como Angola e Moçambique. A avó moçambicana de Ivone Lara exerceu grande influência em sua criação — e até morrer misturou português com dialeto bantu.  

“Depois de velha, agora minha mulher é artista.”, dizia aos amigos Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha, da qual se originou o Império Serrano. Apesar de casado com Ivone Lara desde 1947, ele nunca se acostumou com o fascínio que ela tinha pela música. Era ciumento e não via com bons olhos a presença da mulher em rodas de samba. Mesmo assim, Oscar nunca a impediu de fazer o que queria. 

Em 1975 ele é acometido por um enfarte fulminante depois que Odir, filho do casal, sofre um grave acidente de carro. Com a morte do companheiro, Dona Ivone é tomada por intensa tristeza e passa um tempo reclusa. Percebendo a fragilidade emocional da amiga, o compositor Delcio Carvalho, seu parceiro mais constante, passa a lhe enviar algumas letras para que colocasse música. Voltar a compor era uma forma de tentar expurgar o passado. 

“Delcio fazia letras tristes porque olhava para mim e sabia o que eu estava querendo dizer com minhas melodias”, revelou Ivone à pesquisadora Mila Burns, autora do livro Dona Ivone Lara: a mulher no samba, lançado pela editora Record. São desse período dois dos maiores sucessos da carreira da cantora: Sonho Meu e Nasci pra Sonhar e Cantar

Este último, lançado em 1982 no LP Alegria Minha Gente, deixa clara a influência exercida pelo chorinho no universo melódico da artista. É também um samba que remete a uma cantiga de domínio público, como tantas outras de sua lavra. É como se melodia e letra fizessem parte desde sempre do inconsciente coletivo do povo brasileiro. 

Em 2001, a gravadora francesa Lusáfrica a convidou para regravar Nasci pra Sonhar e Cantar, que deu nome a um disco contendo algumas músicas consagradas e várias inéditas. O trabalho, com arranjo e violão de João de Aquino, acordeom de Chiquinho Chagas e flauta de Dirceu Leite foi lançado em diversos países e também no Brasil, sendo considerado um dos melhores álbuns de música popular daquele ano. 

Encontro com a ancestralidade em Angola

Na década de 1980, pelas mãos do produtor Fernando Faro, Ivone Lara empreende uma viagem pelos países africanos de língua portuguesa. Na entrevista à TVE, ela relembra um episódio marcante dessa turnê: “Eu jamais podia pensar que, quando chegasse a Angola, alguém fosse me reconhecer. E a coisa mais engraçada foi que, na hora em que eu cheguei, começaram a chamar meu nome e a falar que eu era a ‘Mãe de Angola’. Gritavam: ‘Mamãe, mamãe’. E eu respondia ‘estou aqui, meus filhos’. Quando desci do avião tive a impressão de estar em casa, como se eu já conhecesse aquele lugar. E tive também uma emoção muito forte quando fui a uma ilha chamada Mussulo. Senti um arrepio dos pés à cabeça. Eu só tinha vontade de chorar.”

A “Senhora da Canção”, como era conhecida pela beleza das melodias que lhe vinham espontaneamente em solfejos, morreu vítima de uma parada cardiorrespiratória pouco depois de completar 96 anos, em 16 de abril de 2018. Seu corpo foi velado na quadra do Império Serrano, escola que ela tanto amou e defendeu. A prefeitura decretou luto oficial de três dias. “Mesmo doente, em sua última semana de vida, ela estava sempre procurando um caderninho para escrever uma música, compor um samba”, disse sua nora Eliana Lara Martins.

Dona Ivone lançou 15 discos de carreira; fez shows e vendeu discos na África, na Europa e no Japão; suas canções foram gravadas por inúmeros intérpretes do samba e da MPB (de Clementina de Jesus a Paula Toller, passando por Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Marisa Monte e Criolo); atuou ainda como atriz de cinema (A Força de Xangô) e de televisão (Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde interpretou Tia Nastácia). Em 2012, segundo a própria, recebeu a maior homenagem que lhe poderia ser feita antes do fim: foi tema de enredo do Império Serrano, que desfilou no Carnaval daquele ano cantando a história de sua vida. 

A letra do samba que a escola defendeu na avenida dizia, em determinado momento, que “o dom de compor é coisa de mulher”. A quem se deve este reconhecimento se não à Dona Ivone Lara? É impossível falar de protagonismo feminino no País e não citá-la. Seus discos nunca decolaram em vendas no Brasil, mas isso não surpreende em se tratando de um país que pouco valor dá a si mesmo. Seu nome, porém, está gravado no livro de ouro da eternidade.