Jesus jantaria com Marcos Pereira?

Seria Marcos Pereira, da Universal, que ocupa cada vez mais espaço no Estado, um evangélico politicamente confundido a ser convencido? Por André Kanasiro | Revista Opera

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(Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados)

Em novembro de 2020, às vésperas do 2º turno nas eleições para prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos realizou um evento para o qual foram convidadas diversas lideranças evangélicas simpáticas à sua candidatura. Eu estive neste encontro, e assisti enquanto Boulos explicava aos jornalistas a razão de tal evento: “Há pessoas que querem falar em nome do conjunto dos evangélicos. Essas pessoas que só pregam intolerância não falam em nome de todos.” Quando questionado por um jornalista — “e você representa esse conjunto dos evangélicos, candidato?” —, Boulos respondeu: “Ninguém representa os evangélicos. Ninguém é dono da fé das pessoas”.

Por isso, sua coluna para a Folha no último dia 19 não me surpreendeu. Já conhecendo a simpatia e abertura de Boulos para com os evangélicos, compostos majoritariamente por trabalhadores de classe média-baixa, mulheres e negros, fui ao seu texto com muita boa vontade. O que de fato me surpreendeu (e perturbou) foi descobrir que tal texto foi, pelo menos em parte, motivado pelo jantar do futuro candidato ao governo do estado de SP com Marcos Pereira — presidente do Republicanos, bispo da Igreja Universal, deputado federal e base aliada de Bolsonaro.

Questões estratégicas

Segundo O Globo, Boulos “tentou mostrar que não é uma ameaça para os conservadores”, e “enfatizou que sua preocupação é com educação e saúde” durante o jantar. O argumento é verdadeiro; há tempos está óbvio, para qualquer um com um mínimo de bom senso, que a esquerda não é inimiga da família evangélica. Mas será Marcos Pereira um evangélico a ser convencido? Será o bispo de uma igreja como a Universal, que cobra franquias exorbitantes de seus templos locais e ocupa cada vez mais espaço nas instituições do Estado brasileiro, um evangélico politicamente confundido? Teria uma das bases do governo Bolsonaro estabelecido como seu líder uma figura ideologicamente vacilante? 

Tais perguntas são, é claro, retóricas, e Boulos sabe bem disso. Marcos Pereira, falando de seu jantar com o líder do MTST, sinalizou uma suposta moderação, sem deixar de notar que “há um abismo entre as duas pautas”. É desnecessário sinalizar a hipocrisia dessa moderação que, frente a 384 mil mortos, parece mais preocupada em nomear ministros evangélicos e lotar igrejas. Mas é necessário perguntar o que Boulos pode oferecer aos Republicanos sem comprometer seu programa político; estaria ele disposto a confiar nos mercadores que, mesmo bajulados pelo PT, o apunhalaram? Estaria Boulos sonhando com impossíveis (e indesejáveis) votos de curral à esquerda? Se “ninguém é dono da fé das pessoas”, o que há para se negociar com os que se arrogam tal título?

Questões teológicas

Se Boulos deseja se aproximar dos evangélicos, cabe-lhe seguir os Evangelhos e os passos de Cristo, que viveu em uma sociedade em muitas formas análoga à nossa: Seu ministério, realizado numa Palestina mantida na miséria por Roma e Jerusalém, foi feito majoritariamente em aldeias camponesas empobrecidas, empreendendo uma renovação da aliança de Moisés e do espírito comunitário por onde passava, e anunciando o julgamento iminente dos ricos e poderosos (Lc 6:20-23, 24-26), que chegam ao topo esmagando os mais pobres. Entre estes ricos estavam os líderes religiosos da época; os sacerdotes e fariseus não eram representantes de um “judaísmo ultrapassado” contra a nova religião de Jesus, mas representantes diretos do poder romano, em nome do qual administravam a região. Seu poder político, econômico e religioso girava em torno do Estado-Templo de Jerusalém, e lhes permitia acumular riquezas e terras às custas de seus fiéis por toda a Palestina. Não surpreende, então, que sejam tão raras as histórias de interações amigáveis entre Jesus e os ricos; eles sempre estiveram em trincheiras opostas, material e espiritualmente.

Isso não quer dizer que Jesus não tenha conversado com os mais ricos. Zaqueu, um cobrador de impostos, recebe Cristo em sua casa e, convertendo-se, frutifica: ele “dá metade do que tinha aos pobres”, e promete “devolver quatro vezes mais o que roubou” (Lc 19:8). Só então Jesus diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19:9). Ele também é procurado por Nicodemos, fariseu que o busca de noite, em segredo, e ouve de Jesus que só verá o Reino de Deus se “nascer de novo” (João 3:3). Um jovem rico também O procura, mas desiste após a proposta final do Messias: “venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres” (Mt 19:21). Jesus então profere a célebre frase, que muitos cristãos parecem esquecer ou ignorar: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19:23).

O ministério do Filho de Deus entre os ricos apresenta, portanto, um padrão: Ele os recebia de braços abertos, desde que O buscassem dispostos a se despir de sua riqueza e poder. Estaria Marcos Pereira abrindo mão de seu poder promíscuo com a Bancada Evangélica e a Igreja Universal? Estaria o deputado-bispo disposto a doar seu patrimônio, avaliado em quase R$4 milhões em 2018, para seus membros mais pobres? Se for este o caso, Jesus o receberia de braços abertos. Mas nosso Deus não Se senta à mesa com poderosos para jantar o sangue de Seus filhos. E se Jesus não o fez, tampouco devemos fazê-lo.