Tecnologia nas lutas anticoloniais: mais difundida do que pensamos

O uso e desenvolvimento da tecnologia nas lutas não é algo novo: também foi usada em experiências como a argelina ou sul-africana. Por Sophie Toupin | Africa is a Country - Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila 

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Montagem com base em foto de uma estação de trabalho da Operação Vula. (Imagem: Estúdio Gauche)

Durante o movimento anti-globalização do início dos anos 2000, coletivos de tecnologia como Riseup e Autistici surgiram para fornecer ferramentas de comunicação autônomas e não-corporativas, além de tutoriais para movimentos sociais se organizarem de forma segura com as novas mídias emergentes. Na África do Sul, a campanha Right2Know foi iniciada em 2010 em resposta ao Projeto de Lei de Proteção à Informação do Estado, que visava enfraquecer os direitos de jornalistas e denunciantes ao acesso à informação. Como parte de seu trabalho, a R2K publicou guias para ativistas se protegerem digitalmente.

Para aprimorar minha própria prática de defesa digital, recentemente participei de um workshop virtual oferecido pelo Tech Learning Collective, de Nova York. Este coletivo oferece educação tecnológica para organizadores radicais  e líderes comunitários, com atenção especial para grupos carentes. Esses grupos, que projetam ferramentas e treinamentos para ativistas, não são uma ocorrência nova. Eles têm uma história interessante em culturas políticas diversas que remontam, ao menos, às lutas de libertação nacional do século XX. Vejamos dois exemplos, ambos de lutas armadas.

O primeiro foi o trabalho da seção técnica com o Front de Libération Nationale, movimento que estava à frente da luta argelina contra o colonialismo francês. No ensaio “Ici la voix d’Algérie” (Esta é a Voz da Argélia), Frantz Fanon descreve o segredo da seção técnica: a rádio portátil de ondas curtas, cujo transmissor foi montado em um caminhão em movimento que transmitia mensagens revolucionárias de dentro da Argélia. A transmissão incluía informações sobre os combates, a história do povo argelino, comentários políticos e militares, canções patrióticas e sermões religiosos, encorajando o compromisso com a liberdade e independência do país. Para ouvir a transmissão revolucionária, a maioria dos argelinos tinha que conseguir aparelhos de rádio projetados por técnicos de rádio argelinos, que começaram a abrir lojas para a venda de aparelhos de rádio usados. Os técnicos inovaram na produção de rádios a bateria em um país que, em sua maioria, carecia de eletrificação. Fanon sugere que a compra desses aparelhos não significou a “adoção de uma técnica moderna para conseguir notícias, mas a conquista do acesso ao único meio para entrar em comunicação com a Revolução, para conviver com ela”. Em outras palavras, os argelinos não estavam simplesmente ouvindo a transmissão ou adotando uma tecnologia da informação para fins instrumentais limitados; de fato, alguma coisa mudou em sua disposição como resultado de sua participação nas transmissões como ouvintes.

Quando as autoridades francesas entenderam o poder do Voz da Argélia como uma força vinda de fora do mecanismo disciplinar do Estado colonial, aprovaram uma série de leis para proibir a venda de aparelhos de rádio aos argelinos, a fim de restringir seu acesso às transmissões. Além disso, como as forças francesas não conseguiram reter o transmissor – tentaram bombardear o caminhão que o transportava, sem sucesso -, a única maneira de silenciar essa voz revolucionária era tentar bloquear as ondas de rádio. Mas mesmo com as tentativas de jamming [produção de interferência nas ondas] por parte da França, a existência da transmissão revolucionária era, por vezes, mais importante simbolicamente do que a capacidade de compreender cada palavra e frase. Todas as noites, “os argelinos imaginariam não apenas palavras, mas batalhas concretas”, diz Fanon, fortalecendo assim a consciência nacional. A Voz da Argélia se tornou uma ferramenta para a revolução não apenas por meio de seu ramo técnico – isto é, seu conteúdo de transmissão -, mas também performaticamente, pois a mera possibilidade técnica das transmissões, contra todas as probabilidades e tentativas de supressão, confirmavam que a revolução estava viva.

O segundo exemplo vem do comitê técnico que apoiou a luta de libertação nacional sul-africana. Do final dos anos 1950 até o início dos anos 1990, um comitê técnico desenvolveu artefatos e treinou militantes e seus camaradas estrangeiros sobre como usar essas ferramentas para apoiar a luta. A abordagem do comitê técnico para a ciência e tecnologia foi influenciada por grandes acontecimentos da Guerra Fria, como o lançamento do Sputnik 1 em 1957. Não foram apenas os atores estatais, como o governo estadunidense, que foram influenciados pelo Sputnik 1, desencadeando um ambicioso programa de pesquisa científica e tecnológica que levaria à criação da Internet. O lançamento também influenciaria a orientação científica e tecnológica de um movimento de libertação nacional.

Depois de ser forçado ao exílio, o comitê técnico e seus membros continuaram a operar no Reino Unido. Eles projetaram ferramentas para o povo, como “bombas de panfletos”, lançadores inofensivos de folhetos que explodiriam em áreas lotadas e facilitariam sua distribuição em massa. A primeira cena do filme Escape from Pretoria, de 2020, é uma boa representação de como as bombas de panfletos funcionavam e como os sul-africanos e estrangeiros brancos, especialmente, podiam usar seu privilégio para a luta enquanto navegavam facilmente nas áreas brancas. O comitê também criou pequenas caixas contendo amplificadores de áudio conectados a gravadores que seriam deixados em áreas lotadas, geralmente em distritos, por militantes anti-apartheid. Graças a um dispositivo de cronometragem, essas caixas tocavam uma mensagem curta de cinco minutos assim que o operador estivesse fora.

Provavelmente, o projeto mais sofisticado do comitê técnico foi um sistema de comunicação criptografado que permitiu aos militantes se comunicarem secreta e transnacionalmente entre a África do Sul, Zâmbia, Reino Unido, Holanda e Canadá no final dos anos 1980. Durante quase uma década, o comitê técnico experimentou novas tecnologias disponíveis na época, como telemática (combinando computadores e telefones), programação de computadores e criptografia, enquanto simultaneamente treinava lutadores anti-apartheid e seus camaradas para operar tais sistemas. Mais tarde, esses sistemas de comunicação foram incluídos na Operação Vula em meados da década de 1980, uma açã que visava lançar uma guerra popular.

Esses dois exemplos mostram como os coletivos de tecnologia contemporâneos estão enraizados em uma história mais ampla de habilidades técnicas, ferramentas e grupos de apoio a lutas passadas e atuais. Na verdade, o investimento prático das lutas de libertação nacional com ciência, tecnologia e comunicação são práticas que podem estar mais difundidas do que pensamos. Somente investigando mais profundamente essas tradições radicais de ciência e tecnologia em várias culturas políticas diversas teremos acesso a um conjunto diferente de materiais e ideias para pensar sobre o que a ciência, tecnologia e comunicações revolucionárias podem fazer.