Humanidade dividida, realismo mágico e a guerra das vacinas

Apesar da alta de mortes e da desigualdade na distribuição de vacinas, o realismo capitalista segue sua trilha mágica: sem lucro não há mundo. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Um trecho do premiado longa-metragem Parasita, do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, foi apontado como uma metáfora perfeita de como determinados fenômenos “normais” e naturais, em sociedades bifurcadas em classes, acabam por se tornar dessemelhantes de acordo com estrato social de quem os enfrenta. No filme, uma tempestade inunda o bairro onde vive a família do motorista particular Kim Ki-taek, destruindo sua casa e as dos vizinhos. Todos acabam abrigados em um prédio público. Enquanto isso, em outra parte da cidade, os patrões de Kim Ki-taek assistem ao espetáculo da chuva no sofá da sala, por uma parede de vidro. No dia seguinte à inundação, enquanto Kim dirige, sua patroa, no banco traseiro do carro, arremata ao telefone: “a chuva de ontem foi uma benção.”

A metáfora – efeitos naturais, “neutros”, podem constituir “tragédias” para os pobres enquanto são “bençãos” para os ricos – serve perfeitamente ao mundo pandêmico em que vivemos. Mas, talvez mais interessante do que observar essas diferenças, seja olharmos com mais cuidado ao fato de que, com todas as mudanças trazidas e anunciadas pela Covid-19, dos amplificados “novos-normais” aos alardeados home offices, das “chagas nas economias” às pilhas de cadáveres, o que se vive no mundo pandêmico é, ainda assim, incrivelmente igual à vida antes dele.

Onde há crise, há oportunidade. O mantra realista é aplicável – e aplicado – ao mundo das indústrias e finanças. A pandemia pode até servir como um armageddon para a renda dos pobres e pequenos empresários – mas quanto a isso não há choros, nem velas: a lógica dos mercados será mediar o fato não em meus-pêsames e condolências, mas em salários mais baixos e monopolização depois da queda dos falidos.

No mundo pandêmico em que nada é normal mas tudo é normalizado – como era o mundo anterior –, a novidade é que as vacinas se tornam ativos estratégicos. Em um artigo para o The New York Times na semana passada, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, dá conta do tamanho da muralha que divide a humanidade: das mais de 890 milhões de doses de vacinas aplicadas no planeta, 81% tinham sido administradas em países de renda alta ou média-alta, enquanto os países pobres receberam somente 0,3% das vacinas. “Quase um bilhão de doses de vacinas para Covid-19 foram aplicadas em todo o mundo, e ainda assim o número semanal de casos chegou a um recorde na última semana, e as mortes estão subindo, a caminho de eclipsar o quadro sombrio de 2020. Como isso pode acontecer? As vacinas não deveriam diminuir as chamas da pandemia? Sim, deveriam. Mas cá está um fato sobre o inferno: se você joga água só numa parte dele, o resto continuará a queimar.”

Farinha pouca, meu pirão primeiro, é a regra. Mas há outras. Com o desenvolvimento competitivo de diversas vacinas no mundo, é de se esperar também que as lógicas do capital – que tende ao monopólio, não à competição, como creem os liberais – se apliquem. Não gostaria sequer de mencionar como este fato leva tantos a, de forma justa, desconfiar dos gigantescos impasses gerados a partir do veto, por parte da Anvisa, da importação da vacina russa Sputnik V. O conflito de versões que vemos hoje – que lembra um pouco o que houve em novembro passado, entre a agência e o Instituto Butantan – deve ser resolvido em breve, se e quando os relatórios completos oferecidos à Anvisa forem feitos públicos para a avaliação aberta da comunidade científica.

A demoníaca monopolização à qual quero apontar não está aí, na disputa sobre a segurança de determinadas vacinas – mas no fato de que as vacinas já consideradas seguras, a despeito das milhares de piras que queimam corpos na Índia e da multiplicação de covas no Brasil, sigam com suas patentes e direitos guardados nos cofres.

Em outubro passado, Índia e a África do Sul entraram com uma representação na Organização Mundial do Comércio (OMC) para que partes do Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS) fossem temporariamente suspensas, no sentido de refrear os direitos de patentes, desenhos industriais, direitos autorais e proteção de informações não divulgadas relativas às vacinas para a Covid-19, possibilitando o desenvolvimento genérico de vacinas pelos países mais pobres.

A medida tem o apoio da China, da maior parte da Ásia, América Latina e África. Mas tem sido bloqueada pelos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália, Japão e União Europeia, representando as grandes empresas farmacêuticas. Thomas Cueni, diretor-geral da Federação Internacional de Fabricantes e Associações Farmacêuticas (IFPMA), disse que a quebra de patentes das vacinas “não aumentaria a oferta sequer em uma dose no curto prazo porque eles [os que apoiam a medida] desconsideram a complexidade da produção de vacinas e ignoram até que ponto os fabricantes de vacinas e empresas farmacêuticas e países em desenvolvimento já cooperam para aumentar as capacidades de vacinação”. De acordo com ele, “a euforia com o desenvolvimento de vacinas altamente eficazes criou de alguma forma a impressão de que, uma vez desenvolvida uma vacina, um bilhão de doses podem sair das fábricas com o apertar de um botão. Acho que precisamos estar cientes de quão complexo e difícil é a fabricação de vacinas”.

Os países que rejeitam a proposta argumentam também que as patentes e direitos intelectuais das vacinas garantem os estímulos necessários – quer dizer, lucros – para que as empresas continuem investindo em inovação e pesquisa. O Financial Times agrega que a quebra das patentes “poderia permitir que China e Rússia explorassem plataformas como a mRNA, que pode ser usada para outras vacinas e até medicamentos para doenças como câncer ou problemas cardíacos no futuro”. Como um editorial do jornal inglês The Morning Star disse, “até mesmo câncer e tratamentos para o coração? Ainda bem que Washington não vai deixar os russos ou chineses colocarem as mãos nisso!”.

O “realismo capitalista” do qual falou Mark Fisher é um realismo mágico: frente à morte indiscriminada a nível global e a distribuição desigual de vacinas, o argumento último do capital é que somente sob seus feitiços a produção é possível – ainda que, é claro, ele não esteja disposto a pagar para ver. A distribuição na proporção de 80 para 0,3 é chamada de cooperação, e a garantia de que só alguns produzirão torna-se, num salto, o argumento de que assim a produção será maior. A fórmula “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, popularizada pelo autor, talvez tivesse como justa continuação o seguinte: que até em meio ao fogo indiscriminado, ao tremor do mundo, aos tsunamis monstruosos, haveria quem vendesse e quem comprasse passaportes para a morte, sem os quais morrer – atestariam – não é possível.