Colômbia, Brasil e o adocicado cheiro da morte

Colômbia se levanta em meio à "democracia sangrenta". No Brasil, centro-esquerda se resigna a aguardar as eleições em meio ao morticínio. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Apesar de constituir há décadas a mais avançada ponta de lança dos Estados Unidos no continente, de viver uma guerra interna que remonta 70 anos, de ser o país com mais deslocados internos do mundo, a Colômbia forma, como outros países, desta e de outras regiões, uma ilha de indiferença midiática, que joga no esquecimento a história cambaleante de uma nação encruzilhada por um realismo medular, violento, e um surrealismo sacramental, de vísceras.

Um realismo tão cru que, ao abrir um livro qualquer sobre o país, é possível sentir nas páginas o odor adocicado da morte; e esse odor é inalado, pressiona o sangue e entorpece. Talvez por isso um jornalismo que se atém à factualidade do mundo , mas que se nega a sentir cheiros, cores, toques, e choros, não possa vê-la; a mantém distante, escondida, lá onde a conveniência da técnica e da ideologia não pode buscá-la. A paz, na Colômbia, é a guerra por outros meios. Poderia ser um jogo de palavras, mas Timochenko de fato ficou sobressaltado quando os aviões rasgaram o céu durante a assinatura dos acordos; “bem, dessa vez vieram saudar a paz, não jogar bombas”, disse. Não era para tanto: 262 de seus companheiros de armas já foram mortos desde que deixaram os fuzis e firmaram com as canetas.

Mas nada disso será novo, nem poderá assustar quem vive no país que acaba de matar 25 pessoas durante uma operação policial de oito horas (em meio à crise sanitária, as balas higienizadas), que parece ter convertido o estranho “patriotismo” do presidente em uma busca pelo recorde olímpico de mortes durante a pandemia, e que já prepara, para não ficar atrás da nação-irmã, um novo massacre contra camponeses. Não se trata de salientar a estranheza da Colômbia – e sim dizer que, a despeito de seu epopeico realismo, tão ausente nos nossos noticiários e jornais, ela é muito parecida com o Brasil.

Mais: dizer que quando se fala em extrema-direita, em milícias, em governos militarizados, em notícias sobre presidentes e pacotes de cocaína, nossos ilustrados deveriam apontar à Colômbia como um espelho, não buscar distorções onde caiba a comparação com nações como Cuba, Venezuela, China ou o que quer que o valha. Esse véu deformante nos mantém ignorantes sobre os vizinhos, mas também sobre nós mesmos.

Há diferenças na trajetória dos países, é claro. O massacre perpétuo colombiano – algo que se consolida no que os jornalistas Matheus Pismel e Rodrigo Chagas chamaram de “democracia sangrenta” – foi formado e mantido sem que fosse necessário o apelo aos governos militares que vivemos no resto do continente durante os anos 50, 60 e 70. Ele também levou, desde o início, à resposta da guerra de guerrilhas, que manteve-se ao longo das décadas, chegando aos anos 80 com uma expansão impressionante de sua potência. Como resultado da guerra, no entanto, criou-se um paradoxo nas relações campo-cidade: os deslocamentos forçados, mais do que forma de ganho territorial e acumulação primária, foram uma acertada estratégia político-militar do Estado colombiano, que aumentou o isolamento dos guerrilheiros retirando-lhe bases ao passo que criava um vácuo político nas cidades.

Agora a Colômbia se levanta, por muito mais do que a descarada reforma tributária de Iván Duque: pela pobreza crescente que contrasta com os imensos gastos militares, pela débil resposta à Covid-19 onde se aprovam planos (inter)nacionais de fumigação de herbicidas, pela violencia que remonta ao menos aos anos 40 e que segue matando hoje. Trata-se, em muitos aspectos, de uma revolta antiuribista, que no entanto não apresenta, até o momento, um horizonte claro para onde marchar. É difícil antever um cenário em que os protestos duramente reprimidos na Colômbia abram caminho para a constituição de um governo radicalmente diferente dos que até hoje assombraram o país.

No Brasil, por outro lado, uma esquerda que nasceu da redemocratização, que trilhou o caminho da institucionalidade até o governo, que se fez antes de tudo na luta operária nas cidades, que conta ainda com deputados, senadores e governadores, se resigna à imobilidade em meio ao morticínio patrocinado pelas fardas, para manter bem perto – ao centro? – o horizonte das urnas. Pesadas as similaridades e as diferenças, estranhos mesmo somos nós.

“Um se encontra com o amigo que não via há muito tempo. ‘Não se alegra de me ver?’, ele pergunta. ‘Não – responde –. Alguém me disse que havias morrido e já tinha me acostumado a não me alegrar quando te vejo.’” – Gabriel García Márquez, Disparatorio, 1950.