Qualquer pessoa que em algum momento da sua vida participou de uma assembleia sindical, estudantil ou comunitária, um debate sobre os rumos das esquerdas ou mesmo em um dos intermináveis “diálogos” virtuais sobre política, já ouviu a expressão “precisamos voltar a fazer trabalho de base”. Se fosse um time de futebol, o trabalho de base seria o mais popular da esquerda brasileira. Todo mundo concorda que estamos falhando no trabalho de base; todos concordam que precisamos reforçar o trabalho de base. 

O problema é que, via de regra, essa frase ecoa vazia na estante das abstrações. No geral, depois do “precisamos fazer trabalho de base”, vêm outras frases genéricas como “precisamos ir nas favelas” ou “temos que dialogar com o povo”. Eu também concordo que precisamos fazer trabalho de base, mas pretendo, nesse escrito, falar concretamente de um tipo de trabalho de base, visando um resultado específico, como parte de uma estratégia política bem definida – ou seja: sobre como, para efetivar um bom trabalho de base, não baste o trabalho nas bases.

Primeiro, precisamos definir esse conceito de trabalho de base – um conceito amplamente utilizado pela militância de esquerda brasileira, mas pouco definido. Não é o caso de “reinventar” a roda, mas de precisar o bom-senso que já mais ou menos estabelecido no senso comum: compreendemos o trabalho de base como toda ação organizativa, política, comunicacional e cultural que visa potencializar (ou mesmo iniciar) a organização de determinado segmento da sociedade (no caso dos comunistas, as frações do proletariado são entendidas como segmentos prioritários, estratégicos, por se tratar da classe oprimida basilar da sociedade capitalista, mas o mesmo vale para segmentos do campesinato, da pequena burguesia empobrecida das cidades, etc.), elevando nesse processo seu nível de consciência, a partir de sua realidade de estudo, trabalho, moradia ou de alguma demanda específica por políticas públicas (como creches, postos de saúde, melhora na iluminação, obras para conter alagamentos e desabamento de morros etc.).

Contudo, isso basta? É evidente que não: falta ainda preencher esta forma de atuação de conteúdo, determiná-la. Essa ação pode estar conectada apenas a uma iniciativa local ou ser parte de uma estratégia e programa político nacional; pode ter por finalidade última uma política revolucionária ou reformista; pode basear-se na independência de classe do proletariado ou estar ligada a iniciativas assistencialistas empresariais; pode, ainda, ser uma iniciativa digna do nome “trabalho de base”, que aprofunda os laços entre seus agentes e as camadas sociais que se pretende organizar e educar, produzindo um saldo orgânico efetivo, ou  pode ser apenas uma ação esporádica, que não vai além da entrega de panfletos aos ventos, que busca estabelecer uma comunicação ampla com as massas sem, contudo, aprofundar um verdadeiro trabalho organizativo entre as massas. E aqui começa o problema: muitas vezes é essa forma efêmera e performática de trabalho entre as massas que se tem em mente quando se fala no “trabalho de base”. A criação de conexões nas comunidades, o lento e invisível trabalho de conhecer pessoas, seus nomes e histórias, de criar confiança e condições para uma comunicação e uma organização cada vez mais efetivas… tudo isso parece ser muito menos animador do que a promoção de uma ou outra iniciativa pontual de agitação ou propaganda. 

Essa concepção de “trabalho de base” pode até bastar para as organizações políticas que apenas desejam, de dois em dois anos, obter alguns votos – e aquelas que atuam nas comunidades principalmente através do assistencialismo, da liberação de uma ou outra emenda parlamentar para uma demanda pontual, etc. Mas, para os revolucionários e as revolucionárias do Brasil, isso é totalmente insuficiente. Precisamos de muito mais, no que defendemos a necessidade da Revolução Brasileira – isto é, da construção do socialismo e do poder popular no Brasil, algo que só poderá ser alcançada pela destruição do Estado burguês, através da mais vigorosa ação das classes exploradas numa Frente Anticapitalista e Anti-imperialista. Essa estratégia política, por definição, caso queira se viabilizar historicamente, tem na classe trabalhadora a sua principal depositária. E um programa revolucionário socialista, para que tenha sucesso, precisa conquistar os setores mais avançados e organizados desta classe, e arrastar consigo, com níveis variados de engajamento político, as massas populares pobres, exploradas e oprimidas.

Enquanto um programa revolucionário deste tipo esteja restrito ou majoritariamente referenciado pelas camadas médias, especialmente seus setores mais intelectualizados, ele pode ser considerado apenas como um programa potencialmente proletário. É proletário nas suas intenções, mas que só concretiza realmente seu caráter proletário – e revolucionário – quando os produtores de toda riqueza reconhecem e guiam sua ação política por esse programa.  É esse, inclusive, o sentido da frase de Marx de que cada passo do movimento real é mais importante que meia dúzia de programas. Essa frase não expressa um desprezo pelo debate programático, mas uma lembrança de que o programa socialista não pode andar separado do movimento real da classe trabalhadora. 

Nesse sentido, o trabalho de base que defendemos é um meio, uma mediação, para organizar a classe trabalhadora e potencializar a influência do programa revolucionário no seu seio; as lutas imediatas por reformas, melhorias e políticas públicas são um meio – e não um fim – para fortalecer a base de massas da estratégia revolucionária. Sem entrar em movimento, o povo trabalhador não pode sentir as correntes que o prendem. E a massa do povo trabalhador não começará a mover-se sob o impulso de abstrações conceituais como o fim da alienação humana e do trabalho estranhado, ou porque foi convencido da ontonegatividade da política. A luta da massa começa a partir dos problemas imediatos e nada imateriais da paz, da terra, do trabalho, da moradia etc, e só daí pode mover-se em direção à luta pelo poder e por uma nova concepção de mundo.

A passagem das formas de luta por objetivos mais imediatos – ou, nos termos de Lênin, a luta econômico-corporativa – para a luta com objetivos (e meios) revolucionários é um processo tendencialmente lento, demorado, sujeito a avanços e recuos. E para que sejam possíveis esses avanços, é preciso que os revolucionários façam parte do povo trabalhador, educando-o e sendo por ele educado, forjando consciência revolucionária na luta política real (de novo, nos dizeres de Lênin: “se fundindo, até certo ponto, com as massas”).

Não passa de um pensamento pequeno-burguês, típico das camadas médias intelectualizadas, imaginar que o sucesso da revolução depende da criação de um marxismo puro, o mais “refinado” possível, forjado entre uma defesa e outra de dissertações e teses de doutorado, e um dia, quando todas as alternativas reformistas “falharem”, o proletariado, finalmente, vai “entender” ou “ver” que só a revolução é o caminho e buscar esse marxismo puro deixando em incubadora até o grande dia. Isso é qualquer coisa, menos o marxismo de Marx, Engels, Lênin e toda tradição revolucionária. 

Nos últimos anos as esquerdas revolucionárias, em particular os comunistas, têm avançado em penetração social, mas num ritmo muito lento para as necessidades da tomada do poder. Esse avanço, nesse momento, ainda se concentra em funcionários públicos, na juventude, nos setores profissionalmente intelectualizados da sociedade e ligados à cultura, e entre os trabalhadores de melhor nível salarial e de instrução. Os setores ultra-precarizados da classe trabalhadora, aqueles que sobrevivem nas favelas, morros e alagados, ainda são pouco tocados pela propagação e ação política das esquerdas radicais – embora, na última década, tenha crescido a olhos vistos o número de jovens dessas camadas que se inserem no movimento revolucionário, não apenas como militantes práticos, mas também como intelectuais orgânicos.

As dificuldades para potencializar o trabalho político nesses setores são múltiplas. De novo, só um pensamento abstrato e pequeno-burguês vai resumir tudo a uma questão de “vontade”. Gosto sempre de contar o exemplo de quando tentei ser presidente da associação de moradores da minha favela. Mesmo sendo nascido e criado no local – prata da casa, como diz o ditado -, fui ameaçado e sofri várias pressões políticas, ao ponto de desistir de fazer a disputa. Se eu não consegui furar essa barreira, imagine alguém de fora da favela. 

A pandemia, porém, abriu uma janela histórica como um derivado não esperado da ação de extermínio da burguesia. Como sabemos, o governo liberal-fascista de Bolsonaro, aplicando o receituário aprovado pela maioria das frações da burguesia, opera uma política de morte e de fome que coloca na situação de insegurança alimentar metade dos lares brasileiros, e 20 milhões de trabalhadores na situação de fome total. 

A tendência, dada a não renovação do auxílio emergencial de 600 reais para 2021, é a fome crescer ainda mais nesse ano. Aliás, crescer não é a palavra correta: teremos uma explosão de fome no Brasil, uma verdadeira crise humanitária. Esse cenário trágico, desolador e brutal, apresenta uma necessidade: ações coletivas de solidariedade como forma de combater e mitigar a fome em paralelo à cobrança pela volta do auxílio emergencial no valor de um salário mínimo, redução da jornada de trabalho sem redução de salários, programa governamental de geração de emprego e fortalecimento das políticas de assistência social (como bandeiras do dia a dia conectadas com outras maiores, como a revogação do teto de gastos, “autonomia” do Banco Central, reversão das privatizações, etc). 

Nessa situação de fome, algumas tendências se apresentam. Em primeiro lugar, facilita-se a aceitação de ações de solidariedade das organizações revolucionárias. Hoje é muito mais fácil entrar numa favela ou morro do que antes. A chance de rechaço é bem menor – o que não diminui a necessidade de ações planejadas, bem pensadas e com ótimo conhecimento territorial. 

Em segundo lugar, a nossa classe trabalhadora (por uma série de motivos, como sua matriz cultural católica) nutre forte sentimento de gratidão, não se esquece com facilidade de quem, em momentos de dificuldade extrema, lhe estendeu a mão. As ações de solidariedade na luta contra a fome são uma oportunidade de estabelecer uma ponte para diversas outras ações de trabalho político a longo prazo. Deixaríamos de ser “aquele povo que só pensa em política” para virar “o povo que ajudou as famílias quando elas passavam fome” – desse modo, será infinitamente mais fácil, num segundo momento, explicar que também essa é uma ação política! As possibilidades de forjar vínculos de reconhecimento, respeito, simpatia e boa vontade, indispensáveis num trabalho de base duradouro, são gigantescas.

Em terceiro lugar, mas de forma alguma menos importante, temos uma obrigação ética, moral e política, como revolucionários, de fazer o máximo para garantir a sobrevivência física de nossa classe. As organizações da esquerda revolucionária têm um bom percentual de professores universitários, funcionários públicos de salários médios e altos e profissionais liberais com uma renda próxima do que chamamos de “classe média”. Têm capacidade, a partir de uma disciplina de cotização financeira, de financiar atividades de solidariedade e combate à fome e tocar campanhas de arrecadação de alimentos e fundos para essa finalidade.

Não é à toa que entidades empresariais de diversos estados vêm promovendo ações demagógicas de doações de cestas básicas e, como contraponto, exigindo liberalização irrestrita de todas as atividades (como se não existisse mais pandemia). Grandes bancos, grupos de mídias e grupos monopolistas, como forma de melhorar sua imagem pública, também começaram campanhas demagógicas de solidariedade. 

Há uma percepção generalizada de que quem fizer mais agora, terá possibilidades de conquistar bases sociais para seu projeto político de momento ou de longo prazo. No caso da esquerda revolucionária, não se tratam de ações demagógicas e de sabotagem à quarentena, mas de uma genuína solidariedade de classe, calcada numa ética comunista e uma visão estratégica de poder: a solidariedade pode e deve ser pensada também como um meio de aprofundar a influência de massas – e esse realismo político, friso, não nega a dimensão solidária e ética da ação. 

Muito vem sendo feito? Sim, o MST já doou toneladas e mais toneladas de alimentos. O MTST vem investindo na criação de cozinhas solidárias por várias cidades do Brasil. Militantes do PCB nas capitais e interiores de São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Ceará e tantos outros lugares vêm se empenhando muito. Mas, como leninistas, deveríamos saber da necessidade de uma política nacional, coordenada, planejada, operada de forma estratégica.

Diria mais: esse é o momento para uma organização revolucionária não só tocar uma política nacional de solidariedade e combate à fome, mas também de colocar-se, na sua agitação e propaganda, como o sujeito político por excelência inimigo da fome. Como o maior defensor da volta do auxílio emergencial no valor de um salário mínimo, do emprego e das condições de vida da classe trabalhadora, em paralelo com a vacinação. Comida, vacina e emprego é o nosso “pão, paz e terra” – a famosa palavra de ordem bolchevique que foi cumprida com a Revolução de Outubro. 

É difícil entender a falta de uma política nacional, centralizada, planejada e totalmente voltada para essa iniciativa. E não, não é falta de dinheiro. Quando quiseram, organizações pequenas e com poucos recursos conseguiram criar e legalizar um partido político; conseguem realizar iniciativas políticas de escala nacional, como a tiragem de delegados e as caravanas para Congresso da UNE; conseguiram no ano passado, em escala nacional, disputar eleições em mais de 2 mil municípios. 

Evidentemente, algumas organizações têm mais condições que outras. PT, PCdoB, PDT e PSOL têm infinitamente mais recursos (em especial o primeiro) que as organizações revolucionárias e comunistas. Mas pouco dinheiro e estrutura explica a pequena escala de uma política nacional, e não a sua ausência. 

Aprendi com Lênin a nunca reclamar do povo trabalhador e sempre olhar para nossos problemas enquanto vanguarda política: é sobre a vanguarda, e não sobre a massa, que devem cair as responsabilidades políticas e históricas! É cômodo lamentar a despolitização do povo trabalhador e se queixar, por exemplo, do poder e influência das igrejas evangélicas neopentecostais, e, num momento como esse, não agirmos como leninistas, deixando as bases operar uma política artesanal – ou não operar. 

O cavalo passa encilhado na nossa frente. Seu Zé e Dona Maria podem terminar o ano lembrando que foi aquele povo de camisa vermelha que usa a foice e o martelo que ajudou a salvar sua vida – ou então reclamando do isolamento social e dizendo que o presidente Bolsonaro foi o único que queria tudo aberto para ter emprego… A nossa ação e omissão terá papel central nessa percepção de Seu Zé e Dona Maria. Não é tempo para erros, política artesanal e vacilação. É tempo de ação e de construir hoje o futuro!