No último dia 10 um grupo de lideranças do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) lançou um manifesto público em apoio ao nome do deputado federal Glauber Braga (RJ) como pré-candidato à presidência da República pelo partido. Apesar do manifesto contar com diferentes correntes internas do PSOL, não há ainda unanimidade quanto ao nome de Glauber, e a tomada de posição foi criticada por setores do partido que consideram o momento inoportuno para a apresentação de pré-candidaturas ou que são pela formação de uma candidatura única de oposição a Bolsonaro em 2022, provavelmente ao redor do nome do ex-presidente Lula (PT).

A questão só deve ser resolvida em setembro, quando o partido passará por seu Congresso Nacional, mas por ora o nome do advogado de 38 anos, natural de Nova Friburgo (RJ), se impõe como uma variável nos cálculos para 2022, dentro e fora do partido. Para tratar dos sentidos de sua pré-candidatura, da sua leitura da conjuntura e das tarefas que pretende tocar se for acatado como candidato à presidência pelo PSOL, a Revista Opera entrevistou Glauber Braga na manhã da última segunda-feira (17). O deputado fala da agenda de privatizações do governo Bolsonaro, das críticas recebidas, do projeto dos Centros Socialistas levado à frente junto do professor Alysson Mascaro, da sua visão sobre as relações do Brasil com os países da América Latina e com os EUA e, como não poderia deixar de ser, dos militares no Brasil. A entrevista segue na íntegra: 

Revista Opera: O senhor lançou a sua pré-candidatura, para ser o candidato do PSOL à presidência. Eu queria que você falasse um pouco sobre esse movimento, sobre o porquê acreditou ser importante fazer isso nesse momento, e também que falasse de uma crítica muito recorrente; a de que esse não é momento para pensar em 2022.

Glauber Braga: A pré-candidatura não vem como um movimento individual meu, são mais de dez correntes e coletivos do PSOL que se manifestaram por ela, e inclusive algumas pessoas para além do PSOL, que também assinaram o manifesto que, inicialmente, teve mil assinaturas. Ali se tem a maioria da bancada do PSOL na Câmara e forças políticas que dentro do PSOL chegam a aproximadamente a 40% [do partido]. Para uma largada de uma pré-candidatura a gente acha que foi uma largada significativa.

Sobre a crítica de que não é o momento de fazê-lo, acho que ela vem embalada em posições diferentes, orientações diferentes sobre o tema. Vem de uma solicitação justa e legítima de que a gente coloque todas as nossas energias no enfrentamento a Bolsonaro, pra agora, e que não terceirize todas as nossas ações para 2022, para o período eleitoral, para uma reversão futura – e essa crítica, essa preocupação, eu acho mais do que legítima –, mas, ao mesmo tempo, ela surge como o que consideramos a primeira tarefa da pré-candidatura; que é mostrar que uma pré-candidatura pode e deve colocar suas energias, na aglutinação atual, no enfrentamento a Bolsonaro, Mourão e às estruturas que dão sustentação ao seu governo. Eu não seria um pré-candidato para desmobilizar essas lutas, pelo contrário: a primeira tarefa é derrotar Bolsonaro para já, e fazer o enfrentamento ao bolsonarismo.

Uma outra orientação, um outro viés dessa crítica, vem por parte não de quem esteja preocupado com o enfrentamento de Bolsonaro para agora, mas de uma tese de que uma ação de reafirmação de pré-candidatura do PSOL poderia ter como conteúdo o fracionamento da esquerda ou das forças políticas que deveriam caminhar juntas em 2022. Também em relação a esse ponto: a segunda e a terceira tarefa que a candidatura predispõe a colocar em pauta não vira as costas para essa preocupação, ao contrário disso. Num documento que eu lancei para alguns militantes no começo do ano, onde eu falava em unidade na esquerda, eu já afirmava que a pré-candidatura não poderia virar as costas a esse sentimento legítimo de parte da vanguarda mais ampliada e daqueles que fazem oposição a Jair Bolsonaro por um programa de unidade no enfrentamento. Só que isso não poderia e não pode ser sinônimo de desmobilização das nossas agendas para que esse enfrentamento se dê de maneira efetiva.

O que eu defendo? Que a gente procure, tente, a construção de uma plataforma comum com os outros partidos da oposição de esquerda avaliada de maneira mais ampla, mas com limites evidentes e antecipados de quem vai construir essa tentativa de plataforma comum conosco. Não cabe nessa mesa a direita liberal que se fantasia de centro, não cabe Moro, não cabe Doria, não cabe Maia e companhia. Então nesse sentido a nossa pré-candidatura vem, de fato, para tensionar uma posição que seja de um programa de esquerda com a capacidade de fazer o enfrentamento não só a Bolsonaro, mas às estruturas que dão sustentação ao governo de Jair Bolsonaro. E nessa crítica a gente também responde com a segunda tarefa da pré-candidatura, que é a construção de um programa com um conjunto de forças e organizações que têm acúmulo na defesa de nossas bandeiras do ponto de vista histórico; e que é possível sim a formação de um programa como esse de maneira a ser não sectário, mas que tenha características populares e com radicalidade política: um programa não sectário, popular e radical.

“Ah, mas por que, Glauber, num momento como esse fazer isso?” – porque essa linha política não pode ficar escondida debaixo da mesa. Ela não pode ser escamoteada, a gente tem que se apresentar por completo e reforçar uma posição que tenha de fato a capacidade de enfrentar Bolsonaro e o bolsonarismo. Alguns dirão que se trata de principismo; eu digo que não, que evidentemente esse movimento reafirma princípios, mas ele tem características bem pragmáticas no enfrentamento ao Bolsonaro. Você não consegue derrotar ou desestruturar o bolsonarismo sem fazer um enfrentamento evidente à estrutura ultraliberal que dá sustentação a seu governo; e nesse ponto específico a esquerda tem maioria social. Quando se pega a pesquisa Datafolha sobre as rodadas de privatizações, de cada dez brasileiros entre seis e sete se dizem contra. “Você é a favor da reforma trabalhista?” – a maioria dos brasileiros, aproximadamente 60%, 70%, dizem que são contra. Então como é que a gente deixa de ter nitidez ideológica na formação de um programa e abre mão de fazer essa articulação com a maioria da população brasileira?

Resumindo aqui numa alegoria, mas que é muito real: entre disputar Susana Vieira, para ela não ser lavajatista, e o povo da Baixada Fluminense, da Zona Oeste do Rio, que já votou contra um projeto de direita mas que na última eleição majoritariamente votou em Bolsonaro, eu acho que a gente não tem que pensar duas vezes. Eu acho que a gente tem que colocar todas as nossas forças e energias com essa camada, nos bairros populares no Brasil afora, porque é isso que pode dar maioria social não só para derrotar Bolsonaro mas para fazer um enfrentamento que seja eficaz contra o bolsonarismo. Então a candidatura se apresenta a partir dessas circunstâncias.

Revista Opera: Deputado, você mencionou as privatizações e as vendas de ativos que têm avançado sob esse governo – ainda que aparentemente não com a voracidade que a nossa classe dominante gostaria… Mas já temos a privatização do saneamento, que eu sei que é uma pauta importante para o senhor, na sua região; a venda de ativos da Petrobras, naquele esquema de picotar a empresa; e agora temos a proposta de privatização dos Correios, como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça de todos nós. Eu queria que você falasse sobre essa política de privatização, porque por um lado nós temos essa maioria, mas ainda assim não temos conseguido barrar esses projetos nos últimos anos, seja quando em tese a esquerda estaria no governo – mesmo que não seja a privatização nos termos e velocidade de hoje, mas tivemos recentemente, por exemplo, o leilão do Pré-sal. Como fazemos para barrar esse projeto de privatizações, considerando que a gente já tem a maioria da população em termos de consciência, pelo menos? Estando no governo ou não.

Glauber Braga: Eu não acredito na reversão desse processo numa terceirização total aos aparatos da institucionalidade burguesa. Para você reverter essa rota, só numa disputa que seja de fato a quente. Essa disputa feita a quente, agora, para já, para evitar o que eles estão tentando operar, que é a privatização da Eletrobras e a privatização dos Correios, e a ampliação do desmonte para cima da Petrobras – entregaram uma refinaria mas a ideia é entregar o conjunto das refinarias –, então toda a força às movimentações e as mobilizações que estão acontecendo durante o mês de maio, que são fundamentais e necessárias pra que o governo de Bolsonaro recue; que a gente consiga se espalhar, olhar, para o que está acontecendo na Colômbia, onde o presidente de direita tentou aplicar uma reforma tributária que incidia diretamente sobre os mais pobres e a classe-média e a mobilização popular fez com que ele recuasse; e a mesma coisa o que está acontecendo no Chile, os resultados parciais que a gente tem da Constituinte dão uma demonstração de que há uma maioria para as forças de esquerda, para enterrar a Constituição de Pinochet. O Brasil tem que olhar para isso e tocar iniciativas com as mesmas características. E nesse momento, em que Bolsonaro já obriga os trabalhadores a estarem nas ruas, e há uma necessidade de que a gente se mobilize para que ele recue, é fundamental a gente estar adensando as iniciativas que já estão sendo tocadas, como por exemplo a do dia 29; Unidade Popular (UP) e várias organizações políticas, Frente Povo Sem Medo, se articulando por uma ação contundente de rua.

E fora isso, como é que a gente reverte aquilo que já foi colocado em prática? No manifesto de lançamento de pré-candidatura a gente estabeleceu quatro eixos que consideramos fundamentais. O primeiro deles é derrotar o neoliberalismo e o rentismo, e a gente apresenta uma primeira proposta que é o referendo revogatório das medidas de desmonte; privatizações, emenda constitucional 95, contrarreformas… Imaginar que seja quem for à presidência da República, por uma orientação que não seja de direita, que vai mandar para o Parlamento e por si só vai conseguir reverter aquilo que eles já colocaram em prática seria um erro, ou vender ilusões. Então tem que ter uma ampla mobilização da sociedade brasileira, e a gente acha que o instrumento do referendo é uma oportunidade e uma possibilidade de nós revermos esse desmonte da política ultraliberal. Não se derrota essa política com uma proposta que minimize a capacidade do povo se mobilizar, é pelo contrário: fortalecer uma estruturação mobilizadora que consiga de fato derrotar os poucos privilegiados que estão no topo da hierarquia, e que estão lucrando inclusive no período da pandemia, em detrimento daquilo que são os direitos da maioria da população brasileira. Nós só acreditamos na reversão desse processo dessa forma; e quando falo em nós evidentemente não estou falando só de mim, como pré-candidato, mas também das outras organizações políticas que já dão suporte a essa manifestação inicial da pré-candidatura.

Revista Opera: Uma das propostas que o senhor tem tocado, junto com o professor Alysson Mascaro, é a dos Centros Socialistas. Eu queria que você falasse um pouco sobre a importância dessa proposta, mas que também tratasse da forma organizativa que vocês propuseram, que tem esse esquema de relativa descentralização e também autonomia dos membros. Por que, na avaliação de vocês, é importante fazer esse tipo Centro?

Glauber Braga: Em primeiro lugar, a proposta do professor Alysson é muito mais ampla do que a articulação que a gente está tocando. Na carta, inclusive, que é o marco teórico dos Centros Socialistas, em que ele apresenta publicamente a defesa que ele tem feito, é dito com todas as letras: se você quiser formatar um Centro Socialista no seu bairro, na sua comunidade, você não precisa ficar dependendo da orientação de uma outra estrutura; você pode, com seus companheiros de bairro, com as pessoas que estão próximas a você, fazê-lo. Que bom que a gente tem uma orientação ampla nesse sentido.

Por que nós – eu e mais as 27 pessoas que formaram Associação Popular dos Centros Socialistas – decidimos por uma organização de natureza hierarquizada, com secretariado político e com um estatuto para quem quiser se associar? Por alguns motivos: o primeiro, para que a gente pudesse estabelecer uma rede nacional de contato onde a iniciativa do sul do País pudesse estar conhecendo com rotina a estrutura de Centro Socialista que venha a se operar no norte ou no nordeste brasileiro. Segundo, porque algumas ações práticas começaram a se impor e se colocar na nossa frente. Um exemplo: em nome de quem que vai estar o contrato de aluguel do Centro Socialista do Rui Sanglard [em Nova Friburgo]; ao invés de estar em nome de uma pessoa física a gente considerou que o mais adequado era procurar fazer uma migração para estar em nome da associação. Uma segunda questão: um militante que quer fazer uma doação do centro-norte do País para uma atividade que vai estar acontecendo no nordeste. Ele faz e vai colocar na conta de quem? Na nossa avaliação, ter uma associação facilita esse processo de organização, mas nós não queremos, não pretendemos e não vamos ser aqueles que delimitam outras iniciativas que têm o mesmo tipo de orientação. Inclusive os Centros Socialistas nascem a partir do acúmulo de várias outras experiências, como por exemplo as Brigadas Populares, que têm as comunas, se você pega o MST há outros tipos de iniciativas. A gente quer reforçar e fazer com que isso se amplie.

Na associação a gente começa com 28 membros, no segundo encontro tem mais de 100, agora somos aproximadamente 200 e já há manifestação de entrada de mais um montão de gente querendo participar. Já inauguramos o Centro Socialista do Rui Sanglard, já inauguramos Centro Socialista de Sobradinho [no Distrito Federal], já tem agora engatilhada a inauguração do Centro Socialista do Interior de Pernambuco, outra inauguração que já está engatilhada é da Penha Circular, no Rio de Janeiro, já começamos o contato para fazer a organização também em Belo Horizonte. Então nós sentimos que essa estruturação como associação nacional, inclusive num período de pandemia como esse que estamos vivenciando, onde boa parte das articulações são feitas de maneira virtual, seria um instrumento importante para fortalecer e propagar a ideia.

O que são as unidades dos Centros Socialistas? Um espaço de acolhimento, um espaço onde as pessoas se sintam à vontade para estabelecer relações sociais, um espaço que trata do imediato da vida das pessoas – então no Centro Socialista do Rui Sanglard a gente fez uma primeira distribuição de kits que tinham uma relação direta com prevenção à pandemia, uma segunda rodada em articulação com a turma do fórum sindical social e popular na distribuição de alimentos; se as pessoas estão com fome o alimento tem que estar presente, e essa é uma solidariedade que tem que estar muito firme e forte na vida de um militante socialista. Mas é um espaço que não se confunde e não quer ser um centro social, não quer ser um centro comunitário; se pretende e já se coloca publicamente como um centro socialista, porque é um espaço de organização popular e também de disseminação do nosso pensamento e das nossas ideias. No que ele se difere de um centro comunitário de um vereador de direita? A diferença é essa: primeiro que a gente se apresenta por completo, e segundo que o nosso objetivo não é manter as amarras ou as correntes a partir de uma política assistencialista. Tem atividades assistenciais? Tem. Mas essas atividades como uma necessidade a partir da realidade concreta, mas na formação de organização para o rompimento das correntes e para uma crítica efetiva ao capitalismo e, na nossa realidade brasileira, às suas faces mais cruéis; o ultraliberalismo e a orientação de natureza fascista. Então é isso, ninguém precisa organizar um Centro Socialista a partir dessa orientação da Associação, a liberdade para fazê-lo evidentemente é ampla, mas para a nossa estruturação a gente achou que era o melhor encaminhamento e a coisa tem caminhado bem.

Revista Opera: Deputado, pensando o campo de esquerda de uma forma mais ampla, a gente vem de uma série de derrotas sucessivas; o segundo governo Dilma já foi de concessões inacreditáveis, mesmo assim é um governo que é derrubado e o campo de esquerda não consegue dar uma resposta para isso, fica praticamente imóvel; o Temer assume e consegue governar relativamente tranquilo, apesar de ter uma popularidade muito baixa, os ataques que ele sofre não partem da gente; e agora a gente tem o Bolsonaro, que pra todos os efeitos é um governo mais forte do que o de Temer – apesar de eu desconfiar de sua fraqueza –, mas também que conta com outros elementos, o Centrão, os militares, etc. Como você avalia essa aparente fraqueza que temos demonstrado nos últimos anos? É um problema de abandono das bases, como dizem alguns, de burocratização das lideranças que tínhamos, como dizem outros? Qual é a sua avaliação quanto a isso?

Glauber Braga: Eu acho que é uma mescla, né, um conjunto de fatores. Mas eu queria focar em um, que é uma autocrítica que acho que é exigida da esquerda brasileira: a terceirização aos aparatos institucionais burgueses, como se a partir dali modificações estruturais pudessem ser realizadas. Um erro que inclusive se repete. Quando eu vejo agora a recomposição justa dos direitos políticos do Lula, que nós defendemos desde o primeiro momento – eu estava lá no dia que ele foi preso, chamei o Moro de juiz ladrão, desde o primeiro fiz o enfrentamento à Operação Lava Jato, mostrando que a Lava Jato era um instrumento de legitimação da agenda ultraliberal –, mas quando eu vejo parte do nosso campo olhando para a decisão do STF e fazendo dessa decisão um ato de justiça que se operou por elementos da realidade, com a reversão do que aconteceu mas sem admitir o caráter de classe do judiciário brasileiro, e gerando uma expectativa nas pessoas de que sem mobilização a quente as outras ações de destruição que estão sendo tocadas pelo próprio Bolsonaro e por aqueles que sustentam seu governo poderão ser desfeitas… Eu acho que a gente dá manutenção a um erro que deveria proporcionar uma autocrítica à própria esquerda. As mobilizações das instituições burguesas se fazem a partir do processo de organização e pressão que se realiza na sociedade, e não como atos fundamentados numa justiça de natureza imparcial. Eu acho esse um grande erro, um equívoco, e que incide hoje sobre o nosso processo de desmobilização, então a gente tem que refundar essas estruturas e ter como indicação permanente a necessidade de mobilização para a conquista de direitos e de uma sociedade que seja diferente da que está colocada. E aí é apresentação por completo, mesmo: qual é o problema de falarmos em Centros Socialistas? Qual é o problema da gente falar que não dispensa a disputa eleitoral, mas que a disputa eleitoral tem que estar conectada na defesa de um programa de reafirmação da estratégia socialista? Eu acho que não tem problema nenhum, é uma necessidade política. 

Se apresentar por completo é o que vai dar possibilidade de nós olharmos pra trás, verificar onde é que estiveram as nossas dificuldades, e reagrupar aqueles que querem fazer um enfrentamento que seja de fato a quente. Bolsonaro faz isso para o lado dele. Com seus 20%, 30%, trabalha para que os simpatizantes do governo sejam transformados em militantes fascistas. Se a esquerda não compreende esse jogo e não trabalha para que aqueles que se opõem ao governo Bolsonaro sejam formados como militantes antifascistas, com a capacidade de defender um projeto de esquerda e, no nosso caso, um projeto socialista, a gente vai estar daqui a pouco, mais uma vez, reclamando do avanço bolsonarista e da nossa desmobilização em enfrentá-lo. Eu acho que essa é uma das grandes tarefas que a gente tem aí para o próximo período.

Revista Opera: O senhor tocou na questão da candidatura Lula. Como é que você vê isso? Quer dizer, você critica essa concepção milagreira de que agora os direitos foram reassegurados, mas você acredita na possibilidade de haver uma nova ofensiva contra os direitos dele, ou acha que Lula efetivamente vai concorrer em 2022? E num cenário desse, em que ele se coloque efetivamente como candidato, como você acha que o PSOL deverá se portar?

Glauber Braga: Então, a minha proposta está naquelas três tarefas iniciais e no documento que eu tinha falado que lancei, que basicamente diz o seguinte: temos que reafirmar uma pré-candidatura própria, na formação de um programa de esquerda não sectário mas com radicalidade política e se abrindo para uma mesa de diálogo na tentativa da construção de uma plataforma comum. E aí sendo também bem objetivo: hoje a nossa pré-candidatura tem mais da metade da bancada do PSOL e aproximadamente 40% da militância, se avaliada a partir das posições das correntes. Se os outros partidos da oposição focarem na construção de um programa de esquerda para uma frente de esquerda, a minha tese de pré-candidatura própria perde força por incorporação. Agora o contrário também é verdadeiro: se os outros partidos de oposição continuam numa linha de priorizar alianças à direita, ou de tentar que parte da direita forme com eles uma composição, a nossa tese de pré-candidatura e de um programa à esquerda ganha força. E aí a probabilidade de ter deslocamento de setores e a gente passar a ter a maioria da posição partidária em defesa de uma pré-candidatura passa a ser grande.

Então respondendo à sua pergunta objetivamente: nem virar as costas para esse apelo legítimo, daqueles que fazem oposição a Bolsonaro pela unidade; nem ir à reboque de uma posição que tenha de esconder as nossas posições políticas. E como vão se movimentar os outros partidos de oposição? Aí a pergunta é para eles. O que tenho como convicção é que a gente não pode esperar o movimento dos demais para garantir força à nossa própria linha política. A linha política ganha força se você avança e fortalece ela, não se fica esperando para saber qual vai ser o movimento dos outros, então a pré-candidatura vem também para que esse debate possa ser feito, para que esse tensionamento possa ser realizado reafirmando a nossa independência política.

Revista Opera: Nós estamos agora passando pela CPI da Pandemia e, a despeito dos fatos que vão surgindo ali, das discussões, da atenção midiática, parece que a CPI não vai ser, como alguns esperavam, a tábua de salvação contra o governo Bolsonaro. Apesar dela ser feita pelo Senado, gostaria que você falasse um pouco sobre isso, como tem visto essa CPI e, não havendo possibilidade de a partir da CPI, unicamente, corroer as posições do Bolsonaro, se é possível fazer isso com alguma mobilização.

Glauber Braga: Eu acho que a lógica da resposta anterior serve também para essa. A gente não deve abrir mão de nenhum espaço político de disputa, ainda mais de uma CPI onde você pode propor indiciamento, responsabilização. Num cenário onde o governo se sentia muito à vontade para colocar em prática a sua política de morte, você ter um instrumento como esse constrange inclusive aqueles que são a política de morte no presente. É o contrário do que alguns diziam, quando falavam assim: “Não é momento de uma CPI porque atrapalha a gestão da pandemia” [risos]. A gestão já era a pior possível! É um delimitador da política de estrago que esses caras estão tocando. Então acho que a gente tem que disputar aquele espaço.

Agora, mais uma vez: não dá para imaginar que todas as nossas energias vão ser colocadas nesse espaço institucional como se ele fosse o nosso salvador, todas as nossas esperanças. Bolsonaro não saiu da presidência da República até agora por falta de crime nem de provas, foi pela correlação de forças e porque alguns setores que inclusive se opõem publicamente a Bolsonaro no gogó ainda dão sustentação na sua política de governo. E também pela nossa ainda incapacidade de transformar essa maioria social contra Bolsonaro em maioria política na rua, pra tirar ele. Quando esses setores tiram o apoio de Bolsonaro, que ainda não fizeram – aqueles por exemplo que dão sustentação à agenda ultraliberal –, e quando a gente consegue transformar essa nossa energia e essa rejeição a Bolsonaro em força política na rua, a probabilidade dele se sustentar passa a ser muito menor.

Respondendo à tua pergunta também objetivamente, para não fugir dela: não prescindir da CPI, fazer a disputa política que tem que ser feita por lá, utilizar aquele espaço sim, como um processo de levantamento de provas e responsabilização dos agentes que junto de Bolsonaro tocam sua agenda de morte; mas não colocar todas as nossas expectativas de derrubada de Bolsonaro nesse instrumento institucional, não canalizando ou desmobilizando as nossas forças para a mobilização de rua. A mobilização de rua tem de ter todas as nossas energias e forças, e um instrumento institucional não pode desmobilizar isso.

Revista Opera: Uma outra pergunta, que é uma questão, para nós, muito cara, e que na nossa avaliação não tem sido suficientemente cara para a esquerda ainda, é a questão dos militares. Quer dizer, a gente tem desde a derrubada da Dilma essa presença militar estranha – estranha se a gente pensar nos termos da redemocratização e tudo mais –, a reorganização do GSI por parte do Etchegoyen, no governo Temer, e no Bolsonaro efetivamente uma cúpula verde-oliva, contínua, ao redor dele. Como é que o senhor avalia esse movimento do ponto de vista histórico, dos últimos anos, dos militares retornando justamente num momento de crise, de ruptura; e como você pensa… Porque isso diz respeito à sua pré-candidatura, um tema que bem ou mal vamos ter de enfrentar de alguma forma – quais são as tarefas imediatas para botar essa gente de volta na casinha, ou na caserna?

Glauber Braga: Vou desagradar alguns agora, e agradar outros, com essa resposta que vou te dar. Primeiro: generais, militares, oficiais, que estão dando sustentação ao projeto de Bolsonaro. Essa turma tem que ser enquadrada, certo? Eles são cúmplices da política que está sendo tocada pelo governo, de um projeto que não se confunde necessariamente com o bolsonarismo, que tem uma agenda própria, mas que se sustentou e foi cúmplice da agenda colocada em prática por Bolsonaro. Tem que enquadrar. Uma figura como Pazuello tem que ser enquadrada, tem que ser responsabilizada pelo que fez. E outros mais, que compõem o primeiro escalão do governo.

Como proposta, o que a gente faz com isso? Na minha avaliação tem que fazer uma disputa real com a base insatisfeita das Forças Armadas brasileiras; praças, graduados, que são mais de 80% das Forças Armadas e estão se sentindo traídas pelo governo de Jair Bolsonaro, com o que foi votado na Reforma da Previdência e no plano deles de remuneração. Eu acompanhei isso de perto, participei dessa comissão lá na Câmara. E com justiça, por que o que eles viram? Viram oficiais recebendo uma ampliação exponencial dos seus rendimentos, e isso continua até hoje com a última portaria que saiu do Paulo Guedes, e com seus rendimentos completamente achatados recebendo o ônus de serem considerados militares privilegiados das Forças Armadas, quando estão na base da hierarquia.

Tem que enquadrar os de cima, retirar os privilégios deles, e fortalecer essa base. Mas e aí? Vamos ter Forças Armadas sem oficiais? Não. Tem alguns poucos oficiais – poucos, mas que se você fizer uma disputa pela base podem passar a ter força nas próprias Forças Armadas –, que se colocam contra a política de entrega de Bolsonaro. Exemplo: o primeiro presidente dos Correios, que foi guilhotinado, saiu de lá porque não topou operar a privatização dos Correios como queria o governo Bolsonaro. É identificar esses poucos oficiais que têm essa linha política não-entreguista, valorizar e disputar essa base, que já está de saco cheio com o Bolsonaro e com a política dos oficiais próximos a ele, que não podem se manifestar pelo princípio da hierarquia mas que muitas vezes têm a sua voz ecoando a partir daqueles que estão na reserva, com as suas associações, e que podem falar. Mas isso adianta, só? Não. Além dessa disputa, como proposta da nossa pré-candidatura, uma escola de formação anti-imperialista; as duas coisas tem que caminhar em conjunto. Você valoriza a base, mas vem em conjunto um processo de formação que venha a romper com aquilo que foi colocado em prática pelo governo de Jair Bolsonaro e pelos generais e oficiais que dão sustentação ao seu próprio governo. Essa é nossa linha política.

Revista Opera: E numa eventual presidência de esquerda, o senhor acha que é cabível pautar uma reforma constitucional do artigo 142, por exemplo? Porque a gente tem um problema [na Constituição] que é que em última instância realmente o Exército é o garantidor. Só que isso também cria um espaço em que esse Exército não é mais garantidor numa situação hobbesiana, uma guerra ou algo assim, mas sim o regulador da vida pública brasileira; tudo pode trazer o caos então o Exército tem de estar sempre presente. 

Glauber Braga: No nosso manifesto inicial, inclusive, está lá escrita essa alteração constitucional da representação das Forças Armadas a partir dessa linha política, que não pode topar o jogo que está sendo operado. Agora, esses movimentos tem de ser feitos a partir de um conjunto de outras mobilizações. Ninguém se sustenta na política real exclusivamente pela definição do que sejam as suas ideias públicas; tem que ter forças políticas de sustentação. E dentro dessas forças políticas de sustentação você ir fazendo a fricção para a aplicação do seu programa. Um dia desses me perguntaram numa entrevista: “Se você fosse eleito presidente da República, qual seria o seu primeiro ato de governo?” A minha resposta foi de que o primeiro ato não seria no 1º de janeiro, depois da posse, seria depois do resultado da eleição: começar uma jornada por todo o Brasil, em todas as regiões, um processo de mobilização antes do mandato, pelo referendo revogatório das medidas de privatização e de entrega que foram tocadas desde o governo Temer até o governo de Jair Bolsonaro.

Então para você operar também as modificações que precisam ser feitas na orientação das Forças Armadas, você tem que se meter; tem que mergulhar lá e ter um conjunto de forças políticas dando sustentação ao seu projeto, à sua proposta. É isso que a gente está procurando articular naquele documento, do manifesto, que a gente colocou à disposição.

Revista Opera: O senhor há muito tempo já é um atento em relação à Lava Jato, sempre denunciou a campanha espúria da Lava Jato, etc., e a gente vê que esse tipo de fenômeno tem sido presente em outras partes do continente, com o termo que usam; “lawfare”. E depois dessa presidência Trump, mais agressiva em termos de disputa comercial e em relação a seus próprios aliados, com Biden agora tudo indica que vamos ter uma recomposição daquele multilateralismo americano e o que se prevê também é um reforço desse lawfare na América Latina. A título de curiosidade, como você vê essa relação do Biden com Bolsonaro, por exemplo, e essa necessidade dos EUA meterem a mão aqui no continente, ou, melhor, manterem a sua mão no continente?

Glauber Braga: Eu vejo sem nenhuma ilusão, né. Porque de vez em quando eu estou vendo algumas manifestações públicas aí e falo “meu deus do céu”. Parece que a gente não viveu nada [risos]. De tudo que a gente já vivenciou… Então uma coisa é o presidente dos Estados Unidos procurar ampliar a emissão de moeda, orçamento, para poder dar atendimento à área de saúde e educação pra dentro do seu país. Outra coisa é a gente imaginar uma alteração da orientação política do governo dos EUA para cima da gente. Foi Biden que acabou de dizer, a partir de seu porta-voz, que Israel tinha o direito de se defender, depois da quantidade de criança palestina morta.

Então não dá para a gente imaginar que a relação com a América Latina vai ser diferente daquilo que é uma prática não de governo, mas uma prática dos Estados Unidos a partir de uma ação imperialista nos outros países. E não dá também pra gente não entender esse jogo internacional de uma potência que pode parecer decadente, como a dos EUA, mas que ainda é a maior potência do mundo, e a de uma potência ascendente que é a China. E que querem ampliar, então, seu espaço de controle e de influência na Europa e na América Latina – na América Latina não à toa, pelo que a gente tem de reserva de petróleo na Venezuela, pelo que a gente tem de aquíferos no Brasil e também o pré-sal, por aquilo que são os metais que existem na Bolívia e nos mais variados países. Então entender isso e trabalhar por um fortalecimento da relação dos países da América Latina, com uma orientação de esquerda, é uma necessidade histórica de sobrevivência contra o imperialismo. A gente, de antemão, não vai falar mal do cidadão deste ou daquele país, mas defender a capacidade do nosso país, na articulação com os outros países da América Latina, de ter força contra as investidas imperialistas. Acho que esse é o nosso papel, sem ilusões, e ao mesmo tempo sem imaginar que a gente já tem no cenário internacional um tamanho que não temos. Mas se a gente não tem esse tamanho, ainda mais importante o nosso processo de articulação com os outros países da região, pra que a gente possa falar de igual para igual.

Revista Opera: Por fim, já que o senhor mencionou a China; qual a sua visão sobre o papel da China hoje no xadrez geopolítico global e aqui na América Latina? Em última instância essa potência ascendente busca tomar o lugar dessa outra potência, ou você acha isso muito distante?

Glauber Braga: Entendendo que em determinados momentos, como fotografia, e nas relações que a gente tem que estabelecer eles se colocam como contraponto de avanço de outras potências. Como por exemplo no caso da Venezuela, em determinados momentos, como aconteceu, nas relações mundiais que se estabeleceram. Tendo essa compreensão.

Mas efetivamente buscam o atendimento daqueles que são os interesses chineses; eles vão trabalhar pelos interesses chineses. Aí no caso específico, vou por um ponto objetivo: a entrega do controle acionário da Eletrobras. Eu não quero a entrega do controle acionário da Eletrobras nem para uma corporação com relação com os Estados Unidos nem para uma corporação chinesa. O controle acionário da Eletrobras tem que ficar com o Brasil.

Estabelecer relações com outros países, como a China, entendendo que em determinados momentos eles exercem um contraponto importante contra outras investidas, fazendo isso numa relação de respeito, mas sem abrir mão do que seja a nossa autonomia e a capacidade de um diálogo que leve em conta aqueles que são os interesses brasileiros em articulação com os outros países da América Latina. Eu acho que essa tem que ser a nossa postura, a nossa orientação.