Meritocracia sanitária no Uruguai: salve-se quem puder, como puder

No Uruguai, governo direitista de Lacalle Pou segue ensinamentos de Bolsonaro e institui a "meritocracia sanitária" como forma de governo. Por Pablo Álvarez | CELAG - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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Lacalle Pou se encontra com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. (Foto: Palácio do Planalto)

O Uruguai passou de exemplo mundial na gestão e evolução dos contágios e óbitos por Covid-19 para o fim da fila. Alcançou o doloroso primeiro lugar em contágios e mortes por milhão de habitantes, e na última semana foi o país com maior média de mortes diárias, duplicando o número de falecidos a cada 25 dias (quarto lugar no mundo). O governo não assume totalmente a gravidade da situação, prioriza a economia sobre a vida e aposta no retorno a uma nova normalidade, embora essa normalidade seja terrível para importantes setores da população.

No começo da pandemia houve uma política por parte do governo orientada a proporcionar o apoio unificado da ciência nacional, criando o Grupo Assessor Científico Honorário (GACH), mas desde outubro de 2020, e mais especialmente desde fevereiro de 2021, o governo deixou de considerar as contribuições mais significativas da ciência, sobretudo aquelas que pediam a contenção da mobilidade. Passou do respeito e reconhecimento ao ataque aos cientistas e o desmerecimento dos seus aportes. 

A “estratégia” do governo

A estratégia do governo tem sido insistir no lema “liberdade responsável”, como norte para atribuir responsabilidades aos indivíduos e não à política, encorajando o “salve-se quem puder”. É a expressão de uma “meritocracia sanitária”. Em um extremo da lógica neoliberal individualista, o governo insiste em difundir a ideia de que a responsabilidade pelos contágios e mortes é do povo, à medida que as pessoas se esforçam – ou não – para se cuidar. Para o governo não existem situações diferentes, cidadãos que podem ficar em casa, trabalhando ou sem perder renda ou, pelo contrário, cidadãos para os quais isso é impossível e têm que sair para trabalhar e se expor no transporte ou no local de trabalho. Aquele que pode se cuida, e o que não pode tem que se virar sozinho. A economia é priorizada antes da saúde, e a culpa recai sobre os setores mais precários, que são os que mais adoecem: calvinismo pandêmico.

Enquanto isso, o governo se contradiz: ao passo que responsabiliza as pessoas pelo seu “comportamento inadequado”, o presidente vai a um churrasco com a Federação de Futebol e seus dirigentes, para quem facilitou o acesso às vacinas na iniciativa privada antes de outros setores sociais como saúde, transporte ou educação.

O discurso individualista, a blindagem midiática e a persistência da posição “anti Frente Amplio” como cola fundamental da direita estariam funcionando à luz da “imagem” do presidente, que segue alta (60%-59%), porcentagem muito próxima do resultado eleitoral de outubro de 2019.

A estratégia do governo é apostar que a velocidade da vacinação (e a imunidade de rebanho) seja mais rápida do que o aumento de contágios e falecimentos, de forma que os bons registros que o presidente recolhia pelo “êxito” da gestão da pandemia não sejam afetados pelos impactos sociais e econômicos em outras áreas que já são mal avaliadas pela população, mas que ainda não relacionam com o governo (queda do emprego e da renda, aumento dos preços). Esta é a chave dos próximos meses. A meritocracia sanitária será enfraquecida caso a extensão de contágios e falecimentos se amplie a ponto de quem hoje acredita que os contágios são produto da falta de cuidado pessoal (70%) começar a contabilizar casos próximos de contágios e/ou mortes.

Casos isolados que se tornam comuns

Enquanto isso, afloram os casos de autoritarismo e corrupção que começam a erodir o governo. Em relação à imprensa, recentemente um dos três principais canais de televisão demitiu o coordenador dos seus noticiários e, segundo diversas fontes (entre elas o ex-Relator Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Expressão), o motivo foi o mal-estar da presidência com o enfoque do telejornal. Nos últimos dias, soube-se também que um legislador da coalizão obrigava seus empregados a trabalhar mesmo infectados com Covid-19.

Além disso, na investigação judicial mais importante que se realizou sobre a exploração sexual de adolescentes no Uruguai, estiveram implicados empresários, ex-juízes e políticos dos partidos que compõem a coalizão do governo.

Apesar de tudo, a blindagem midiática ainda é poderosa e, embora informe, o faz de forma superficial, em claro contraste com a cobertura dada às denúncias da então oposição (e agora governo) durante os governos do Frente Amplio (FA). 

A economia também retrai

Em relação à economia, as projeções para 2021 estão sendo corrigidas para baixo na estimativa de crescimento. O impacto da queda do PIB em 2020 foi de 8%, e a recuperação parece seguir trajetórias diferenciadas de acordo com os setores. A CEPAL indica que o Uruguai é o país que tem destinado menos recursos para combater o impacto sobre a pobreza causado pela pandemia, sobretudo em políticas de transferência. O governo tem utilizado o aumento de taxas e novos impostos aos servidores públicos para aumentar a receita, longe das apostas regionais de tributar os altos rendimentos privados ou o capital. De fato, em um redobrado ataque ao setor público, o governo situa as contradições entre servidores públicos (que seriam os privilegiados) e trabalhadores privados (os prejudicados).

As oposições, ações de reagrupamento

Do lado das forças populares, as energias se orientam em duas frentes: de um lado, a recolha de assinaturas para a revogação (parcial ou total) da Lei de Urgente Consideração (uma espécie de “Lei Ônibus” que inclui desde a legalização do porte de armas a militares aposentados, passando pelo descrédito da greve como instrumento de pressão sindical, até o possível aumento dos combustíveis). De outro, a manutenção das panelas populares (comedores comunitários), que segundo os últimos dados chegam a cerca de 700 no país, em que a maioria não teve nenhum apoio, exceto algumas em Montevidéu e Canelones, onde os governos departamentais deram apoios específicos.

Quanto à oposição política, o único partido com representação parlamentar de oposição é o Frente Amplio. Tem pela frente, entre outras coisas, terminar de se consolidar na sua renovação de direção, embora a principal questão imediata nesse sentido tenha a ver com a presidência do partido, já desgastada e sem apoios. O próprio presidente da República, Lacalle Pou, tem aproveitado esta situação de desgaste e divisão para prejudicar o Frente Amplio e utilizar a situação interna para acentuar o desconhecimento político sobre o próprio partido opositor. Enquanto isso, os principais atores políticos do FA estão entre alguns dos senadores e prefeitos, principalmente de Canelones (Yamandú Orsi) e Montevidéu (Carolina Cosse). Como costuma ocorrer, ninguém diz estar em campanha eleitoral, mas muitas das ações destes dirigentes podem ser lidas também à luz do futuro ciclo eleitoral. No entanto, a tarefa do FA, como força política, de se sobrepôr à derrota de 2019 emergindo como uma alternativa real em 2024 ainda está longe.

Também parece estar se configurando um espaço dentro das esquerdas na periferia do FA, com uma base mais social. Os incentivos eleitorais “institucionais” para “sair” do FA são realmente escassos, mas a dinâmica política da esquerda dos últimos anos foi empurrando os setores de esquerda mais autonomistas em direção às margens, o que poderia facilitar uma ativação por fora. Inclusive o cenário que surge do aumento do número de partidos, a partir da aparição do partido Cabildo Abierto, pela direita, poderia facilitar a emergência de partidos de esquerda fora do FA. Mas essa hipótese ainda é muito débil, e a capacidade do FA de conseguir reunir as diversas expressões da esquerda tem sido muito bem-sucedida ao longo do tempo.

Também surgem oposições/alternativas de direita, na chave de anti-vacinas, conspiracionistas, etc. Alguns foram detidos pela polícia por realizar aglomerações públicas, o que aumentou seu nível de publicidade. A forte institucionalização dos partidos poderia supor algum tipo de adesão no futuro, através dos partidos de direita já consolidados que compõem a coalizão de governo, mas não se pode descartar que esta direita “conspiracionista” ainda tem um terreno próprio para percorrer.