Engels sobre a natureza e a humanidade

Para Marx e Engels, a possibilidade de acabar com a contradição entre homem e natureza só seria possível com a abolição do capitalismo. Por Michael Roberts | The Next Recession - Tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera

0
2728
(Imagem: Adolph von Menzel)

Marx e Engels são frequentemente acusados ​​do que tem sido chamado de visão prometeica da organização social humana, ou seja, que os seres humanos, valendo-se de seus cérebros superiores, conhecimento e habilidade técnica, podem e devem impor sua vontade ao resto do planeta ou ao que se chama “natureza” – para o bem ou para o mal.

A acusação é a de que outras espécies vivas são meros brinquedos para o uso de seres humanos. Existem os humanos e existe a natureza – em contradição entre si. Essa acusação é dirigida particularmente a Friedrich Engels, que, segundo afirmam, tinha uma visão burguesa “positivista” da ciência: o conhecimento científico sempre foi progressivo e neutro em termos ideológicos; e assim é a relação entre o homem e a natureza.

Essa acusação contra Marx e Engels foi promovida no período do pós-guerra pela chamada Escola Marxista de Frankfurt, que considerava que tudo havia dado errado com o marxismo após 1844, quando Marx e Engels supostamente abandonaram o “humanismo”. Mais tarde, os seguidores do marxista francês Louis Althusser culparam o próprio Engels. Para eles, tudo tomou um rumo desastroso um pouco mais tarde, quando Engels descartou o “materialismo histórico” e o substituiu pelo “materialismo dialético”, a fim de promover a sua “crença boba” de que o marxismo e as ciências físicas tinham alguma relação.

Na verdade, a crítica “verde” a Marx e Engels é de que eles não tinham consciência de que o homo sapiens estava destruindo o planeta e, portanto, a si próprios. Em vez disso, Marx e Engels teriam uma comovente fé prometeica na capacidade do capitalismo de desenvolver as forças produtivas e a tecnologia para superar quaisquer riscos para o planeta e a natureza.

A ideia de que Marx e Engels não se atentaram para o impacto da atividade social humana sobre a natureza foi recentemente desmentida, em particular pelo trabalho inovador de autores marxistas como John Bellamy Foster e Paul Burkett. Eles nos lembraram que, no decorrer de todo O Capital, Marx tinha muita ciência do impacto degradante do capitalismo sobre a natureza e os recursos do planeta. Marx escreveu:

“O modo de produção capitalista congrega a população em grandes centros e faz com que a população urbana alcance uma preponderância cada vez maior. [Ele] perturba a interação metabólica entre o homem e a terra, ou seja, impede o retorno ao solo de seus elementos constituintes consumidos pelo homem na forma de alimentos e roupas; impede, portanto, o funcionamento da eterna condição natural para a fertilidade duradoura do solo. Assim, destrói ao mesmo tempo a saúde física do trabalhador urbano e a vida intelectual do trabalhador rural”.

Como diz Paul Burkett: “é difícil argumentar que há algo fundamentalmente antiecológico na análise de Marx sobre o capitalismo e suas projeções sobre o comunismo”. Para sustentar isso, o livro premiado de Kohei Saito se baseou em cadernos de “extratos” inéditos de Marx do projeto de pesquisa em curso MEGA [Marx-Engels-Gesamtausgabe, edição da obra completa de Marx e Engels] para revelar o extenso estudo por parte de Marx de trabalhos científicos da época sobre agricultura, solo e silvicultura para expandir sua compreensão sobre a conexão entre o capitalismo e a destruição dos recursos naturais (tenho uma resenha pendente sobre o livro de Saito).

Entretanto, Engels também deve ser defendido dessa mesma acusação. Na verdade, Engels estava muito à frente de Marx (mais uma vez) em relacionar a destruição e os danos ao meio ambiente que a industrialização estava causando. Enquanto ainda morava em sua cidade natal, Barmen (hoje Wuppertal), ele escreveu várias notas em um diário sobre a desigualdade entre ricos e pobres, a piedosa hipocrisia dos pregadores da igreja e também a poluição dos rios. Com apenas 18 anos, ele escreve:

“As duas cidades de Elberfeld e Barmen, que se estendem ao longo do vale por uma distância de quase três horas de viagem. As ondas roxas do estreito rio fluem às vezes rapidamente, às vezes vagarosamente entre prédios de fábricas enfumaçados e pátios cobertos de fios. Sua cor vermelha brilhante, todavia, não se deve a alguma batalha sangrenta, pois a luta aqui é travada apenas por canetas teológicas e as velhas tagarelas, geralmente por ninharias, nem à vergonha pelas ações dos homens, ainda que haja de fato causa suficiente para isso, mas simples e somente aos numerosos trabalhos de tingimento com vermelho turco. Vindo de Düsseldorf, entra-se na região sagrada de Sonnborn; o lamacento rio Wupper flui lentamente e, em comparação com o Reno, que acabou de ficar para trás, sua aparência miserável é bem decepcionante.”

Ele continua: “Em primeiro lugar, o trabalho na fábrica contribui muito para isso. O trabalho em cômodos pequenos, onde as pessoas respiram mais fumaça do carvão e poeira do que oxigênio – e, na maioria dos casos, a partir dos seis anos de idade –, está fadado a privá-las de toda força e alegria na vida.”

Ele relacionou a degradação social das famílias trabalhadoras com a degradação da natureza, enquanto denunciava a piedade hipócrita dos donos das fábricas.

“A pobreza terrível prevalece entre as classes mais baixas, especialmente os operários de fábrica em Wuppertal; a sífilis e as doenças pulmonares se propagam de forma inacreditável; somente em Elberfeld, das 2.500 crianças em idade escolar, 1.200 são privadas de educação e crescem nas fábricas – apenas para que o dono da fábrica não tenha que pagar aos adultos, cuja vaga ocupam, o dobro do salário que paga a uma criança. Porém, os ricos donos das fábricas têm uma consciência tranquila e causar a morte de uma criança não levará sua alma pietista ao inferno, especialmente se ele vai à igreja duas vezes todos os domingos. Pois é um fato que, entre os donos de fábricas, os pietistas são os piores no trato de seus trabalhadores; eles usam todos os meios possíveis para reduzir os salários dos trabalhadores sob o pretexto de privá-los da oportunidade de se embriagarem, mas são sempre os primeiros a subornar seu povo na eleição dos pregadores.”

Claro, essas observações de Engels são apenas isso – observações, sem nenhum desenvolvimento teórico –, mas mostram a sensibilidade que ele já tinha acerca da relação entre a industrialização, os proprietários e os trabalhadores, sua pobreza e o impacto ambiental da produção fabril.

Em sua primeira grande obra, Esboço para uma crítica da economia política, novamente muito antes de Marx olhar para a economia política, Engels observa como a propriedade privada da terra, a busca pelo lucro e a degradação da natureza andam de mãos dadas:

“Fazer da terra um objeto de barganha – a terra que é nosso todo, a primeira condição de nossa existência – foi o último passo para nos tornarmos objetos de barganha. Foi e é até hoje uma imoralidade superada apenas pela imoralidade da autoalienação. E a apropriação original – a monopolização da terra por uns poucos, a exclusão do resto daquilo que é a condição para suas vidas – não perde em nada em imoralidade para a subsequente venda da terra por um preço vil.”

Uma vez que a terra se torna mercantilizada pelo capital, ela está sujeita a tanta exploração quanto o trabalho.

A principal obra de Engels (escrita com ajuda de Marx), A Dialética da Natureza, escrita até 1883, logo após a morte de Marx, é frequentemente submetida a ataques por estender – de uma forma não-marxista – à natureza a concepção materialista de história que Marx aplicou aos humanos. E ainda assim, em seu livro, Engels não poderia ser mais claro sobre a relação dialética entre os humanos e a natureza.

Em um famoso capítulo, “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, ele escreve:

“Não vamos, entretanto, nos gabar demais por causa de nossa conquista humana sobre a natureza. Pois cada uma dessas conquistas se vinga de nós. É verdade que prevemos as primeiras consequências dessas vitórias, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem feitos muito diversos e imprevistos que, muitas vezes, anulam as primeiras consequências. Os povos que, na Mesopotâmia, Grécia, Ásia Menor e em outros lugares, destruíram as florestas para obter terras cultiváveis sequer poderiam imaginar que estavam lançando as bases para a atual condição devastada desses países, eliminando junto com as florestas os centros de coleta e reservatórios de umidade. Quando, nas encostas do sul das montanhas, os italianos dos Alpes destruíram as florestas de pinheiros tão cuidadosamente preservadas nas encostas do norte, eles não tinham ideia de que, ao fazer isso, estavam […] privando de água os mananciais das suas montanhas durante a maior parte do ano, e que isso produziria inundações ainda mais furiosas durante as estações chuvosas. Aqueles que difundiram o cultivo de batata na Europa não sabiam que estavam ao mesmo tempo espalhando a escrofulose. Assim, a cada passo somos lembrados de que, de forma alguma, governamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio, e que todo o nosso domínio sobre ela consiste no fato de que temos a vantagem sobre todos os outros seres de sermos capazes de conhecer e aplicar corretamente suas leis” (ênfase minha).

Continua Engels: “Na verdade, a cada dia que passa, estamos aprendendo a entender mais corretamente essas leis e conhecendo as consequências mais imediatas e mais remotas de nossa interferência no curso tradicional da natureza. […] Mas quanto mais isso ocorrer, mais os homens voltarão a sentir e a saber que são um só com a natureza, e, portanto, mais impossível se tornará a ideia sem sentido e antinatural de uma contradição entre mente e matéria, homem e natureza, alma e corpo.”

Engels explica as consequências sociais do impulso para a expansão das forças produtivas. “Mas se já foi necessário o trabalho de milhares de anos para que aprendêssemos, até certo ponto, a calcular as consequências naturais mais distantes de nossas ações produtivas, tem sido ainda mais difícil em relação às consequências sociais mais remotas dessas ações. […] Quando, posteriormente, Colombo descobriu a América, ele não sabia que, ao fazê-lo, estava dando nova vida à escravidão, que na Europa havia sido há muito abolida, e lançando as bases para o tráfico de negros escravizados.”

Os povos das Américas foram levados à escravidão, mas também a natureza foi escravizada. Como disse Engels: “O que preocupava os fazendeiros espanhóis em Cuba, que queimavam florestas nas encostas das montanhas e obtinham das cinzas fertilizante suficiente para uma geração de cafezais altamente lucrativos? – Eles se preocupavam que as fortes chuvas tropicais posteriormente inundariam e causariam a erosão do solo, agora indefeso, deixando apenas rocha nua?”.

Agora sabemos que não foi só a escravidão que os europeus trouxeram para as Américas, mas também as doenças, que, em suas formas diversas, exterminaram 90% dos nativos americanos e foram a principal razão de sua subjugação pelo colonialismo.

À medida que experimentamos outra pandemia, sabemos que foi o impulso do capitalismo para a industrialização da agricultura e usurpação das terras virgens remanescentes que levou a natureza a “contra-atacar”, à medida que os humanos entram em contato com mais patógenos aos quais não têm imunidade, assim como os nativos americanos no século XVI.

Engels atacou a visão de que a “natureza humana” é inerentemente egoísta e apenas destruirá a natureza. Em seu Esboço, Engels descreveu esse argumento como uma “blasfêmia repulsiva contra o homem e a natureza”. Os humanos podem trabalhar em harmonia com a natureza e como parte dela. Requer um maior conhecimento das consequências da ação humana. Engels disse em sua Dialética: “Mas mesmo nessa esfera, por uma longa e muitas vezes difícil experiência e por coletar e analisar materiais históricos, estamos gradualmente aprendendo a ter uma visão nítida dos efeitos sociais indiretos e mais distantes de nossa atividade produtiva, e, desse modo, também nos é dada a possibilidade de regular e controlar esses efeitos”.

Contudo, um melhor conhecimento e progresso científico não são suficientes. Para Marx e Engels, a possibilidade de acabar com a contradição dialética entre o homem e a natureza e alcançar algum nível de harmonia e equilíbrio ecológico só seria possível com a abolição do modo de produção capitalista. Como afirmou Engels: “Para realizar esse controle, é necessário algo mais do que mero conhecimento”. A ciência não é suficiente. “É preciso uma revolução completa do nosso modo de produção até então existente e, com ela, de toda a nossa ordem social contemporânea”. O “positivista” Engels, ao que parece, apoiou a concepção materialista de Marx sobre a história, afinal.