Não foi a fé nas instituições, nem a decisão de “somar forças” com a direita e o centro, muito menos a plena confiança na própria elegibilidade que permitiu às esquerdas reverter o golpe na Bolívia, caminhar para a revogação da Constituição pinochetista no Chile ou travar o pacote de reformas neoliberais de Iván Duque na Colômbia. Foi a mobilização e a combatividade do povo nas ruas.

No Brasil, passamos pelo golpe contra Dilma Rousseff, o governo entreguista de Michel Temer e o inferno bolsonarista e as suas 450 mil mortes sem dar consequência às nossas próprias palavras. Evidentemente, as responsabilidades não podem ser atribuídas de maneira leviana: são várias as organizações e movimentos que mantiveram a combatividade em seu trabalho diário por todo esse período. No entanto, dentro do campo da esquerda, são precisamente as organizações que mais deveriam estar interessadas no combate, que mais alto denunciaram a injustiça de suas próprias derrotas e que têm maior capacidade de mobilização as que mais imóveis se mantiveram nos últimos anos. Nunca será demais lembrar que os atos de rua contra o governo Bolsonaro foram, até o momento, pontuais. Para além dos protestos contra os cortes no Ministério da Educação, em maio de 2019, e os contra-atos antifascistas e de torcidas organizadas, em junho de 2020, o único momento em que as nossas forças foram jogadas com alguma decisão no tabuleiro político foi na greve geral de junho de 2019.

É preciso dar nome aos bois: o Partido dos Trabalhadores, grande derrotado com o golpismo de 2016 e inimigo primeiro do bolsonarismo, fez sua decisão pela inércia ao longo desses anos. Com a recuperação dos direitos políticos de Lula, parece estar disposto a submeter sua estratégia à construção de uma viabilidade eleitoral em aliança com setores do centro e da direita, o que necessariamente significará, em última instância, um rebaixamento de seu programa e, no mínimo, uma menor decisão pelo combate nas ruas. Poderia até ser lícito conceder, após as derrotas, para conquistar vitórias limitadas. O problema é que para tanto se ignora a natureza dessas derrotas – que foram impostas, não obras do acaso. 

Sejamos claros: 2016 foi um golpe, uma oportunidade construída ao longo dos anos pela direita neoliberal em conluio com a grande imprensa, e reforçada pela operação Lava Jato, com suas já evidentes e suspeitas conexões com o Departamento de Estado norte-americano. Basta olhar às votações sobre o impeachment de Dilma, na Câmara e no Senado, para constatar que os partidos com quem hoje se propõe uma convivência “pela democracia” votaram massivamente contra a presidenta. No Senado, as quatro cadeiras do DEM votaram a favor do impeachment; de 17 senadores do MDB, doze votaram a favor; de sete do PSB, cinco votaram a favor; de quatro do PSD, três votaram a favor; toda a bancada do PSDB (doze senadores) votou a favor. No governo de Temer, o PSDB teve 7 ministros; o MDB quinze; o DEM dois; o PP quatro; o PPS três; o PRB dois. Foi também no seu governo que os militares recuperaram algumas posições históricas (depois de Mourão ser exonerado do cargo de chefe do Comando Militar do Sul, em 2015, por fazer críticas políticas ao governo, pela caneta do mesmo Villas Bôas que, em pouco tempo, passaria a fazer ameaças pelo Twitter). As posições conquistadas foram o Gabinete de Segurança Institucional – antes extinto, passou a ser comandado por Sérgio Etchegoyen, verdadeiro reformador da Inteligência brasileira – e o Ministério da Defesa, que caiu nas mãos de Joaquim Silva e Luna, diretor-geral de Itaipu no governo de Jair Bolsonaro e atual presidente da Petrobras. Poderia ainda citar as GLOs (Garantia da Lei e da Ordem) que Temer usou contra manifestantes em Brasília e contra a greve dos caminhoneiros, além da intervenção federal no Rio de Janeiro. O governo Bolsonaro não nasceu por obra do acaso – ainda que o presidente deva mais à fortuna que à virtú. Nasceu pela ação dos então inimigos do Partido dos Trabalhadores, da participação e apoio (dado desde Temer) dos militares, do lava-jatismo de figuras como Moro (que teve enfim de abandonar seu chefe), dos pedidos apaixonados por mais privatizações que lemos todos os dias nos jornais e que são endereçados, hoje, a Paulo Guedes. O governo Bolsonaro não representa uma ruptura em relação à atuação da direita brasileira ao longo dos anos – representa sua continuidade, levada ao limite.

Como disse, seria lícito propor alianças e concessões a ditas forças democráticas à direita para derrotar uma figura de extrema-direita. O problema é que tais forças definitivamente não são “democráticas”, e desgraçadamente é a história recente, não a antiga, que o mostra. A vitória de Bolsonaro foi precisamente obra de tais forças ao longo dos anos. O que se pode esperar delas, portanto, senão o que elas já se demonstraram dispostas a fazer? Por que daqui a um ano, com a eventual eleição de um governo Lula, elas se comportariam de outra maneira? E se já não houver mais Bolsonaro, como se comportarão?

Há, além disso, um outro problema: o grau de disposição das Forças Armadas em retornarem ao campo político demonstra, acima de tudo, que mesmo os mais comprometidos com a plena institucionalidade democrático-burguesa não podem submeter seus cálculos aos resultados eleitorais, tribunais ou “frentes de consciência”. Na conjuntura posta, sem povo organizado, capaz de impor força, não há garantia de nada, e a nossa derrota ficaria submetida aos prazeres da audácia de nossos inimigos – caso se disponham, mais uma vez assistiremos de longe, balbuciando inconsequências e derramando as lágrimas pelo golpe, pela democracia, pelo governo que não queríamos, pelo governo que nos mata, pelos coturnos que nos pisam. Não foi essa a história do Brasil nos últimos cinco anos? Não foi essa a história dos 450 mil mortos por Covid-19 até o momento?

Vanguardistas da derrota é o que serão aquelas organizações que não levam às últimas consequências a realidade que nos assalta a vista. O Chile, a Bolívia, a Colômbia, o Equador oferecem a nós demonstrações claras de que os “democratas liberais” por essas bandas, quando se trata de repressão e golpes contra as massas e a esquerda, são bem pouco democráticos. Uma aventura de Bolsonaro em 2022, sem que estejamos organizados e capazes de demonstrar força, só poderia ser impedida pelas Forças Armadas – o que significaria não só buscar a proteção pelas armas dos outros, como desde Maquiavel é sabidamente uma idiotice, como buscar a proteção pelas armas dos que, ao longo dos anos (e das décadas) se mostraram nossos inimigos.

No próximo dia 29 ocorrerão atos de rua em todo o País pelo Fora Bolsonaro. Estão na pauta das mobilizações a aceleração das vacinações, o fortalecimento do SUS, a volta do auxílio emergencial de 600 reais até o fim da pandemia, a luta contra a volta às aulas presenciais e contra a reforma administrativa. Há quem, sem faltar completamente à razão, se oponha a tais atos em um momento em que se anuncia uma terceira onda de casos de Covid-19. De fato, ainda que com todas as medidas de prevenção – máscaras, algum nível de distanciamento, uso de álcool gel –, há risco de contágio nas manifestações. O problema é precisamente que, desde que o primeiro caso de coronavírus se apresentou no Brasil até hoje, quando contamos meio milhão de mortos, não foi feito sequer o mínimo em termos de contenção das infecções, ao passo que o presidente continuamente mobiliza seus apoiadores em aglomerações e continua a divulgar ditos “tratamentos preventivos” que não existem – tendo sua patota vendedora de remédios até na CPI. O risco de fazer manifestações nós não conhecemos – mas o risco de nada fazer, até o momento, soma 450 mil mortos.

Com a aparente ineficácia da CPI da Pandemia em pressionar o governo a adotar outra postura, a permanência dos conchavos com o Centrão apesar da perda da popularidade de Bolsonaro, a manutenção da presença militar no governo e a perspectiva, por parte do petismo em aliança com o centro e a direita, de buscar uma solução institucional através das eleições de 2022, é necessário quebrar as correntes e abandonar a inércia. É preciso, acima de tudo, dar atenção especial às demandas econômicas urgentes de nosso povo frente à pandemia, e denunciar desde já a tutela contínua que o Partido Fardado pretende impor sobre o País – neste sentido, a palavra de ordem pelo impeachment de Bolsonaro é insuficiente.

As ruas, no dia 29, servirão como uma primeira régua quanto até onde é possível ir. Será necessário converter tal movimento em mobilização contínua e apostar no combate insistente para garantir o mínimo – quer sejam passos atrás do governo em sua política de morte, quer seja o respeito a eventuais resultados eleitorais em 2022, que desde já são colocados em xeque pelo atual presidente. Acima de tudo, é necessário impedir que tal movimento sirva aos que, ao invés de combate, pretendem fazê-lo de palanque para 2022. Quem submeter sua estratégia a “esperar pelo momento” ou aguardar 2022 colherá do tempo só mais morte, e, em meio à morte, se verá mais uma vez pressionado, aturdido ou golpeado pelos bicos dos abutres.