Nelson Sargento…

Nelson Sargento foi sambista, pedreiro, pintor, artista naïf, escritor, ator. Antes de tudo, porta-voz da resistência cultural no Brasil. Por Bruno Ribeiro | Revista Opera

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(Foto: Rodrigo Juste Duarte)

Poucos artistas chegaram ao patamar mais alto que se pode almejar na história do samba: o de serem considerados a própria personificação do gênero. Nelson Sargento, que morreu na última quinta-feira (27) vítima da Covid-19, era um deles. O sambista tinha 96 anos e, apesar da idade avançada, estava lúcido e vacinado.

Ele foi um dos primeiros brasileiros a receber a vacina, em janeiro deste ano, junto a outras personalidades cariocas escolhidas pela Prefeitura do Rio para marcar o início da campanha de imunização contra o coronavírus. Em fevereiro, após tomar a segunda dose da vacina Coronavac, Nelson demonstrou otimismo em entrevista ao Estadão: “Isso tudo vai passar. Tem que passar. Levantei a manga da camisa, a moça fez o trabalho dela. Eu fui ao céu e voltei.”

No dia 20 de maio foi internado no Instituto Nacional do Câncer (Inca), com sintomas da doença. Seu estado de saúde se agravou no dia 26, quando teve uma piora do quadro respiratório e precisou ser intubado. Horas depois do anúncio oficial da morte do sambista, um senador bolsonarista, aproveitando-se do palanque proporcionado pela CPI da Pandemia (que investiga a responsabilidade de Jair Bolsonaro nas mais de 455 mil mortes causadas no País pela Covid), citou o episódio para questionar a eficácia da vacina produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. 

Dimas Covas, diretor do instituto, que fora convocado a prestar depoimento no Senado Federal, explicou que a indução de anticorpos em idosos é de 98%, mas que a resposta imunológica da vacina em pessoas acima dos 80 anos é menor. “Além disso, comorbidades podem influir”, afirmou. Nelson se tratava de um câncer de próstata desde 2005.

Em suas redes sociais, o carnavalesco Leandro Vieira acertou em cheio ao comparar o desaparecimento físico do artista à perda de um museu: “O país amanhece com a notícia da morte de Nelson Sargento como quem descobre que um valioso museu, de acervo incalculável, foi transformado em cinzas.” 

Testemunha ocular de praticamente toda a evolução do samba — das origens aos dias atuais —, Nelson era de fato uma espécie de museu ambulante, repleto de histórias vividas por ele e por seus companheiros de ofício. Vale dizer que, pouco tempo depois da criação das escolas de samba, no início da década de 1930, o menino já circulava entre os sambistas e malandros do morro do Salgueiro, onde nasceu. E que, pouco antes de eclodir a pandemia, comemorou seus 95 anos com dois shows no Japão e desfilou pela Mangueira no Carnaval de 2020 —  ocasião em que interpretou José, pai adotivo de Jesus, no enredo “A verdade vos fará livre”, assinado por Leandro Vieira.

Autor de mais de 400 músicas, Nelson Mattos (a alcunha “Sargento” viria de sua breve passagem pelo Exército) mudou-se para o morro da Mangueira ainda garoto, por volta dos 13 anos de idade. Ali aprendeu a tocar violão observando os músicos que frequentavam os pagodes organizados pelo letrista Alfredo Português, seu pai de criação. 

O termo “pagode” era usado para designar qualquer tipo de reunião informal onde houvesse música e bebida. Foi nesse ambiente que conviveu, desde a juventude, com sambistas tarimbados como Geraldo Pereira, Padeirinho, Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho. E se não bastassem as rodas de samba acontecidas em sua casa, o rapaz se encantou pela Estação Primeira de Mangueira, escola fundada em 1928, que viria a consagrá-lo, no futuro, como um de seus principais embaixadores.

A escola de samba passou a ser parte indissociável de sua vida antes mesmo que ele compusesse sua primeira música. Incentivado pelo padrasto, tão logo aprendeu a dominar o violão, começou a musicar as letras de samba que este lhe passava. O reconhecimento no meio, porém, viria somente aos 30 anos, quando a Mangueira se sagra campeã do Carnaval de 1955 com uma composição de sua autoria, em parceria com Alfredo Português e Jamelão: “As Quatro Estações do Ano”, também conhecida como “Cântico à Natureza”. Este samba-enredo é considerado pelos especialistas um dos mais belos e importantes da história do carnaval carioca.

Mesmo se dedicando com afinco ao samba, Nelson demorou a ganhar dinheiro com sua arte. Durante quase 40 anos trabalhou como operário da construção civil e pintor de paredes. Cantou em versos a situação precária dos trabalhadores brasileiros, como em “Samba do Operário” (“Se o operário soubesse/ Reconhecer o valor que tem seu dia/ Por certo que valeria/ Duas vezes mais o seu salário”). Em “Encanto da Paisagem” falou das mazelas do morro geradas pelo “desajuste social” (“Criança sem futuro e sem escola/ Se não der sorte na bola/ Vai sofrer a vida inteira”).

Uma parte de sua consciência política foi adquirida possivelmente na convivência com Alfredo Português, um fadista lisboeta que teria chegado ao Brasil fugindo do salazarismo e se amasiou com a mãe de Nelson, uma empregada doméstica. Outra parte veio dos livros, que o acompanharam da adolescência ao fim da vida. Ele era um leitor disciplinado — seu dia só começava após a leitura dos jornais. 

Nelson Sargento foi, antes de tudo, um porta-voz da resistência cultural no Brasil. Enfrentou com bom humor a perseguição ao samba durante o Estado Novo; na ditadura militar aproximou-se do Centro Popular de Cultura, vinculado à União Nacional dos Estudantes (UNE), contribuindo para que o samba do morro chegasse aos ouvidos da classe média universitária; na reabertura política participou ativamente da campanha “Diretas Já”, representando os sambistas brasileiros neste movimento; não se omitiu no golpe contra Dilma Rousseff, tendo participado inclusive do videoclipe de um samba-denúncia chamado “A Minha Liberdade Custou Sangue”; denunciou a prisão arbitrária de Lula e manifestou em público solidariedade ao ex-presidente. Colocou-se no campo oposto ao de Bolsonaro desde que o fascista chegou ao governo.

Nem a Ordem do Mérito Cultural, recebida das mãos de Michel Temer, foi capaz de manchar a coerência de suas posições: a separação entre o Estado brasileiro e o governo do momento sempre foi um conceito claro para ele. Como poucos artistas, o compositor conseguia analisar a vida nacional com o distanciamento histórico necessário — e isso está registrado em várias entrevistas dadas ao longo da vida. 

O jornalista Sergio Cabral costumava dizer que Nelson Sargento era “o homem mais inteligente do Brasil.” Um exagero, sem dúvida, mas que dizia muito sobre a impressão que o sambista passava aos intelectuais cariocas de sua geração. Foi Cabral, aliás, quem percebeu o talento oculto do pintor de paredes que também pintava quadros. 

Em 1981, fascinado pelas obras em estilo naïf que Nelson lhe mostrara, o jornalista organizou uma pequena exposição com seu trabalho. O evento repercutiu na classe artística e seus quadros foram comparados aos de Heitor dos Prazeres, outro sambista apaixonado por pincéis. Na oportunidade, Paulinho da Viola foi a primeira pessoa a comprar um óleo sobre tela assinado por ele. Ao longo da vida expôs em vários locais, como o Museu da Imagem e do Som (MIS), do Rio de Janeiro. “Gosto de pintar a favela, os ritmistas e as baianas das escolas de samba. Esses são os temas da minha pintura”, definiu certa vez. 

Nelson Sargento aventurou-se também pela literatura: chegou a colaborar com a revista masculina “Ele & Ela”, onde publicou contos eróticos. Escreveu um livro de poesia (“Prisioneiro do Mundo”), um de crônicas (“Samba Eu”), uma biografia (“Um Certo Geraldo Pereira”) e um livro de reflexões sobre temas variados (“Pensamentos”). Quase todos foram lançados de forma independente, com recursos próprios ou com a ajuda de amigos. 

Mais improvável foi sua incursão pelo cinema: atuou como ator nos filmes “É Simonal”, de Domingos Oliveira, “O Primeiro Dia”, de Walter Salles e Daniela Thomas, e “Orfeu”, de Cacá Diegues. Interpretou a si mesmo no curta-metragem “Nelson Sargento de Mangueira”, de Estêvão Pantoja, que lhe rendeu o prêmio Kikito de melhor trilha sonora no Festival de Cinema de Gramado, em 1997. Na televisão, participou da minissérie “Presença de Anita”, da TV Globo. 

Na indústria fonográfica seu ingresso foi tardio: o primeiro disco seria gravado apenas em 1979. Nelson já tinha entrado em estúdio como integrante dos grupos A Voz do Morro e Os Cinco Crioulos, que marcaram época na década de 1960, mas é com o elepê “Sonho de um Sambista” que ele se apresenta como artista solo. Logo de cara emplaca dois grandes sucessos de carreira: “Falso Amor Sincero” (“O nosso amor é tão bonito / Ela finge que me ama / E eu finjo que acredito”) e o clássico “Agoniza, mas não Morre“, que Beth Carvalho dizia ser “o hino de todos os sambistas brasileiros.”

A letra versa sobre a resiliência do samba e sua capacidade de dar volta por cima sempre que alguém anuncia o seu fim: (“Samba, agoniza mas não morre/ Alguém sempre te socorre/ Antes do suspiro derradeiro/ Samba, negro forte destemido/ Foi duramente perseguido/ Nas esquinas, no botequim, no terreiro”). Com esta composição, Nelson Sargento inscreve seu nome na galeria dos imortais. 

A história por trás da letra, no entanto, é menos romântica do que seu tom de lamento supõe. Em entrevista ao Pasquim, em 1987, Nelson Sargento conta como nasceu a inspiração para escrever o seu samba mais conhecido: “Eu cheguei em casa no maior porre e, nesse meio tempo, minha mulher ficara adoentada. Botei a chave na porta, tirei a chuteira e fui deitar. Aí ela perguntou: ‘Não quer saber se eu melhorei?’ ‘E você tá doente?’ ‘Pô, você não me deixou doente em casa?’ Aí olhei pra ela e tasquei: ‘Vivinha, você agoniza mas não morre. O Nelson sempre te socorre antes do suspiro derradeiro.’ Ela virou e bronqueou: ‘E o desgraçado ainda faz samba.’ Foi assim que tive a ideia.”

Outros quatro discos seriam lançados depois de “Sonho de um Sambista”, mas nenhuma com a mesma repercussão. Suas composições, em linhas gerais, exaltavam o morro, a Mangueira e retratavam a vida do povo, suas dificuldades e seus amores. Não foi um compositor de obras-primas, mas deixou sua marca. Mais do que o compositor propriamente dito, Nelson Sargento foi um sambista importante. E sua importância reside no fato de ter feito parte da história da Mangueira desde os seus primórdios, sem nunca se restringir ao universo das escolas de samba. Ao longo dos últimos 70 anos, Nelson participou assiduamente da vida nacional, tanto artística quanto politicamente. 

Em sua conta no Twitter, o escritor Luiz Antonio Simas contou de seu último encontro com o sambista: “A última vez que vi seu Nelson Sargento foi no velório da Beth (Carvalho). Ele me disse, com o humor fino que tinha: ‘Professor, todo mundo morrendo e eu aqui. Tô achando que não vou morrer nunca, hein?’ Eu ri, disse que ele estava certo e continuo tranquilamente com essa certeza.”

Em recente entrevista ao jornal O Globo, Nelson, o eterno presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira, definiu aquele que, em sua visão, seria o papel fundamental do samba: “A literatura ainda é pouca, e a política educacional não valoriza. Se você não espalhar o que viu, a história não anda. O samba é um grande delator.”

Uma tarde inesquecível com Nelson Sargento, por Arthur Tirone

O Brasil já tá tinha ido pro brejo, a gente sabia. Mas, como um peixe fora d’água, dávamos nossas ricocheteadas tentando sobreviver. Era abril de 2016 quando Douglas Germano mandou a primeira de um samba pra gente terminar, e assim compusemos, eu, Fernando Szegeri e Bruno Ribeiro “A minha liberdade custou sangue”. Este samba foi um grito contra o golpe que se anunciava. Quando terminamos, pensamos em gravar um vídeo, em formato de clipe, pra divulgar, e a música cumpriu seu papel — foi tocada e cantada em muitas manifestações Brasil afora. Para tanto, pensamos em gravar algumas figuras notórias do samba cantando trechos do samba. Fui designado por mim mesmo a ir atrás da turma pra gravar. Paulinho Timor me acompanhou nessas incursões, etilicamente emocionantes. Numa sexta feira, dia 29 de abril, fomos à casa de Nelson Sargento — um charmoso apartamento em Copacabana. 

Dona Evonete nos recebeu. Entramos e nos deparamos com o velho sentado à uma mesa de ferro, daquelas de botequim. Tinha, sobre a mesa, três jornais: “O Globo”, “Folha” e “Estadão”. Antes mesmo de nos cumprimentar, pegou um dos jornais e nos interpelou: “Como pode estar acontecendo isso com o Brasil?”. A capa do jornal trazia a foto vampiresca do Temer. Eu fiz algum elogio malcriado ao então vice-presidente e o Sargento gostou do que ouviu. 

Passamos uma tarde gloriosa, falando de tudo um pouco, principalmente de samba. Nossa amiga Alê Stropp filmava tudo. Em determinado momento, Nelson pergunta pra mim e pro Paulinho, de bate-pronto: “Chico ou Noel?”. Tentamos divagar e ele repetiu a pergunta. Então devolvi a pergunta, ao que o velho respondeu: “Até hoje não sei”. 

Na sala tinha vários violões, ele me mandou pegar um e ali ficamos tocando, lembrando sambas. Este que abre o vídeo (abaixo), “O nosso amor”, ele cantou pra gente em primeira mão. Tinha acabado de compor na véspera. Ouro puro. Nos sentíamos como se fôssemos amigos do Sargento há muitos anos. Em determinado momento ele pediu à Dona Evonete que pegasse seus óculos. E balbuciou algo. Perguntei como estava sua saúde, na ocasião ele já tinha 91 “primaveras adoradas”. Ali se deu um momento quase teatral. Nelson Sargento retira os óculos e me fita com um olhar de quem vai dizer algo importante: “A única coisa que não funciona direito no meu corpo… é o joelho”. E riu como um exu de umbanda. Caímos todos na gargalhada. 

Tínhamos marcado, depois dali, de ir à casa do Carlinhos Vergueiro. Atrasamos horrores, e o Sargento pedindo pra gente ficar mais um pouquinho. Impossível negar. Ao mesmo tempo que passou rápido aquela tarde, parecia que estávamos ali há dias, com a sensação de estar bebendo na fonte. Eu estive com Nelson Sargento em outras ocasiões, mas essa foi especial. Nesta quinta cantou pra subir um herói brasileiro. Mas Nelson Sargento, assim como o samba, não morre.