Do 29 de maio ao 19 de junho: cercar Bolsonaro sem ser cercado

À medida que manifestações contra Bolsonaro crescerem, não se deve descartar possibilidade de que se tente sequestrar sua direção. por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Anderson Riedel/PR)

Apesar da contagem de mortos, do aumento do desemprego, da entrega de ativos e estatais, do vagar sinistro da fome, do empobrecimento geral e da inflação galopante, os ricaços no Brasil e seus mordomos nos Três Poderes vinham vivendo a pandemia, até o momento, em relativa tranquilidade.

Enquanto o presidente dizia as patetices perigosas de costume, arregimentava seus apoiadores em manifestações de rua e seguia distribuindo verbas e cargos entre o Centrão e os militares, só teve contra si algumas pacatas reprimendas institucionais por parte do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, e eventuais reclamações do mesmo empresariado que, durante toda a pandemia, foi alimentado pela pilha de corpos infectados. Nos melhores cenários, Bolsonaro se retraía um pouco, calava momentaneamente, e seguia arranjando os cortejos em silêncio; nos piores, acelerava seu projeto de destruição, ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes, ou elevava o tom e balançava uma ameaça qualquer frente às câmeras – não raramente com o apoio do generalato ministerial.

Sem oposição de fato foi como, até o momento, se produziram as 500 mil mortes. Mas no último sábado (29) esse cenário mudou. O chamado por mobilizações contra o presidente frutificou em grandes protestos em todos os Estados do Brasil. Em capitais como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, enormes multidões foram às ruas, apesar das reticências de setores de partidos como PT e PSOL e do boicote aos protestos de algumas direções estaduais. Como escrevi em meu último artigo, as manifestações serviriam “como uma primeira régua quanto até onde é possível ir”. Demonstraram com clareza que é possível e necessário avançar, e romperam aquela sensação de isolamento político e impotência com a qual muitos militantes e organizações vinham convivendo. Uma jornada de mobilizações contra o governo se impôs como um próximo passo natural.

No entanto, há algumas considerações estratégicas a serem feitas. Primeiro, já que se fala em impeachment, é preciso avaliar onde reside a força e onde reside a fraqueza desse governo. Como venho argumentando, Bolsonaro é, por si só, fraco, razão pela qual se cerca de fortes desde a campanha eleitoral e segue adotando uma estratégia de quatro braços no governo: 1 – faz concessões gordas ao Centrão para tentar garantir sua estabilidade, desde que começou a perder popularidade; 2 – insufla suas bases, cada vez mais magras mas, até pela ação do presidente, cada vez mais agressivas; 3 – abre os rios com presteza para “passar a boiada” e acelera o rebanho sempre que é pressionado ou sente o que o apoio burguês pode se acanhar; 4 – tenta manter uma situação política em que não é pressionado (às vezes por ameaças, balançando um militar, noutras regendo o caos, como faz na pandemia ou criando espetáculos a partir das escaramuças com outros poderes).

Mantém uma estratégia de tensão contínua com os seus inimigos e concede continuamente a quem possa comprar: o fundamental não é manter algum nível de normalidade, onde seria descartável, nem somente manter-nos imóveis, o que de certo ajuda; mas reservar para si o comando unitário da desordem. Certamente a tentativa de aumentar e manter os lucros durante a pandemia explicam, por si só, a ausência de um lockdown – o que foi visto em boa parte dos países do mundo, ainda que com menos audácia –, mas só a tentativa desesperada de sobreviver explica a vontade contumaz de boicotar a vacinação – o que não foi visto em lugar algum. Cadenciar a morte nos seus termos foi, até o momento, a forma de garantir a sobrevida; manter o País no caos, para o presidente, é a sua melhor forma de garantir a própria estabilidade.

Um segundo tema são os militares. Por um lado são o governo, esforçam-se para manter o Cavalo de Troia que lhes serve de morada avançando; por outro, dominariam o terreno com sua destruição (literalmente, em caso de impeachment). Bolsonaro é protegido por eles, que bravateam e ameaçam sempre que necessário, mas também deve temê-los, precisamente porque a maior parte de sua defesa reside neles; do ponto de vista puramente defensivo, na capacidade que têm em dissuadir qualquer avanço real contra o governo e, do ponto de vista ofensivo (contra o presidente), na capacidade que teriam em fortificar tal avanço, se assim desejassem, para proveito próprio. Estes mantêm-se até o momento bem escondidos dentro do Cavalo, não são tocados nem apontados e, quando um dos seus é acusado – como Pazuello –, aparecem ao mesmo tempo como ponderados e possíveis algozes, como comando unitário e indivíduos isolados, como reserva e ativa; os generais que ocupam a política devem punir o general que participou da política, porque fazê-lo constitui perigosa quebra de hierarquia, valor inestimável para os generais que ocupam a política e que autorizaram a ida de Pazuello ao ministério e, mais recentemente, à Secretaria de Assuntos Estratégicos. Piada ruim, se rir fosse o caso, mas repetida nas manchetes todos os dias.

Um terceiro ponto é Lula, o Partido dos Trabalhadores e suas organizações. Da perspectiva estritamente eleitoral, sob o qual lhes era permitido calcular até o momento, seu caminho mais seguro seria seguir a estrada como está colocada, mantendo Bolsonaro a fogo brando para enfrentá-lo em 2022 com segurança. Tudo indica, no entanto, que isso sequer seja mais possível.

Um quarto ponto é a direita neoliberal, aquela cuja vez na fila foi tomada por Bolsonaro. Calcula boas chances contra o atual presidente ou Lula em 2022, mas seria obliterada como terceira opção, e portanto pode ver serventia na devastação de qualquer um dos dois como possíveis candidatos.

A situação é uma na qual não podemos ficar parados, pois disso se beneficiam Bolsonaro e os generais, que seguem abatendo o povo aos milhares numa situação em que controlam em absoluto a disputa política. Mas caminhar é perigoso, pois disso podem se beneficiar também os generais e a direita neoliberal, que estarão em condições de seguir o abate com igual contundência, ainda que com menos evidência sobre si.

Estão definidos atos para o dia 13 de junho, data da abertura da Copa América no Brasil, e um grande ato no dia 19. Não é descartável que a composição das manifestações, desta próxima ou em um futuro breve, seja bastante diferente daquela do dia 29 de maio, com a base social da direita tradicional mobilizada, possivelmente com o apoio daqueles veículos que servem como consciência avançada (e platinada) do neoliberalismo. Se amplos movimentos de rua contra Bolsonaro forem inevitáveis, assaltarem o cenário político, talvez a melhor escapatória daquelas frações da direita que querem se diferenciar dele a todo custo – apesar de serem só cosmeticamente diferenciáveis – seja tentar conquistar para si a hegemonia dos atos, dirigindo-os, como buscou fazer em 2013. 

Quanto aos militares, como disse, mantiveram-se naquela posição aconselhada por Maquiavel: suficientemente distantes para não se prejudicarem na ruína do príncipe, suficientemente próximos para dela se beneficiar. É evidente que não dependem de um golpe para ampliar ainda mais seu protagonismo na política nacional: o impeachment de Bolsonaro implicaria, seguindo os ritos habituais e os ordenamentos legais, a ascensão de Mourão à presidência. Sua decisão por isso ainda não é certa; mas caso o ponto anterior se confirmasse, seria mais provável que não movessem muitos esforços em defesa do capitão-presidente.

Evidentemente, ainda não há elementos concretos para dizer que nenhuma dessas opções tenham sido feitas. Dependerão, em parte, de como a burguesia viu, das coberturas e palácios, a ação nas ruas no dia 29, e se os atos do dia 19 ao menos repetirão a capacidade de mobilização.

De qualquer maneira, para o cenário posto, é fundamental que as organizações de esquerda que compõem os atos estreitem sua unidade para assegurar a direção; que ponham em denúncia tanto a participação dos militares no morticínio – muito além da figura individual de Pazuello – quanto seu retorno à política; que unam esforços por uma greve geral, capaz de bater numa das pernas fundamentais do governo e impor outra situação; e que esbocem um programa mínimo de demandas econômicas, dentre as quais a reversão das reformas e privatizações dos últimos anos, para que os protestos não se desvaneçam numa “grande festa” de todos contra o presidente, cuja longa ressaca seria só uma repetição de seu governo, encabeçado por outra figura e em bases mais estáveis.

Não é possível viver na paralisia, é certo; mas, uma vez em movimento, é imperativo não largar mão da direção, tanto quanto seja possível.