Paco Urondo: o jornalista orgânico

Uma lembrança sincera e uma análise do legado de Paco Urondo como militante da palavra, 45 depois do seu assassinato pela ditadura argentina. Por José Cornejo | Agencia Paco Urondo – Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Imagem: Agencia paco Urondo)

Sobre aquele 17 de junho de 1976, Rodolfo Walsh escreveu: “Fui (a Mendoza) temendo o que aconteceria. Houve um encontro com um veículo inimigo, uma perseguição, um tiroteio entre os dois carros. Estavam Paco, Lucía com sua filha e uma companheira. Tinham uma “metraca”, mas estava no porta-malas. Não puderam acelerar. Finalmente Paco freou, procurou alguma coisa na roupa e disse: “Atirem vocês”. Em seguida, acrescentou: “Tomei a pílula e já me sinto mal”.

Paco Urondo havia dito “peguei em armas buscando a palavra justa”. É uma escrita imersa em seu presente, uma escrita unida à militância, que em seu tempo implicava fazer uso das armas, e Paco se destacava particularmente na arma da palavra.

A palavra, e sobretudo o jornalismo, tem uma relação espelhada e opaca ao mesmo tempo com a verdade, com o acontecimento, com o fato que virou notícia. Que jornalismo Paco praticava e ensinava?

Paco era um poeta. Não acreditava na verdade oitocentista, no feito positivista do retrato perfeito, a natureza morta onde uma cena é representada com uma descrição exata. Ele não diz “exata”, diz “justa”, com toda a valoração que ela implica.

Entretanto, também não era um pós-moderno, um relativista. Paco não teria comprado os cantos de sereia do pós-estruturalismo do fim dos anos 1990 e tão em voga neste século XXI. A verdade e sobretudo a injustiça, existem. “Do outro lado da cerca está a realidade, deste lado da cerca também está a realidade; o único irreal é a cerca.”

Paco não chega aos jornalistas só (só!) pela sua poesia e sua epistemologia do jornalismo, algo tão necessário nestes tempos de notícias falsas e infodemia [endemia de informações]. Paco traz algo ainda mais importante, o jornalismo militante orgânico.

O jornalismo militante não é o seguimento de alguma causa política. Aquele propagandista dos interesses da patronal não é militante. Militante é quem segura as bandeiras de seu Povo, não daqueles que o pauperizam. Paco responderia com uma bofetada a quem falasse de um “militante macrista”. E não é apenas a ideologia do jornalista o que define sua coerência, mas também sua organicidade.

Francisco Urondo era um militante orgânico. Sua palavra e, claro, suas ações, sua própria vida, estavam em função de um projeto que o transcendia. Ele aceitou a liderança política desse espaço, que obviamente tinha seus momentos claros e obscuros, alguns dos quais Paco não assentia e outros com os quais concordava nitidamente. Em seu destino final em Mendoza, Walsh ressalta que Paco intuía o risco ao que estava se expondo. Mesmo assim, ele decidiu obedecer ao mandato de sua liderança. Ele aceitou, quando poderia ter renunciado à sua liderança como tantos outros começavam a fazer naquele período. Paco é o ápice do militante jornalista, talentoso, inteligente e, acima de tudo, orgânico. A liderança poderá errar ou acertar, mas não há vitória do Povo sem organização, e a organização requer hierarquias.

Uma carta de Walsh a Paco diz: “São as massas que vão sepultar seus algozes na lata de lixo da história” e se pergunta: “O que se pode pedir a um escritor revolucionário? Ele pode falar com o seu povo, colocando nesse diálogo o melhor de sua inteligência e de sua arte. Ele pode narrar suas lutas, cantar suas tristezas, prever suas vitórias, isso já é o suficiente e isso já justifica. Mas você nos ensinou que ele não está proibido de dar mais um passo, tornar-se ele mesmo um homem do povo, compartilhar seu destino, dividir a arma da crítica com a crítica das armas”.

Em outro texto a Paco, Walsh conclui: “O problema para um tipo como você e em uma época como esta é que quando mais fundo se olha e quanto mais silencioso se escuta, mais começa a perceber o sofrimento do povo, a miséria, a injustiça, a crueldade dos carrascos”.