Amigos da morte, inimigos do povo

O cerco aumenta contra o governo Bolsonaro, mas os amigos da morte não cairão de podres: só a mobilização popular pode jogar a pá de cal. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Sgt Johnson Barros / Força Aérea Brasileira)

Bolsonaro nunca esteve tão cercado e enfraquecido. Perdeu, nas últimas semanas, um dos elementos com os quais contou desde que assumiu o governo: o de ter sempre sozinho a iniciativa de ser fonte única da desordem, de pautar e congelar a reação com suas estripulias, de assegurar sua própria estabilidade por meio do caos. Perdeu Salles, o boiadeiro convertido em ministro do Meio Ambiente que, apesar da possivelmente criminosa e certamente incendiária condução da pasta e da pressão de setores importantes da classe dominante, se mantinha firme com o apoio do presidente e das camadas médias do agronegócio. Perdeu a capacidade de mobilizar suas bases sozinhas, que se reúnem agora em barulhentas mas esvaziadas motociatas, e segue perdendo popularidade – ainda que lentamente, de acordo com as últimas pesquisas.

Sem nenhum tipo de ingenuidade, é necessário compreender por que, e de forma tão abrupta, o cerco tem se fechado. O primeiro elemento a pesar é a ressurreição de Lula como possível candidato, fato que reorganizou o jogo de expectativas para 2022, na medida em que estreitou o espaço para a apresentação de candidaturas que representassem as classes dominantes em diferentes matizes. Tendo em vista a distante possibilidade de que Bolsonaro se reelegesse no primeiro turno de 2022, os setores que preferiam apostar em outro candidato mantinham-se conciliados com os que seguem apostando em Bolsonaro; em última instância, todos se confortavam com o “que vença o melhor” (ou seja: o pior) e esperavam com a “calma confiança de um cristão com quatro azes na mão”, como escreveu Mark Twain. Com Lula no jogo, o pacto se quebrou: por um lado, o espaço para uma outra candidatura de direita foi comprimido, o que impôs a busca imediata por uma solução para aquela fração que prefere um cavalo mais adestrado; por outro, a própria segurança em uma vitória de Bolsonaro se reduziu, para aquela fração que com isso contava. Os quatro azes sumiram; como efeito, a subida do preço do Centrão, a aceleração da agenda de Guedes, a demissão de figuras como Ernesto Araújo e a abertura da CPI.

No entanto, todas essas demandas se encaminhavam tendo como referencial as eleições de 2022; o que se estava jogando era a composição provável de um segundo turno nas próximas eleições. Apear o presidente do poder não interessa, a princípio, a nenhuma força que se movimenta tendo como horizonte o calendário eleitoral, mas enfraquecê-lo aos poucos sim; e essa vinha sendo a lógica predominante da oposição institucional, da direita à centro-esquerda.

Mas um segundo elemento se impôs: as mobilizações de rua. As duas manifestações dos dias 29 de maio e 13 de junho, apesar de sua envergadura, evidentemente não tiveram capacidade de mudar o equilíbrio de poder; mas impuseram sobre essa lógica de cadenciar o enfraquecimento de Bolsonaro um movimento que independe das eleições de 2022. Isto é, impuseram um novo ritmo ao conflito, uma substituição do “não podemos repetir 2018 em 2022” pelo “não aguentamos esperar as eleições”. Mesmo que sob boicote ou tentativas de contenção, expressaram a possibilidade de atropelo da lógica de desgaste lento, o que explica os avanços recentes contra Bolsonaro, como resposta, nas esferas institucionais.

O escândalo e o escândalo

A denúncia dos irmãos Miranda na CPI, envolvendo supostas irregularidades na compra de doses da vacina Covaxin por meio da Precisa Medicamentos, colocou na linha de tiro tanto a figura pessoal de Bolsonaro – que teria prevaricado ao não abrir investigação após ter sido avisado sobre o esquema pelo deputado Luis Miranda (DEM) e seu irmão, Luis Ricardo – quanto sua relação Centrão, na figura de Ricardo Barros (PP), líder do governo no Congresso apontado como o nome ao qual o presidente teria se referido como suposto responsável pelo esquema durante sua conversa com os irmãos Miranda. As dramáticas denúncias dos irmãos, portanto, bateram em duas pernas constitutivas do governo: o discurso anticorrupção e o apoio do Centrão. Evidentemente, o governo poderia tentar se desvencilhar de Ricardo Barros e manter o apoio de outros setores do Centrão – mas isso implicaria ter contra si Ricardo Barros. Precisa, portanto, proteger Barros – o que significa continuar a chafurdar na lama.

Mas um segundo escândalo foi revelado em matéria de Constança Rezende na Folha de São Paulo, na última terça-feira (29). Nela, o representante da empresa Davati Medical Supply e policial militar de Minas Gerais, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, disse ter recebido de Roberto Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde, pedido de propina de 1 dólar por dose para fechar um contrato para o fornecimento de 400 milhões de doses da AstraZeneca. O pedido teria ocorrido durante um encontro em um restaurante de um shopping de Brasília no dia 25 de fevereiro. E-mails revelados pela Folha mostram que Roberto Dias – que foi exonerado após a denúncia – de fato travou contato com a Davati. Roberto Dias foi indicado ao cargo pelo mesmo Ricardo Barros da primeira denúncia, e foi prontamente exonerado após a matéria da Folha.

O que é curioso é que há suspeitas sobre a seriedade da própria Davati Medical Supply. Uma matéria do jornalista do jornalista Lucas Ragazzi publicada em maio mostrou que golpistas que se apresentavam como representantes da mesma empresa tentaram vender vacinas para prefeituras de Minas Gerais. Em março, foi revelado que no Canadá uma mulher tentou vender vacinas para a Federação de Nações Indígenas Soberanas (FSIN) do país. O ministro de Serviços Indígenas, Marc Miller, disse que o governo “tinha indicativos de que as companhias que fizeram tais ofertas não são de fato legítimas”. Carrie Liddy, a empresária responsável pelo contrato com a FSIN, apontou como um de seus possíveis fornecedores a Davati. Herman Cardenas, dono da Davati, declarou: “nós não somos distribuidores da AstraZeneca. Nós temos acesso a pessoas que são… Ainda estamos testando esse canal [de logística] para ter certeza de que eles conseguem entregar”. Uma outra matéria sobre o caso revelou que a Davati Medical Supply efetivamente ofertou a comunidades indígenas seis milhões de doses da vacina da AstraZeneca, e que teria também feito uma oferta ao governo da província canadense de Saskatchewan, que a recusou dizendo que “não vê essa oferta para obter vacinas como legítima”. A própria AstraZeneca declarou que tais ofertas provavelmente “não são legítimas” e disse à rede de televisão CBC que não oferece sua vacina contra a Covid-19 por meio de outras empresas privadas.

Tudo indica, portanto, que a Davati Medical Supply é uma empresa fraudulenta, que recrutou representantes em diversos países para fazer suas vendas (sem ser capaz de entregar seus produtos); que Roberto Dias de fato se encontrou com Dominguetti (coisa reconhecida por ambos). Mas, em termos concretos, de implicação de Bolsonaro ou Ricardo Barros, esse segundo escândalo não oferece nada; é só diversionismo. O próprio Luiz Paulo Dominguetti disse não ter gravação nenhuma de Roberto Dias, sem a qual será difícil implicar sequer ele, que já foi exonerado. Um caso muito diferente da primeira denúncia, que implicava diretamente Bolsonaro e Ricardo Barros, e sobre a qual os irmãos Miranda indicaram ter provas e gravações.

O Centrão e os militares

Bolsonaro perdeu muito, e seu apoio deve derreter ainda mais com os escândalos, independente dos resultados das investigações. Mas não perdeu tudo, não terá seu fim somente pelas instituições. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), deixou claro que seguirá o ritmo de seu antecessor, Rodrigo Maia, no tratamento aos pedidos de impeachment, e que vai esperar o fim da CPI para tomar qualquer decisão. O prazo para o fim da CPI é 7 de agosto, e ela pode ser prorrogada – e provavelmente será – por mais 90 dias. Isto é, Arthur Lira declarou, apesar dos escândalos, que só irá avaliar a possibilidade de abrir um impeachment em novembro.

Mais importante que Lira e o Centrão, que devem exigir do presidente até as tripas, são os militares, que, como era de se esperar, curiosamente desapareceram das manchetes depois de toda a gritaria midiática sobre a instauração da “anarquia militar” e o “fim da disciplina e hierarquia” com a não-punição de Pazuello. Como venho insistindo, a relação entre os militares e o presidente é dual: por um lado expressa uma unidade, cimentada nos postos pelos quais o Partido Fardado assegurou seu retorno ao poder; mas a unidade é contraditória, na medida em que pretendem manter tal retorno a despeito do presidente. Tendo em vista que com um eventual impeachment não perderiam suas posições, só ganhariam mais uma, e que com alguma facilidade poderiam acomodar seus interesses junto a parte da atual oposição, o muito promulgado cenário em que os militares moveriam um golpe em defesa de Bolsonaro é improvável – o que não significa, no entanto, que estaremos muito melhor se derem uma “luz verde” ao impeachment. De qualquer forma, enquanto a situação for cômoda, enquanto seus assentos forem tranquilos, enquanto o povo não se impuser, permanecerão onde estão, protegendo Bolsonaro como a mãe protege o filho e, como mafiosos, colhendo os benefícios de sua proteção.

Assim, a via institucional se encontra um tanto embargada; pelo apoio que Bolsonaro mantém no Congresso, pela lentidão da própria CPI, pelas ameaças de uns e medos de outros, pelo próprio interesse estúpido de crer que desgastar o presidente e esperar por 2022 é mais seguro.

As manifestações

Somente a incontrolável demonstração da força popular, irrefreável pelos calendários de revogações e eleições, pode ampliar o desgaste do presidente e forçar um fim ao governo que encerrou meio milhão de vidas. Somente ela, também, pode enfrentar qualquer que seja a disposição do Partido Fardado: quem tem apoucado a importância das ruas, as submetendo ao calendário eleitoral, necessariamente subdimensiona o risco militar.

As próprias reações de Bolsonaro após as manifestações demonstram o seu incômodo. No dia do primeiro ato, 29 de maio, publicou nas redes sociais que “temos um governo que acredita em Deus, deve lealdade ao seu povo e respeita os seus militares. Mais do que obrigação e dever, tenho certeza que vocês vão atuar dentro das quatro linhas da Constituição, se necessário for”. Dizia-se, na foto que acompanhou a postagem, “imorrível”. Declarou depois que as manifestações foram pequenas, mas no dia 2 de junho, quatro dias após os protestos nacionais, fez um pronunciamento obviamente destinado aos pequenos comerciantes e à burguesia, enaltecendo e lembrando das pautas e reformas econômicas de Guedes e se distanciando, no que tange à pandemia, do discurso habitual; era agora um defensor da vacinação, o responsável pelo auxílio emergencial, mais um coração em prantos por cada morte. Foi respondido por um vultoso panelaço em várias cidades, o que talvez seja a razão para a falta de novos pronunciamentos. Duas semanas depois, um novo general apareceu para fazer ameaças.

Para este sábado (3) estão programados novos atos em todo o País. Ocorrem depois que algumas organizações que compõem a articulação Povo na Rua Fora Bolsonaro tentaram jogar o próximo ato para o dia 24 de julho, numa ação que não pode ser chamada de outra coisa senão boicote. Por meio de uma assembleia, no entanto, a articulação definiu um ato anterior, para o dia 13 de julho – agora adiantado – e a convocação de uma muito necessária greve geral. É fundamental que se um novo boicote for tentado, as organizações menores atropelem a protelação com a convocação de atos mais imediatos: quem tenta impor às manifestações populares o mesmo comportamento de Lira e dos militares, isto é, a paralisia, a eles auxilia. A “unidade” deve ser valorizada, mas ela existe em função da ação: se se esconde o imobilismo por trás do apelo à unidade, esta unidade a nada serve na prática; é uma unidade pela inércia.

Há, além disso, uma novidade já esperada neste sábado: a direita neoliberal, dita moderada, promete comparecer, como fizeram com menos estardalhaço nos atos anteriores. É importante não esquecer que foi essa direita, seja o Movimento Brasil Livre (MBL) ou o PSDB, a maior responsável pela ascensão de Bolsonaro: sua história não está maculada só pelo apoio a Bolsonaro em 2018, mas entrelaçada ao impeachment contra Dilma Rousseff e à ascensão e apoio ao governo Temer. Bolsonaro conquistou o governo sendo precisamente “a expressão máxima, aguda e radicalizada das premissas sob as quais o polo opositor ao petismo se organizou durante o ciclo 2003 – 2015”, e não foi por acaso que esse setor, em 2018, foi enfraquecido pelos resultados daquele ano: “um PSDB que tinha 54 assentos na Câmara em 2014 passou a ter 29 em 2018; um MDB que tinha 66 foi para 34; enquanto o PSL, que em 2014 tinha um deputado eleito, passou a ter 52, sendo o segundo partido mais votado daquele ano (atrás somente do PT, que passou de 69 deputados para 54)”, como escrevi antes. Isto é: foram superados no seu próprio campo, o que explica por que precisam desgastar o presidente e por que, até certo ponto, podem chegar ao ponto de querer desgastá-lo mais do que alas moderadas da esquerda.

Quanto à sua adesão às manifestações, não é problema algum, contanto que sigam sob direção, não dirigindo; que se rejeite qualquer participação destes nas articulações organizadoras (como a Povo na Rua Fora Bolsonaro) e que não se submeta em nenhum milímetro qualquer discussão tática ou estratégica à sua presença. Nestas condições, é perfeitamente possível que tomem parte nas manifestações – em quaisquer outras, não.

Não será o vento que jogará uma pá de cal sobre o governo que cercou-nos de sepulturas, erodiu o País com covas e tornou-se amigo tão íntimo da morte que, acreditando sê-la, se pronuncia imorrível. Será necessário lembrá-lo de que o povo se envenena da disposição dos versos de Nicomedes Santa Cruz, que pronunciou a morte da morte, contra aqueles herdeiros de José Millán-Astray que a veneram:

“Morte, se outra morte houvesse
Que de ti me libertasse
a essa morte pagaria
porque a ti, morte te dera.

[…]

Queria livrar o mundo
de tua macabra missão.
Queria te dar prisão
em um abismo profundo.
Queria, por um segundo,
contemplar-te cara a cara
e que o Cosmos me dotasse
de indestrutível poder
conjugando um verbo Ser
que de ti me libertasse.

Morte, eu te desafio
tua presença não me assusta,
gargalho de tua foice
e de teu ossos eu rio.
Morte, não temo ao frio
que os corações para.
Morte, se outra te matasse,
ao saber-te destruída,
com a prenda mais querida
a essa morte pagaria.”