Racismo influencia brancos nos EUA a apoiarem invasões militares a outros países, aponta estudo

O estudo aponta que o racismo nos EUA tem um efeito superior sobre todas as variáveis quando se trata de apoio a invasões em outros países. Por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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(Foto: Alisdare Hickson)

Norte-americanos brancos com crenças e sentimentos racistas têm maior propensão a endossar intervenções militares contra nações estrangeiras caso os residentes desses países sejam lidos como não-brancos. É o que conclui um estudo do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Delaware acerca dos efeitos do preconceito racial de cidadãos dos EUA sobre sua política externa.

Comandado pelos professores David Ebner e Vladimir E. Medenica e divulgado pelo portal The Conversation, o estudo é pioneiro em mapear comportamentos públicos de norte-americanos brancos e correlacioná-las com suas visões a respeito de questões internacionais, uma vez que a relação entre raça e opiniões sobre assuntos domésticos já é algo conhecido entre os pesquisadores. Durante a corrida presidencial de 2016, uma série de estudos sugeriram, por exemplo, que indivíduos com altos níveis de animosidade racial tenderam a apoiar fortemente Donald Trump. Segundo o The Washington Post, a divisão partidária dos brancos entre democratas e republicanos se acentuou mais na eleição de 2016 do que em 2008 e 2012 – quando foi eleito um presidente afro-americano, Barack Obama –, e estímulos relacionados à raça impactaram de modo diferente apoiadores e opositores de Trump, como no debate sobre política habitacional.

Contudo, os estudiosos deram menos atenção à forma como o ressentimento racial pode influenciar as percepções do eleitorado sobre temas internacionais. Uma das possíveis explicações é a falta de interesse do eleitor médio por assuntos de outros países. De acordo com uma pesquisa encomendada à Gallup pelo Council on Foreign Relations (CFR) e pela National Geographic Society (NGS), norte-americanos adultos apresentam lacunas em seus conhecimentos gerais sobre geografia – os entrevistados responderam corretamente apenas em torno metade das perguntas e só 6% acertaram, ao menos, 80% delas. Por outro lado, os principais cursos de relações internacionais dos EUA costumam tratar a discussão racial como uma perspectiva de menor importância.

Ainda que se saiba, após décadas de pesquisas, que eleitores democratas e republicanos mantêm atitudes estáveis ​​e coerentes quanto aos temas estrangeiros, diversos assuntos internacionais são mencionados durante campanhas eleitorais – seja em termos gerais, seja por referência a um país ou região específicos. Além disso, o interesse popular dos norte-americanos por política externa costuma crescer quando há a escalada de tensão entre os EUA e outros países, como Irã e Coreia do Norte. Nesse contexto, o impacto da opinião pública pode influenciar decisões políticas.

Ressentimento racial

Com base nos dados coletados pelo American National Election Study (ANES), David Ebner e Vladimir Medenica examinaram as respostas de norte-americanos brancos a pesquisas de opinião pública de 1986 a 2016. O foco da análise foram as perguntas feitas para avaliar o preconceito contra negros entre os entrevistados, mensurado a partir de uma escala de “ressentimento racial”. Essa variável visava originalmente captar percepções preconceituosas sobre a população negra, como, por exemplo, duvidar da ética de afro-americanos nos ambientes de trabalho.

Embora os dois estudiosos ressaltem que, nas últimas décadas, a população branca se tornou menos disposta a expressar visões explicitamente racistas, tal qual se opor a casamentos inter-raciais, outros tipos de pontos de vista discriminatórios persistem. Nesse sentido, como destacam os pesquisadores no site The Conversation, pessoas brancas com comportamentos antinegros tendem a enxergar de forma negativa as demais minorias não-brancas dos EUA, tais quais árabes, latinos, asiáticos e imigrantes em geral.

No estudo, foi também levado em consideração um conjunto de fatores que influenciam as percepções das pessoas sobre política externa, como renda, gênero, nível educacional, serviço militar, ideologia, filiação partidária e a atenção relatada pelos entrevistados ao noticiário político. Para os pesquisadores, o ressentimento racial tem um efeito superior sobre todas essas outras variáveis e foi considerada uma variável independente, que permanece constante em todo o estudo.

Assim, a partir das respostas dadas ao ANES, os pesquisadores Ebner e Medenica examinaram o interesse do público a respeito de temas como o programa nuclear iraniano, a Guerra ao Terror, o Estado Islâmico, a crise de refugiados da Síria e o impacto militar e econômico da China como potência global. Foi com base nos dados dos levantamentos de 2012 e 2016 que se constatou a correlação entre atitudes racistas e o apoio dos brancos às intervenções militares dos EUA no exterior.

Enquanto, por exemplo, apenas 15% dos brancos considerados menos racistas no estudo concordam com o bombardeio de locais suspeitos de desenvolvimento nuclear no Irã, essa cifra salta para 35% entre os brancos com atitudes racistas. Da mesma forma, norte-americanos racistas são mais favoráveis à continuação da Guerra ao Terror e ao engajamento militar contra países islâmicos do que a população branca em geral – respectivamente, 46% e 41%.

Sinofobia e racismo na América

Na última década, a segunda potência econômica global em ascensão tem povoado com maior intensidade o imaginário do racismo nos EUA. No levantamento de 2012 realizado pelo ANES, a China representava uma “grande ameaça” militar para 28% dos 3.196 norte-americanos brancos entrevistados. Especificamente entre os brancos racialmente ressentidos, 36% deles enxergaram a China dessa forma.

Já no levantamento de 2016, as mesmas perguntas da pesquisa sobre a China foram respondidas por 3.505 brancos. Para 45% deles, a nação asiática era vista como uma “grande” ameaça para os EUA. Somente 11% dos norte-americanos brancos acreditavam que a China não representa uma ameaça.

Constatou-se que, em 2016, os brancos considerados racistas tinham 20% mais propensão a ter uma visão negativa sobre o país asiático do que os demais brancos. Para os pesquisadores, essa diferença de percentuais evidencia como o racismo nos EUA interfere na percepção geral sobre a China.

Na comparação entre os dados desses dois anos, Ebner e Medenica destacam que uma porcentagem bem maior de norte-americanos passou a classificar a China como uma ameaça em 2016 do que em 2012. O governo de Donald Trump, marcado pelo aprofundamento do antagonismo contra a nação asiática, contribuiu para consolidar essa tendência. Segundo uma pesquisa Gallup de 2020, 22% da população norte-americana vê a China como a principal inimiga dos EUA. A China é o país mais citado nos levantamentos anuais da Gallup desde 2014.

Por mais que o risco de um conflito violento entre norte-americanos e chineses seja encarado como relativamente baixo por militares de alto escalão dos EUA, a disputa geopolítica e econômica entre as duas potências impacta na interpretação da China como uma grande adversária mundial. Essa compreensão vem alimentando crenças antiasiáticas entre os brancos, que por vezes atacam as comunidades asiático-americanas como bodes expiatórios.

Ódio contra asiáticos em alta

Como sintoma desse fenômeno, uma onda de xenofobia e violência tem varrido os EUA nos últimos anos, agravada desde o início da pandemia de Covid-19, em um contexto no qual o presidente Trump culpou a China pelo surgimento do novo coronavírus, chamado por ele próprio de “vírus de Wuhan”, “vírus chinês” e kung flu. “Quando o presidente Trump começou e insistiu em usar o termo ‘vírus chinês’, vimos que o discurso de ódio realmente levou à violência”, afirmou chefe do Departamento de Estudos Asiático-americanos da Universidade Estadual de São Francisco, Russell Jeung, que criou o site Stop AAPI Hate para contabilizar denúncias de assédio, discriminação e ataques violentos. Desde seu início em 19 de março até fevereiro de 2021, a organização de Jeung registrou 3.795 incidentes de discriminação antiasiática nos EUA.

Já uma pesquisa realizada pelo jornal USA Today mostrou que 17% dos asiáticos-americanos entrevistados alegaram ter sofrido alguma importunação física, sexual ou verbal. Essa margem, no ano anterior, era de 11%. Por outro lado, pessoas que consomem notícias de direita costumam banalizar o problema do racismo antiasiático, conforme sugere outra pesquisa, conduzida pelo professor do Programa de Sudeste Asiático da Universidade Cornell, Thomas Pepinsky.

O preconceito contra asiáticos encontra respaldo institucional quando as próprias políticas internas dos EUA estimulam a hostilidade e a desconfiança. Cientistas de ascendência chinesa, incluindo cidadãos norte-americanos, se tornaram alvos de expurgos governamentais desde o lançamento, em novembro de 2018, da Iniciativa China pelo Departamento de Justiça, anunciada como uma tentativa de investigar a espionagem econômica chinesa. Sob esse pretexto, o Departamento de Justiça monitorou indivíduos, universidades e empresas com laços com a China, processou chineses sob a acusação de roubo de segredos comerciais e recorreu agressivamente a leis para investigar pessoas interessadas em obter propriedade intelectual norte-americana.

Em fevereiro de 2018, o diretor do FBI, Christopher Wray, descreveu “toda a sociedade chinesa” como uma ameaça à segurança nacional dos EUA. Durante uma audiência da Comissão de Inteligência do Senado, Wray disse que a China está tentando se tornar uma superpotência global por “meios não-convencionais”, como uma suposta “infiltração” no meio acadêmico por meio de professores, estudantes e cientistas. Esse tipo de declaração mobiliza o perfil racial do asiático como inimigo interno, instigando, por exemplo, que universitários chineses nos EUA sejam atacados como “quintas-colunas”.

Em sua análise, os professores David Ebner e Vladimir E. Medenica também chamam a atenção para o ciclo vicioso que envolve o preconceito antiasiático e o apoio à pressão política e militar máxima da Casa Branca sobre a China. A ofensiva cada vez mais ativa de Washington contra os chineses, por sua vez, retroalimenta a animosidade racial entre os brancos norte-americanos. Tal quadro é tão somente a mais nova versão dessa relação entre racismo doméstico e intervencionismo estrangeiro, com consequências imprevisíveis para além das fronteiras dos EUA.