Seis formas pelas quais o bloqueio dos EUA faz os cubanos sofrerem

O bloqueio de 60 anos é um ato de guerra de uma nação com PIB de 20 trilhões de dólares para sufocar uma ilha com PIB de 100 bilhões. Por Chris Banks | Liberation - Tradução de André Marques para a Revista Opera

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(Foto: Joost Nuijten)

Os Estados Unidos, um país com economia de 20 trilhões de dólares, está travando uma guerra econômica em grande escala contra uma ilha cuja economia é igual a metade de 1% desse valor — Cuba. A guerra está acontecendo há 60 anos. Ela começou pouco depois da revolução de 1959, para punir Cuba por tomar controle das corporações dos capitalistas ricos dos Estados Unidos que brutalmente exploraram o povo cubano por décadas. Apoiadores da revolução cubana chamam essa guerra econômica de bloqueio, não de “embargo” como a mídia corporativa. Isso porque o governo dos EUA impede não apenas seus próprios cidadãos e empresas de negociar com Cuba, mas também proíbe o comércio com entidades estrangeiras que também comercializem com Cuba. Em essência, os Estados Unidos fazem empresas escolherem entre fazer negócios na economia de 20 trilhões de dólares dos Estados Unidos, ou em Cuba. Aqui estão seis formas pelas quais esse cruel bloqueio afeta profundamente as vidas dos cubanos. 

1 – Importação de alimentos

Embora uma das grandes prioridades do governo cubano seja atingir a autossuficiência alimentar, por enquanto é preciso importar 70% dos seus alimentos. Washington considera que isso é um ponto de vulnerabilidade.

Manter os cubanos com fome é visto pelos Estado Unidos como uma arma fundamental em seu arsenal. De 1962 a 2000, os Estados Unidos proibiram completamente a venda de alimentos dos EUA para Cuba. No começo dos anos 90, quando Cuba perdeu seus aliados soviéticos e do Leste Europeu, Washington sentiu cheiro de sangue e apertou o bloqueio, pela lei Torricelli de 1992 e a lei Helms-Burton de 1996. O resultado pretendido era desnutrição em larga escala. A ingestão de calorias na ilha caiu um terço durante aquela década. Contra todas as probabilidades, Cuba sobreviveu e encontrou novas fontes de alimentos.

Com o fracasso da estratégia dos EUA de tornar a ilha submissa pela fome e o agronegócio dos EUA pedindo pela normalização com Cuba para que eles pudessem entrar no seu mercado, os EUA finalmente criaram uma exceção em 2000, permitindo certas vendas de alimentos. A pegadinha: Cuba seria forçada a pagar “em dinheiro adiantado”. Nenhum outro país é forçado a entregar dinheiro antes mesmo das mercadorias serem carregadas num navio. Com os vendedores de alimentos dos EUA proibidos de estender crédito para os compradores cubanos, a compra de grandes volumes de alimentos é difícil e algumas vezes impossível, tornando o mercado dos EUA inacessível. Cuba é, então, forçada, por estratégia, a pagar altos preços em mercados geograficamente mais distantes. De 19 de abril a março de 2020 (pré-Covid), o custo adicional disso para Cuba foi de 430 milhões de dólares.

2 – Agricultura

Os Estados Unidos buscam realizar sua política de causar fome de outras formas: utiliza o bloqueio para mutilar o sistema agrícola de Cuba, sendo um obstáculo para a possibilidade de atingir a autossuficiência alimentar. O bloqueio dos EUA significa uma deficiência crônica de maquinário, de peças sobressalentes, fertilizantes, combustível, materiais para irrigação e outras tecnologias necessárias para desenvolver a agricultura. Dessa forma, Cuba não consegue atingir seu potencial agrícola total.

Mais da metade das terras aráveis de Cuba permanecem sem cultivo devido aos desabastecimentos. Áreas cultivadas frequentemente dependem de humanos ou animais para arar e realizar outros trabalhos, ao invés de máquinas, reduzindo drasticamente o rendimento e a produtividade das colheitas.

Em 2019, a administração Trump adotou novas medidas para prejudicar o abastecimento de petróleo a Cuba, vigorosamente rastreando e aplicando sanções às empresas e navios ao redor do mundo que transportavam combustível para Cuba. 27 empresas, 54 embarcações e três outros indivíduos foram sancionados pelo “crime” de abastecer Cuba com combustível, nenhuma delas de origem nos EUA ou sob jurisdição dos EUA. Naquele ano, por conta do desabastecimento de combustível, Cuba foi incapaz de plantar 12,399 hectares (30,639 acres) de arroz, o que significa que 195 mil toneladas de comida não foram produzidas. Quase 500 toneladas de carne não coletadas.

3 – Falsas acusações de “patrocinar o terrorismo”

A administração Trump adicionou novamente Cuba na sua espúria lista de países que “patrocinam o terrorismo”. Essa é uma mentira ultrajante feita com o objetivo de sujar a reputação de Cuba pelo mundo e desencorajar ainda mais o comércio com o país. Na verdade, quando o assunto é qual país patrocina o terrorismo, o inverso é que é real.

O povo de Cuba sofreu 3.478 mortes por conta do terrorismo patrocinado pelos Estados Unidos e teve 2.099 pessoas feridas. A acusação de que Cuba se recusa a cooperar com os Estados Unidos para lutar contra o terrorismo demonstra-se falsa principalmente no caso dos “Cinco Cubanos”. O governo cubano deu aos Estados Unidos informações coletadas por cinco cubanos que haviam se infiltrado em grupos terroristas sediados em Miami. Os EUA prenderam os cubanos antiterroristas, os sujeitou a um tribunal arbitrário e os condenou à prisão por até 16 anos.

4 – Saúde

O sistema de saúde universal, preventivo e comunitário de Cuba não é somente mundialmente renomado, mas também um alvo primário do bloqueio dos EUA. De 1964 a 1975, os EUA proibiram toda venda de medicação, equipamentos médicos, suprimentos e tecnologia para Cuba. A partir de 1975, licenças especiais poderiam ser concedidas pelo governo dos Estados Unidos “caso a caso”. No entanto, para conseguir uma licença especial, você teria que atravessar o Departamento do Tesouro, o Departamento do Comércio, o Departamento de Estado e, finalmente, o Departamento de Defesa. Um terceiro teria então que “verificar” a chegada das mercadorias e uso em Cuba. Essa é a política hoje. Na prática, nenhuma grande empresa nos Estados Unidos está disposta a enfrentar esse processo. É um “banimento virtual”. Cuba tenta procurar em outro lugar, mas o bloqueio dos EUA restringe os produtos médicos de outros países também. Se um produto médico é feito fora dos Estados Unidos, porém mais de 10% do valor desse produto médico é derivado dos EUA – partes originárias, componentes ou procedimentos técnicos – então os Estados Unidos proíbem a venda. Se a venda acontecer, haverá repercussões para o vendedor. Porque os monopólios farmacêuticos e médicos dos EUA dominam o mercado global, o acesso internacional de Cuba a vários medicamentos, suprimentos e novas tecnologias é cruelmente negado.

Por exemplo, equipamentos auditivos de última geração e outros equipamentos feitos para ajudar pessoas que tenham deficiência auditiva, como luminárias e alarmes que vibram para os pais quando o bebê chorar, não estão disponíveis em Cuba porque tem muitos “componentes” dos EUA.

As políticas são ainda mais cruéis no contexto da pandemia de COVID-19. Quando Cuba tentou comprar ventiladores pulmonares para salvar vidas de duas empresas suíças, a IMT Medical AG e Acutronic Medical Systems AG, eles foram recusados. Cuba havia feito negócios com elas antes, mas uma empresa sediada nos EUA as comprou e agora, devido ao bloqueio, todas as relações comerciais pararam. 

5 – Finanças

Outro alvo fundamental do bloqueio dos EUA são as operações financeiras e bancárias de Cuba. Para evitar multas e retaliações dos EUA, bancos estrangeiros e instituições financeiras costumam se recusar a processar as transações financeiras cubanas e a fornecer outros serviços.

O principal sistema que abastece as transações rápidas mundial entre bancos é uma gigante rede de mensagens financeiras dominada pelos EUA, chamada SWIFT (Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais). SWIFT é como os bancos em um país transferem dinheiro para bancos em outro país. 40% das transações globais por SWIFT são em dólares dos EUA. Elas devem passar por bancos dos EUA, o que dá aos Estados Unidos jurisdição legal sobre elas.

Isso significa que os Estados Unidos dominam quase metade de todas as transações internacionais, e podem usar essa posição a serviço da sua política externa, inclusive para bloquear países. Portanto, os esforços de Cuba para realizar transações financeiras com países terceiros através do SWIFT são normalmente falhas, o que faz a simples tarefa de pagar pelas coisas ser enormemente complicada.

Adicionando a isso, em 2019, o governo dos EUA alterou as regras do Departamento de Tesouro para reforçar o bloqueio, afetando outra espécie de transação financeira: remessas. Remessas que são enviadas para Cuba por familiares vivendo nos Estados Unidos constituem uma grande fonte de renda para o país. As novas restrições de Washington são planejadas para cortá-las.

As remessas são limitadas a 1.000 dólares a cada quatro meses. Remessas para não-familiares foram extintas. Washington colocou então a Fincimex, a instituição financeira cubana que recebe remessas, numa lista negra, o que significa que os bancos dos EUA estão proibidos de enviar pagamentos de remessas para ela. Esse movimento fez com que a Western Union, a única fornecedora de pagamentos de remessa EUA-Cuba, fechasse suas 407 localizações em Cuba. 

6 – Turismo

O bloqueio dos EUA, feito para falir o Estado cubano, mira no turismo com intensidade especial porque é a segunda maior fonte de renda do país. O turismo gera 500 mil empregos, ou cerca de 1 a cada 10 dos empregos em Cuba. Antes das perturbações causadas pela pandemia de coronavírus, quando o governo cubano fez uma decisão pela saúde pública e suspendeu o turismo, Washington estava ocupada impondo novas medidas sob o bloqueio para esmagar aquela indústria vital.

Em 2019, o governo dos EUA aplicou leis que encerraram quase todas as viagens que não eram por motivos familiares para Cuba, inclusive as viagens “people-to-people” (viagens planejadas a partir de empresas de turismo dos EUA, e com um calendário de atividades educacionais). Navios cruzeiros, aeronaves privadas e corporativas, veleiros e barcos de pesca estão proibidos de irem para Cuba. Voos comerciais e de frete foram suspensos para todas as cidades exceto Havana. Em 2019, antes da pandemia, 4.3 milhões de turistas viajaram para Cuba. Em 2020, apenas 1,08 milhões visitaram o país e nos primeiros seis meses de 2021 apenas 125 mil turistas chegaram. Para os visitantes dos EUA que conseguiram entrar no país, o governos dos EUA aumentou suas lista negra de entidades cubanas onde é ilegal fazer compras e incluíram 400 hotéis e residências privadas. Tudo isso é planejado para manter dólares longe das mãos de Cuba.