Transformando memes em dinheiro em El Salvador

A ideia do presidente de El Salvador de abrir o país à Bitcoin não terá efeitos econômicos positivos, mas foi muito exitosa no seu marketing. Por Brett Heinz | CEPR – Tradução de Gabriel P. Melhado

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(Imagem: Estúdio Gauche)

Em 5 de junho, o presidente Nayib Bukele anunciou seus planos de tornar El Salvador o primeiro país do mundo a aceitar o Bitcoin, popular criptomoeda digital, como moeda corrente de curso legal. Apenas três dias depois, a assembleia legislativa nacional, controlada majoritariamente pelo partido de Bukele, o Nuevas Ideas, aprovou a lei. Sob a nova legislação, o Bitcoin deve obrigatoriamente ser aceito como pagamento por todo o setor privado e pelas autoridades fiscais do país. A novidade leva El Salvador a um território inexplorado, albergando riscos que provavelmente suplantam quaisquer potenciais benefícios. Contudo, uma política econômica prudente não parece ser o propósito da decisão. Ao invés disso, a “bitcoinização” foi em parte uma bem-sucedida jogada publicitária, ampliando a massiva presença online que o próprio Presidente Bukele reconhece como vital para seu poder político.

Eleito em 2019, Bukele se apresenta como opositor à elite salvadorenha tradicional. Ele mantém um índice de aprovação de cerca de 90%, em grande parte por atribuir uma recente queda na taxa de homicídios (que começou antes de seu governo) à sua rigorosa política anti crime. Outro elemento importante para sua popularidade é a presença muito ativa no Twitter. Bukele, que antes trabalhou na empresa de relações públicas de seu pai, usa seu perfil no Twitter para compartilhar notícias, memes e postagens de apoio ao seu governo com seus 2,7 milhões de seguidores – um dos perfis de Twitter de chefe de Estado mais populares, levando-se em conta o tamanho da população do país.

A imagem pública cuidadosamente montada de Bukele, fortalecida por trolls pagos e lobistas que o apoiam, permite que ele oculte as semelhanças de seu mandato com o das elites salvadorenhas corruptas as quais ele alega se opor. Em 2020, quando o legislativo se contrapôs a sua proposta de empréstimo destinado a ampliar o financiamento da militarização policial, ele mandou soldados ao Congresso para intimidar os legisladores. Em maio passado, imediatamente após seu partido conquistar a maioria absoluta dos assentos legislativos, ele substituiu o Procurador Geral e cinco juízes da Suprema Corte, medida que a própria Corte declarou inconstitucional. A maioria interpretou o movimento como um assalto ao poder; Bukele o chamou de “limpar a casa”. Enquanto ele afirma que tais iniciativas foram necessárias para combater a corrupção enraizada, o Departamento de Estado dos Estados Unidos acusou vários colaboradores próximos a Bukele de serem corruptos. 

Adentremos o Bitcoin. Defensores do popular ativo financeiro argumentam que sua natureza digital e descentralizada o tornam uma alternativa ideal às moedas tradicionais, tal qual o dólar norte-americano. El Salvador, que usa o dólar como sua moeda principal, servirá agora como um estudo de caso sobre se a criptomoeda pode entregar tudo que promete. 

A despeito da afirmação de Bukele de que o plano “parece à prova de balas”, há muitas razões para duvidar da “bitcoinização” enquanto política econômica. Embora um dos argumentos favoráveis seja o de que esse novo método de pagamento poderia expandir as remessas de salvadorenhos que trabalham no exterior – um fluxo financeiro responsável por um quinto da economia do país –, os benefícios podem estar sendo superdimensionados. Segundo levantamento da Câmara do Comércio e Indústria Nacional, 82,5% dos salvadorenhos dizem não ter interesse em receber remessas por meio do Bitcoin. As pequenas transferências em Bitcoin para o país efetivamente aumentaram após a introdução da lei, mas o acesso limitado à internet em El Savador e o baixo custo das remessas sugerem que elas continuarão a disputar com as transferências em dólar. Caixas eletrônicos de Bitcoin, pensados para ajudar a resolver esse problema, podem acarretar em taxas que para muitos salvadorenhos os tornam não muito melhores que os bancos tradicionais.

Outros argumentam que a lei poderia garantir à economia salvadorenha mais autonomia em relação ao dólar ao introduzir uma moeda secundária, dando mais espaço ao governo para a formulação de políticas independentes. Porém, a despeito do termo “criptomoeda”, estudos sugerem que o Bitcoin “não funciona como uma moeda devido ao excesso de volatilidade” – que chega a ser 10 vezes maior que o das principais taxas de câmbio. De fato, o uso do Bitcoin para escapar do controle de capitais pode até mesmo reduzir as opções do governo salvadorenho para decidir sobre a política econômica.

Os riscos, por outro lado, são significativos. A lei obriga o governo a fornecer “automática e instantânea conversão do Bitcoin para o dólar norte-americano”, o que significa que terá que oferecer dólares de suas próprias reservas para trocar Bitcoins. O Bitcoin é muito instável para funcionar como um ativo de reserva, então cada transação aparecerá nos livros contábeis como uma diminuição das reservas da nação. O FMI demonstrou apreensão em meio às negociações com El Salvador para um novo empréstimo; o mais preocupante é que esse modelo pode amarrar a estabilidade macroeconômica do país ao valor do Bitcoin. Além disso, a criptomoeda tem o potencial acelerar massivamente a lavagem de dinheiro (um problema com o qual Bukele está familiarizado, dizem).

Bukele argumentou: “se 1% [do valor de mercado do Bitcoin] é investido em El Salvador, isso aumentaria nosso PIB em 25%”. Entretanto, isso só ocorreria se 1% do valor do Bitcoin fosse investido no país sem qualquer aumento na produção local de Bitcoin, um processo que demanda intenso consumo de energia elétrica. No dia em que Bukele suscitou esse argumento, transferir apenas 1% dos custos de energia do Bitcoin para El Salvador aumentaria o gasto energético do país de 2019 em 17%. Bukele planeja atender a essa nova demanda por meio da empresa estatal de energia geotérmica. Embora afirme que pelo menos um novo poço já foi cavado para esse fim, a escala da demanda por energia provocada pela nova produção de Bitcoin faz crescer o receio de que a alta dos preços da energia elétrica possa acabar sendo transferida para a população.

Somente cerca de 10% dos adultos em El Salvador estão no Twitter, mas jornalistas salvadorenhos notaram que a mídia não-digital frequentemente amplifica as declarações de Bukele e as espalha extensivamente entre a população. Como disse o próprio Bukele: “Você coloca no Twitter, e a partir daí a mídia assume”. Isso torna sua conta no Twitter uma plataforma poderosa para se comunicar com os eleitores, traduzindo uma forte presença online em uma cobertura midiática mais ampla. Independentemente das intenções de Bukele por trás da “bitcoinização”, o efeito nas redes sociais é inegável. Na semana seguinte à introdução da lei do Bitcoin, Bukele ganhou mais de 120 mil seguidores no Twitter – mais do que havia ganho nas 10 semanas anteriores somadas.

Nos quatro dias transcorridos entre o anúncio da lei e sua aprovação, Bukele tuitou ou retuitou mais de 160 postagens fazendo referência à sua decisão, muitos dos quais eram elogios, vindos de fãs do Bitcoin. Um usuário que foi retuitado o chamou de “o presidente mais inteligente que existe neste momento”. Após retuitar um popular blogueiro de Bitcoin que sugeriu que Bukele acrescentasse olhos com laser em sua foto de perfil (um meme que significa que o usuário é fã de Bitcoin), ele assim o fez, duas vezes; o presidente da Assembleia Legislativa também aderiu. Ao lado de efeitos mais substanciais, a “bitcoinização” trouxe uma nova onda de publicidade positiva para a presidência de Bukele. 

O conteúdo da reação das mídias sociais foi ao menos tão importante quanto sua escala: a “bitcoinização” fortaleceu as tentativas de Bukele de vender El Salvador como um paraíso fiscal para ricos investidores estrangeiros. Justin Sun, um multimilionário do Bitcoin com 2,9 milhões de seguidores, tuitou que “investidores de criptomoeda e empreendedores vão começar a se mudar para El Salvador!”. Bukele respondeu a Sun com uma lista do que considera as maiores atrações do país: “Clima excelente, praias de surfe de primeira, propriedades à venda na beira do mar”, “nenhum imposto sobre a propriedade”, a nova lei de isenção de impostos sobre os ganhos de capital advindos dos lucros do Bitcoin e “residência permanente imediata para empresários de criptomoedas” – num segundo momento naquele dia ele ofereceu “ajudar” investidores de criptomoedas em busca de residências. Sun respondeu: “Fantástico! Fazendo as malas neste momento!”.

Analisar a linguagem utilizada em alguns dos posts que Bukele escolheu compartilhar em seu Twitter é revelador: “Se pudesse comprar ações de um país, compraria El Salvador”, “Empreendedores e investidores estarão nos próximos vôos para El Salvador”, “É assim que se vende um país. É assim que se atrai investimento externo”, e assim por diante. Um retuíte mostrou um pico nas buscas do Google por “imóveis em El Salvador”. O comentarista norte-americano conservador Avik Roy, a quem Bukele retuitou diversas vezes, argumentou que “se [Bukele] for bem-sucedido, El Salvador pode se tornar melhor conhecida como destinação de emigrantes vindos dos Estados Unidos.” Talvez o retuíte mais interessante não tenha elogiado explicitamente a jogada: “Essa notícia de El Salvador também não cria um paraíso fiscal… [?]”.

A ampla e especializada rede online que acompanha o Bitcoin é perfeita para gerar cobertura da imprensa – fato provavelmente conhecido por um ex-profissional de relações públicas versado em tecnologia como Bukele. Ainda melhor, o fato de que grande parte dessa comunidade se identifique como sendo formada por empreendedores autônomos e investidores corrobora a narrativa de Bukele ser o primeiro líder mundial a explorar um novo mercado de investimento estrangeiro, fortalecendo a imagem de seu partido como uma fonte de “Novas Ideias”.

Claro, é improvável que a lei do Bitcoin atraia uma grande massa de investimento estrangeiro, que em geral é guiado por fatores não relacionados a modas passageiras da internet ou a belas praias. Ainda que fosse bem-sucedido, esse modelo que prioriza o investidor tende a fazer pouco para suprir o que é fundamental para o desenvolvimento econômico: serviços sociais básicos, oportunidades de emprego, distribuição da renda nacional e investimentos que estimulem o redirecionamento da cadeia produtiva a atividades de alta produtividade. Mas se tem algo que um chefe de estado da era Twitter sabe fazer é não deixar a verdade atrapalhar uma boa história.