Mais profundamente ou menos, os grandes jornais de todo o mundo são conhecidos ou reconhecidos por seus povos. Alguns ligam os nomes das gazetas aos seus respectivos donos, outros são capazes de apontar as predileções políticas de cada periódico, e há uma gama ainda menor capaz de descrever a importância de um diário específico para eventos históricos de seu país, estado, cidade ou bairro. Dificilmente, no entanto, o público saberá discorrer sobre a infraestrutura global de informações que alimenta os jornais. As agências de notícia, em acordo com seus próprios desejos, mantêm-se ocultas, quase invisíveis, apesar de sua vultosa presença nas mídias de todo tipo e lugar.

Pesquisador de agências de notícia e da Economia Política da Comunicação, o jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Pedro Aguiar, fala em entrevista à Revista Opera sobre o surgimento das agências de notícia, seus laços históricos com o capital financeiro, sua presença ainda centralizadora no mundo, sua ordenação de tipo industrial; sobre a fome do capital por informações e a fome das informações por capital. Mas fala também sobre a história e a continuidade da luta por uma comunicação descentralizada, pelos percalços, boicotes, vitórias e atos heróicos do jornalismo no Terceiro Mundo, da tentativa de criação de uma Nova Ordem Mundial na Informação e Comunicação (NOMIC) e de Armand Mattelart, sociólogo belga que analisou a propagação de uma mentalidade pró-imperialista nos países periféricos no seu famoso Para Ler o Pato Donald.

Revista Opera: O tema das agências de notícia para o público em geral já é uma coisa um pouco desconhecida, e aparentemente na academia existe também uma falta de estudos e interesse por esse campo. Queria que falasse um pouco – até do ponto de vista pessoal – do porquê você se interessou por esse tema e quis se dedicar a estudar as agências de notícia e Economia Política da Comunicação.

Pedro Aguiar: Eu fui estudar agências de notícias porque trabalhei em agências de notícias, fui editor júnior na agência EFE, antes disso tinha sido estagiário na sucursal dela aqui no Rio de Janeiro, que atende aos clientes brasileiros. E enquanto estava lá, costumo dizer que eu saía [do turno] como o Charles Chaplin no “Tempos Modernos”: saindo da linha de montagem com o tique de apertar parafusos. No meu caso saía com os dedos ainda teclando, porque a operação da agência de notícias é basicamente fordista, é análoga a uma linha de montagem fabril no sentido de ter uma operação altamente linear, padronizada e que ganha em economia de escala, ganha mantendo seu custo unitário de produção tanto mais rentável quanto maior for a base de distribuição. A gente tinha que trabalhar sempre em um esquema extremamente repetitivo, contínuo, acelerado, de pegar uma matéria, editar para a publicação dos clientes brasileiros, enviar e pegar a próxima. Então nesse circuito incessante surgem as ideias sobre o que estou fazendo, que tipo de trabalho é esse, que papel esse trabalho ocupa dentro do cenário do mercado de comunicação, especificamente do jornalismo. Isso já me despertou muito interesse.

E aí, quando eu comecei a procurar o que já tinha sido escrito a esse respeito, eu me deparei com duas coisas: primeiro, uma falta de estudos; de fato, no mundo em geral não é um tema que se pesquise muito, e no Brasil parece que há um desdém em relação ao tema entre os jornalistas e pesquisadores do jornalismo, como se não fosse sequer um setor de atuação dos jornalistas digno de ser pesquisado. Já foi um primeiro incômodo. O segundo foi que reparei que o pouco que havia em geral fazia uma abordagem pela economia política, e isso foi interessante, porque era exatamente o que respondia à minha inquietação em relação ao fato de estar trabalhando numa fábrica, uma fábrica atendendo jornalismo, com menos margem para criatividade, experimentação, para mexer com a linguagem, do que há num veículo, em um jornal, revista ou site.

Nisso resolvi investir. Me aproximei da Economia Política da Comunicação (EPC), e uma peculiaridade brasileira é que o campo da EPC aqui é muito voltado para estudar televisão, radiodifusão, regulação da radiodifusão, e pouco para outras áreas de atuação – mesmo o próprio jornalismo impresso é pouco estudado pelo viés da EPC no Brasil. Fiz a minha monografia sobre as então novas ferramentas digitais que poderiam auxiliar a cobertura internacional periférica a não depender dos serviços das agências; como usar essas ferramentas digitais para conseguir fazer matérias de internacional sem ter que usar só conteúdo da Reuters, France-Presse (AFP), Associated Press (AP).

Depois disso, pensei em analisar as agências em si. Apareceu na minha pesquisa preliminar que havia existido todo um sistema de cooperação entre as agências dos países periféricos nos anos 70, exatamente para oferecer um serviço que fosse pragmático, que de fato atendesse à imprensa, e que fosse um contraponto à Reuters, AFP, AP, EFE, DPA, mesmo a TASS e a Xinhua, do bloco socialista. E isso me interessou; foi isso que quis pesquisar, e fui parar em Belgrado, na Sérvia, e tive acesso ao acervo da agência Tanjug, que coordenou essa cooperação; era um pool (colaboração) das agências de notícia dos Países Não-Alinhados, NANAP na sigla em inglês (Non-Aligned News Agencies Pool). E eu esperava chegar lá e encontrar uma biblioteca, com os arquivos: e era um armário de um metro de altura, e tinha lá umas oito pastas e fichários.

Quando cheguei no doutorado, pensei “legal, tratei de um tema que existiu, que funcionou durante um tempo, nos anos 70, antes da internet, agora quero ver como estão as agências de notícia dos países periféricos hoje, no contexto atual”; e fiz praticamente um recenseamento dessas agências, de todas que existem. Pesquisei que serviços elas usam, em que línguas elas operam – inclusive para saber se eram línguas dos colonizadores ou línguas nativas: para o Brasil não pensamos nisso, mas a agência de notícias do Paraguai, a IP, não tem serviço em guarani; a Press Trust of India (PTI) só opera em inglês, sendo um país que tem línguas como guzerate, marata, canará, hindi, bengalês; por outro lado a agência de Botsuana opera em pelo menos seis línguas africanas nativas. Então isso variava bastante. E mais: quantos jornalistas elas tinham, faturamento (dado que não consegui, porque elas simplesmente não revelam), se operavam serviços jornalísticos e não-jornalísticos – descobri que há agências que para sobreviver organizam eventos, alugam seu salão para coletivas de imprensa e organização de eventos, fazem websites [risos]. Então a realidade das agências nos países periféricos é bem diferente, e como falei há pouca literatura acadêmica; e a pouca que tem é quase toda focada na realidade das grandes agências dos países centrais: falam de Reuters, de AFP, AP, Bloomberg… Agora vai falar da Télam, na Argentina; da SLENA, na Serra Leoa; da MCOT, da Tailândia; são realidades distintas que estão nas periferias do sistema-mundo.

Revista Opera: E como eu disse, o público via de regra não conhece, talvez nem saiba como funciona uma transação internacional de notícia da Alemanha para publicar em um jornal no Brasil. Queria que falasse um pouco sobre como surgem as agências, e mais importante do que isso: como elas ganharam dinheiro ao longo da história e como ganham hoje?

Pedro Aguiar: Não me surpreende que o público desconheça, porque as agências são historicamente empresas que prezam pela discrição e pelo sigilo. Eu detesto esses termos corporativos, mas tem uma “cultura organizacional” do sigilo; não divulgam os dados. Mesmo os pesquisadores que fazem até história institucional – ou seja, agências contratam historiadores para irem nos arquivos e fazer um livro sobre a agência –, mesmo esses pesquisadores não têm acesso a tudo, têm dificuldade em dar números sobre faturamento, informação sobre quem são os clientes, etc.

Elas são um modelo de negócios intracorporativo, “business to business“, não atendem ao público final, mas sim pessoas jurídicas, que são os próprios veículos de mídia, mas também muitas empresas não midiáticas – muito do setor financeiro, mas também órgãos de Estado (órgãos públicos, embaixadas, consulados, instalações militares) podem assinar o serviço de agências de notícias para ter informação mais rápida, sem esperar pela publicação na mídia e sem passar pelo filtro dos jornalistas que estão na mídia, ou seja: ter acesso ao conjunto de informações no atacado, não no varejo. Investidores financeiros e órgãos estratégicos de Estado têm interesse nisso, e o grande público, em forma geral, não tem. Quando atendem pessoas físicas – e há algumas – estamos falando, aí sim, da elite máxima, alta burguesia, proprietários de meios de produção que podem pagar somas vultosas para serem assinantes individuais dos serviços das agências.

Então a origem das agências está extremamente relacionada a esse processo: de atender, por um lado, ao mercado jornalístico, especialmente no início, no século 19, os jornais; e por outro lado, que não é nada desprezível, ao mercado financeiro. Eu tenho aqui alguns livros sobre história das agências; todos são gringos, todos são estrangeiros. Tirando os livros que são de autores assumidamente marxistas, todos os outros contam a história das agências como se fossem fruto do gênio individual de certos indivíduos, certos homens na Europa Ocidental de meados do século 19. E não é assim. Temos que considerar as condições históricas objetivas que permitiram e que criaram a demanda para o surgimento de um setor de fornecimento em atacado de informação. É a ascensão definitiva da burguesia; as revoluções liberais de 1830 a 1848; o fim do modelo absolutista de Estado que inclusive censurava a imprensa; o estabelecimento da liberdade de imprensa como uma liberdade comercial, de explorar o mercado da informação e o público: isso tudo é fundamental. É claro que, dentro disso, de fato houve movimentos individuais que levaram à criação do modelo, mas se não fosse uma ou outra figura, teria aparecido de qualquer maneira, tanto que pipocaram várias agências diferentes na Europa Ocidental por essa época, anos 30 e 40 do século 19.

O primeiro deles teria sido Charles-Louis Havas, que era um financista; um cara que estava acostumado a investir em comércio. Tinha morado em Portugal e trabalhado com importação de algodão de Pernambuco para Portugal no finzinho do período colonial – 1806, 1807. Quando há a invasão napoleônica contra Portugal, em 1808, como francês morando na cidade do Porto, ele sai, volta para a França, se instala em Ruão – ele era da Normandia, do norte da França, e estava acostumado a lidar com comércio marítimo, então fica sempre em cidades portuárias, Ruão, Le Havre, tudo por ali. E então ele ganha dinheiro com comércio e começa a virar um dos burgueses que financiam as campanhas do Napoleão. Quando aprendemos no colégio que Napoleão expandiu o ideário burguês pela Europa… Sim, mas tinha que ter dinheiro para isso, para pagar os soldos dos soldados, armas, e de fato a burguesia ascendente financiou. O Havas era um desses caras; sócio de um sujeito chamado Gabriel-Julien Ouvrard, que também era do mercado financeiro e concorrente dos Rothschild.

O Ouvrard começou a entrar no mercado financeiro, na bolsa, fazendo o que hoje se chamaria de investimentos futuros, apostas para comprar ações que iriam subir ou descer. E ele tinha acesso a informação privilegiada de dentro do Estado francês, do império do Napoleão, e eles, sabendo que se tratava de um ciclo de ascensão, ao menos até a invasão da Rússia, começaram a ganhar dinheiro com isso, e Havas começou a investir em jornais. Assim foi até a Batalha de Waterloo. Quando houve a derrota definitiva do Napoleão, os dois perderam muito dinheiro, e o Havas, que tinha menos reservas, foi à falência. A partir dessa falência ele começa a procurar o que fazer para voltar a ter capital, e o que ele faz é usar a rede de relacionamentos – de novo trazendo uma palavra extemporânea, o “networking” [risos] – para que remetessem jornais de diferentes lugares da Europa para ele, que centralizaria tudo em seu escritório em Paris, onde traduzia para o francês, para vender tanto para os jornais parisienses quanto para os investidores da bolsa. Tanto que ele instalou seu escritório na Place de la Bourse, a Praça da Bolsa. Ou seja: mudou regime, Napoleão ganhou, Napoleão perdeu, mas a bolsa de valores continua funcionando, o capital financeiro não descansou [risos].

Ele não inventou completamente o modelo, já existiam as chamadas correspondências privadas, que faziam esse tipo de recepção e tradução de jornais, mas ele inovou em fazer isso de uma forma contínua, montando a sua clientela e tendo uma relação extremamente estreita com o Estado, porque aí ele começou a fornecer para os órgãos do Estado francês, já da monarquia Bourbon restaurada. Então ele passou por todo o período das revoluções liberais – revolução de 30, jornadas de junho, e agitações, até 1848, quando ele recebe dois prussianos exilados. 

E aí é interessante porque chegamos perto de Karl Marx, porque Marx também era um prussiano exilado em Paris por essa época, e havia toda uma comunidade de exilados de origem alemã em Paris com matizes ideológicos diversos, que iam dos protocomunistas e socialistas utópicos até os liberais. E havia um desses sujeitos, Sigmund Engländer, que fazia parte do círculo pessoal do Marx e também do círculo pessoal de um judeu chamado Israel Beer Josaphat, que era filho do rabino de Kassel, na Alemanha, que estava morando em Paris e foi trabalhar com o Havas. Israel, por falar francês, alemão e ter aprendido inglês, depois de aprender o ofício com o Havas, resolveu montar o próprio escritório, e nessa mesma época estava acontecendo a ligação do telégrafo elétrico conectando diferentes cidades europeias. Ele identificou um ponto onde ainda não havia conexão, entre Bruxelas e a cidade de Aachen. Ele se instala em Aachen para fazer algo como a “última milha”, porque os cabos não tinham conectado esse último trecho, usando pombos-correio. E ele conseguiu ganhar dinheiro transmitindo informações, especialmente econômicas. Conseguiu juntar capital e se mudou para Londres. Lá ele quis se inserir na sociedade londrina, especialmente para fazer contatos junto ao mercado de capitais; se converteu ao cristianismo e mudou de nome para Paul Julius Reuter, transformando sua nova empresa, com o nome de Mr. Reuter’s Telegraph Office (Escritório Telegráfico do Sr. Reuter). Aos poucos esse apóstrofo se perdeu e isso virou a agência Reuters.

Um outro prussiano que tinha trabalhado com o Havas foi Bernhard Wolff, que era jornalista e livreiro de carreira e que também fundou um jornal na Alemanha, em Berlim. Fez a mesma coisa: aprendeu o ofício com o Havas e voltou para sua cidade, depois da revolução, em 1849, e fundou a agência Wolff. Ao longo do resto do século 19 essas três agências, Havas, Wolff e Reuters, ganharam dinheiro vendendo informação especialmente para investidores do mercado financeiro. Estamos falando de bancos, de fundos de investimento, de seguradoras. O que uma seguradora faz? Ela tem que ter uma capacidade preditiva o mais fácil possível, então tem que ter informação sobre a realidade para saber se paga prêmio, como precifica uma apólice, etc. Então esse segmento foi o principal mercado para a sustentação financeira das agências. Em segundo lugar vem a imprensa. A imprensa dava visibilidade, dava prestígio, mas não dava tanto dinheiro. E o terceiro agente político com quem as agências sempre tiveram uma relação muito forte era o Estado. Então mais adiante, Otto Von Bismarck vai se aproximar do Wolff, fazer acordos, tenta inclusive uma estatização da agência Wolff – não consegue, mas ao menos cria subsídios para sustentá-la como uma espécie de órgão paraestatal alemão. O governo britânico faz coisa parecida com a Reuters, a usa como uma espécie de diplomacia paralela do império britânico; e ela vai aproveitando a instalação dos cabos telegráficos ao redor do globo, muitos deles indo na mesma direção das demandas coloniais – depois que cabeiam a Europa, vão para a Índia, cruzando o Oriente Médio. Porque pense do ponto de vista do administrador colonial: uma coisa era ter que esperar meses de trânsito de navio para receber uma informação do seu preposto colonial perguntando “O que eu faço? Está tendo uma revolta de sipaios!” e o governo da sede do império iria responder. Com o telégrafo, é muito mais rápido, conseguiam dar respostas para a administração colonial do império com muito mais facilidade, e a Reuters agiu nisso – tanto que ela abriu escritórios em basicamente todos os lugares onde havia colônias britânicas.

Essas agências dividem o mundo. Primeiro fazem um acordo para trocar informações sobre suas respectivas bolsas de valores, com cada uma cuidando de uma bolsa e enviando para as outras. Começaram com esse acordo e perceberam que conseguiam poupar recursos e explorar melhor os seus mercados se fizessem divisões territoriais de atuação exclusiva. Então de fato elas fizeram um cartel – isso começou em 1859, e depois vão fazendo vários termos aditivos para dividir o mundo inteiro. Dividiram basicamente nas linhas de divisão imperialista, até mais ou menos 1874, onde a última parte que faltava era justamente a América do Sul, quando há a inauguração do cabo telegráfico submarino que vem de Lisboa, passa por Cabo Verde, chega a Recife, e de lá distribui ao longo do litoral brasileiro. Na América do Sul elas fazem uma joint venture (empreendimento conjunto) entre a Havas e a Reuters. E esse cartel durou até a década de 1930: em 1934 é o fim oficial desse esquema de cartel, que acabou precisamente pela pressão das agências dos Estados Unidos.

Revista Opera: É interessante que em uma das suas pesquisas, creio que na “Marx explica a Reuters“, você diz que esse modo de produção fordista nas agências de notícia de certa forma antecede o fordismo em si, e que essa cartelização também antecede ao menos um ordenamento oficial dos cartéis imperialistas, em algo como 20 anos. Isso é interessante porque à primeira vista não pensamos que o ordenamento do fluxo de informação e o desenvolvimento das agências de notícias teriam essa importância, quer dizer, o capitalismo precisa de informação, de alguma forma. Queria que falasse sobre isso, o papel que esse esquema das agências e o fluxo de informação cumpre para o desenvolvimento capitalista mesmo… Porque é algo meio vanguardista; estavam com um modo de produção fordista e cartelização antes.

Pedro Aguiar: Isso é fundamental. As agências de notícia são parte intrínseca do processo de industrialização. De fato são uma manifestação da revolução industrial no setor da comunicação, talvez inclusive a primeira, antes mesmo da industrialização dos jornais, que demoraram a ter prensa rotativa e prensa a vapor; processos que vão começar na virada do século 18 para o 19, mas que demoram a se espalhar para o mundo – os jornais aqui no Brasil usaram prelo manual até o final do século 19.

E elas se antecedem, sim, nisso. O fordismo ao pé da letra, nas fábricas automobilísticas de Henry Ford, acontece pouco antes da Primeira Guerra Mundial… Mas as agências operam dentro de uma mesma lógica de produção linear, padronizada e massificada. É claro que é muito mais fácil fazer boletins de imprensa do que carros. Mas a lógica que  permeia a produção de ambos é idêntica, muito parecida.

Revista Opera: Por outro lado, o boletim de notícia demanda uma infraestrutura muito maior do que a de uma fábrica, por exemplo…

Pedro Aguiar: Geograficamente muito maior, mas em termos de complexidade tecnológica muito mais simples, porque basta estender os cabos de cobre pelo mundo inteiro, enrolados em guta-percha, que é uma resina tipo látex extraída do sudeste asiático.

Bom, é importante olhar esse contexto de industrialização: na Europa Ocidental, nos Estados Unidos, só a partir da Revolução Meiji no Japão. Esse processo vai se espalhando com o imperialismo para o resto do mundo, para as colônias. E havia imprensa nessas colônias, imprensa inclusive gerida pelos colonizadores; os brancos europeus na África mantinham jornais, que eram o meio pelo qual mantinham contato com suas metrópoles e também organizavam suas ações imperialistas. Um imperialista como Cecil Rhodes, na África, que queria ligar o Cabo, na África do Sul, ao Cairo, no Egito; ele não queria ligar só com ferrovia, queria ligar também com o cabo telegráfico. E em muitos casos o modelo de expansão das ferrovias se aliou ao modelo de expansão da telegrafia: em vários países, inclusive no Brasil, impuseram como uma norma do modelo de concessão de linhas ferroviárias que se construíssem junto delas os cabos telegráficos.

E para ir pro modelo norte-americano, que ainda não falamos: nos Estados Unidos as agências tiveram um modelo interessante, que foi inovador naquela época e que depois se tornou hegemônico em outros lugares. Enquanto na Europa tínhamos tido esses “empreendedores individuais” – com muitas aspas –, o que aconteceu nos Estados Unidos foi um modelo de associação de diferentes jornais; depois esses jornais se juntam em conglomerados de imprensa, em associações dos conglomerados, para montar consórcios que fornecessem notícias para todos eles. Que tivessem uma operação centralizada de coleta, captação e apuração das notícias, tivessem um pool de reportagem, mas uma distribuição descentralizada para cada um usar o que recebesse como preferisse. Isso começou em Nova Iorque, em 1846, no início da Guerra Mexicano-Americana, quando os Estados Unidos invadiram metade do México, com seis jornais de Nova Iorque que eles chamavam de Harbor News Association (Associação da Imprensa da Baía), da Baía de Hudson, em Manhattan. E essa associação foi o embrião da Associated Press (AP), que tem esse nome, “associated”, não à toa; de fato era uma associação.

Ela se define até hoje como uma entidade sem fins lucrativos, o que parece meio ridículo, porque é uma gigante multinacional – mas ela se define assim porque ao invés de ter a ideia de ter lucros e dividendos a distribuir, ela diz que na verdade tem um custo de produção e os associados dividem proporcionalmente esses custos. Ou seja: dizem que o que essas associadas pagam pela associação é anulado pelo que recebem de lucros; claro que gera lucros para os associados.

Hoje em dia é uma associação dos grandes conglomerados de mídia dos Estados Unidos – a Disney faz parte da Associated Press; a Gannett, que atualmente é o principal grupo de imprensa; o grupo Knight Ridder; o Cox Media Group. Lá nos Estados Unidos muito do que se criou do chamado “deserto de notícias” é resultado do fechamento de jornais locais por causa da associação a esses conglomerados que são extremamente financeirizados, que dependem de capital financeiro, do investimento feito neles.

As outras agências dos Estados Unidos começam como uma espécie de reação dos outros conglomerados que ficaram de fora da AP; por exemplo a United Press, que começou com o grupo Scripps, depois chamado de Scripps Howard – esse Howard era um dos empregados da United Press que depois virou sócio. Outra foi a do grupo Hearst, figura que inspirou o Cidadão Kane, o William Randolph Hearst. Ele fundou a International News Service, que funcionou separada da United Press e só em 1858 se fundiram, nascendo a UPI, que foi extremamente importante no contexto da Guerra Fria na América Latina, e depois, nos anos 1980, quase faliu, sendo vendida cinco vezes e parando na mão do reverendo Moon, o líder evangélico sul-coreano ultraconservador.

Esse modelo das agências “cooperativas” – não são cooperativas dos jornalistas, é um consórcio empresarial dos conglomerados – é o modelo que predomina hoje na Alemanha, Itália e Japão: a DPA na Alemanha é uma associação dos conglomerados alemães; a ANSA da Itália a mesma coisa, com o grupo do Berlusconi, o grupo do Corriere della Sera; e no Japão a agência Kyodo, que quer dizer a mesma coisa, “imprensa associada”. É interessante porque essa ideia começou a ser ventilada no Brasil no início dos anos 60, no governo do Jânio Quadros, que chamou uma vez para conversar os Mesquita, do Estadão, Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, os Diários Associados e o Correio da Manhã, para que os jornais brasileiros montassem uma agência unificada. Teria sido incrível, mas o Jânio renunciou dias depois e a ideia nunca mais foi adiante.

Revista Opera: Quando a internet surge, ou melhor, quando começa a se popularizar, há uma expectativa, uma esperança, de que ela iria significar uma descentralização da informação, uma democratização da produção e da circulação da informação… E se aponta a ascensão da internet até como uma das razões do declínio dos jornais. Como é a relação da internet com as agências de notícia? Esse fluxo de informação foi impactado? Porque continuamos vendo a Reuters e a AP nas manchetes [risos].

Pedro Aguiar: Teve um impacto. A relação no início não foi muito conflituosa nem ameaçadora, porque as agências se informatizaram cedo. Na década de 70 elas já estavam usando mainframes, grandes computadores, para informatizar a sua capacidade de distribuição de serviços informativos. A redação continuava com máquina de escrever, mas o setor de distribuição já estava informatizado.

Depois, nos anos 80, eles começaram a informatizar as redações. E aí quando a internet se torna acessível, especialmente por conta da web – que é a interface gráfica, vamos lembrar que nos anos 80 estamos falando de puro texto – elas não se assustam, porque já estavam com sistemas digitais de distribuição para seus clientes usando intranet, redes de acesso fechado. A Reuters já fazia isso, especialmente com o mercado financeiro, mas quem começou em 1982 a fazer esse serviço de tráfego de informação em tempo real da bolsa de valores para os clientes foi a Bloomberg – não é à toa que o Michael Bloomberg chegou a virar prefeito de Nova Iorque, ser quase duas vezes presidenciável. Esse cara poderia ter sido presidenciável mesmo do Partido Republicano, não teria havido o Trump… Mas você veja, um cara que é fundador de agência de notícias, o equivalente ao Charles Havas no século 21, e ele poderia ter sido presidente dos Estados Unidos. Então não estamos falando de empresas que não tenham relações com a classe dominante, mas de gente que de fato faz parte da classe dominante, toma uísque com os donos dos meios de produção.

E quando a internet se torna algo no qual todos os jornais têm de participar, e nascem ali os portais na virada dos anos 90 para os anos 2000, muda-se o paradigma da produção de conteúdo. Depois deixa de ser aquela produção de conteúdo centrada nos portais, que eram jardins murados dos quais o usuário não deveria sair, e passa a ser o modelo de web 2.0, do produza você mesmo: você cria a plataforma e o próprio usuário coloca conteúdo lá dentro, é nesse estágio que estamos atualmente. Tudo isso gerou demanda de mercado para as agências, então se você entrar, até hoje, em qualquer portal – UOL, IG, R7, G1 – e for naquela seção de últimas notícias, praticamente tudo o que vem de lá vai ser de agência. Era uma época de produção e republicação tão automatizada, sem um ser humano olhando o que está sendo publicado… Eu me lembro de enviar, da agência, um aviso do tipo “caros clientes, informamos que nesta quarta-feira não teremos informação da bolsa de Bangkok por ser um feriado local”, e isso ir parar na seção de últimas notícias… Uma comunicação interna, da agência pro cliente, mas eles tinham algoritmos de republicação automática. Então isso gerou mercado, de fato, e as agências não se abalaram de início.

O que começou a abalar foi justamente o fato de, a partir de certo momento, parecer que o serviço delas estava sendo republicado tão na íntegra que terceiros, não clientes das agências, passaram a usar – era muito comum você ver um site por exemplo fora do eixo Rio-São Paulo republicando uma matéria internacional que originalmente veio de alguma dessas agências, mas tirado, por exemplo, do G1. Mas o G1 não é uma agência; é um cliente da agência que paga pelo serviço da agência, e esse terceiro não. As agências começaram a perceber que aí estavam perdendo dinheiro, e isso foi um primeiro problema: começaram a apertar o controle sobre a reprodução de seu conteúdo – em texto, mas mais fortemente ainda em foto.

O segundo ponto de conflito das agências com a internet – ou melhor, com as big techs, Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft (GAFAM) – vem do fato dessas cinco gigantes tecnológicas se apropriarem do material das agências e republicá-lo, ganhando dinheiro com publicidade em cima disso. Então as agências em alguns lugares estão enfrentando essas gigantes tecnológicas, fazendo lobby para que os Estados regulem essas gigantes e repassem uma parte do dinheiro ganho com publicidade para as agências. Repare: as agências não estão brigando com a mídia, que é o seu cliente, mas brigando com as gigantes tecnológicas. Isso é interessante, é uma batalha em andamento agora que é interessante acompanhar; está em andamento especialmente na União Europeia e um pouco na Austrália.

Mas as grandes agências não estão ameaçadas, não estão com sua economia frágil; pelo contrário, estão bastante fortalecidas. Agora, as agências de nível nacional ou local, se não forem de nicho, essas sim têm seus mercados ameaçados exatamente pelo oligopólio que as agências transnacionais operam. E essa situação de oligopólio é muito curiosa, porque como a gente viu, desde a história do cartel do século 19, a impressão que dá é que as agências não sabem operar em outra situação que não seja de monopólio, justamente por conta de sua economia de escala. Ela só é rentável se ela tiver uma base de clientela enorme. Como é que você vai ter uma base de clientela enorme se houver ampla concorrência? Você precisa de poucos concorrentes; e atualmente é raro um jornal, mesmo um grande, assinar várias agências – ele escolhe duas ou três, normalmente uma que seja boa em esportes, outra que seja boa em economia, etc. Mas mesmo um grande jornal, como a Folha de S. Paulo ou O Globo, não tem bala na agulha para ter todas as agências do mundo – os jornais do início do século 20 sim. O Jornal do Brasil colocava no alto de sua primeira página: “com os serviços de Havas, Reuters, AP, UP…”, a lista de todas as agências.

Revista Opera: No Brasil nós não desenvolvemos um mercado de agências; para citar uma de suas pesquisas, “nunca houve um mercado nacional expressivo de agências de notícias”, a não ser o mercado de syndication – ou seja, um mercado de redistribuição das matérias dos próprios jornais. A que você atribui isso? Quer dizer, temos um país gigantesco, num ponto importante do continente sul-americano e da América Latina.

Pedro Aguiar: Um primeiro elemento é o nosso patrimonialismo, que existe nessa relação imbricada entre Estado e capital privado. Um pouco aquela frase que atribuem ao Dirceu, cuja fonte seria o Requião, em que disseram para ele: “Dirceu, precisamos criar a nossa própria televisão”, ao que o Dirceu teria dito “nós já temos nossa própria televisão, é a Globo.” Então o patrimonialismo já seria um elemento, o capital privado pensando: “para que vou criar uma estrutura própria de redistribuição de informação, se eu já posso usar a do Estado?”. Esse é um ponto.

Outro ponto é que temos um país com desigualdades imensas com um mercado consumidor de jornalismo que historicamente foi muito pequeno. Até a política de integração pelo consumo do governo Lula, dos governos petistas, tínhamos uma imprensa, de forma geral, voltada para a elite. E para as massas eram os meios de comunicação de radiodifusão, rádio e televisão. Houve um ensaio de mudança nos governos petistas com a criação dos jornais populares – Extra, Meia Hora, Agora São Paulo, Aqui – e os jornais gratuitos, o Destak e o Metro. Esses jornais eram para ser lidos pelas classes C, D e E. Isso faria aumentar o mercado. Se você não tem esse mercado expandido, não há mercado para agências de notícias. Então o desenvolvimento do setor de agências costuma ser muito atrelado à criação de um forte mercado de consumo interno, porque mesmo as grandes agências dão prioridade para seus mercados internos. Era muito claro quando eu trabalhava em uma agência espanhola que a prioridade dela não eram os clientes da América Latina, mas os clientes na Espanha, até para pautar certos assuntos ou dar cobertura a certos personagens – por exemplo, para cobrir Fórmula 1, era basicamente Fernando Alonso de um lado e o resto do outro.

Isso fica muito evidente: a AP tem metade de seus escritórios dentro dos Estados Unidos, a outra metade no resto do mundo; a AFP também é voltada para a França e em segundo lugar para os clientes do resto do mundo – ganha dinheiro com isso, mas a prioridade é o mercado interno. Então não tendo um mercado interno fortalecido no Brasil, já era um pequeno problema. 

Além disso, se criou também uma imagem errada de que as agências são revendedoras de conteúdo, e isso vem lá de trás, e é um modelo que se cristalizou no Brasil, isso que se chama de syndication. As agências que vieram depois – Agência Estado, Folhapress e Agência O Globo – fazem exatamente isso. E atualmente ganham mais dinheiro com foto do que com texto. Elas revendem notícia? Revendem. Mas o que dá renda é revenda de fotografia e de colunas, de colunistas, agenciada por uma agência e revendida para jornais do norte, centro-oeste, sul, que queiram republicar.

Há, como último fator, uma falta de visão estratégica do nosso empresariado. Eu não gostaria de recorrer àquela explicação do Fernando Henrique, dos capitães de indústria, mas me parece que o nosso empresariado realmente não tem uma visão de conjunto, porque mesmo na Argentina os donos do Clarín, do La Nación, do Crítica, chegaram a montar uma agência cooperativa, que era a DYN, que fechou no governo Macri. E era exatamente isso: uma agência dos jornais para fornecer para jornais menores ainda e para o exterior. Em Portugal, a LUSA é uma parceria público-privada em que o Estado português tem pouco mais de 50% das ações e todo o resto são a SIC, o grupo do jornal Público, do Correio da Manhã, etc. Há vários modelos: de consórcios empresariais puramente, o modelo estatal e o modelo de parceria público-privada. E nós aqui não seguimos nenhum destes, não temos de fato uma agência que seja realmente nacional, em que nossa imprensa possa confiar e em que a imprensa estrangeira possa confiar para usar como fonte quando for a hora de cobrir o Brasil. O que a gente viu de desinformação… Quando chegou 2013 os correspondentes estavam todos desorientados, ninguém sabia dar uma interpretação porque não havia uma cobertura contínua de nossa realidade. As agências têm esse fator; a gente conhece os Estados Unidos porque cobrem continuamente; conhecemos França porque a cobertura é contínua. A agência tem esse papel de organizar a circulação de informação primeiro em um nível nacional e depois no nível internacional. E aqui a gente realmente está desprovido disso.

Revista Opera: O que essa centralização na produção, e mais do que na produção, na distribuição da informação, implica em termos de ideologia, representação do país? Por que seria importante um jornal ter um correspondente em cada estado ou ter correspondentes lá fora que não estejam em Nova Iorque para cobrir tudo, em Buenos Aires para cobrir América Latina inteira? Faz sentido ainda falar em imperialismo cultural ou midiático? 

Pedro Aguiar: Faz todo sentido, o meu autor predileto para falar de agências de notícia, o Oliver Boyd-Barrett, acabou de lançar um livro para reforçar o conceito de imperialismo de mídia, então é algo que está plenamente de acordo com o que vemos na realidade empírica de circulação e distribuição de informação. E acho que modelos teóricos que tenham sido pensados em um contexto tecnológico pré-internet não estão envelhecidos no seu cerne conceitual, talvez na análise dos procedimentos, que de fato mudou muito. Não vamos negar, não é possível negar que exista imperialismo de mídia quando a gente tem praticamente toda a mídia dos países periféricos do planeta dependendo dessas três agências que estão sediadas em Nova Iorque, Paris e Londres. Então não é uma impressão [risos].

Ter uma rede de correspondentes é algo muito caro. Você pode escolher entre ter um escritório todo, que tenha uma estrutura, luz, energia, computadores, conexão via satélite; você pode ter um correspondente sozinho, que trabalha de casa mas tem que fazer tudo, é seu próprio produtor, motorista, intérprete; e você pode ter os freelas, os chamados stringers, que são chamados eventualmente quando há alguma demanda de cobertura do local onde estão instalados. As agências usam esses diferentes níveis para escolher o quanto investem em cada lugar. Em cidades nas quais elas sabem que há um mercado local e uma demanda de notícias contínua, elas montam um escritório, um birô ou, no jargão das agências latinas, uma delegação. Em cidades grandes, mas que não têm uma cobertura contínua, elas botam um correspondente. E em cidades especialmente de países mais pobres, que elas quase não cobrem, elas têm contatos de stringers que são acionados de vez em quando.

Quando eu fiz o mapeamento de onde estavam esses correspondentes, foi chocante ver que os stringers estavam praticamente todos concentrados na zona equatorial do planeta, nos países mais quentes; na América Central, Caribe, na África Ocidental, no Sahel, no Chifre da África, e depois essa linha continuava para a Ásia, no sudeste asiático. Eu fiquei muito surpreso. Elas não dão muita atenção para esses países; têm o contato de alguém, “se precisar eu aciono”. E quando você ia para as zonas temperadas e mais perto dos polos, você via a instalação ou de correspondentes físicos ou de escritórios. E essa geografia não é à toa, elas tem um certo preconceito, sim, com esses países. 

E no entanto eu vou defendê-las num ponto, quanto a essa visão sobre os países: quando se diz por exemplo que a mídia não cobre a África, é muito fácil apontar o dedo para as agências de notícias. Quando eu trabalhava em agência eu reparava que tínhamos uma cobertura contínua de África, em basicamente todos os países, e o que acontece é que os clientes que recebiam essas notícias muitas vezes não tinham interesse em publicar. A não ser quando fosse caso de guerra, golpe de estado, crise humanitária. E daí se forma, sim, um conceito no público de que “puxa, é só isso que tem na África”. Claro. Sempre dou esse exemplo para os alunos: você nunca escuta falar do Malawi na sua vida. Quando você escuta, dez anos atrás, é a notícia de uma crise humanitária; cinco anos atrás a de um golpe de estado; hoje de uma catástrofe, você pensa: “só tem coisa errada no Malawi.” Ao longo de dez anos você ouviu três vezes, só coisa negativa, então é claro que acaba formando essa ideia. Mas nesse caso a culpa não é das agências, mas dos veículos, que não têm esse interesse.

E eu digo isso porque muitas das pesquisas que foram feitas nos anos 70 para subsidiar a campanha por uma Nova Ordem Mundial na Informação e Comunicação (NOMIC) foram pesquisas quantitativas, para quantificar quanto das matérias internacionais que saíam nos jornais advinham das agências; nada de África, América Central, Oceania. Mas isso foi medido a partir da agência ou a partir do jornal? Porque se for de jornal há de se acrescentar o filtro que o jornal botou na ponta final do processo. Então não dá pra dizer que a agência não dá a notícia; muitas vezes dá, e inclusive porque ela tem interesses econômicos ali para seus clientes.

Agora, do ponto de vista estratégico de um país, realmente… Eu vou tentar não ser caio-pradista aqui, acreditar em uma burguesia nacional benevolente, mas veja bem: os casos que eu consegui relatar de agências de países periféricos que conseguiram ter uma estrutura e manter a sua distribuição de informação de maneira sustentável ou são de países socialistas – China, Vietnã –, sustentadas por investimento estatal; ou são associações entre Estado e capital privado, por isso disse que queria evitar acreditar nessa quimera da burguesia nacional.

A Notimex, do México, é uma agência grande, sediada na Cidade do México, com correspondentes por todos os estados do México e mais na América Latina, alguns poucos na África, mas tem também na Ásia e Europa, e por que ela se sustenta? Porque ela é estatal, totalmente estatal, mas a imprensa e a mídia privada do México contrata, assina e usa os serviços da Notimex. Não havendo isso é difícil manter uma agência de porte nacional que tenha também serviço internacional.

Eu só vejo isso acontecendo no Brasil se de fato os três jornalões decidissem acabar com suas agências próprias e unificassem as três. E se isso fosse feito em associação com o Estado brasileiro e com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), seria um passo além, mas pensando só numa reunião dos três jornalões, ao invés deles terem correspondentes só no circuito Nova Iorque, Londres, Paris (correspondentes redundantes), eles poderiam ter correspondentes permanentes em Buenos Aires, em Luanda – não estou falando só de ideologia, “nossos amigos africanos”; é interesse econômico brasileiro, diamante, petróleo, mercado consumidor, até Igreja Universal. Temos laços econômicos e políticos com Angola que vêm do século 17. E não temos uma cobertura permanente de lá. Então pensando em termos estratégicos daria para fazer, mas não vejo isso sendo feito; ou é pelo Estado ou por uma aliança do capital privado, ou os dois juntos.

Por enquanto, o que a gente vê em termos de mapeamento de fluxos de informação no sistema-mundo repete o tráfego de mercadorias tangíveis e de transportes. O Atlântico Norte com um fluxo intenso – América do Norte e Europa Ocidental –, um fluxo bem mais recente no Pacífico – América do Norte, China e Japão –, algum fluxo do sul para o norte, e quase nenhum fluxo no eixo sul-sul. O incentivo ao tráfego, tanto de mercadorias tangíveis quanto de transportes e de informação, está atrelado. E eu gostaria de ser otimista, mas cairia na utopia de achar que isso aconteceria somente com boa vontade. O capitalismo se alimenta da concentração geográfica, dentro de um capitalismo global não haverá esse fluxo sul-sul.

Revista Opera: Nós tivemos no bojo da Guerra Fria uma série de processos de libertação nacional, tanto na América Latina quanto na África e Ásia, e esses estados, digamos, nascentes, começaram a fazer suas próprias agências, tivemos o Movimento dos Não-Alinhados, e tivemos a proposta por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação e depois o famoso Relatório MacBride, “Um Mundo e Muitas Vozes” na UNESCO. Uma reunião para propor um novo ordenamento da informação considerando as desigualdades. Como foi essa relação dessas agências nascentes dos países libertados com essa infraestrutura central? E como a NOMIC e o Relatório MacBride foram mortos? Ou, melhor, como um matou o outro? Por que não frutificamos um fluxo mais democrático de informação?

Pedro Aguiar: Começando pelo final: isso remete ao que acabei de falar, de que dentro do capitalismo histórico globalizado, como temos hoje, não haverá fluxo sul-sul de grande porte. Não matizei esse detalhe: fluxo sul-sul existe, mas não numa escala relevante. 

Eu costumava achar, como muita gente de comunicação internacional, que o Relatório MacBride coroou o processo pela NOMIC. A NOMIC foi um processo construído especialmente pelos países periféricos, países descolonizados, que conseguiu emplacar isso na UNESCO, uma esfera de representação legítima que juntava todos os países do mundo – afinal, sistema ONU, muito respeitado e legitimado –, e a Comissão MacBride teria recebido essas críticas feitas pela NOMIC e feito o Relatório MacBride como um ponto, assim, “uau, agora provamos, a campanha pela NOMIC é justa, vamos mudar tudo isso”, e que teria sido escamoteado. Hoje não acho mais isso. Hoje estou convicto de que o Relatório MacBride matou a NOMIC.

A NOMIC foi uma campanha antissistêmica, essencialmente anticapitalista, por mais que vários dos países não-alinhados fossem capitalistas. Ela exigia uma reforma profunda na economia global para que as transformações no campo da comunicação e informação conseguissem ser implementadas. Era uma crítica antissistêmica. E, se não nos métodos, ao menos nos princípios, revolucionária. O Relatório MacBride é um documento de conciliação. Ele foi feito por uma comissão que tinha jornalistas, mas também escritores, intelectuais, gestores de órgãos públicos de comunicação, e que vinham de origens diferentes. Tínhamos União Soviética, Iugoslávia, o Gabriel García Márquez, da Colômbia, o Juan Somavía, do Chile, e tinha gente dos Estados Unidos e Canadá. E muitos deles haviam trabalhado em agências de notícias em algum momento; havia gente com uma visão extremamente crítica e gente com uma visão extremamente favorável à manutenção do status quo na comunicação. Então, embora quando a gente leia o Relatório MacBride haja um apanhado histórico e uma análise de conjuntura muito boa, o grau de proposição dele, de partir para a ação, é muito genérico. É muito a linguagem ONU, “estimulamos que os Estados estabeleçam políticas para estimular a democratização, para aumentar a proporção de notícias…”.

A NOMIC não era nada disso; era fazer legislação, punição, regulação internacional a ser cumprida pelos Estados, monopólios nacionais ou consórcios dos monopólios nacionais entre os países periféricos. Era muito mais ação, e o lado pragmático dela não foi o Relatório MacBride, foi o NANAP, a Agência de Notícias Comum dos Países Não-Alinhados, que funcionou muito bem de 1975 até 1980. Em 1980 não só há o Relatório MacBride como havia tido, poucos meses antes, a morte de Josip Broz Tito, presidente da Iugoslávia socialista. Como a agência iugoslava Tanjug era organizadora da NANAP, houve uma mudança na liderança da Iugoslávia que ajudou a deixar mais instável a direção da agência, e houve também o início da guerra Irã-Iraque. Tanto a agência do Irã quanto a do Iraque faziam parte do consórcio e cooperavam, e no momento em que elas passam a guerrear… Como você vai circular notícias de dois lados que estão em guerra agora? Isso ajudou a parar a NANAP, e ela nunca mais voltou.

Mas as agências nacionais tentaram sim estabelecer parcerias com as agências transnacionais, muitas vezes de suas antigas colônias. O Boyd-Barrett conta no livro dele uma coisa que eu sempre reproduzo: que uma boa parte das agências dos novos países africanos, daquelas independências do final dos anos 50, da década de 60, foram montadas a partir dos escritórios que as agências transnacionais tinham nas suas colônias. A Reuters tinha lá um escritório em Lagos, na Nigéria – quando a Nigéria ficou independente, transformou esse escritório da Reuters em sua agência nacional, a News Agency of Nigeria (NAN); a mesma coisa, sei lá, com a AFP no Senegal. E especialmente a AFP fazia treinamento para os jornalistas dos países recém-independentes. De uma maneira bastante colonialista, preconceituosa, é claro; há documentos dizendo “eles não sabem escrever em francês, cometem muitos erros”, ou criticando que “estão fazendo propaganda do governo” – mas vocês nunca falaram desses governos! Ficam só dizendo que o governo é corrupto, isso e aquilo; e aí se o governo inaugura uma ponte é claro que a agência vai falar dessa ponte porque é uma obra do governo. Não é pra fazer propaganda, mas para dizer que está tendo desenvolvimento, que estão caminhando, construindo infraestrutura para o país, não mais nas linhas de exportação das matérias-primas para os portos, como foi sempre.

Então as agências dos países africanos, mas também latino-americanos e asiáticos, fizeram sim essas parcerias para capacitação, empréstimo de equipamento, e a NOMIC começou como um conjunto delas tentando brigar por isso, por alocação de tempo de satélite, por tarifas mais baixas de Telex, etc. Esse tipo de briga foi o que acabou motivando o início da campanha pela NOMIC. A primeira vez em que essa ideia aparece foi na Conferência dos Países Não-Alinhados em Argel, capital de uma Argélia recém-independente, em que primeiro se fazia uma campanha por uma Nova Ordem Econômica Internacional, que era justamente para tratar das questões dos mercados, numa análise muito cepalina, falando da degradação dos termos de troca, do comércio sempre agroexportador dos países periféricos… E dentro disso, os jornalistas, professores e economistas disseram: “olha, além dessa parte dos bens tangíveis, há também o fluxo de informação que é extremamente desigual”. Pensando então que talvez não tivessem tanto sucesso em modificar a questão do comércios dos bens tangíveis, mas que poderiam ganhar algo se investissem nessa questão da comunicação, foi aprovada pela primeira vez uma resolução de que uma nova ordem econômica teria que estar atrelada a uma nova ordem de comunicação. E a partir daí, em 1973, começou uma série de conferências no Equador, Belgrado, Sri Lanka, Costa Rica, para discutir essa questão. Em 1975 surge o pool das agências não-alinhadas, e até 1977 se pressionou a UNESCO para que esse tema fosse atendido, e no final desse ano a UNESCO aceita formar uma comissão internacional para analisar os problemas denunciados pela NOMIC; mas montou uma comissão, como eu disse, super plural, e acabou, muito no estilo ONU, chegando a uma solução de compromisso.

Só para falar da Prensa Latina: eu visitei a redação da Prensa Latina em 2015, em Havana, e fiquei particularmente emocionado, porque eu sabia que era uma empresa grande que alimenta veículos em vários lugares do mundo – aqui no Brasil basicamente o pessoal do jornal INVERTA, mas em outros países da América Latina alimenta jornais grandes, o Página12 na Argentina, jornais no Chile, a Telesur. Produzem textos, vídeos, fotos, uma agência com porte operacional razoável, respeitável. Quando eu cheguei no lugar – fico até arrepiado – eu vi uma empresa com talvez 40 funcionários em uma casa – uma casa, uma casa mesmo – com a tinta da parede descascando, com rachaduras nas paredes, com computadores dos anos 90, com aqueles monitores fundos, de tubo, impressoras matriciais fazendo seu barulhinho de impressão sobre o papel de formulário contínuo. E eu me senti de volta aos anos 90. Essa empresa, com essa precariedade de estrutura e de materiais, consegue fazer um serviço internacional jornalístico, em fluxo contínuo, operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu fiquei comovido com o quão heróico é o trabalho deles. Então a questão é: É caro? É. Basta decisão política? Não, não basta, não serei voluntarista na análise. Mas é possível. Eles fazem, sabem fazer.

Revista Opera: Até o Relatório MacBride, que em tese era uma versão um pouco aguada da NOMIC, acaba boicotado, não é? Reagan entra no governo, ameaça sair da UNESCO…

Pedro Aguiar: Não, ele saiu. De fato saiu. 

Revista Opera: Sai da UNESCO, acaba com o financiamento dos Estados Unidos para a UNESCO, e a Margaret Thatcher depois acompanha, sai também. A Grã-Bretanha e os EUA abandonando uma subagência da ONU em função de um relatório que trata do fluxo de informação a nível mundial. Agora, na sua tese, o seu foco é justamente as agências de notícia do Terceiro Mundo, você fez algumas visitas a essas agências, e fazer comunicação nesses termos… Eu penso que a Xinhua, da China, deve ter uma estrutura inacreditável em comparação com a Prensa Latina – a própria Telesur, cheguei a ir lá, um prédio grande. Mas queria saber do que viu em termos desse fluxo sul-sul: temos uma nova potência emergindo, em tese. Existem placas tectônicas se movendo no campo da comunicação?

Pedro Aguiar: Há. Mas elas não são exatamente com as melhores intenções… As maiores responsáveis por movimentos tectônicos, por grandes abalos e tsunamis, são justamente as big techs – Google e Facebook acima de tudo. E a Amazon também.

O que eu vi nas agências periféricas foi gente muito séria trabalhando. Eu perco a paciência quando vejo gente acusando agências estatais de fazerem propaganda de governos, como se todo mundo fosse chapa-branca que está ali para puxar o saco do governante da vez. Não é isso. Não é isso nem na Agência Brasil, conheço profissionais ali de dentro que são extremamente sérios, estão muito incomodados com o que está acontecendo lá dentro, denunciam da maneira que podem e que são alvos de perseguição.

Bom, visitei as agências de Cuba, Prensa Latina e ACN, que é uma agência secundária, mais bem equipada, mais jovem, e voltada para os trabalhadores cubanos espalhados pelo mundo, especialmente na América Latina e África; a ANDINA, do Peru, fundada no final do governo do general Velasco Alvarado, uma ditadura militar progressista, nacionalista de esquerda que houve aqui na América Latina sobre a qual pouco se fala, e que confiscou os jornais, coisa que muitos ameaçavam fazer e só ele fez; visitei a Agência Brasil, em Brasília; e a agência ANDES, em Quito, que foi criada pelo Rafael Correa como parte da estrutura da empresa pública de rádio e televisão, e que foi extinta pelo Lenín Moreno – e agora é claro que o Guilherme Lasso não vai fazer nada também para restaurá-la. 

A saída dos Estados Unidos e do Reino Unido nos anos 80 não acabou com o Relatório MacBride, que já estava aprovado, mas o que aconteceu é que naquela mesma conferência em Belgrado, em outubro de 1980, em que o MacBride foi aprovado – e foi aprovado não por votação, mas por aclamação –, foi aprovada também a criação do Programa Internacional para o Desenvolvimento das Comunicações (IPDC na sigla em inglês), que era um programa de ação da UNESCO para equipar, treinar e criar estruturas de comunicação nos países em que não existissem ou onde a estrutura fosse muito precária. Era para isso que precisava de dinheiro, o IPDC seria uma espécie de instância para botar em prática as recomendações do Relatório MacBride, por mais aguadas e diluídas que fossem. E para isso que o dinheiro fez falta: o IPDC que serviria, por exemplo, para montar a estrutura de uma redação de uma agência de notícias em um país africano, pôde fazer, ao invés disso, o que dá pra fazer com pouco dinheiro, que é basicamente treinamento educacional e valores, princípios, cultura.

Essa questão, aliás, ainda acontece hoje. Há alguns anos alguns colegas do departamento de comunicação da UFF foram para São Tomé e Príncipe dentro de um programa de cooperação do governo brasileiro, nessa esfera de cooperação sul-sul que ainda existia, antes de 2016. Eles fizeram treinamento e capacitação em comunicação comunitária para funcionários de rádio, agências de notícias e televisão do país. Uma das perguntas que eles mais faziam, os professores me contaram, era: “vocês vão deixar o equipamento aí?”. Quer dizer, eles levaram equipamento para os treinos, transmissores, microfones, câmeras, e perguntavam: “o equipamento vai ficar?”. Porque sem isso não tinha acesso. Então eles até gostavam do treinamento, mas o material vai ficar? Porque essa precariedade tecnológica é importantíssima, não há transferência de tecnologia, e é claro que a digitalização reduziu muito a disparidade de custos na esfera da produção – realmente, antes do digital, você precisa de um equipamento para cada coisa: uma câmera de vídeo, um gravador de som, um computador ou máquina de escrever. Quando você pode juntar tudo isso em um celular, a diferença do custo entre fazer comunicação no centro e fazê-la na periferia se reduz. Mas essa disparidade ainda é muito alta na esfera da circulação. Porque distribuir esse material não só é caro, mas os canais de comunicação estão mais oligopolizados do que nunca.

É verdade, todo mundo agora pode abrir um canal no YouTube – mas é o YouTube que controla o algoritmo de distribuição. Fui aluno de gente que acreditava piamente nisso, em democratização pela internet, descentralização pela internet, gente que inclusive defendia o fim da exigência do diploma de jornalismo. Onde estão essas pessoas quando propomos regulação e taxação das big techs? O momento agora é esse. Tudo bem, é fácil fazer um conteúdo, mas ninguém faz ele circular sozinho, por conta própria, se não tiver regulação, se não tiver o Estado operando ali, e se não tiver taxação para fazer esse dinheiro que essas empresas estão concentrando voltar a circular. Porque por enquanto elas estão recebendo toda a verba publicitária. E estão determinando quem recebe essa verba: tem o dinheiro grande que eles ganham e as migalhas que quem tem um canal no YouTube ou um site ou uma página no Facebook recebe de retorno, mas até essas migalhas eles regulam a partir do momento que eles controlam o algoritmo.

Então precisaríamos de uma nova campanha mundial de NOMIC, mas estamos em um contexto global completamente desfavorável para isso acontecer. A situação de concentração de produção de comunicação hoje é menor do que era nos anos 70, mas a concentração de distribuição é maior. Se já apontavam os dedos naquela época para as grandes operadoras de telecomunicações, para as agências de notícias que faziam isso circular entre os países, como uma situação de oligopólio global, esse oligopólio agora tem menos atores, estão mais concentrados ainda nos Estados Unidos, nessas cinco empresas GAFAM, todas norte-americanas.

A China entra correndo por fora, um pouco, com a Tencent, TikTok, e até com a Xinhua, que hoje é a maior agência de notícias do mundo em termos de funcionários, operações, clientes, estruturas – faturamento não sabemos, porque não revelam. Mas a comunicação está muito oligopolizada e concentrada em mãos estadunidenses, mais do que era nos anos 70: se nos anos 70 houve briga, naquele contexto de bipolaridade, hoje precisaria haver briga também. O problema é esse, o desequilíbrio é tanto que não há nem sequer um outro lado para concorrer. Porque a campanha de descrédito da NOMIC feita no Ocidente foi muito dizendo que ela era coisa dos comunistas, dos Não-Alinhados manipulados pelos soviéticos. E havia uma desconfiança simétrica do lado soviético sobre a proposta dos Não-Alinhados. E hoje em dia não tem essa bipolaridade, não tem sequer um outro lado para fazer um contraponto, tem um lado só.

Revista Opera: Um dos grandes teóricos da comunicação, e talvez um dos grandes esquecidos – mais uma dessas figuras esquecidas que existem no mundo – é o famoso coautor de Para Ler o Pato Donald, Armand Mattelart. Quem é Mattelart, qual é a importância desse belga do Terceiro Mundo?

Pedro Aguiar: Exatamente, belga do Terceiro Mundo. O Mattelart, além de ser belga e não francês, como muita gente pensa, tem uma trajetória intelectual muito interessante. Primeiro, ele veio de uma esquerda católica, que era muito ativa nos anos 40 e 50 em políticas de comunicação, especialmente na fundação de rádios nas periferias: rádios rurais, de camponeses, nas periferias urbanas, como se fez muito na Colômbia, na Bolívia e na América Central. E o Mattelart veio dessas correntes.

Agora, a área de estudo em que ele começou era Demografia. E quem também era demógrafo é o Alfred Sauvy, que foi quem criou o termo “Terceiro Mundo”. E o Mattelart, fazendo estudos sobre populações e políticas de planejamento familiar e controle populacional – uma coisa em que a Igreja Católica sempre teve muito interesse – foi parar no Chile, nos anos 60, e testemunhou as candidaturas que o Allende perdeu. Allende consegue vencer as eleições no momento em que faz acenos ao centro e à democracia cristã; daí que os católicos entram. Mas diferente do Lula, o Allende manteve o núcleo do governo e as decisões das políticas públicas na mão dos socialistas, inclusive no âmbito da comunicação. Então os estudos que o Mattelart desenvolve no Chile, não só testemunhando, mas participando do governo Allende, remeteram a isso – o que era contemporâneo aos chilenos que já estavam lá fazendo estudos sobre a concentração do noticiário internacional na mão das agências; o Juan Somavía e o Fernando Reyes Matta.

O Mattelart estava circulando no meio desse pessoal enquanto ele produzia o Para Ler o Pato Donald, que é uma das primeiras críticas sistematizadas ao imperialismo cultural, onde demonstra, por meio de análise do discurso e exemplos concretos, como é que conglomerados como a Disney e outros grupos ocidentais de comunicação lançam produtos culturais que acabam formando mentalidades para acatar a hegemonia dos países centrais. Os exemplos que ele dá são da ordem de, por exemplo, o Tio Patinhas indo com os sobrinhos a países subdesenvolvidos e interpelando as pessoas de lá como incultos, precários, intelectualmente rebaixados, pobres coitados que não tiveram acesso às benesses da nossa civilização. Muito parecida com a ideia imperialista do século 19, praticamente a mesma mentalidade do Cecil Rhodes – mas com 100 anos de diferença, de 1870 a 1970. E esse estudo dele é formidável.

Mas a partir daí ele começou a se interessar pelo estudo sistemático das empresas, da infraestrutura e das concepções intelectuais de comunicação internacional. E o Mattelart, sem nenhum demérito, é menos um cara que lança conceitos próprios e mais um cara com uma capacidade assombrosa de ler e organizar esses conceitos. Então das várias obras dele, as em que ele faz história das ideias são as melhores.

Ele tem um livro pequenininho que é o História da sociedade da informação; o História das teorias da comunicação, escrito junto da esposa dele, a Michèle Mattelart, que também é uma intelectual extremamente respeitável; o Comunicação Mundo, lançado na época da Guerra do Golfo, em que ele adapta muito do conhecimento do Wallerstein, aplicando o sistema-mundo à comunicação (mas sem trabalhá-lo como um conceito, ele joga isso no livro algumas vezes), e também a concepção de Fernand Braudel de economia-mundo. E ele logo no início desse livro faz uma paráfrase de um texto de um geógrafo, o Yves Lacoste, que tem um livro chamado A geografia – isso serve, antes de tudo, para fazer a guerra, e nesse contexto da CNN cobrindo a Guerra do Golfo ao vivo, Mattelart diz: “A comunicação serve, antes de tudo, para fazer a guerra”.

Então ele sistematiza muito bem essas ideias, e há dois livros dele que não são muito conhecidos no Brasil, porque um não teve edição brasileira, somente em Portugal – A invenção da comunicação –, onde ele traça uma genealogia, no sentido foucaultiano mesmo, da ideia de comunicação, e volta lá no século 17 para dizer que a ideia de comunicação nasce atrelada à ideia de transporte e só vai se desvencilhar disso com o telégrafo, quando o meio se separa da mensagem (porque até então você tinha que levar a mensagem fisicamente, por estradas, trilhas, hidrovias, canais, etc.)

E tem outro livro, História da utopia planetária, que não pega tanto na comunicação em um sentido estrito, mas no qual ele retraça a genealogia das ideias de globalização, das ideias de como seria um mundo harmônico desde a Utopia do Thomas More até a aldeia global do McLuhan e as outras ideias de uma comunidade global que pode ser descrita como livre, democrática, distópica ou não. E tive o privilégio de estar com ele duas vezes, e quando comentei com ele que li o livro, ele disse “Ah, que bom! Porque escrevi esse livro pensando nos brasileiros”. E é o menos lido no Brasil [risos]. Porque logo no início ele lembra de como boa parte das ideias de utopia do Thomas More foram inspiradas nas descrições que chegaram à Europa sobre os índios brasileiros, especialmente os tupinambás da região do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Os franceses comercializavam pau-brasil com os tupinambás de Cabo Frio por volta de 1510, e havia descrições sobre como os tupinambás eram um povo sem Estado mas com uma organização social harmônica, que viviam de uma maneira sustentável com a natureza, sem a ideia de acumulação, produção de excedente. E o Thomas More teria lido isso e usado de inspiração para descrever o que seria a utopia no seu livro.

Enfim, Mattelart é um gênio para conseguir conectar ideias. E sobre agências de notícias, ele leu o Boyd-Barrett, presenciou algumas coisas nos seus exílios no México, nas vezes em que foi a Cuba, e ele foi um observador crítico na época da NOMIC. Não estava engajado pessoalmente, mas leu bastante sobre, e ele achava – o que é uma visão típica do pensamento único liberal dos anos 90 – que o problema da NOMIC foi ter atrelado as suas políticas de comunicação ao Estado, que se tivesse sido a partir de organismos não-estatais, ONGs, Terceiro Setor, toda essa nomenclatura muito comum aqui nos anos 80 e 90, poderia ter sido bem-sucedida. Nesse ponto não estou de acordo, vejo o Estado como agente do estímulo ao desenvolvimento, inclusive na comunicação.

Mas o Mattelart merece muito ser lido hoje como um organizador de ideias, e a partir dessas organizações fascinantes que ele faz, desses trabalhos de genealogia de ideias, nós conseguimos extrair muita coisa para nossas próprias pesquisas – no meu caso o que se refere a agências, à circulação internacional da informação. Mas muita gente que procura outras coisas pode encontrar grandes respostas nele.

Só pra encerrar, tenho que recontar uma história que ele contou em um congresso, em 2015: ele escreveu nos anos 1970 sobre o poder de uma indústria como a Disney para criar uma mentalidade contra o Terceiro Mundo e pró-imperialista na cabeça de muita gente, inclusive crianças. E aí ele contou que um dia estava com o filho em Paris e foi levar o neto na escola, uma creche. E quando chegou na creche ele olhou para a parede da creche e teve uma paralisia, congelou. O filho dele não entendeu, “vamos lá pai, temos que levar o menino”. E ele viu que a parede da creche estava pintada com desenhos do Mickey, Pato Donald, Margarida. E ele falou: “Você não está vendo? Eles venceram!”.

Revista Opera: Imagino que fosse inclusive uma creche pública.

Pedro Aguiar: É possível.