América Latina: de Lima a Puebla

Enquanto o Grupo de Puebla se consolida como um espaço de grande influência na região, o Grupo de Lima sucumbe sem ancoragem, centro ou credibilidade. Por Alfredo Serrano Mancilla | CELAG - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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Reunião dos representantes nacionais do Grupo de Lima. (Foto: Márcio Batista/MRE)

Em geopolítica, a distância física nem sempre é o melhor indicador da verdadeira distância existente entre duas cidades. Lima e Puebla, hoje em dia, estão separadas por muito mais do que os 4.165 quilômetros indicados em qualquer mapa. Ambos enclaves representam simbolicamente duas visões diametralmente opostas na maneira de conceber das relações políticas na América Latina.

Em idade, o Grupo de Lima (GL) é maior do que o de Puebla (GP), em quase dois anos. O primeiro foi criado em 8 de agosto de 2017, enquanto o segundo nasceu em 12 de julho de 2019. O último, porém, acaba sendo o primeiro. Esse “começar antes” do GL não significou de forma alguma uma vantagem comparativa em relação ao GP. Na verdade, o relevante não é o momento de nascer. A chave sempre está em como se evolui no caminho. O GL começou com grande ímpeto, mas foi se evaporando progressivamente. Exatamente o contrário do que acontece com o GP, que começou seu périplo inadvertidamente, mas com o passar dos meses vai se transformando em um pivô geopolítico cada vez mais sólido a nível regional.

Por que o GL foi de mais a menos e o GP de menos a mais? Por que o GL parece ter envelhecido tão rápido e, pelo contrário, o GP parece não ter data de validade? Aqui estão algumas razões, tanto sobre um como sobre o outro. Em relação ao GL, sua obsolescência precoce se explica pelas seguintes razões: 

1 – Foi fabricado com um único objetivo: acabar com o governo de Nicolás Maduro. O propósito não foi alcançado e, portanto, sua razão de existir se dilui.

2 – Tem um domínio estritamente conjuntural, ou seja, dependia excessivamente de uma correlação de forças em um determinado momento da história, sem prever que na democracia há eleições e nem sempre ganham os presidentes conservadores/neoliberais (como Macri na Argentina, o caso boliviano e o peruano). 

3 – Nasceu sob a tutela de Trump, pensando que seus delírios antidemocráticos poderiam chegar a ser hegemônicos na América Latina. E não foram nem na região nem nos Estados Unidos, onde o presidente não conseguiu revalidar seu mandato. 

4 – Sua composição genética se encontra distanciada de tudo aquilo que preocupa a população cotidianamente. O Grupo de Lima jamais falou de políticas sociais ou de iniciativas econômicas, nem sequer do que fazer frente à Covid-19. 

5 – A matriz neoliberal entrou em profunda crise, sem respostas nem expectativas. Tanto é que está em um ponto de bifurcação em relação ao que fazer com a democracia: respeitá-la ou violá-la quando não se consegue a vitória eleitoral.

Por sua vez, no sentido contrário, o GP continua a ir mais longe porque: 

1 – Nasce por fora dos governos, ou seja, é um espaço que reúne ex-presidentes, presidentes e ministros, mas também outros representantes políticos que são alternativa em alguns países; além de acadêmicos, intelectuais e jornalistas. Assim, o GP conforma sua solidez bem acima de uma vitória ou uma derrota eleitoral.

2 – É caracterizado pela amplitude do universo progressista, o que contrasta precisamente com o modo de coesão no GL. Está desenhado com uma premissa básica: a divergência em matizes no interior do progressismo não é vista como falta de unidade, mas como uma fortaleza.

3 – Dedica-se a várias tarefas que são de interesse público latino-americano: buscam melhorar a economia com grande variedade de iniciativas, demandam respostas frente à Covid-19 (como é o caso da liberalização de patentes), acompanham processos eleitorais, levantam a voz contra os bloqueios etc. 

4 – Tem uma perspectiva de longo prazo, mas com um virtuoso dom da onipresença de curto prazo. Esta é, certamente, uma das suas maiores virtudes: saber combinar o que fazer quando é necessário em um evento concreto (por exemplo, o que fazer em meio ao golpe de Estado na Bolívia) com o desenho de uma estratégia de caráter mais estrutural (buscar que a OEA de Almagro deixe de existir).

5 – Não tem tutela externa nem um dominador interno. É evidente que há rostos muito visíveis (Marco Enríquez-Ominami em seu papel de articulador, Alberto Fernández e Luis Arce como presidentes, agora também Pedro Castillo, a presença do governo do México, ex-presidentes como Zapatero, Evo, Correa, Dilma, Lula e Samper), mas nenhum tem mais poder do que o outro. O equilíbrio está na heterogeneidade. 

Na política não há quase nada que permaneça estático. O GL pensou que sim, e acreditou que o contexto em que nasceu persistiria para sempre. E não. Isso já era. Sua autoprofecia do “fim do ciclo progressista” falhou. Sua obsessão contra o governo da Venezuela os cegou. E, ainda por cima, estão sem o seu Norte fundacional, ou seja, governa Biden no lugar de Trump. Embora tenham muito em comum, não são o mesmo. Nesse contexto, o GP soube dar passos, pouco a pouco, com firmeza, mas construindo alicerces e uma rede de confiança. E o que é mais importante: sintonizando-se com a evolução dos sentidos comuns latino-americanos em relação à necessidade de um Estado protagônico nas políticas sociais, um modelo econômico mais justo e inclusivo, a favor do imposto às grandes fortunas, mais integração regional, mais multilateralismo e mais democracia.