No século 19, a China contava com uma população superior a 450 milhões de habitantes. Era há muito tempo um dos mercados mais importantes do mundo, compreendendo um terço da economia mundial e da população planetária; um país unificado há vinte séculos e assentado em uma história e cultura milenar. As Treze Colônias Britânicas foram formadas entre os séculos 17 e 18 na costa da América do Norte. Em 1776, declararam independência e formaram os Estados Unidos da América, com uma população de quase quatro milhões de habitantes. Ao longo do século 19, os Estados Unidos expandiriam seu território agressivamente em direção ao oeste, sobre os corpos e a soberania de peles vermelhas e mexicanos, matando a sede de sua marcha com sangue de africanos escravizados, ao passo que aceleravam violentamente sua industrialização. De quinta maior potência industrial, em 1840, os EUA passaram ao primeiro lugar, em 1895.

O vigoroso crescimento econômico, no entanto, se chocava com três desafios: primeiro, as fronteiras de expansão eram limitadas na medida em que se acabavam os territórios disponíveis à conquista dentro da massa de terra onde as Treze Colônias tinham sido fixadas a princípio; segundo, as potências europeias, apesar de deixadas para trás na disputa pelos lucros, mantinham ainda um enorme poder colonial em todo o mundo, se não mais alicerçado no tráfico de escravos pelo Atlântico, de certo garantindo ainda formas de acumulação primitiva e uma primazia estratégica sobre os Estados Unidos; terceiro, essas potências europeias eram as credoras de boa parte da dívida norte-americana, pela qual financiaram seu desenvolvimento econômico. “O crescimento da indústria americana tornou a conquista de mercados no exterior não somente uma possibilidade, mas uma necessidade, duramente sentida. O militarismo constituiu, então, o elemento indispensável, primeiro sob a forma de poderio naval, no seu processo de expansão imperial”, escreveu Moniz Bandeira. O espírito da época pode ser compreendido pelas palavras exclamadas por William H. Seward, secretário de Estado norte-americano: “Vocês já são a grande potência continental da América. Mas será que isso os contenta? Eu acredito que não. Vocês querem o comércio do mundo. Isso é algo que deve ser buscado no Pacífico. A nação que extrai o máximo da terra e fabrica mais, e mais vende a nações estrangeiras, deve ser e será a grande potência da Terra”.

O avanço sobre o Pacífico, com foco na produção de açúcar e no mercado chinês, foi garantido, dentre outras coisas, pela invasão ao Havaí em 1893, seguida pela proclamação de uma república sob a presidência do norte-americano Sanford B. Dole e a anexação oficial do território pelos Estados Unidos. Enquanto avançavam sobre o arquipélago no Pacífico, os Estados Unidos voltavam sua atenção também para as colônias espanholas, dentre as quais se incluíam Cuba, Porto Rico, Guam e Filipinas, cujo domínio foi conquistado ao fim da Guerra Hispano-Americana, com o Tratado de Paris. Para as Américas, a anunciação da Doutrina Monroe, em 1823 – segundo a qual todo o continente sul-americano constituía um protetorado dos EUA, do qual o colonialismo europeu deveria ser expulso e ter seu acesso restrito –, encontrava no governo de Theodore Roosevelt (1901-1909) sua forma mais acabada. A Política do Big Stick e o Corolário Roosevelt promulgavam que “irregularidades crônicas, ou uma incapacidade que resulte num afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, podem em última instância exigir, na América como em outro lugar, intervenção por alguma nação civilizada, e no Hemisfério Ocidental a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que com relutância, em casos flagrantes de tais irregularidades ou incapacidade, ao exercício de um poder de polícia internacional.” Essa “polícia internacional” e seu porrete eram a manifestação última de uma produção industrial que passava a encontrar sua última fronteira: com um mercado interno cuja demanda já havia sido há muito superada pela capacidade produtiva, era hora de dar o passo seguinte e assegurar novos mercados. Longe das concepções quase religiosas pelas quais os norte-americanos se viam no espelho, expandir era o “destino manifesto” da superprodução capitalista, não de um povo escolhido por Deus; essa expansão não se assentaria em mãos divinas, mas no poder naval, como pregava o comandante Alfred T. Mahan; não nos céus, mas nos oceanos (o Pacífico e o Atlântico); não pela conversão dos selvagens, mas pela guerra e o domínio de seus territórios. O frígido milagre mosaico da abertura dos dois mares veio com a construção do Canal do Panamá, iniciada em 1904, quando os Estados Unidos arrancaram o país da Colômbia, e finalizada em 1914.

Assim, dos três desafios, dois passavam a ter solução: os Estados Unidos aumentavam seus territórios e competiam por mercados na mesma medida em que tomavam o lugar dos antigos poderes coloniais, enquanto blindavam – da presença e influência deles – o hemisfério ocidental.

A Primeira Guerra e a dívida

Apesar dos avanços dos Estados Unidos para além de suas fronteiras, em todo o continente americano e em direção à Ásia, e do rebaixamento imposto à Espanha, outras potências mantinham seus domínios nos continentes asiático e africano, como Alemanha, Grã-Bretanha e França. Ao contrário dos Estados Unidos, no entanto, estes poderes europeus não contavam com um espaço vital assegurado, como era para os promulgadores da Doutrina Monroe o hemisfério ocidental, e haviam desenvolvido seu capitalismo em um mundo “já territorialmente dividido em uma pluralidade de Estados feudais tardios, em disputa uns contra os outros, cada qual com seus próprios meios de agressão e sistemas de agressão”, nas palavras de Perry Anderson. Este não era exatamente o caso de um país fundado a partir da colonização europeia, em um território “virgem”, que assegurava para si um espaço vital dentro e além de suas fronteiras, e separado de seus principais competidores pelos mares – não por tímidas fronteiras terrestres.

Quando a Primeira Guerra estourou na Europa, as colônias foram prontamente envolvidas. Um aumento enorme na demanda por produtos agrícolas, material bélico e crédito assegurou que, ao fim da guerra, os Estados Unidos tivessem 21 mil novos milionários; que passassem de uma posição em que deviam à Europa uma soma entre 4 e 5 bilhões de dólares, em 1914, para uma em que eram credores de 11 bilhões em dívidas europeias, em 1918. Entre os mortos da guerra, que não envolveu diretamente o território estadunidense, só 0,58% eram norte-americanos; e o conflito terminou assegurando a ruína da Alemanha, segunda maior potência da época, bem como do império austro-húngaro, do otomano e do russo, de onde nascia a primeira revolução socialista da História.

Com as potências competidoras destruídas e/ou endividadas, os Estados Unidos emergiam na segunda década do século 20 como uma potência imperialista inconteste. Apesar dessa posição, e do “globalismo milenar” que caracterizou a política externa do presidente Wilson (1913-1921), a política norte-americana da década de 1920, sob os governos republicanos de Warren G. Hardin (1921-1923), Calvin Coolidge (1923-1929) e Herbert Hoover (1929-1933) seria caracterizada por um relativo isolacionismo. Conforme escreveu Perry Anderson, “os Estados Unidos se concentraram na recuperação dos seus empréstimos à Europa, limitando suas outras operações fora do hemisfério a tentativas ineficazes de levar a Alemanha a se recompor e de restringir a expansão exagerada do Japão em direção à China. […] Em uma década, porém, a chegada da Grande Depressão foi um sinal de que a pré-história do império norte-americano se aproximava do fim. […] A crise deixou claro que, por mais que as fábricas norte-americanas – as fazendas em menor escala – estivessem relativamente isoladas do comércio mundial, os depósitos dos EUA não estavam isolados dos mercados financeiros internacionais […]”.

A Segunda Guerra e a repartição do mundo

A eclosão de uma nova guerra mundial, em 1939, determinou as fronteiras dos cálculos geopolíticos norte-americanos. Por um lado, o sucesso alemão implicaria numa ressurreição da antiga segunda potência, agora ampliada com domínios coloniais na própria Europa. Por outro, uma vitória britânica fortificaria o bloco da libra esterlina. E “o pior de tudo talvez fosse uma destruição mútua tal que, no caos que se seguiria, uma ou outra forma de socialismo pudesse tomar o controle do continente”, como observa Anderson. Essa ameaça havia nascido na guerra anterior, obrigando uma participação mais ativa dos Estados Unidos com suas tropas no campo de batalha, sem que isso significasse, no entanto, uma postura muito ativa em relação ao nazismo. De fato, como declarou Truman, então senador e futuro presidente no pós-guerra e na Guerra Fria, em junho de 1941, semanas antes da Operação Barbarossa jogar sete países contra o território soviético, “se virmos que a Alemanha está ganhando, devemos ajudar a Rússia, e se a Rússia estiver ganhando, devemos ajudar a Alemanha e, desse modo, deixá-los matar o maior número possível de pessoas”.

No pós-guerra seria necessário, mais do que assegurar a ocupação dos territórios, garantir uma nova ordem política e econômica mundial que preservasse o capitalismo e o livre comércio em um grande bloco integrado à hegemonia norte-americana, mas sem implicar nos erros cometidos depois da Primeira Guerra, e limitando a expansão soviética. Este foi o sentido geral da política norte-americana durante os anos finais do conflito. Os principais rivais industriais dos EUA – Grã-Bretanha, Alemanha e Japão – terminaram a guerra absolutamente destruídos (física ou economicamente), e era hora do império americano aprender com as lições da Primeira Guerra, seguindo o ensinamento de Maquiavel, segundo quem uma associação de aliados, “guardando contudo o comando da aliança, a sede do império e a glória da conquista” (como faziam os romanos), é superior à liga de iguais e à relação de súditos e soberanos. 

A saída foi o renascimento da Liga das Nações, proposta por Wilson, agora como Organização das Nações Unidas; a expansão global do princípio de Portas Abertas (política que os EUA fizeram avançar na China entre os séculos 19 e 20, que promulgava condições iguais de comércio para todas as potências); a criação do Fundo Monetário Internacional como ferramenta de convertibilidade e estabilidade das moedas, buscando impedir desarranjos como o da crise de 29; o estabelecimento do Banco Internacional de Desenvolvimento e Reconstrução (BIRD) e o Banco Mundial, como formas de restaurar e reconstruir os países abalados pela Segunda Guerra, e impedir que o ciclo alemão (da Primeira Guerra para a Segunda) se repetisse.

 “Tradicionalmente, as fortalezas do nacionalismo isolacionista [dos EUA] se localizavam nas pequenas empresas e na população de agricultores do centro-oeste; e os bastiões de um nacionalismo mais intervencionista – ou, na linguagem local, um ‘internacionalismo’ –, nas elites bancárias e corporativas da Costa Leste. A guerra uniu esses dois lados”, escreve Anderson. “Em 1945, com seu território intocado pela guerra, os Estados Unidos tinham uma economia três vezes maior que a URSS e cinco vezes maior que a da Grã-Bretanha, controlavam metade da produção industrial do mundo e três quartos das suas reservas de ouro. As bases institucionais de uma paz estável teriam de refletir essa predominância”. A Europa passava a se integrar, depois da guerra, a esse sistema institucional sob o domínio do dólar, e Japão e Alemanha, “as duas regiões industriais mais avançadas que se encontravam entre os EUA e a URSS, e que haviam detonado a guerra”, tiveram sua reconstrução assegurada pelos EUA “como prósperos baluartes do mundo livre e posições avançadas do poderio militar norte-americano”.

A Guerra Fria nascia e, como escrevi antes, “foi combatida em todo o mundo, nas dimensões cultural, política e econômica. Batalhas militares eram efetivamente travadas, mas com caráter limitado.” Esses limites eram as fronteiras entre o Primeiro e o Terceiro Mundo. A noção de “segurança” dos Estados Unidos obteve primazia neste tempo, sem que outros princípios, como o excepcionalismo e o Destino Manifesto, fossem abandonados. A Lei de Segurança Nacional criou o gigantesco Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado (conselho de generais que assessora o secretário de Defesa e o presidente), o Conselho de Segurança Nacional e a maior agência de espionagem do mundo, a Agência Central de Inteligência (CIA). A política externa de Truman (1945–1953), moldada para o período, se caracterizava pela “defesa” do mundo ocidental e a “contenção” do poder soviético. Mas como bem observou Anderson, “a iniciativa do conflito entre os dois [EUA e URSS] estava com a parte mais forte […], a substância da doutrina estava longe de ser defensiva. Em termos nominais, o conselho era ser firme e ter paciência tática com o objetivo de cansar o inimigo pela ‘aplicação hábil e vigilante de forças contrárias em uma série de pontos geográficos e políticos em constante mudança’”.

Este objetivo fora alcançado nos países que compuseram o Eixo durante a Segunda Guerra. A Alemanha foi dividida, e o Japão passou rapidamente à esfera de influência norte-americana. Na Europa, países como Grécia, França e Itália, onde a resistência comunista ao fascismo ganhara adesão e simpatia popular, foram trazidos para perto do bloco capitalista depois do fim da guerra – no caso grego, por meio de um golpe militar, nos casos italiano e francês, por uma série de medidas combinadas, clandestinas e fraudulentas, para impedir a ascensão dos partidos comunistas.

No Leste Europeu, na Ásia,  Oriente Médio e África, a situação era um pouco mais disputada:  a revolução chinesa, em 1949, e a revolução coreana, de 1948 a 1953, constituíram um contrapeso à presença norte-americana na região. No Oriente Médio, Irã, Iraque e Egito também o compunham. Mas no seu espaço vital, a América Latina e Caribe, os Estados Unidos mantinham-se em absoluta segurança.

O impacto geopolítico da Revolução Cubana

Sozinha, a revolução cubana constituiu, na América Latina, o evento mais importante do século 20. Em termos políticos, geopolíticos, militares e sociais, estreou uma situação excêntrica para um império que, até então, tinha conseguido manter o hemisfério ocidental como zona liberada; algo que não se pode perder de vista nunca nas acaloradas discussões sobre Cuba hoje.

No campo político, Cuba inaugurou a constituição de uma revolução socialista no continente; em termos militares, debutou a possibilidade de uma guerra de guerrilhas triunfar nas Américas; em termos sociais, encetou um nível de educação, saúde, segurança e distribuição de renda e terra inaudito para a região e, em termos geopolíticos, foi uma cusparada nos papéis velhos da Doutrina Monroe. Tudo no apogeu da Guerra Fria.

Já em 1958, meses antes do triunfo da revolução, os Estados Unidos, que haviam dado apoio ao ditador Fulgencio Batista durante toda sua “luta contra o comunismo” (nas palavras de Nathan F. Twining, presidente do Estado-Maior-Conjunto de Eisenhower), passaram a trabalhar por uma alternativa capaz de impedir a ascensão de Castro e seus guajiros. A primeira esperança foi que Rivero Agüero, candidato ligado a Batista, eleito em um processo convocado às pressas pelo ditador (que teve abstenção de 80%, apesar do voto ser obrigatório) pudesse representá-la. Não pôde. Formaram então uma lista de nomes que, possivelmente, poderiam compor uma junta provisória, que incluía o coronel Ramón Barquín, o major Enrique Borbonet, o general Martín Díaz Tamayo e o proprietário da Bacardi, José Pepín Bosch. Também não funcionou. Com o avanço das colunas de Che Guevara e Camilo Cienfuegos sobre Santa Clara e da coluna de Fidel sobre Santiago, Batista renunciou e fugiu, junto de Agüero, para a República Dominicana. A última e inútil cartada foi tentar a formação de uma junta civil-militar liderada por Barquín. Mas a revolução triunfou sobre ela, marcando, em 1 de janeiro de 1959, um ano verdadeiramente novo em Havana.

Nos anos 1960 começaram a se formar os primeiros grupos contrarrevolucionários de exilados nos Estados Unidos, que já naquela altura saíam com aviões de bases na Flórida para incendiar canaviais cubanos. É neste ano que a enorme dependência de Cuba na sua produção de açúcar (80% de suas exportações eram feitas a partir da cana) e dos Estados Unidos, que absorvia entre 50% e 60% disso, será usada pela primeira vez como arma. “Àquele tempo, embora numerosos países, sem incluir os da Europa Oriental, tivessem condições, isoladamente ou em grupo, de suprir os bens e serviços de que Cuba necessitava, poucos poderiam aumentar significativamente suas importações de açúcar, de modo a equilibrar a balança comercial. Com exceção da Grã-Bretanha, a maior parte produzia açúcar além de suas necessidades de consumo e distribuía as importações por um número mais ou menos constante de tradicionais exportadores, sendo que os países europeus adquiriam, direta ou indiretamente, grande quantidade de colônias africanas ou insulares. Tratava-se, por conseguinte, de um mercado de certa forma vinculado por ­acordos regionais, monetários e de vários outros tipos a fornece­dores tra­­dicionais, bem como saturado, devido ao aumento da produção não só do açúcar de cana, pelos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como também do açúcar de beterraba pelas nações industriais”, de acordo com Moniz Bandeira.

A União Soviética era um destes mercados saturados, com uma produção crescente de açúcar nos anos anteriores. Manter a balança comercial cubana “artificialmente” custaria aos soviéticos 0,2% de seu PIB, o que era possível, mas, para os norte-americanos, improvável, tendo em vista que Kruschev trabalhava naqueles anos pela coexistência pacífica. Assim, a ideia era “acelerar a criação de um efetivo ‘movimento patriótico amigável aos Estados Unidos’ dentro de Cuba e entre os exilados, a fim de conter as tendências do regime revolucionário de Fidel Castro, pois a deterioração das condições econômicas do país, em consequência do corte da cota de açúcar e de outras sanções, precipitaria sua queda. Certamente, seria necessário algum tempo – assim os policy makers julgavam – até que os cubanos compreendessem que a deterioração de sua vida econômica e política decorria dos ‘excessos’ de Castro, ‘inclusive suas conexões com o comunismo internacional’”, como dizia uma carta do subsecretário de Questões Políticas ao chefe de Operações Navais da Marinha dos Estados Unidos, almirante Arleigh A. Burke.

As sanções e cortes logo vieram: as companhias petroleiras norte-americanas foram pressionadas para não refinar o petróleo enviado à Cuba pela União Soviética, os quadros técnicos estadunidenses eram retirados da ilha. A resposta foi dura: o governo interveio nas instalações da Texaco, Esso e Shell, obrigando-as a refinar o óleo que chegava aos montes da União Soviética. Em julho, Eisenhower cortou a importação de 700 mil toneladas de açúcar da cota prevista (3,1 milhões de toneladas, das quais 2,3 milhões já tinham sido embarcadas). Kruschev, ao contrário do previsto, anunciou que compraria as 700 mil toneladas e respaldou Cuba contra qualquer intervenção estrangeira, lembrando que os EUA “não estão mais a uma distância tão inacessível à União Soviética como antes. Falando figurativamente, se fosse necessário, a artilharia soviética poderia apoiar o povo cubano com mísseis, se as forças agressivas do Pentágono ousarem começar uma intervenção contra Cuba. E o Pentágono deve ser avisado de que nós temos foguetes que podem acertar um alvo de uma distância de 13 mil quilômetros.”

De fato, em 1961, dois anos após o Movimento 26 de Julho derrubar Batista, os Estados Unidos fizeram sua primeira tentativa audaciosa na ilha (se não contarmos, é claro, os combatentes que mantinham nas montanhas de Escambray e na Sierra Maestra, num simulacro odiento da própria guerrilha que triunfara). A invasão à Baía dos Porcos envolveu cinco navios, oito aviões B-26 e cerca de 1500 soldados – a maioria deles exilados cubanos treinados pela CIA. Foi um fiasco ao custo de 46 milhões de dólares para o governo dos EUA. No ano seguinte, Kruschev concordou com o pedido de Cuba para a instalação de mísseis nucleares no país, inaugurando 13 dias de terror entre os cidadãos norte-americanos que, 17 anos depois de Hiroshima e Nagasaki, achavam que o fantasma nuclear, que apaga pessoas e eterniza sombras, voltava para assombrá-los à sua costa oeste. A crise dos mísseis terminou em duas semanas, com a retirada do aparato nuclear da ilha em troca da retirada de mísseis americanos da Turquia e Itália, apontados contra a União Soviética, além de uma declaração pública dos Estados Unidos de que nunca invadiriam Cuba sem uma provocação direta.

O maior desafio que Cuba implicava aos Estados Unidos à altura não era tanto o fato de que houvesse expropriado suas empresas, nem que a ilha vivesse fora da esfera capitalista; mas sim que, nas margens do império, Cuba significasse para os EUA o que Japão, Coreia do Sul, Turquia ou Finlândia significavam para a URSS – com o agravante de que, numa América Latina tão machucada quanto a dos anos 60, novas revoluções poderiam explodir em todo o continente, inclusive porque seu alastramento era uma necessidade geoestratégica e econômica para a ilha (como ficou demonstrado na tentativa direta de Che na Bolívia). Num cenário menos desesperador para os norte-americanos, a existência de uma Cuba revolucionária já implicava a necessidade de um maior esforço dos Estados Unidos para manter o apoio no continente: como o próprio Guevara proclamou na Conferência do Conselho Interamericano Econômico e Social, realizado em Punta del Este, em 1961, quando disse que os EUA pretendia comprar os países com latrinas, Cuba era a “galinha dos ovos de ouro” para o resto dos países do continente, já que “todos ou quase todos os senhores representantes [dos países latino-americanos] disseram: se a Aliança para o Progresso fracassa, nada pode deter a onda de movimentos populares”. Não por acaso, a América Latina viveria uma onda de golpes militares patrocinados e apoiados pelos EUA nos anos seguintes.

Cuba, por sua vez, seria alvo contínuo de provocações e ataques. O mais grave deles, o bloqueio imposto desde 1962, com o fim de sufocar a ilha economicamente. Os mais violentos, os vários atentados terroristas contra hotéis e companhias aéreas cubanas, realizados por homens como Rubén Dário López-Castro, Orlando Bosch e Luis Posada Carriles, com o apoio do governo norte-americano, para desestimular o turismo. Os mais imbecis, as várias tentativas de assassinato contra Fidel Castro, que incluíam uma miríade de técnicas; de peixes explosivos a charutos envenenados.

A queda da URSS e o Pivô para a Ásia

A história do império norte-americano é uma história de contínua expansão. Se a Primeira Guerra serviu para sepultar alguns poderes coloniais e submeter os países europeus ao endividamento, e a Segunda para submeter todo o ocidente, inclusive politicamente, à hegemonia norte-americana, a queda do bloco soviético nos anos 90, encerrando a Guerra Fria, seria tomada como uma vitória de tal monta que alguns teóricos norte-americanos passariam a acreditar sinceramente não em um “momento unipolar”, mas numa unipolaridade perpétua: um “fim da história”, nas palavras de Fukuyama e seus seguidores vários. Talvez não tenham compreendido que cada “bem” ou “avanço” que promoviam sob sua concepção de política externa trazia dentro de si um “mal” ou um “retrocesso”, que se desencadeava violentamente contra suas pretensões: a revolução russa e ascensão do nazismo na Alemanha (inclusive como um desdobramento em contradição com a primeira) foram reflexos diretos da Primeira Guerra; o espraiamento das revoluções socialistas e lutas de libertação nacional pelo Terceiro Mundo, na África, Ásia e América Latina, efeitos diretos da Segunda. Com a Guerra Fria não seria diferente: se a queda do bloco soviético “limpou o mundo” para os Estados Unidos, também libertou a China do cerco e das rusgas mantidas com a União Soviética, e o cenário internacional hoje talvez indique que o grande acontecimento do século 20 não tenha ocorrido em 1917, na Rússia, mas em 1949, na China.

Com uma área de mais de 9 milhões de km², banhada por um litoral de 14 mil km, com acesso direto ao Sul e Norte do Pacífico e a maior população do mundo, a China sempre foi tomada como um elemento chave e um inimigo em potencial na estratégia geopolítica de diversos países em diferentes períodos. Em 1877, em carta dirigida ao czar, o general Mikhail Skobelev declarou que “no momento em que a raça chinesa, transbordando todas as suas fronteiras, ameaçasse a Europa e a Rússia com novas invasões bárbaras, não seria muito desejar ver a Rússia colocar uma barreira intransponível aos Gengis Khan do futuro”. Quase um século depois, em 1960, Gorbachev repetiria – em tom mais comedido – as palavras de Skobelev: “O Ocidente não compreende a situação. Mas se a China, com seus 800 milhões de habitantes, empreendesse a rota das antigas invasões, o Ocidente se mostraria contente de encontrar um escudo”. Ainda assim, “para os estrategistas em Washington, à época, a vitória da Revolução Chinesa, um golpe tão pesado quanto poderia ser, ainda era, em termos estratégicos, um incidente menor”, de acordo com Perry Anderson. De fato, o diplomata George F. Kennan, ideólogo da Doutrina Truman, disse em 1951: “quanto menos nós norte-americanos tivermos alguma coisa a ver com a China, melhor. Não precisamos nem cobiçar os favores nem temer a inimizade de qualquer regime chinês. A China não é o grande poder do Oriente.”

Essa ingenuidade dos anos 50 seria, em parte, remodelada na década de 70, com um governo Nixon que buscaria esgarçar a ruptura sino-soviética por meio de uma aproximação mútua com a China e a União Soviética, adicionando às desavenças entre os dois países em relação a territórios, cooperação e direção sobre o comunismo internacional a luta por relações preferenciais com os Estados Unidos, num embate em que a recusa de um acordo com os norte-americanos poderia se refletir no avanço das relações entre eles e seu competidor no mundo comunista (que era também um competidor no espaço vital). Ainda assim, o alvo preferencial do império continuava a ser a União Soviética.

Já durante os anos 90, após ter colhido a vitória sobre os soviéticos, a “grande estratégia” norte-americana sobre a China seria focada nos benefícios obtidos pelos Estados Unidos no acesso de importações baratas da China (especialmente manufaturados) que “em efeito aumentam o padrão de vida dos EUA sem aumentos (inflacionários) na renda, e reduzem os custos de insumos para as empresas”, nas palavras de Edward Luttwak, e no acesso a capital barato, usado pelas autoridades chinesas nas compras de títulos de dívida, notas do tesouro e outros instrumentos dolarizados. Esta seria uma política externa orientada especialmente pelos interesses do capital financeiro norte-americano, em detrimento do industrial, e promovida pelo Tesouro dos EUA.

Outra política emergiria no começo do século; uma que valorizava a cooperação com a China em alguns aspectos, mas a via mais como um oponente, “tanto multilateralmente, no Conselho de Segurança da ONU e outros lugares, e bilateralmente em suas relações com os próprios Estados Unidos, seus aliados e outros países de interesse norte-americano, incluindo estados-vilões (rogue regimes), tanto no que tange interesses concretos norte-americanos e seus valores”. Esta política, que Luttwak diz ter sido promovida especialmente por Hillary Clinton enquanto Secretária de Estado de Obama e que teria como maior promotor o Departamento de Estado, ascendeu definitivamente a partir de 2008, quando ficou claro que “a China coopera com os Estados Unidos só quando seus interesses demandam tal cooperação, enquanto que habitualmente ela se opõe aos Estados Unidos sempre que seus interesses permitem tal oposição. […] Em contraste, a Índia, por exemplo, com frequência se opõe aos Estados Unidos, mas nas vezes que se opõe o faz por alguma razão positiva sua, boa ou ruim, não meramente porque pode fazê-lo.” Assim, a conduta do Departamento do Estado seria adotar “oposição energética contra a China sempre que ela engaje em uma conduta expansionista”. Essa política visa, portanto, a contenção, em um globo visto agora não mais como ordenado sob uma unipolaridade inconteste, mas em crescente disputa.

Por fim, uma terceira política emergiria, tendo como principal promotor o Departamento de Defesa. Essa política incorpora a necessidade de contenção da política anterior, do Departamento de Estado, mas vê a China como o principal inimigo internacional. “Com a economia fornecendo recursos cada vez maiores, toda a superestrutura científica e tecnológica da China está crescendo tanto quantitativa quanto qualitativamente, e isso, por sua vez, está fornecendo uma base de expansão para a inovação militar em todos os setores e até mesmo em todos os subsetores”, escreve Luttwak.

Obviamente, a manutenção da conflitividade entre EUA e China depende de elementos internos do país asiático, que não são imutáveis nem facilmente previsíveis, mas resumíveis nas possíveis mudanças de direção ou liderança e nas veredas incalculáveis da luta de classes. Apesar de não podermos prever com facilidade – especialmente de tão longe – que caminhos serão esses e que tipo de liderança emergirá nos próximos anos na República Popular da China, o cenário hoje indica de todos os modos um novo capítulo de uma luta global, seja para os propugnadores do socialismo chinês ou os críticos do capitalismo de Estado (ou ainda capitalismo de vigilância), seja ela vista como uma disputa interimperialista ou um conflito antiimperialista. O fato é que a um tanto furtiva ascensão da China já é o grande evento definidor da disputa geopolítica deste começo de século.

E nisso, apesar do seu crescimento econômico e de seus avanços tecnológicos e militares notáveis, a esfera de influência natural chinesa não passa inconteste – aqui está a importância do Pivô para a Ásia de Obama, que reorientou o foco estratégico norte-americano do Oriente Médio e da Europa para a Ásia, especialmente para os países do sudeste asiático. A fraqueza estratégica chinesa estará precisamente no fato de não possuir uma contrapartida nas Américas enquanto, em sua própria esfera de influência, tem outros estados-competidores muito fortes – como a Rússia e, especialmente, a Índia. Assim, ironicamente, o gigante asiático se confronta com um desafio estratégico: com muita dificuldade assegurará uma posição de hegemon em sua esfera de influência, o que o impele a consolidá-la em territórios distantes, ao passo que os Estados Unidos se dedicam a sufocá-la. Até o momento, a China parece conseguir avançar sua estratégia no Oriente Médio, na África e, muito parcialmente, na Europa, mas de fato o que em última instância poderá levar a China para uma situação de relativo equilíbrio estratégico, mais do que a robustez de sua economia, o seu nível de desenvolvimento tecnológico, a incidência de sua moeda nas trocas globais e a rigidez e extensão de sua estrutura militar, será sua capacidade ou incapacidade de prolongar sua influência na América Latina, espaço vital norte-americano, de onde poderia restringir os movimentos de seu competidor ou inimigo no próprio berço, como ele pode fazer, com bastante liberdade – como demonstra a recente saída do Afeganistão – com o dragão chinês. Essa é a disputa que, ainda timidamente, assistimos hoje, e que cada vez mais deve se fazer presente em nosso território.

O voo do condor

O mesmo Kennan que promulgava um afastamento dos Estados Unidos da “questão chinesa” em 1951 dizia um ano antes, a embaixadores norte-americanos na América do Sul, que “não devemos hesitar diante da repressão policial por parte dos governos locais. Isso não é algo do qual devemos nos envergonhar, pois os comunistas são essencialmente traidores.” Portanto, seria “melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal indulgente, relaxado e impregnado de comunistas.”

Os anos seguintes dariam vazão ao colóquio de diplomatas ianques: uma tentativa de golpe mal-sucedida na Argentina; o estabelecimento de uma junta militar na Bolívia; o golpe de Batista em Cuba; o golpe de Rojas na Colômbia; a deposição de Árbenz na Guatemala; o golpe militar de Stroessner no Paraguai; o suicídio de Getúlio, acossado pelos antigos aliados militares; a tentativa de golpe contra Juscelino; a chamada “Revolução Libertadora” na Argentina (desta vez bem-sucedida), seguida por mais um golpe em 1962; a derrubada de Juan Bosch na República Dominicana; o golpe na Guatemala, seguido por Equador, Peru e Honduras; e finalmente os golpes no Brasil e Bolívia, em 1964, por meio dos quais se lançaria a infraestrutura da Operação Condor, frutificando torturas, desaparecimentos e outros golpes por todo o continente.

Por óbvio, numa terra assentada por coturnos e cindida por golpes, o fenômeno não tinha um caráter meramente internacional. Mas a América Latina, promulgada um quintal desde Monroe, evidentemente era peça-chave na geopolítica de um império que pugnava em um mundo dividido. Não foi por um acaso, portanto, que a maior parte dos regimes militares ascenderam no cume da Guerra Fria, e se desvaneceram aos poucos, sem prejuízo aos Estados Unidos, à medida que os norte-americanos consolidavam e avançavam sua política de contenção contra a URSS – o “surto nacionalista” de alguns regimes nos anos 80 (como Brasil e Argentina) era mais reflexo da perda de apoio norte-americano do que causa dele. 

As alterações e reviravoltas na conjuntura internacional, durante todo o projeto imperial norte-americano, sempre implicaram mudanças significativas na América Latina. A própria ascensão de projetos de independência na região, no século 19, coincide com o esgotamento do mercado interno norte-americano e sua expansão para além das fronteiras – não por acaso o herói e poeta independentista José Martí falara com tanta veemência de uma necessária “segunda independência” contra o monstro em cujas entranhas viveu. A Segunda Guerra aumentou o espaço de manobra no continente, possibilitando saltos de industrialização com uma política de conciliação entre classes a partir do Estado (presentes em fenômenos como Perón e Vargas, por exemplo) que acabou finalmente asfixiado durante a Guerra Fria. A queda do bloco soviético nos anos 90 deu lugar à ampla onda de democracias neoliberais, fielmente guiadas pelas novas demandas centrais e ditadas pelo FMI, que seriam sobrepostas por uma onda de governos social-democratas ou social-liberais no final da década, mais ou menos comprometidos com o antiimperialismo e progressistas, mas atacados mais cedo ou mais tarde, por meios “sutis” (como lawfare ou golpes brandos) ou “tradicionais” (como golpes de Estado e sedições).

Mas apesar do avanço da direita regional sobre a chamada “maré rosa” no continente – Macri na Argentina; Temer e Bolsonaro no Brasil; Moreno e Lasso no Equador; Piñera no Chile; Micheletti, Sosa e JOH em Honduras; Cartes e Abdo no Paraguai – os alvos prioritários do imperialismo no continente se mantêm (Venezuela, Cuba e Bolívia, depois do golpe), e as tentativas de consolidar uma nova hegemonia neoliberal por via “democrática” encontram barreiras evidentes, mesmo onde o lawfare fez mais estrago. Por outro lado, o imperialismo também se vê sob pressão dos povos do continente, como mostraram as gigantes manifestações no Chile, Equador e Colômbia, e a recente eleição de Castillo no Peru. Mas, acima de tudo, a influência econômica chinesa na região se mantém e expande. O que virá no novo ciclo? Que fenômenos testemunharemos junto à ascensão de uma nova potência? Se o mundo se dividir mais uma vez, que papel a América Latina terá, ou que papel lhe será imposto?

Esta é a primeira parte desta série de artigos.