7 de setembro: os caminhos da derrota

Quem se mantém com iniciativa ou forte costuma ser premiado. Quem quiser enfrentá-lo não pode se deliciar com o “não foi dessa vez”. Por Pedro Marin | Revista Opera

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Cerimônia comemorativa do 7 de Setembro, no Palácio da Alvorada. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro para o último 7 de setembro não foram pequenas. Mas estiveram de fato muito aquém do esperado, se considerados fatores objetivos como a antecedência de mais de um mês com a qual as convocatórias foram feitas, a concentração das mobilizações em poucas cidades, a quantidade de recursos gastos para a logística do material bovino – recursos vindos em grande parte, não por acaso, de uma trupe de empresários do agrobusiness –, e também subjetivos, como a presença preanunciada de Bolsonaro em duas capitais e o espírito de “batalha final” e “tudo ou nada” sob o qual os protestos foram mobilizados.

Em contraste, as manifestações do campo popular, contra o presidente, foram menores do que as anteriores, mas tiveram tamanho além do esperado, tomando em conta que relevantes nomes e setores da centro-esquerda apostaram na desmobilização, no derrotismo e no pânico. O pronunciamento do ex-presidente Lula às vésperas do 7 de setembro, por exemplo, constituiu não muito mais do que um spot de campanha política, no qual os atos programados simplesmente foram ignorados. As manifestações do dia 7 demonstraram que somente com muito esforço, preparo e dinheiro Bolsonaro consegue mobilizar suas bases. No entanto, o presidente parece preparado para fazê-lo sempre que for necessário, enquanto o que se vê do outro lado é uma enorme quantidade de energia gasta em nome da inércia: combinação arriscada esta em que os reacionários mostram força para fazer o tempo avançar, ao passo que a centro-esquerda se afrouxa para cadenciar-lo.

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Entre um presidente que com muito afinco mobiliza suas bases sem conseguir superar seus inimigos e um setor que não opta pela mobilização para enfrentá-lo; entre uma figura cuja derrota nas urnas está traçada e outra que pretende esticar o tempo até 2022; entre uma tendência que já não é suficiente para submeter o país e outra que, apesar de suficiente para avançar, deixa suas forças na reserva para que não cale as ameaças de uma vez; entre a mobilização de poucos contentes e o imobilismo de muitos descontentes; entre o fracasso previsível de um e a vitória que ainda não pode se consolidar de outro: cá está a brecha onde a direita neoliberal clássica – chamada de centro-direita desde que Bolsonaro passou a constar na régua – pretende agora se posicionar. Não foi por acaso que, já na noite de 7 de setembro, representantes do PSDB, PSD, Solidariedade e MDB tenham balançado a bandeira do impeachment, a uma semana das manifestações de direita, que prometem levar às ruas um “nem Lula, nem Bolsonaro” no dia 12.

Manifestação pelo Fora Bolsonaro no Vale do Anhangabaú, São Paulo, no 7 de setembro. (Foto: Pedro Marin / Revista Opera)

O Partido Fardado continua a ser um outro elemento. Ou melhor: o principal elemento. Ali há uma cadeia de comando, preparada para assegurar a mobilização sob quaisquer condições, faça chuva ou sol, e uma força que nenhum dos outros atores políticos pode igualar. Com as manifestações, fica mais evidente que Bolsonaro não tem popularidade para eventualmente arrastar os fardados a seu plano, contra as vontades destes; mas eles certamente seguem sendo os fiéis da balança, o que vale para o presidente e também para a oposição.

Um impeachment de Bolsonaro, portanto, se tornará possível na mesma medida em que a oposição passe a oferecer aos fardados uma via de permanência no Estado e na política após ele – o que provavelmente será oferecido e, de acordo com alguns, já está sendo feito. A promessa de subir à presidência com a impugnação da chapa Bolsonaro-Mourão certamente brilha aos olhos de Lira e a “centro-direita”, mas estes sabem que isso significaria agrupar o Partido Fardado e Bolsonaro em uma linha de defesa única sob a qual o Congresso e as eleições poderiam até deixar de existir. É arriscado demais. Ao mesmo tempo, é precisamente sob a ameaça de apoiar Bolsonaro em uma eventual aventura que o Partido Fardado pressiona a oposição para que seu feudo, num eventual impeachment, seja assegurado: Bolsonaro e os milicos se protegem mutuamente, com a vantagem destes últimos.

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Esse campo minado é uma das razões pelas quais a perspectiva de “desgastar Bolsonaro até 2022” é tão perigosa. A posição já constituiu uma estupidez no passado, quando se permitiu que a direita avançasse livremente sobre o governo de Dilma Rousseff (com o apoio inesquecível de muitos “democratas” de hoje) na perspectiva de que as instituições resolveriam os problemas ou que em 2018 o governo impopular de Temer daria livre passagem a uma eleição de Lula. Pelo contrário, Lula foi preso num ardil das próprias instituições e retirado artificialmente da disputa – com o apoio das ameaças fardadas – para deixar livre a ascensão de Bolsonaro.

Com a direita neoliberal sinalizando sua disposição a confrontar Bolsonaro, o valor dos militares aumenta – são necessários tanto para uma das partes em disputa quanto para a outra. Somente a decisão na mobilização do povo, o que incluiria um necessário movimento de greve, pode garantir que nem Bolsonaro consiga apoio para suas peripécias golpistas, nem que seja impedido de fazê-las em um “grande acordo nacional”, com milicos, com tudo. Confiar nas instituições, nas frágeis alianças e “frente amplas”, na inércia e na indecisão, não é esperar em cima do muro e prolongar o tempo – é escolher de bom grado a fraqueza. Ferramenta ruim para enfrentar golpismos, e também para tomar chás com milicos. A fortuna costuma premiar quem se mantém ativo e com iniciativa – como faz Bolsonaro – ou forte – como é o Partido Fardado. Quem quiser enfrentá-los não pode se deliciar com o “não foi dessa vez”.