Eleições primárias na Argentina: o triunfo da direita e o ressurgimento da extrema-direita

As eleições primárias na Argentina parecem sinalizar um voto de castigo, que inclui a aparição de um novo eixo discursivo na direita. Por Rubén Armendáriz | CLAE - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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(Foto: Mídia Ninja)

A importante vantagem que a coalizão opositora de direita Juntos por el Cambio obteve no domingo sobre a governista Frente de Todos significou um voto de castigo, e deixou uma mensagem muito nítida para o titubeante governo de Alberto Fernández, o que o obrigará a abandonar o caminho da conciliação com os poderes econômicos nacionais, transnacionais e multilaterais, além de trabalhar na agenda econômica e social para superar a crise.

As eleições Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO) realizadas no último domingo na Argentina foram comícios internos e não uma concorrência entre blocos, mas a mensagem do eleitorado foi clara.

“Algo não fizemos bem, para que as pessoas não nos acompanhem como esperávamos”, disse o presidente Alberto Fernández, que pediu que o acompanhem nas eleições legislativas de novembro porque “estamos diante de dois modelos de país: um modelo que inclui a todos e um modelo que deixa milhões de lado”, enquanto todos os setores da coalizão governista pediam mudanças de gabinete de maneira urgente, com pessoas com capacidade de gestão, que olhem para os argentinos e não para o FMI. 

A votação foi bastante alta nas primeiras eleições realizadas a nível nacional na Argentina durante a pandemia de Covid-19, já que mais de 68% das pessoas aptas a votar foram exercer seu direito, um número próximo à média das PASO legislativas (em 2017 foi 72%), considerando que o contexto pandêmico pressupunha um menor nível de participação. 

O oficialismo perdeu nestas primárias em 18 distritos. Além da Cidade Autônoma de Buenos Aires, perdeu em  Corrientes, Chaco, Córdoba, Entre Ríos, Jujuy, La Pampa, Mendoza, Misiones, Neuquén, Salta, Santa Fe, o importante bastião da província de Buenos Aires e as províncias da Patagônia, incluindo Santa Cruz, do ex-presidente Néstor Kirchner.

Por outro lado, manteve Catamarca, Formosa, La Rioja, San Juan e Tucumán, e contabilizou positivamente os resultados de Santiago del Estero e San Luis, onde ganharam forças aliadas. 

Estas PASO também posicionaram uma expressão radicalizada da direita argentina, com os “libertários” na capital, sem uma expressão partidária única e com o establishment sem reação aos discursos enfadonhos do candidato da coalizão La Libertad Avanza, Javier Milei,  na televisão. O eleitorado da capital do país é historicamente conservador, mas os candidatos de extrema-direita conseguiram um em cada quatro votos, número preocupante para a manutenção das regras democráticas.

Sem dúvidas, o governismo optou por seguir os ditames dos assessores de imagem dos seus candidatos (muitos deles desconhecidos para a maioria dos eleitores) e subestimou a complexidade do problema econômico e seu impacto sobre uma delicadíssima situação social que o país vive.

Para enfrentar a pandemia, o governo buscou alternativas que colocassem dinheiro nos bolsos das pessoas com menos recursos, mas que foram insuficientes, sobretudo na base eleitoral do próprio peronismo. A implementação de programas limitados foi combinada com uma dilatada recuperação econômica e rendas que continuam por baixo da inflação. O aumento dos preços superará 50% em 2021, enquanto o poder aquisitivo não para de cair desde 2016 (com exceção de 2017). 

Durante os dois anos de governo, a equipe econômica procurou trabalhar sobre um ordenamento da macroeconomia, sob os ditames do Fundo Monetário Internacional (FMI), marcados por uma restrição externa, que tensiona sobre o valor do dólar e coloca limites ao próprio crescimento econômico, negligenciando a questão interna, em crise severa já há muitos anos. O país tem uma taxa de desemprego de dois dígitos e a pobreza alcança 45% da população no chamado “celeiro do mundo”.

Os resultados das PASO para a renovação legislativa colocaram a aliança Juntos por el Cambio como grande vencedora, com folga, na soma dos candidatos que disputavam as internas dessa coalizão em distritos estratégicos como Córdoba, Santa Fe, La Pampa, Entre Ríos, cidade de Buenos Aires e inclusive a província de Buenos Aires, onde a diferença a favor dos pré-candidatos do macrismo alcançou quase 5%. 

A surpresa das eleições internas foi a vitória de Juntos na província de Buenos Aires, principal distrito eleitoral do país e um tradicional bastião peronista. A coalizão direitista obteve 38,3% dos votos, contra 33,5% dos governistas que, na maior parte dos distritos, concorreram com lista única, sem internas. 

O candidato mais votado de Juntos na província foi Diego Santilli, do macrismo, que derrotou o radical Facundo Manes, neurologista que nesta ocasião fez sua primeira incursão na política, em uma tentativa de renovar e potencializar a Unión Cívica Radical na interna do bloco de direita. 

Na cidade de Buenos Aires, o triunfo de Juntos foi ainda mais contundente. O bloco conseguiu 48,3% dos votos e, dentro da interna, a ganhadora foi a ex-governadora da Província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, mão direita do atual chefe de governo da cidade, Horacio Rodríguez Larreta.

Vidal obteve quase 70% dos votos dos cidadãos portenhos, deixando o liberal Ricardo López Murphy e o radical Adolfo Rubinstein muito atrás. O segundo setor mais votado na capital foi a coalizão governista Frente de Todos, com 24,58%. 

Em terceiro lugar ficou La Libertad Avanza, setor liderado pelo liberal de extrema-direita Javier Milei, que obteve 13,64% dos votos. Superou suas próprias expectativas, já que em seu entorno se dizia antes das eleições que esperavam alcançar cerca de 10% dos votos. 

Com o grito “que trema a casta política!”, Javier Milei se dirigiu aos seus simpatizantes fervorosos. O economista midiático de 50 anos disse ainda que esta boa votação era o primeiro passo “para voltar a uma Argentina potência”.

Os resultados mostram a irrupção de um novo eixo discursivo da direita argentina, que vai do “terraplanismo” de extrema-direita de Milei (13,65%) ao decidido negacionismo do ex-ministro radical López Murphy (11,32%), e cuja captação de votos é considerável, especialmente na Cidade de Buenos Aires. Ou seja, um em cada quatro portenhos escolheu candidatos que expressam posições que estão à direita de Cambiemos

A verdade em novembro

A palavra final será dos eleitores nas eleições gerais de 14 de novembro, nas quais quase metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado serão renovados. Nas PASO, a direita agrupada em Juntos por el Cambio obteve quase 42% dos votos a nível nacional, contra 31% da coalizão governista Frente de Todos

Serão renovadas 127 cadeiras na Câmara de Deputados e 24 no Senado. Mais da metade dos deputados sairá de quatro distritos: Buenos Aires (25 deputados), Cidade de Buenos Aires (13 deputados), Córdoba (9 deputados) e Santa Fe (9 deputados).

Do total de cadeiras em jogo neste ano, 60 estão com a coalizão Juntos por el Cambio e 51 são ocupadas por representantes da Frente de Todos. A proporção se inverte no Senado. Ali a Frente de Todos tem que renovar 15 cadeiras contra 9 arriscadas por Juntos por el Cambio

É certo que a derrota eleitoral se transformará em uma crise política. No entanto, nos últimos 15 anos, não é a primeira vez que o peronismo perde uma eleição no meio do mandato. Pode haver vida após a derrota – foi o que aconteceu em 2009 e 2017. Para isso, o governo deverá trabalhar com muito mais clareza sobre a agenda socioeconômica, a única primordial com um país com os indicadores atuais.

Obviamente, se a Frente de Todos não é o governo da “produção e trabalho”, como prometeu Alberto Fernández na campanha de 2019, é lógico que a população buscará alternativas. O jornal pró-governo Página 12 lembrou que o escritor português José Saramago costumava dizer que “o que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”.