50 anos da Rebelião de Attica, a Comuna de Paris dos prisioneiros

A rebelião de 1,5 mil detentos da prisão de Attica fomentou e foi reflexo de um crescente movimento popular nos EUA da década de 70. Por Sharon Black | Struggle La Lucha – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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No dia 9 de setembro de 1971, aproximadamente 1500 prisioneiros no bloco de celas D tomaram o controle do Centro Correcional de Attica, no interior do Estado de Nova York, depois de terem enviado um manifesto de 27 pontos para a administração prisional numa tentativa de resolver suas condições torturantes dentro da prisão.

Na época do levante, 2,3 mil prisioneiros se amontoavam em uma prisão construída para cerca de 1,6 mil pessoas. O supremacismo branco por trás dos muros da prisão era evidente em todos os aspectos, das condições de moradia dos prisioneiros até os brutais turnos de trabalho.

Só era permitido aos prisioneiros um banho por semana e um rolo de papel higiênico por mês. Eles labutavam cinco horas por dia e recebiam entre 20 centavos e um dólar por um dia inteiro de trabalho. De 14 a 16 horas, eles eram enjaulados em celas de 1,8 por 2,7 metros.

Um ânimo revolucionário

É fundamental compreender o contexto histórico mais amplo no qual essa rebelião ocorreu. Como puderam pessoas que foram tão humilhadas, cujas vidas estavam penduradas na balança dos caprichos de um guarda, tomar uma atitude tão heróica?

Fora das cadeias e também dentro de muitas prisões, uma batalha pela libertação dos povos negros, porto-riquenhos, indígenas e chicanos estava ocorrendo. Um novo ânimo revolucionário se espalhava pelo país pelo fim de todas as formas de opressão.

Milhões de pessoas estavam protestando contra a Guerra do Vietnã. O movimento de libertação de mulheres também estava começando a florescer. A Rebelião de Stonewall tinha deflagrado um movimento de libertação lésbico, gay, bissexual, transgênero, queer e dois-espíritos (LGBTQ2S). Apenas dois anos depois, ocorria a ocupação de Wounded Knee, na Dakota do Sul, pelo Movimento Indígena Americano.

A Comissão McKay (Comissão Especial do Estado de Nova York sobre Attica) comentaria mais tarde: “com a exceção dos massacres indígenas no fim do século 19, o ataque da polícia estadual que pôs fim ao levante de quatro dias foi o mais sangrento encontro entre americanos desde a Guerra Civil.”

Organizando por trás das muralhas

Um sério processo de organização ocorria dentro da prisão de Attica antes da rebelião. Muitos grupos fora da prisão eram refletidos dentro dela, incluindo o Partido dos Panteras Negras, os Young Lords, a Nação do Islã e os Five Percenters. Muitos deles tinham grupos de estudo. A Fração de Liberação de Attica se desenvolveu nesse período.

Em julho de 1971, a Fração de Libertação de Attica apresentou uma lista de 27 exigências ao Comissário de Correções Russel Oswald e ao governador Nelson Rockefeller. Essa lista de demandas era baseada no manifesto dos prisioneiros de Folsom, escrita pelo preso Martin Sousa em apoio a uma greve prisional de novembro de 1970 na Califórnia.

No dia 21 de agosto de 1971, o líder dos Panteras Negras George Jackson foi assassinado por guardas racistas na prisão de San Quentin, na Califórnia. Prisioneiros de todos os cantos do país, incluindo algumas centenas em Attica, começaram uma greve de fome. O assassinato de Goerge Jackson se tornou a cola que permitiu aos presos em Attica se unirem a despeito de religião, nacionalidade e facções políticas.

A Comuna de Paris dos prisioneiros

Em 9 de setembro, os detentos tomaram controle sobre a prisão. Eles fizeram alguns guardas reféns para garantir que sua manifestação seria ouvida, já que não haviam recebido nenhuma resposta ao seu manifesto por parte do comissário de correções ou do governador.

Enquanto os eventos ocorridos no 9 de setembro foram espontâneos e começaram uma briga entre guardas e prisioneiros, o nível de organização e o que se tornou um levante de larga escala foram resultado da liderança revolucionária e consciência que havia crescido durante esse período.

É notável o alto nível organizativo e de disciplina dos milhares de detentos que fizeram parte do movimento. Eles elegeram um comitê central, que apontava presidentes; eles organizaram um comitê de observadores formado por 33 pessoas, que incluía não apenas o advogado William Kunstler, o Pantera Negra Bobby Seale, o representante da Assembleia de Nova York Arthur O. Eve, e representantes dos Young Lords, mas também Tom Soto, do Comitê de Solidariedade aos Prisioneiros.

As demandas do levante eram continuamente desenvolvidas. Uma das principais era a reivindicação de anistia para todos os presos.

Incontáveis fotos mostram as colunas de barracas, as trincheiras preparatórias e muitas outras medidas organizadas pelos prisioneiros. Eles votaram sobre as reivindicações e racionavam comida e água para sobreviverem. Durante toda o levante, os 40 reféns foram tratados de forma humana.

As demandas concretas desenvolvidas durante a insurreição abrangiam todos os aspectos de sobrevivência na prisão, incluindo saúde, comida, fim do uso da solitária, direito a visitas e uma lista de direitos trabalhistas, como o direito de organizar um sindicato e o fim da exploração.

A primeira vez em que a classe trabalhadora tomou o poder em suas próprias mãos foi durante a insurreição conhecida como Comuna de Paris, em 1871. Os communards baniram os aluguéis, reconheceram os direitos das mulheres, aboliram o trabalho infantil, tomaram as oficinas de trabalho e instalaram suas própria forma de governo. A comuna serviu como um exemplo histórico para muitos socialistas revolucionários sobre o potencial de um estado dos trabalhadores. Ao fim, ela foi destruída ao custo de muito sangue, mas as lições ficaram.

Um século depois, no dia 13 de setembro de 1971, o governador Rockefeller ordenou a invasão da prisão de Attica. Com helicópteros voando sobre suas cabeças, cerca de mil policiais, tropas da guarda nacional e guardas prisionais dispararam no pátio, matando 39 pessoas e ferindo 89, no que só pode ser descrito como um massacre. Isso ocorreu em apenas 15 minutos.

Muitos daqueles feridos não receberam tratamento médico. Os presos não tinham nem armas nem munições para se defender.

A imprensa esbravejou que os dez guardas feitos reféns que morreram durante a invasão tiveram suas gargantas cortadas. Mas as autópsias mostraram que todos os dez tinham sido baleados pelas tropas de Rockefeller.

É doloroso descrever o que ocorreu logo após o massacre. Os prisioneiros foram forçados a se despir, espancados, forçados a correr por corredores poloneses e brutalmente torturados. Alguns guardas invadiram o pátio gritando “poder branco”.

Um grito de guerra por libertação

Apesar de tudo, o levante e o massacre de Attica agitaram prisioneiros em todos os lugares. Se estima que 200 mil presos protestaram e tomaram parte em greves no rescaldo do massacre. O número de rebeliões prisionais dobrou.

A rebelião de Attica continua a servir como um farol hoje para aqueles que lutam contra o racismo e o encarceramento em massa e pelos direitos dos trabalhadores em todos os lugares.