Chile, 1973 e as batalhas que virão

O governo Allende foi resultado do apoio dos setores populares do Chile, mas também da potência do Partido Socialista e do Partido Comunista. Por Juan Manuel Soria | Notas Periodismo Popular - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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(Foto: Ministerio de Educación de Chile)

As coordenadas conjunturais sempre marcarão as perguntas sobre o passado, assim como as explicações e análises que podem ser construídas sobre esse tempo pretérito a partir da atualidade. Nos encontramos diante de mais um aniversário do golpe de estado que derrubou o projeto da “via chilena para o socialismo”: o governo da Unidade Popular, liderado por Salvador Allende. Porém, este aniversário aparece em coordenadas históricas bastante particulares: por um lado, uma pandemia que tensionou as formas de produção e reprodução capitalistas da vida e, por outro lado, um destino incerto para os movimentos progressistas de forma geral. Através de uma série de erupções sociais a nível continental e uma gama variada de governos populares/progressistas fortemente tensionados que se mantêm ou chegam ao poder em distintas condições, os setores populares atravessam a crise e o conflito social de diversas formas. No entanto, também surge um forte avanço das diferentes formas das direitas, com uma forte retórica antiestatal, anticomunitária e antifeminista que atrai velhos e novos setores para sua esfera em um mundo onde as certezas ardem como fusíveis.

O projeto neoliberal, liderado pelos Estados Unidos, que havia emergido triunfante após a queda do bloco socialista em 1991 e tornou-se forte durante décadas em que era (e é) “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, foi colocado em xeque (ou pelo menos sob tensão) pelo começo da pandemia de Covid-19. Porém, as tensões geradas pelo neoliberalismo, marcadas por uma forte crise climática e uma brutal concentração da riqueza não começaram em 2020: são resultado de um processo e projeto de acumulação de capital. E a palavra “neoliberalismo” leva-nos inevitavelmente ao Chile, mais especificamente ao ano de 1973. Por que? Porque a partir do dia 11 de setembro de 1973 o Chile se transformou no principal laboratório das receitas neoliberais, que serviria como ponta de lança para implementá-las na região posteriormente. Mas este “projeto histórico das coisas” chegou para encerrar o que? 

O golpe de estado de 11 de setembro de 1973 finalizou uma das mais importantes experiências das esquerdas no século XX: a via chilena para o socialismo. Nas linhas a seguir, tentaremos esboçar uma imagem geral do seu significado, a partir das leituras de contribuições de Tomás Moulian, Felipe Lagos-Rojas e Marian Schlotterbeck.

I.

A chegada da Unidade Popular ao poder em 4 de setembro de 1970 responde, na verdade, a um processo histórico com diversas temporalidades. Para compreender a gênese desta coalizão de esquerdas devemos regressar ao final do século XIX e ao começo do século XX. A articulação das novas relações capitalistas a nível mundial trará consigo mudanças econômicas e sociais na estrutura regional. Esta terá um papel de “provedora” de matérias-primas para as potências em expansão: minerais e produção agropecuária para o funcionamento da maquinaria industrial que se consolidava na Europa e, de forma incipiente, nos Estados Unidos. Porém, junto com esse processo, o Chile veria nascer um poderoso movimento operário surgido nos setores mineiro e têxtil, acompanhado pelas formações do Partido Socialista e do Partido Comunista. 

A década de 1930, por sua vez, será parida com o crash de Wall Street em 1929. O capitalismo, que vivia uma crise sem precedentes, estava ameaçado tanto pela experiência da União de Repúblicas Socialistas Soviéticas como pelo avanço dos fascismos na Europa. A Comintern colocará a necessidade de formar as chamadas “Frentes Populares”, ou seja, governos de caráter defensivo contra o avanço das experiências direitistas na Europa. Os partidos comunistas em todo o mundo foram convocados a formar coalizões amplas com setores outrora rotulados como “reformistas” ou “social-fascistas” (como o Partido Socialista) para chegar ao poder e impedir o avanço da reação. Várias experiências foram bem-sucedidas em termos eleitorais e de experiência organizacional: a Frente Popular na França, mas também na Espanha e no Chile (cada uma com suas próprias derivas e tragédias) abriram novas possibilidades de disputa de poder para as esquerdas a nível mundial para além da tática insurrecional. No Chile, a Frente Popular chegará ao governo em 1938. Esta experiência marcaria algo fundamental para o desenvolvimento político das esquerdas no Chile: a real possibilidade da disputa pelo poder em termos eleitorais. 

II.

O desenvolvimento da Guerra Fria a partir do final da Segunda Guerra Mundial será o marco do recuo das estratégias revolucionárias para as esquerdas na Europa. No entanto, o agora chamado “Terceiro Mundo” tinha outras coisas para dizer sobre a mudança social: China, Coreia, Vietnã, Argélia e, principalmente, o ano de 1959 em Cuba habilitariam – junto com o processo de desestalinização da URSS – o nascimento de novas experiências revolucionárias. Em consequência, isto levaria a uma mudança da resposta norte-americana em nossa região: em um mundo em disputa, o nascimento da chamada “Aliança para o Progresso” seria a forma pela qual, através dos investimentos de capital norte-americano e do apoio às políticas repressivas contra o “comunismo”, os Estados Unidos buscariam deter o avanço da revolução na América Latina.

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Neste contexto, a chegada do democrata cristão Frei Montalva ao poder em 1964 e sua “revolução em liberdade” apresentarão um tímido programa reformista que promoverá leis de sindicalização e, de forma muito incipiente, tentará realizar uma reforma agrária. Como diz Tomás Moulian, embora isto não tenha sido aprofundado, serviu para elevar as expectativas da sociedade chilena em torno da propriedade da terra e da riqueza. Por outro lado, com a influência de Cuba e as rupturas dos velhos partidos tradicionais da esquerda, o país testemunhará o nascimento do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), que se transformará em um espaço político disruptivo ao propugnar a via armada para chegar ao socialismo. Diante deste panorama, os setores dominantes chilenos começaram a ver a situação com preocupação. É possível afirmar, seguindo Moulian, que o governo de Frei Montalva é um antecedente morno, mas importante, para chegar a 1970. Por sua vez, a partir de 1952 o dirigente do Partido Socialista, Salvador Allende, se tornará o principal candidato da esquerda chilena nas eleições e, após várias derrotas, chegará à presidência através da Unidade Popular em 4 de setembro de 1970.  

III.

O que acontece em setembro de 1970? A chegada da Unidade Popular ao poder põe em destaque o forte apoio que Salvador Allende possuía nos setores populares do Chile, mas também a potência política de uma configuração ampla de esquerdas lideradas pelo Partido Socialista e o Partido Comunista. Como diz Marian Schlotterbeck, o que levou Salvador Allende à presidência do Chile foi a mobilização popular, em um momento histórico marcado pelo avanço e radicalização de amplos setores sociais em todo o continente americano.

Contudo, como afirmou Eric Hobsbawm em 1971, o governo de Allende rompeu com o espírito defensivo das “Frentes Populares”. A liderança dos partidos revolucionários e o apoio massivo serão as condições de possibilidade para a construção de uma via própria de avanço ao socialismo, de forma democrática, pluralista, humanista. Não é um “ínterim” entre a democracia burguesa e o socialismo: é um devenir próprio, apoiado em uma vitória eleitoral e um apoio popular que se revelará fundamental. A revolução do “vinho tinto e empanadas” se afirmava pacífica e democrática, através (e apesar) dos enquadramentos da democracia e das instituições burguesas. Para levar adiante o caminho ao socialismo, enfrentará alguns eixos estratégicos em torno da matriz de acumulação chilena: a nacionalização de empresas e recursos estratégicos. A nacionalização do cobre – para “quebrar a dependência”, nas palavras de Allende – em 1971 é um exemplo claro do espírito revolucionário que guiava o governo. Por outro lado, a política e a radicalização da reforma agrária e um programa que promovia a integração, o resguardo e defesa das áreas indígenas colocavam em discussão e tensão outro tema-chave para a matriz do capitalismo chileno: a propriedade da terra. A estatização do sistema bancário, a nacionalização do cobre e a reforma agrária funcionavam, então, como a tríade que tensionava as estruturas de poder das elites chilenas, sedimentadas ao longo de décadas.

Essas transformações econômicas foram acompanhadas, de acordo com Moulian, por novos focos e experiências de participação social: comandos comunais e cordões industriais, organizações para fomentar a participação dos trabalhadores e das trabalhadores no que dizia respeito ao território e à produção, assim como a formação de conselhos para controlar o abastecimento de alimentos para a população, diante de uma situação de boicote orquestrada pela direita chilena com a conivência do Departamento de Estado dos EUA, são uma mostra do enorme protagonismo da classe trabalhadora em defesa e apoio ativo do processo da Unidade Popular. 

Marian Schlotterbeck afirma que o período 1970-1973 é, então, um período de condensação da esquerda chilena, mas é também um momento de revolução cotidiana, que mostra como se ultrapassam constantemente os limites da institucionalidade liberal-burguesa. É possível construir o socialismo sob estas condições institucionais? Sobre isto, Felipe Lagos-Rojas e Julián Pinto afirmam que o processo da Unidade Popular deve ser compreendido como “uma vontade sociopolítica transversal onde a transição para o socialismo estará marcada pelas tensões em torno a esse objetivo, mas com primazia da hipótese gradualista sobre a rupturista”. Esse objetivo final era uma construção resultante da criação cotidiana e autônoma, assim como das tensões internas no bloco social revolucionário. 

IV.

O golpe de estado do 11 de setembro encerrou a “via chilena para o socialismo”, esse projeto sem precedentes na história das esquerdas. O que veio a seguir é conhecido: um banho de sangue para reestruturar a sociedade, privá-la de seus setores sociais mais dinâmicos, destruir todos os vestígios possíveis de autonomia nacional para subjugar os países aos ditames do capital financeiro. O modelo neoliberal foi imposto nestas latitudes com sangue e fogo. As bombas no Palácio de La Moneda e a morte de Allende foram o prelúdio da violência do capital contra um país inteiro.

Esse foi o modelo que explodiu pelos ares recentemente, a partir das mobilizações de 2019 e 2020, e é a partir dessas coordenadas históricas que repensamos o projeto da Unidade Popular. O cenário – como em todo o continente – se mostra aberto e os tempos que virão parecem ser mais sombrios do que tranquilos para os setores populares. E, no entanto, a voz incandescente de Salvador Allende e os sonhos da Unidade Popular seguem ressoando, firmes: a convicção de que devemos deixar de falar da pobreza para começar a questionar a riqueza, e que é necessário apostar no poder popular e na política de massas para comover o mundo. Nos ensina que a democracia burguesa às vezes pouco tem de democracia, mas que é necessário disputá-la para conseguir avanços palpáveis, embora sem nunca perder o horizonte de máxima. E que não há processo social que possa ser detido pela força. 

Que este 11 de setembro sirva para fazer um balanço das derrotas passadas e nos dê ferramentas para pensar as lutas do presente, fundamentais para a práxis transformadora, as bases das vitórias que virão. A tarefa que Allende nos deixou, a de abrir as grandes alamedas, continua aí, interpelando-nos. Tudo está por construir.