O palanque e a festa

Prédicas do frente-amplismo e palanques no 2 de outubro evidenciam inclinação por submeter as ruas, hoje, às eleições do ano que vem. Por Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: Paulo Pinto / Fotos Publicas)

O último sábado (2) marcou mais uma rodada de atos nacionais pelo Fora Bolsonaro. As manifestações, as primeiras ocorridas desde o 7 de setembro, trouxeram algumas novidades em relação aos atos anteriores: primeiro, foi a primeira vez em que o apelo a uma frente ampla se materializou na presença de partidos e organizações de centro-direita e direita na organização dos atos, por meio do movimento Direitos Já!. Segundo, a forma dos atos foi submetida, em especial nas grandes capitais, à lógica do palanque. Terceiro, pela primeira vez houve um esforço decidido do Partido dos Trabalhadores e organizações e partidos ligados a seu campo de influência (como o PCdoB) na mobilização para os atos.

O frente-amplismo

A defesa da necessidade de uma “frente ampla” nas manifestações tem sido feita, da direita à esquerda, sob o argumento de que o sucesso de um processo de impeachment contra Bolsonaro dependeria de 342 votos no Congresso, em uma conjuntura em que os partidos que compõem a oposição têm pouco mais de 100 votos. Já que esta é a relação real e matemática dos votos no Congresso, argumentam, é necessário ampliar o leque de alianças nas ruas, visando conquistar os votos necessários.

Trata-se de um argumento interessante. Primeiro, ele parece ignorar que antes mesmo que se calcule os votos para o processo de impeachment, é necessário forçar o presidente da Câmara, Arthur Lira, a tirar da gaveta um dos pedidos, a esta altura mofados. A primeira tarefa para o impeachment, portanto, não depende ainda da amplitude do leque de partidos que o apoiam no Congresso, mas sim da capacidade de impor ao presidente da Câmara sua abertura. 

Tem sido um lugar comum, mesmo entre os defensores da frente ampla, a ideia de que um impeachment depende fundamentalmente da presença do povo nas ruas e sua capacidade de pressionar o Congresso nessa direção. A contagem legislativa dos matemáticos, portanto, parece esconder a necessidade não de ampliar o número de tendências políticas que abanem a bandeira do impeachment, mas de aumentar o tamanho das manifestações e qualificar os métodos de luta, para forçar Lira, por um lado, e para conquistar os votos, por outro.

Os matemáticos poderiam argumentar, é claro, que à medida que diferentes partidos sejam inclusos nessa grande frente ampla pelo impeachment, as manifestações também aumentarão. Essa ideia, no entanto, não corresponde à realidade. Primeiro: mesmo as organizações mais programáticas da direita, tal qual o Movimento Brasil Livre (MBL) e o PSDB, têm demonstrado, desde que Bolsonaro foi eleito, uma enorme crise de representação frente às suas bases históricas, com uma incapacidade enorme de mobilização. O PSDB, um partido que efetivamente nunca teve uma militância muito ativa ou vultosa, perdeu nas eleições de 2018 uma quantidade imensa de suas cadeiras no Congresso, que aparentemente foram convertidas ao PSL, então partido do presidente. O MBL, que em 2016 irrompeu no cenário político nacional com uma grande capacidade de mobilização, demonstra hoje (como o seu fracassado 12 de setembro não deixa mentir) ter perdido essa capacidade. Dos partidos mais fisiológicos da direita e da centro-direita tampouco se pode esperar muitas bases.

Só resta aos defensores do frente-amplismo, portanto, o estranho argumento de que a concessão e partilhas de palanques é capaz de virar a posição de 200 deputados, mas a demonstração de força, a organização de uma greve geral, uma marcha para Brasília não. Ou muita ingenuidade, ou esperteza demais.

Os palanques

Outro elemento consolidado no 2 de outubro, que diz respeito às formas das manifestações, são os palanques. Apesar de não ter sido a regra geral em todos os estados a submissão dos manifestantes à posição de ouvintes inertes de discursos, é um fato relevante que tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo as manifestações tenham sido organizadas nestes termos: na capital paulista, sequer marcha houve.

A formatação das manifestações nessas condições não só é a conformação do desejo agudo por uma “frente ampla”. A lógica de showmícios, organizados dentro de um espaço reservado, é a que menos causa prejuízos à circulação de mercadorias nas cidades e aos lucros (em especial se realizados no fim de semana), além de limitarem as possibilidades de agitação e contato com o povo. Para todos os efeitos, não fosse a profusão do vermelho, o desavisado que passasse pela Avenida Paulista no sábado talvez tivesse dificuldade em diferenciar a manifestação de um evento cultural qualquer ou de uma festa de Ano Novo – de fato, até um trio elétrico usado no carnaval de Salvador foi contratado pela bagatela de 100 mil reais, porque a Prefeitura de São Paulo se recusou a montar um palco fixo.

A centro-esquerda em ação

Apesar de ser veementemente negado por lideranças petistas que o partido trabalhe sob a perspectiva de enfrentar Jair Bolsonaro somente em 2022, desgastando-o lentamente até lá, é um fato notável que os esforços de mobilização do partido e suas organizações associadas tenham sido, até agora, muito tíbios. De fato, o 2 de outubro demonstra o contraste com as mobilizações anteriores, iniciadas no 29 de maio: desta vez foi notável a presença do campo petista.

Recapitulemos o calendário de lutas. O ato Fora Bolsonaro do 29 de maio, convocado pela Frente Fora Bolsonaro, foi rechaçado publicamente pelo vice-presidente do PT, Washington Quaquá, em um artigo escrito para o jornal O Dia nas vésperas das manifestações. O argumento de Quaquá era que “numa pandemia o resultado dessa convocação é um desastre. Porque se der pouca gente tem péssimo efeito político. Se der muita gente, gerando aglomeração, será um desastre sanitário.” Para o dirigente, a orientação era “aguardar que a vacinação atinja uma imunidade suficiente de um número considerável da população, lá para outubro ou novembro, e aí sim poder demonstrar nas ruas nossa indignação e a força do povo.” Em algumas direções estaduais do PT e do PSOL, houve boicote aberto às manifestações na véspera imediata do ato. Mas o 29 de maio triunfou com um total de 227 atos, realizados em 210 cidades do Brasil e 14 no exterior.

Apesar de sempre esporádicos e aos finais de semana, os atos continuaram numa crescente: em 19 de junho, 457 atos em 407 cidades no Brasil; no 3 de julho, 387 atos em 312 cidades no Brasil; em 24 de julho, 509 atos em 495 cidades no Brasil. No 7 de setembro, data histórica do Grito dos Excluídos, em meio ao pânico espalhado sobre as possíveis confrontações, a desmobilização ativa e o silêncio do ex-presidente Lula em seu pronunciamento especial, somaram-se 200 atos contra Bolsonaro, precisamente no momento em que o presidente ameaçava um golpe, com a mobilização ativa de suas bases. Acabou tendo que recuar – mas não por esforço nosso.

Neste 2 de outubro houve 314 atos em 304 cidades, apesar do avanço da vacinação. O próximo ato está marcado para o dia 15 de novembro. Depois, se instaurará o clima de festas; a felicidade da reunião em meio à ausência de 600 mil, a expectativa por um Ano Novo de desemprego, carestia, falta de energia, inflação, mas com uma pandemia sob controle. A partir de janeiro do próximo ano, toda a vida política do País já estará submetida à lógica eleitoral. As manifestações, se é que haverão, estarão completamente imbuídas das formas e da lógica que este 2 de outubro anunciou: o palanque, a aliança, a inércia.

O conciliador inflexível poderá exclamar que não houve a explosão de focos de revolta, que a classe trabalhadora – que “já não é a mesma” – não está nos sindicatos, que na conjuntura atual “é necessário fazer concessões”: apontará o “cenário dado” sem discutir a possibilidade de constituir outros cenários, incensando a política como reflexo do posto, não como ferramenta do possível. Não poderá explicar se a quantidade de energia gasta no chamado à “frente ampla” (que a propósito parece ter sido solenemente ignorado pelos seus objetos) não poderia dar outros resultados se concentrada em trabalho de base e organizativo; não poderá dizer o porquê da insistência em datas espaçadas, em um calendário de mobilizações que só inclui sábados, na forma do palanque e do comício em detrimento da marcha, da paralisação, do boicote, dos trancamentos; apesar de defender-se da acusação de desmobilização, não poderá se afastar do silêncio ou da denúncia aberta feita por lideranças sobre as manifestações. Enfim, não conseguirá afastar a comparação com o golpe contra Dilma, em 2016, quando a concessão contínua e a inércia garantiram a chegada de Temer à presidência sem maiores comoções, nem conseguirá negar a similaridade dos argumentos balbuciados hoje com aqueles de 2017, quando era melhor “não apostar na desestabilização do presidente” com vistas à eleição de 2018, quando Lula seria enfim criminosamente retirado da disputa (com apoio militar) e Bolsonaro artificialmente eleito. A mobilização desnorteada por um “vira voto” é possível, dizem; a organização prévia não.

Não é só um problema moral, referente a programa e objetivos, mas uma questão estratégica: sem força e capacidade de mobilização, a centro-esquerda mais uma vez se candidata a um cenário em que seus inimigos se sentem confiantes em promover as manipulações mais abertas, os atos de fúria mais vorazes, as ameaças mais descabidas, sem receio de serem respondidos. Mesmo que as ameaças militares cessem, que as perseguições judiciais não se repitam, que as armas não se levantem em proposições golpistas, que um Bolsonaro eventualmente derrotado não use dos dois meses que lhe restarão no cargo até a posse do eleito para tentar uma aventura, o cenário eleitoral é demasiado incerto para que a mobilização hoje seja feita (ou contida) em função dele: por um lado, ainda que seja impossível que o Brasil viva uma efetiva recuperação econômica no ano que vem, a estagnação de uma situação como a atual tende a ser vista com otimismo por uma parcela grande do povo; as 600 mil saudades aos poucos serão só isso, esquecimentos sentimentais; e a possibilidade de um reforço no Bolsa Família por parte de Bolsonaro pode até garantir uma recuperação (ainda que tímida) de sua popularidade. A tão repetida desculpa de que os problemas econômicos foram decorrentes do vírus e das medidas sanitárias de governadores, e a tese social-darwinista de que “alguns iriam morrer de qualquer forma”, na altura das eleições, serão engolidas com mais facilidade. Há, além disso, o fato de que o cenário eleitoral deverá mudar bastante à medida que os benzidos e conjurados candidatos de “terceira via” apareçam como candidatos reais. 

Às organizações de esquerda que não crêem na conveniência de usar a mobilização somente como ativo eleitoral, e aos democratas que não confiam numa lógica em que os acordos submetem a força, e não a força impõe os acordos, fica a necessidade de construir um calendário unitário de lutas desde já: um que não esteja besuntado por completo por outubro de 2022, como estarão, a depender da centro-esquerda, os longos dez meses do ano que vem.