Vida e obra de Mercedes Sosa em outro aniversário do seu falecimento

Em 4 de outubro de 2009 faleceu Mercedes Sosa, a voz inconfundível da Argentina que cantou os povos e foi filiada ao Partido Comunista. Por Notas - Periodismo Popular | Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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(Foto: Kroon, Ron / Anefo)

Uma longa trajetória biográfica acompanha a figura de Mercedes “La Negra” Sosa, que com sua voz inconfundível contribuiu para a construção e o cuidado da memória coletiva de todo o povo argentino. 

Nasceu em 9 de julho de 1935 em Tucumán e, aos 22 anos, já casada com o músico Oscar Matus, se mudou para Mendoza. Foi nesse território da região de Cuyo que lançou o Movimento Nuevo Cancionero em 1963, juntamente com o seu esposo, Armando Tejada Gómez, Tito Francia e outros artistas.

Em 1965 se separou e se mudou para Buenos Aires, cidade onde viveu durante a maior parte da sua vida. Nesse mesmo ano foi apresentada por Jorge Cafrune (contra a vontade dos organizadores) na quinta edição do festival de Cosquín, onde o público ficou maravilhado com sua voz. Daí em diante sua carreira foi catapultada, começando a percorrer a América Latina e a Europa.

A afinidade com o peronismo durante sua juventude e a posterior filiação ao Partido Comunista na década de 60, além da interpretação de canções de protesto, lhe valeram a perseguição da ditadura instaurada na Argentina em 24 de março de 1976. Mercedes tentou permanecer no país até que, em um recital na cidade de La Plata em 1978, foi revistada no palco e presa junto com todo o seu público. Assim, em 1979, foi para o exílio em Paris e Madrid. Lá continuou produzindo até o seu retorno à Argentina.

Voltou em fevereiro de 1982, quando o governo de facto ainda estava no poder. Realizou 13 shows com sala cheia no Teatro Ópera de Buenos Aires, inovando ao incluir canções provenientes do tango e do rock nacional. Entre os convidados estiveram Raúl Barboza, Ariel Ramírez, Rodolfo Mederos, Charly García, León Gieco e Antonio Tarragó Ros. Nessa ocasião também cantou “Sueño con Serpientes”, de Silvio Rodríguez, e “Años”, de Pablo Milanés, popularizando no país os cantautores cubanos que, nessa época, estavam proibidos na Argentina.

Apenas com a recuperação da democracia, em 1983, conseguiu se radicar definitivamente no país. Nos anos 80 e 90 se consagrou de vez a nível mundial, e mantendo seus ideais elevados. O governo ditatorial de Augusto Pinochet a proibiu de entrar no Chile e fazer um show em 1988, enquanto era realizada a campanha pelo referendo impulsionado pelo próprio ditador para se manter no poder.

Durante os anos 90, quando o ex-repressor Antonio Domingo Bussi foi eleito governador de sua província de nascimento, Sosa decidiu não cantar mais lá até que ele deixasse o cargo. E foi assim que em 1999, duas semanas após Bussi deixar o posto, ela voltou à sua terra natal para cantar.

Durante a década de 2000 continuou cantando, e seu último trabalho foi Cantora. Lançado pouco antes da sua morte, é um disco duplo em que interpreta 34 canções em duetos com reconhecidos músicos de língua espanhola, encerrando com o hino nacional argentino.

Em 18 de setembro de 2009 deu entrada no Sanatório de La Trinidad, na cidade de Buenos Aires, devido a uma disfunção renal que havia evoluído negativamente para uma insuficiência cardiorrespiratória. Seu estado de saúde se tornou crítico em 2 de outubro, obrigando os médicos a induzirem-na a um coma. Faleceu na madrugada de 4 de outubro.