Sputnik 1: a conquista do espaço

Em 1957, uma URSS que há poucas décadas havia superado o arado lançou ao espaço o primeiro satélite artificial da história: o Sputnik. Por Notas Periodismo Popular – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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Às 22h48 do dia 4 de outubro de 1957, horário de Moscou, o foguete-transportador R-7 decolou do sítio experimental do Ministério de Defesa da União Soviética, mais tarde denominado Baikonur, no Cazaquistão. Levava na sua ponta uma esfera de 58 centímetros de diâmetro que pesava 83,6 quilos e estava equipada com quatro antenas de cerca de 2,4 a 2,9 metros para a emissão de sinais dos transmissores com baterias.

Tratava-se do Sputnik (“satélite” em russo), uma palavra que desde aquele momento se tornou famosa a nível mundial e que seria revalorizada durante a pandemia de Covid-19, graças à vacina que leva esse mesmo nome.

Pouco mais de cinco minutos depois da decolagem – 315 segundos – o satélite se separou do foguete R-7 e emitiu seus primeiros sinais. Tinha conseguido alcançar uma altura de 945 quilômetros antes de viajar paralelamente ao planeta Terra a uma velocidade de quase 29 mil km/hora.

O envio de dados incluía informações sobre a temperatura dentro e sobre a superfície da esfera, assim como registros sobre a densidade das camadas superiores da atmosfera e a propagação de ondas de rádio na ionosfera.

O Satélite Artificial Terrestre (ISZ, na sigla formal em russo) transmitiu durante duas semanas, mas esteve em órbita por 92 dias, até o dia 4 de janeiro de 1958. No total, realizou 1440 voltas ao redor da Terra, o equivalente a quase 60 milhões de quilômetros.

O Ano Geofísico Internacional

Para compreender como essa conquista científica foi alcançada, é preciso voltar ao ano de 1952, quando o Conselho Internacional de Uniões Científicas propôs o estabelecimento do Ano Geofísico Internacional, que iria de 1 de julho de 1957 até 31 de dezembro de 1958.

Nesse período de tempo se registraria uma atividade inusual do sol, o que levou à realização de diferentes medições e estudos para o conhecimento de seu impacto sobre o planeta. Em outubro de 1954, o Conselho convocou diversos países para que construíssem satélites que permitissem o levantamento de informação, para estudo posterior.

Em 1955, os Estados Unidos anunciaram o início de um programa para desenhar e lançar o primeiro dos seus foguetes, que denominaria Vanguard. Segundo os cálculos dos norte-americanos, a nave orbitaria a Terra até o ano de 1958.

No entanto, desde 1949 a União Soviética já vinha investigando as camadas superiores da atmosfera, por meio da utilização de foguetes geofísicos que podiam carregar o peso dos aparatos científicos a cerca de 500 quilômetros de altura ou mais. O programa estava a cargo do engenheiro aeroespacial Serguei Koroliov que, desde 1946, tinha o cargo de desenhista geral de foguetes balísticos.

Em 1956, com a corrida espacial já lançada, os soviéticos pretenderam utilizar o foguete R-7 para lançar ao espaço o chamado “Objeto D”. Tratava-se de um aparato que podia pesar até 1400 quilos, com outros 300 quilos de equipamentos científicos. Rapidamente compreenderam que esse objetivo era inviável.

Foi o próprio Koroliov que propôs então começar com um projeto mais humilde e reduzir o incrível peso do “Objeto D” aos menos de 84 quilos do Sputnik.

A corrida espacial

Menos de um mês depois do lançamento do Sputnik 1 – e quando ele ainda estava em órbita – a URSS lançou o Sputnik 2, que tinha uma novidade: levava pela primeira vez um ser vivo ao espaço. Era a cadela Laika, que morreu sete horas depois do lançamento. Somente em 31 de janeiro de 1958 os Estados Unidos lançaram seu primeiro satélite, o Explorer 1.

Durante os anos seguintes, a corrida espacial entre ambas as potências continuou com uma clara vantagem soviética que não seria revertida até mais de uma década depois, com a chegada do Apolo 11 à lua em 1969.

Nesse ínterim, a potência comunista conseguiu levar o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961. E também a primeira mulher, Valentina Tereshkova, em 1963.

Em 1967, dez anos depois do lançamento do Sputnik, a Federação Internacional de Astronáutica proclamou o dia 4 de outubro de 1957 como o “Dia do começo da Era Espacial da humanidade”.

A URSS, um país que em 1917 apenas abastecia uma parte de seu território com eletricidade, havia conseguido em quatro décadas – e com 27 de milhões de mortos na Segunda Guerra no meio – uma conquista que mudou a História para sempre.

O escritor estadunidense Ray Bradbury escreveu sobre o ocorrido nesse 4 de outubro: “Aquela estrela que se movia impetuosamente de um lugar do céu até o outro era o futuro de toda a humanidade. Aquela faísca no céu tornou a humanidade imortal”.