O que torna os EUA mais rico que seus parceiros de G7? Imperialismo, não impostos mais baixos

A primazia dos EUA sobre outros países, inclusive parceiros do G7, se assenta no imperialismo, em regras impostas à força que os favorecem. Por Stephen Gowans | What’s Left – Tradução de Matheus Lobo Pismel para a Revista Opera

0
899
(Foto: Simon Dawson / No 10 Downing Street)

O professor de economia de Harvard N. Gregory Mankiw, que foi chefe do Conselho de Consultores Econômicos do presidente dos EUA de 2003 a 2005, utiliza a redução do PIB per capita da Europa Ocidental para alertar os norte-americanos contra os estados de bem-estar social. Os impostos mais altos que os europeus ocidentais pagam por políticas sociais robustas, ele adverte, minam os incentivos ao trabalho, causando rendimentos mais baixos. “Os europeus trabalham menos do que os norte-americanos porque enfrentam impostos mais altos para financiar uma rede de segurança social mais generosa”, argumenta Mankiw.

Embora seja verdade que os parceiros de G7 dos Estados Unidos são menos ricos em termos de PIB per capita, isso se deve aos impostos mais elevados ou à capacidade dos Estados Unidos de moldar a ordem econômica internacional para atender aos interesses de seus investidores e empresas em detrimento dos demais países do G7?

PIB per capita em dólares: Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Reino Unido, Japão, França e Itália. (Fonte: Banco Mundial)

Os políticos norte-americanos apontam incessantemente que a chave para a prosperidade dos EUA está na ordem econômica pós-Segunda Guerra Mundial, da qual Washington foi o arquiteto-chefe. Por exemplo, em 2017, John McCain, uma figura importante no establishment da política externa dos EUA, observou: “Somos o principal arquiteto e defensor de uma ordem internacional governada por regras derivadas de nossos valores políticos e econômicos. Ficamos muito mais ricos e poderosos sob essas regras.” McCain alertou que os desafios à ordem criada pelos EUA ameaçam a prosperidade dos EUA.

Hoje, as “regras” de McCain são chamadas de “convenções internacionais”, “regras baseadas na ordem internacional” e “regras e normas internacionais”. Na verdade, são as regras criadas pelos Estados Unidos, que os tornam “muito mais ricos e poderosos” – inclusive muito mais ricos e poderosos que seus próprios aliados do G7.

Em um artigo importante da edição de março/abril de 2020 da Foreign Affairs – revista de um influente think thank de Wall Street, o Council on Foreign Relations – o então candidato Joe Biden notou que, nos últimos 70 anos, os Estados Unidos “desempenharam um papel de liderança na definição de regras, formulação de acordos e suporte das instituições que orientam as relações entre nações”. 

Como McCain reconheceu, Washington elaborou as regras para servir aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

O poderio militar e econômico dos EUA permitiram a Washington definir e aplicar as regras. Nossa “capacidade de exercer poder [é inter alia] a base de como […] promovemos os interesses dos EUA”, declarou o chefe do Estado-Maior Conjunto em 2017.

A obsessão de Washington com “as regras”, quem as escreve e quem se beneficia delas, está no cerne do hegemonismo dos EUA, mas também na hostilidade dos EUA à China. A China e outras potências, como a Rússia, a Coreia do Norte e o Irã, que Washington denuncia como revisionistas, querem revisar as convenções internacionais que colocam os Estados Unidos à frente de todos os outros países, política, militar e economicamente. Esses países, ao lado de outros, formalizaram sua oposição a uma ordem global baseada nas regras e na supremacia dos EUA ao fundar o Grupo de Amigos em Defesa da Carta das Nações Unidas, uma aliança de 18 nações que fomenta uma ordem internacional baseada no direito internacional e igualdade entre os países.

“Quem escreve as regras que regem o comércio? […] Os Estados Unidos, não a China, deveriam liderar esse esforço”, insiste Biden.

Até o final da Segunda Guerra Mundial, os parceiros do G7 (Alemanha, Japão, Itália, França, Reino Unido e Canadá) eram concorrentes independentes dos Estados Unidos, cada um buscando dividir o mundo em suas próprias esferas de comércio, investimento e vantagem econômica. (O Canadá, como parte da Comunidade Britânica, seguia a liderança de Londres.)

Leia também – Pivô para a Ásia, condor para a América: as garras ainda afiadas do império [Parte 1]

A ordem internacional do pós-guerra, criada pela nova potência hegemônica emergente, os Estados Unidos, integrou as potências derrotadas do Eixo, junto com os enfraquecidos impérios francês e britânico, em uma ordem definida por Washington, informada pelos valores de Wall Street e voltada para promover a prosperidade corporativa dos EUA.

Para garantir que seus antigos rivais imperiais se acomodassem, em vez de competir com seus interesses econômicos, os Estados Unidos ocuparam militarmente a Alemanha, o Japão, a Itália e o Reino Unido. Por quase 80 anos, os Estados Unidos mantiveram uma presença militar robusta em cada um desses países. Por que? Em 2002, em uma entrevista à United Press International, Alexander Haig, ex-comandante supremo da OTAN e Secretário de Estado dos EUA no governo Reagan, explicou.

“Pergunta: — Por que os Estados Unidos ainda mantêm 70.000 soldados na Alemanha?

Resposta: — Há muitas boas razões. Esta presença é a base para a nossa influência na Europa e para a cooperação das nações aliadas […] Muitas pessoas esquecem que também é a garantia de nosso sucesso econômico. A presença de tropas americanas mantém os mercados europeus abertos para nós. Se essas tropas não estivessem lá, esses mercados provavelmente seriam mais difíceis de acessar.

Pergunta: — Eu não esqueci. Eu simplesmente não sabia que, se os Estados Unidos não mantivessem 70.000 soldados na Alemanha, os mercados europeus poderiam ser fechados para produtos e serviços norte-americanos.

Resposta: — Ocasionalmente, mesmo com nossa presença, enfrentamos protecionismo em diversos setores industriais, como automotivo e aeroespacial.”

Em outras palavras, os mercados dos antigos impérios rivais foram integrados ao mercado dos Estados Unidos, e a cola que os grudava e continua a grudá-los – como disse certa vez o colunista do The New York Times Thomas Friedman – é “o punho invisível” do “Exército, da Força Aérea, da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos”.

Washington também integraria seus velhos competidores imperiais europeus à OTAN, colocando seus militares sob seu comando formal e, assim, tirando a rivalidade militar interimperialista da mesa. Ao mesmo tempo, a OTAN permite que Washington explore as acorrentadas forças armadas de seus antigos rivais como multiplicadores de força na busca de objetivos especificamente norte-americanos dentro do arranjo internacional definido pelos próprios EUA.

Depois da guerra, Washington impôs uma constituição pacifista ao Japão, o principal rival dos Estados Unidos pela dominação do Leste Asiático e do Pacífico, efetivamente castrando o país militarmente e garantindo que ele não contestasse a primazia dos EUA na região. Washington agora pressiona o Japão a suspender as restrições pacifistas que os próprios Estados Unidos impuseram, a fim de se preparar para a guerra contra a China “revisionista”, sob a direção norte-americana.

Além disso, os militares dos EUA controlavam, e continuam a controlar, as rotas comerciais mundiais e, portanto, o acesso de seus antigos rivais aos mercados e matérias-primas. “Se você tem uma economia global, acho que precisa de uma marinha global para cuidar dessa economia”, disse o comandante da Frota do Pacífico dos EUA, o almirante Scott Swift. A marinha global não é outra senão a Marinha dos Estados Unidos. O escritor Gregg Easterbrook observa que “a Marinha dos EUA é a força policial de quase todas as águas azuis” e isso “tornou os oceanos […] mais seguros para o comércio”. Especificamente, o comércio dos EUA.

É importante ressaltar que Washington também mantém sua mão na torneira de petróleo do Oriente Médio. Alemanha, França, Japão e Itália são altamente dependentes do petróleo da Ásia Ocidental. Com Washington apta a fechar a torneira à vontade, a Europa Ocidental e o Japão têm poucas opções a não ser aceitar o que Hugo Chávez chamou de “a ditadura internacional do império dos Estados Unidos”.

Portanto, os parceiros de G7 dos Estados Unidos emergiram da guerra como seus vassalos. Dentro do império global norte-americano, eles foram designados a papéis de parceiros juniores – isto é, subordinados ao império dos Estados Unidos. Seus interesses econômicos seriam menores e inferiores aos de Wall Street e das corporações dos EUA. 

A análise de Mankiw é risivelmente superficial. A ideia de que a tributação mina os incentivos ao trabalho se baseia na noção de que o esforço é proporcional ao seu retorno. Os impostos reduzem o retorno do esforço e, portanto, desestimulam o trabalho. Se isso for verdade, o oposto também é verdadeiro: quanto maior o retorno, maior o esforço. Por essa lógica, Mankiw deveria defender um aumento robusto do salário mínimo, argumentando que quanto mais dinheiro as pessoas são capazes de ganhar, maior é a probabilidade de quererem trabalhar. Mas não, as prescrições de Mankiw invariavelmente favorecem os empregadores sobre os trabalhadores. Os ricos não devem ser onerados por altos impostos. Os governos devem aumentar a arrecadação por meio de impostos sobre o consumo, aqueles que atingem duramente as famílias de baixa renda, e menos os ricos. Ao promover os interesses do capital, Mankiw ilustra por que Karl Marx descreveu economistas como o professor de Harvard como “lutadores contratados” da burguesia, cuja única preocupação era saber “se este teorema ou aquele era […] útil ou prejudicial para o capital”, e não “investigadores desinteressados”.

Além disso, Mankiw divorcia sua análise das condições e eventos contextuais. História, política e o desequilíbrio de poder político e militar entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental não entram em seu campo de visão. Apesar de Mankiw, a disparidade na renda per capita entre os Estados Unidos e seus parceiros do G7 pode ser explicada por Washington ter construído uma ordem internacional no pós-Segunda Guerra Mundial para privilegiar os atores econômicos dos EUA às custas de seus rivais imperiais derrotados e enfraquecidos. Em outras palavras, o resultado de três décadas de luta interimperialista (1914-1945) foi o surgimento de um leviatã – que reordenou o mundo para colocar não os negócios no topo, mas os negócios dos EUA no topo. O fato de o PIB per capita dos EUA ter superado o de seus antigos concorrentes foi uma consequência.

Se a Alemanha tivesse vencido a guerra e posteriormente integrado os Estados Unidos em uma ordem econômica global liderada por ela, o PIB per capita alemão quase certamente seria maior do que o dos Estados Unidos, pela simples razão de que as regras definidas pela Alemanha favoreceriam as empresas alemãs. Da mesma forma, se o Japão tivesse prevalecido, os japoneses, e não os americanos, desfrutariam de um PIB per capita mais alto.

Isso não quer dizer que a rivalidade tenha chegado ao fim. Não chegou. A competição entre os países do G7 por mercados e oportunidades de investimento pode ser vista com a Alemanha forjando uma relação comercial mais forte com Pequim do que Washington gostaria; na rivalidade entre a União Europeia e os Estados Unidos em sobre a Airbus e a Boeing; na Alemanha e na França flertando com autonomia estratégica para a Europa; e entre os Estados Unidos e a França na venda de armas. Estes são apenas alguns exemplos. Mesmo assim, enquanto a competição se mantiver, acontecerá dentro dos limites definidos por Washington, com sua capacidade de controlar o acesso de seus rivais aos mercados e matérias-primas.

Não são, então, os estados de bem-estar da Europa Ocidental e os impostos mais altos que explicam por que os parceiros de G7 de Washington são mais pobres. Os PIBs per capita mais baixos dos antigos rivais imperiais dos Estados Unidos podem ser explicados como o resultado de sua perda da luta interimperialista na primeira metade do século XX. Emergindo vitoriosos e fortalecidos da guerra de trinta anos, os Estados Unidos usaram sua influência militar e econômica para impor uma ordem econômica global a seus antigos rivais – uma ordem que coloca as corporações norte-americanas em primeiro lugar e relega seus parceiros de G7 a posições inferiores; fornece-lhes acesso júnior a oportunidades de mercado e os deixa com rendas menores.