Com redução nos lucros da maconha, cartéis no México se voltam ao álcool e madeira

Os cartéis do México, maior exportador da maconha aos EUA, têm compensado a redução dos lucros pela legalização em alguns estados norte-americanos com outras atividades criminais. Por Luis Chaparro | Insight Crime - Tradução de Leonardo Laurindo para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila

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(Foto: U.S. Marine Corps / Sgt. Earnest J. Barnes)

O México continua sendo o principal fornecedor internacional de maconha para os Estados Unidos. No entanto, isso diminuiu bastante desde 2013, forçando grupos criminosos a se adaptarem e procurar outras atividades lucrativas.

De acordo com a Avaliação Nacional de Ameaça de Drogas da Agência Antidrogas dos EUA (DEA) em 2020, à medida que mais estados dos EUA avançam em direção à legalização, “a maconha mexicana foi amplamente substituída pela produção nacional”.

O relatório mostra que as apreensões de maconha ao longo do sudoeste da fronteira dos EUA com o México diminuíram em mais de 81% entre 2013 e 2020, sugerindo que os grupos criminosos mexicanos reduziram significativamente suas operações de tráfico de maconha.

Um funcionário de alto escalão do Cartel de Sinaloa, no estado de Sonora, disse à InSight Crime que o comércio de maconha “quase não dá mais lucro”. 

“Eu só trafico maconha para pagar algumas pessoas da organização. Estou pagando-os com quilos [de maconha] que eles conseguem contrabandear e vender por conta própria, mas está realmente chegando a um ponto em que não é mais um negócio viável”, disse.

O estado de Chihuahua, na fronteira com os EUA, é o segundo maior produtor de maconha do México depois de Sinaloa, respondendo por 20% da produção em todo o país, de acordo com um relatório de 2016 de um pesquisador da Universidad Autónoma de Madrid (UAM) que analisa o cultivo de drogas. Muito disso vem da Sierra Tarahumara, uma vasta região de cânions e montanhas.

Duas das principais organizações criminosas do México operam na Sierra tarahumara: o Cartel de Sinaloa  e o Cartel de Juárez  por meio de seu braço armado, conhecido como La Línea.

Nos últimos dez anos, o conflito entre esses dois grupos enfrentou fluxos e refluxos constantes.

Esses dois pesos-pesados do crime, porém, estão tendo que se adaptar aos muitos estados dos EUA que estão descriminalizando ou legalizando a maconha. Para fazer isso, eles monopolizaram outras atividades comerciais, como a venda de álcool e a extração de madeira, ao mesmo tempo em que extorquiram os agricultores locais para manter os lucros.

Monopólio do álcool em Chihuahua

Desde a rodovia La Junta, na entrada da Sierra Tarahumara, apenas lojas “autorizadas” podem vender álcool. Organizações criminosas têm ameaçado redes nacionais como a Oxxo [de lojas de conveniência] a parar de vender álcool ou correr o risco de sofrer retaliação, de acordo com residentes, comerciantes e autoridades estaduais que falaram anonimamente por medo de represálias.

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Na maior parte, o monopólio do álcool está nas mãos do Cartel de Sinaloa, especificamente Noriel Portillo, vulgo “El Chueco”, de acordo com o funcionário do cartel entrevistado pela InSight Crime.“Apenas lojas autorizadas podem vender álcool. Dessa maneira, não tem competição e todos os ganhos vão para a organização”, ele disse.

Isso começou como consequência direta da depreciação dos preços da maconha, de acordo com o funcionário. Os municípios sob essa regra se estendem desde Bocoyna, Guachochi, Batopilas e Urique até Guadalupe y Calvo.

Ele acrescentou que todos os caminhões de distribuição de álcool são “parados nas rodovias que ligam a Sierra e obrigados a retornar. Nós mantemos nossa própria distribuição, e os comércios devem comprar apenas de nós.”

O cartel está comprando quantidades massivas de álcool em cidades maiores como Cuauhtémoc ou na capital, Chihuahua, e depois transportando esses produtos de caminhão a vários municípios dentro da Sierra Tarahumara. São eles que garantem autorização para vender e distribuir todo tipo de álcool sem qualquer permissão legal.

O funcionário disse que eles não estão forçando ninguém a vender álcool, mas os que querem fazê-lo devem ter permissão do cartel.

Autoridades regulatórias do álcool praticamente não têm presença em Sierra Tarahumara, de acordo com o agente do cartel.

A maioria dos produtos custa dois ou três pesos mexicanos (cerca de 10 centavos de dólar) acima do preço médio de varejo, o que a InSight Crime confirmou em diversas lojas. Alguns restaurantes não estão mais vendendo bebidas alcoólicas por medo de negociar com os grupos criminosos.

“Tínhamos que seguir o negócio deles, caso contrário, teríamos de parar de vender e fechar nosso comércio”, disse uma mulher de uma loja local em Guachochi.

O comércio de madeira prospera com a queda do preço da maconha

San Juanito, uma pequena cidade arborizada no início da Sierra Tarahumara, e o epicentro dos conflitos entre os cartéis de Sinaloa e Juárez, era conhecida como a “floresta de San Juanito” por sua densa e bela cobertura de árvores. Porém, depois de anos de  implacável extração de madeira – tanto legal quanto ilegal – os moradores agora a chamam de “Vale de San Juanito”. 

Dirigindo pela zona, a devastação não é segredo: as áreas ao redor da rodovia principal são áridas, com nada além de tocos de madeira por quilômetros. 

Por quase seis anos, tanto o cartel de Sinaloa quanto o de Juárez apostaram fortemente  na indústria madeireira. A Sierra Tarahumara tem sido historicamente uma grande fonte de madeira para todo o México. Com cerca de metade de seus 16,5 milhões  de hectares florestados por pinheiros e carvalhos, de acordo com a Consultoria Técnica Comunitária (CONTEC), uma organização sem fins lucrativos que defende os direitos humanos e fundiários na Sierra Tarahumara, essa área oferece cerca de 10 milhões de metros quadrados de madeira que é vendida a granel para empresas de construção ou para uso na construção de móveis.

Com a forte presença do cartel, tornou-se quase impossível saber quanto da madeira levada para as serrarias é legítima ou contaminada pelo crime organizado, seja por ser produzida ilegalmente por tais grupos ou por serrarias legais forçadas a pagar um “imposto” para operar. 

As pessoas no entorno de San Juanito e na cidade vizinha de Creel hesitaram bastante em denunciar a extração ilegal de madeira. Um artesão local disse à InSight Crime que o comércio ilegal de madeira tem “as impressões digitais de todo mundo”.

“Autoridades, políticos, traficantes e famílias inteiras estão nesse negócio”, ele disse, “mas isso é algo que a gente não discute”.

Extorsão de agricultores locais

Durante os meses de verão, centenas de homens deixam a cobertura da Sierra Tarahumara para viajar em direção ao norte para grandes cidades como Cuauhtémoc ou Chihuahua e trabalhar nas fazendas de maçã, tomate, pimenta chili, noz-pecã e feijão. Grandes empresas estabeleceram operações massivas em torno dessas duas cidades e contrataram sua força de trabalho em todo o estado.

Porém, mais recentemente, os homens que deixaram a Sierra para trabalhar foram obrigados a notificar os funcionários do cartel encarregados de monitorar quem sai e para onde vai.

Um agricultor indígena local, voltando de uma fazenda de macieiras, que falou com a InSight Crime sob a condição de anonimato por medo de retaliação, disse que grupos criminosos agora estão exigindo uma porcentagem de seus ganhos no caminho de volta para casa.

“Às vezes são eles que nos transportam para as fazendas e de volta, e dizem que o pedágio ilegal é o pagamento pela viagem”, disse ele.

Não está claro por que o valor cobrado varia, mas os trabalhadores locais disseram que ele vai de 5% a 10% de seus ganhos para uma temporada inteira, o que equivale a cerca de 800 dólares para dois meses completos de trabalho.

A maioria dos moradores entrevistados apontou o Cartel de Sinaloa como a organização por trás dessa operação, mas o envolvimento da La Línea não pode ser descartado.

As autoridades estaduais disseram não estar cientes dessa nova tendência de extorsão.