O Afeganistão se enfrenta com o Estado Islâmico

Os atentados recentes do ISIS no Afeganistão colocam os talibãs em uma situação embaraçosa, preocupando os xiitas, o Irã e a China. Por Vijay Prashad | Globetrotter - Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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Ex-combatentes talibãs entregam suas armas durante uma cerimônia de reintegração em 2012. (Foto: Department of Defense / Lt. j. g. Joe Painter

Numa sexta-feira (8 de outubro), uma terrível explosão atingiu os fiéis reunidos para as orações do meio-dia na mesquita Gozar-e-Sayed Abad, no distrito de Khan Abad, em Bandar, capital de Kunduz, uma das maiores cidades do cinturão norte do Afeganistão. Esta mesquita é frequentada por muçulmanos xiitas, aos quais o porta-voz talibã Zbiullah Mujahid se referiu como “nossos compatriotas”. 46 pessoas morreram imediatamente na explosão e, de acordo com funcionários locais, muitas outras ficaram feridas no incidente. Pouco depois, o Estado Islâmico na província de Khorasan, o ISKP (ISIS-K), reclamou a autoria do atentado no seu canal do Telegram. O terrorista suicida foi identificado como Mohammed al-Uyguri pelo ISIS-K. 

O nome do responsável pelo ataque disparou os alarmes em toda a região. Ele indicava que pertencia à comunidade uigur e tinha relação com a região de Xinjiang, no oeste da China, onde vive a maior parte da população uigur do mundo. O fato de um extremista chinês ter atacado uma mesquita xiita causou preocupação em Pequim e Teerã.

Terroristas estrangeiros 

Em junho de 2021, as Nações Unidas relataram a presença de cerca de 8 mil a 10 mil “combatentes terroristas estrangeiros” no Afeganistão. Além disso, o relatório afirmava que esses combatentes vinham principalmente “da Ásia Central, da região do Cáucaso Norte da Federação Russa, do Paquistão e da Região Autônoma Uigur de Xinjiang da China”. Embora a maioria dos combatentes tivessem declarado sua afiliação aos Talibã, “muitos também apoiam a Al-Qaeda” e “alguns estão aliados ao ISIL ou têm simpatias pelo ISIL”, de acordo com o relatório. O ISIL é o Estado Islâmico do Iraque e o Levante, cuja franquia afegã é o ISIS-K.

Em 2019, na Turquia, me encontrei com um grupo de combatentes uigures de várias organizações terroristas, incluindo o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM), que agora se chama Partido Islâmico do Turquestão (TIP). Eram combatentes radicalizados, cujo objetivo principal era lutar contra os “infiéis”. Não pareciam interessados em nada além disso. Em 2002, as Nações Unidas incluíram o ETIM na sua lista de organizações terroristas. 

Durante a guerra contra a Síria, setores amplos do ETIM – já como TIP – mudaram-se para a fronteira entre a Síria e a Turquia. Atualmente, o TIP tem sua base principal em Idlib (Síria), que é o centro de várias organizações jihadistas mundiais. Quando ficou nítido que os talibãs iam tomar o poder no Afeganistão, muitos jihadistas da Ásia Central – incluindo os da China e do Tajiquistão – abandonaram Idlib para ir ao Afeganistão. O líder do ETIM, Abdul Haq, permanece na Síria, onde também é membro do Conselho da Shura da Al-Qaeda. 

As preocupações abundam no Irã… 

No dia 4 de outubro (quatro dias antes do ataque à mesquita), uma delegação iraniana chegou ao Afeganistão para dialogar sobre o comércio transfronteiriço e buscar garantias de que os talibãs não permitirão ataques nem contra os xiitas afegãos nem contra o Irã. Enquanto isso, em Kabul, os governadores de duas províncias fronteiriças vizinhas, a iraniana Khorasan Razavi (Mohammed Sadegh Motamedian) e a afegã Herat (Maulvi Abdul Qayum Rohani), concordaram em facilitar o comércio transfronteiriço e garantir que não haja violência na região. Em outra reunião, ocorrida em 4 de outubro com Motamedian na cidade fronteiriça de Taybad, no Irã, o vice de Rohani, Maulvi Sher Ahmad Ammar Mohajer, disse que o governo afegão “nunca permitirá que indivíduos ou grupos estrangeiros como o ISIS usem o território afegão contra a República Islâmica do Irã”. “Nós (Irã e Afeganistão) derrotamos o inimigo comum”, disse Maulvi Rohani em referência aos Estados Unidos.

Todos os sinais indicam certa sinceridade por parte do governo talibã. Em 7 de outubro, um dia antes do ataque do ISIS-K à mesquita xiita de Kunduz, Maulvi Abdul Salam Hanafi (vice-primeiro-ministro do Afeganistão) se reuniu com um grupo de anciãos xiitas para garantir que os talibãs não permitiriam atividades contra os xiitas. No entanto, os membros da comunidade hazara – que é a comunidade xiita do Afeganistão – me dizem que temem uma volta ao governo dos talibãs anterior; durante essa época, os massacres documentados dos talibãs contra a comunidade xiita hazara demonstraram o seu sectarismo. Por isso, o Irã se opôs aos talibãs e não reconheceu formalmente o atual governo de Kabul. Porém, durante os últimos anos, os iranianos estiveram trabalhando com o Talibã contra o ISIS e o ISIS-K, com o general de brigada iraniano Esmail Qaani sendo responsável pela relação. 

…E na China 

Nos anos 90, o governo Talibã permitiu que o ETIM e outros grupos uigures operassem no Afeganistão. Desta vez, já há provas de que não permitirão oficialmente essa atividade. No começo deste ano, os combatentes do ETIM tinham se deslocado da Síria até a província afegã de Badakhshan; os informes sugeriam que os combatentes tinham se reunido no escassamente povoado Corredor de Wakhan da província, que conduz à China. Nas últimas semanas, porém, a segurança dos talibãs os transferiu das cidades que rodeiam a “fronteira afegã-chinesa” a outras partes do Afeganistão (houve rumores sobre a intenção dos talibãs de extraditar os ETIM – se não todos os 2 mil uigures que existem no Afeganistão – para a China, mas estes rumores não estão confirmados).

No final de agosto, Mattia Sorbi, do jornal italiano La Repubblica, se reuniu com o porta-voz talibã Zabiullah Mujahid. Tratava-se de uma entrevista importante para os talibãs porque a Itália é um parceiro-chave da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) da China. Mujahid disse a Sorbi que a China está ajudando o Afeganistão atualmente com fundos a curto prazo (incluindo 31 milhões de dólares em fundos de emergência) e que os talibãs veem a BRI como seu “passaporte aos mercados do mundo todo”. A concessão a longo prazo por parte da China da mina de cobre de Mes Aynak, no sul de Cabul, permitirá que “volte à vida e se modernize”, disse Mujahid. Os talibãs estão muito interessados na BRI, disse, “que levará ao renascimento da antiga Rota da Seda”.

A BRI opera nos dois lados do Afeganistão, a rota norte através do Tajiquistão até o Irã e o Corredor Econômico China-Paquistão, pelo sul. A desembocadura do Corredor de Wakhan abriria uma terceira rota, que percorreria o espaço entre Cabul e o Irã (e ligaria os produtos agrícolas do Paquistão com os mercados da Ásia Central e da Rússia).

O isolamento da China e do Irã não é uma ideia com boa recepção em Cabul. Os Estados Unidos estão dispostos a se comprometer novamente com os talibãs, o que poderia alterar as equações sobre o terreno. Se os Estados Unidos permitirem que Cabul aceda aos fundos do seu banco central, Da Afghanistan Bank (com sede em Nova Iorque), ou aos fundos do FMI, esses recursos ajudarão a proporcionar aos talibãs um salva-vidas, mas não são – por si só – uma solução para o Afeganistão, no meio da China e do Irã e com a possibilidade de ter sua própria conexão à Nova Rota da Seda.