Biden estaria buscando uma guerra com a China?

O fomento da autonomia de Taiwan, contrário à política de “Uma só China”, está minando as relações entre a China e os EUA. Por Misión Verdad | Tradução de Rebeca Ávila para a Revista Opera

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(Foto: David Starkopf / Office of Mayor Antonio R. Villaraigosa)

Com a administração de Donald Trump cresceu o acúmulo de políticas e declarações contra a República Popular da China, e elas não parecem diminuir sob o governo de Joe Biden, pelo contrário. Claro, isto sob várias contradições recentes que fazem pensar que os Estados Unidos não têm ideia de como lidar com sua contraparte asiática.

Durante a era liderada pelo magnata republicano, não apenas foi promovida uma guerra comercial mas também houve um maior reconhecimento e apoio a Taiwan por parte de Washington, com visitas regulares de altos funcionários estadunidenses, assim como um aumento nas vendas de armas. Isto disparou alertas no Ocidente pelas possíveis implicações belicistas em um cenário no qual os Estados Unidos provocam Pequim militarmente em uma questão importante. 

O fomento da autonomia de Taiwan, contrário à política de “Uma só China”, está minando as relações entre a China e os EUA, que não deixam de ser tensionadas a cada ação ou declaração emitida por algum alto funcionário de Washington. Tanto na era Trump como na era Biden há uma continuidade da política anti-China, por mais desordenada que pareça.

Não por acaso os Estados Unidos criaram uma nova OTAN para o Pacífico, já que enquanto a primeira se dedica a atacar a Rússia de maneira multifatorial, o chamado Diálogo de Segurança Quadrilateral (mais conhecido em inglês como Quad, integrado pelos Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália) faz o mesmo com a China. 

Portanto, qualquer conversa sobre multilateralismo e diplomacia “branda” por parte de Biden e sua equipe não deve ser levada a sério, especialmente considerando que os objetivos de segurança dos Estados Unidos não mudam de rumo tão facilmente.

De qualquer forma, segundo um artigo de Alastair Crooke, a “diferença-chave” entre a diplomacia Trump/Pompeo e a exercida por Antony Blinken “está no estilo: o novo Secretário de Estado a pronuncia em um francês excelente, enquanto Trump simplesmente não fez as ‘delicadezas europeias’. No entanto, a continuidade sempre esteve presente”.

Enquanto as autoridades estadunidenses reforçam a retórica anti-China com o passar das semanas, descrevendo Taiwan como “democrática”, “aliada dos Estados Unidos” e que “compartilham ideais”, em oposição ao governo de Xi Jinping, vão se acentuando as contradições da sua política.

Retórica vazia

Outubro tem sido um mês movimentado em relação às declarações e ações diplomáticas dos Estados Unidos sobre a China. Façamos uma breve retrospectiva para entender as contradições que indicamos anteriormente.

– Em 6 de outubro Biden reafirmou, diante do seu homólogo Xi, o compromisso dos Estados Unidos com o princípio de “Uma só China”, que estabelece que Taiwan é uma província da China e que constitui a base das relações diplomáticas entre os EUA e o gigante asiático.

 – Em 7 de outubro Jake Sullivan, Assessor de Segurança Nacional de Biden, se reuniu com Yang Jiechi, diplomata e membro do Comitê Central do Partido Comunista chinês, para “evitar a confrontação” e “voltar a colocar as relações sino-estadunidenses no caminho do desenvolvimento saudável e estável”.

– Porém, nesse mesmo dia o diretor da CIA, William Burns, anunciou a criação de um novo “Centro de Missões” para “responder à China”, que qualifica como “a ameaça geopolítica mais importante” e “cada vez mais adversa” frente aos Estados Unidos.

– Além disso, também no dia 7 de outubro, um funcionário do governo Biden advertiu que “tropas estadunidenses estão sendo enviadas a Taiwan há pelo menos um ano”, o que é uma clara violação do princípio de “Uma só China” e semelhante a uma invasão ao território chinês.

– Em 22 de outubro, Biden disse que os Estados Unidos estavam comprometidos a defender Taiwan no caso de uma ofensiva militar de Pequim, mudando a estratégia de “ambiguidade estratégica” promovida por Washington durante as últimas décadas.

– No entanto, algumas horas depois, a Casa Branca contradisse o presidente em uma declaração, dizendo que de fato não houve nenhuma mudança na política de Taiwan. 

O governo chinês considera que qualquer incumprimento do compromisso estadunidense de “Uma só China”, assumido em 1972, “é uma violação” – diz Crooke – “das linhas vermelhas mais vermelhas da China”. 

Embora Biden possa ser sincero ao dizer que sua administração não busca a guerra com a China, e repete que com ela só quer “concorrência justa, práticas justas, comércio justo”, seu governo tem minado abertamente a política de “Uma só China” com uma série de movimentos pequenos e aparentemente inócuos, como propor um escritório de representação quase diplomática dos EUA em Taiwan, uma ação que poderia se esperar de um Trump. 

Isso só pode indicar que os Estados Unidos não exercem a diplomacia, mas que acumulam uma retórica vazia a favor da política real que o establishment gringo promove contra a China.

Ares de guerra?

O presidente Xi Jinping, por outro lado, está totalmente comprometido com a reunificação de Taiwan com a China.

Para Pequim é notável que a administração Biden “está seguindo uma política sigilosa para encorajar a independência de Taiwan […] que dá a impressão de que os Estados Unidos, em última instância, respaldariam um ato unilateral de independência de Taiwan. A resposta da China é inequívoca: isso significaria a guerra”, segundo Crooke. 

Se Washington está tão comprometido com a secessão definitiva entre Taiwan e China, isso só poderia significar um maior intervencionismo estadunidense. Guerra híbrida à la carte com toques de guerra convencional, se os Estados Unidos se atreverem mais. 

Isto se expressa de maneira mais nítida em um longo artigo escrito por um “anônimo” e publicado pelo Atlantic Council, think tank que promove o atlantismo otanista, em janeiro deste ano, que propõe a nova estratégia estadunidense contra a China.

Joe Biden está intimamente ligado ao Atlantic Council (por ideologia e negócios), organização financiada pelas empreiteiras de armas Raytheon e Lockheed Martin, pelo que este apelo a reescrever a estratégia anti-China em direção a movimentos mais agressivos poderia ser um consenso no centro do establishment estadunidense. Chama atenção o “anonimato” de quem o sugere, em um think tank que desde a sua criação tem enaltecido o confronto militar – primeiro contra a União Soviética e em seguida contra a Rússia.

A estratégia do Atlantic Council propõe repetir o que foi feito contra o Irã, sintetizado por Crooke: “Abrir uma brecha na liderança do Partido Comunista da China; dividi-lo contra si próprio; montar um menu pontos de pressão para impor custos a Xi e seus aliados (Taiwan ocupa um lugar de destaque na parte superior da lista); e o fator mais importante que poderia contribuir para a queda de Xi: o fracasso econômico”. 

Diante disto, Crooke sentencia: “Todas estas políticas idênticas fracassaram estrepitosamente no Irã, nunca aprendem”. 

Aparentemente, os passos seguidos pelos altos funcionários estadunidenses contra o gigante asiático se baseiam na estratégia sugerida pelo Atlantic Council, que pretende “preservar” a supremacia estadunidense (francamente em decadência) e “mudar com êxito a tomada de decisões dos altos funcionários chineses, cuja cultura política desconhecem totalmente. É muito provável que esta estratégia termine em um desastre ou inclusive em uma guerra catastrófica”, segundo Crooke. 

O que não deixa dúvidas é que os Estados Unidos estão levantando as bandeiras da guerra, novamente, atuando de maneira errática no âmbito diplomático com o objetivo de intervir de todas as formas possíveis contra a República Popular da China.

É muito provável que a aceleração desta estratégia não chegue a um bom porto, repetindo o fracasso factual que os Estados Unidos já experimentaram no Irã, sendo a China um ator muito mais poderoso e influente na arena internacional.