Carlos Marighella: vivo como exemplo

Cinco décadas após a morte do guerrilheiro, abundam as provas de que os homens de Fleury não conseguiram conter o exemplo de Marighella no caixão de plástico em que tentaram esconder seu corpo. Por Pedro Marin | Revista Opera

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Há 52 anos, na altura do número 800 da Alameda Casa Branca, região central de São Paulo, Carlos Marighella tombou, um mês antes de completar seu 58º aniversário. A operação para dar fim ao guerrilheiro, considerado inimigo número 1 pela ditadura, é preparada com esmero por pelo menos 29 esbirros dirigidos pelo delegado Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo. Ainda assim, é uma bagunça: pouco depois de darem fim ao baiano, que sangra numa calçada, matam um inocente, o protético Friedrich Adolf Rohmann, que ao cruzar a alameda com seu carro é confundido com um guerrilheiro, e acertam a cabeça de uma comparsa, a investigadora Estela Morato, de 22 anos, que falece três dias depois. No meio do fogo indiscriminado em suas próprias fileiras, o delegado Rubens Tucunduva também é alvejado na perna, mas sobrevive.

Apesar do fogo-amigo indiscriminado e da fraudulenta versão que Fleury usa para encobrir a inépcia de seus gorilas – afirmando que um pelotão de guerrilheiros trocou tiros com seu grupo, atingindo o alemão e os policiais, e que Marighella tentou sacar uma pistola, quando tudo o que levava consigo eram duas cápsulas de cianureto –, a noite foi de festa para a repressão. “Nas catacumbas do Dops, o inferno estava longe de terminar. Com a truculência exacerbada pelo álcool com que celebraram a vitória, os tiras vararam pela carceragem à noite. Orgulharam-se: ‘Matamos o bicho!’. Outro emendou: ‘Eu vou matar vocês todos!’. Mais um bêbado vociferou, recordaria frei Fernando: ‘Os frades entregaram o Marighella!’. Como num desfile carnavalesco, cantaram ‘Olê, olá, Marighella se fodeu foi no jantar…’. Os companheiros não abaixaram a cabeça: os socialistas puxaram seu hino, A Internacional, e os dominicanos entoaram cantos gregorianos”, descreveu o jornalista Mário Magalhães no seu Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012).

“Na noite do assassinato, os mais provocadores deles, os mais filhos da puta, foram lá para ‘contar a novidade’ à base da provocação, querendo abaixar o nosso moral, querendo abater a gente emocionalmente e psicologicamente”, relembrou à Revista Opera o ex-combatente da Ação Libertadora Nacional (ALN) Manoel Cyrillo. “Tínhamos que acreditar, montaram a foto e apresentaram ela. Não tinha o que discutir, não podíamos nos iludir: estava claro. Foi uma perda lamentável, uma baixa violentíssima, mas que tivemos que aceitar. Tinha que continuar a resistência. Passei dez anos em cana, imagine se nos primeiro meses eu resolvesse baquear, me desestruturar. Eu não tinha esse direito, não é verdade? Para enfrentar a cadeia tem que estar inteiro”.

A notícia foi diferente para o também guerrilheiro da ALN Aton Fon Filho, que se encontrava no Rio de Janeiro naquele 4 de novembro. “Em primeiro lugar eu não achei que fosse verdade. Mas depois vieram uma sucessão de confirmações, e o impacto foi de muita tristeza, de desespero. Foi um impacto muito grande, porque na verdade o Marighella, já naquele momento, representava não apenas o comando da ALN, como também o comando de todo um processo. Não era à toa que havia sido declarado inimigo público número 1 pela ditadura, porque ele era a pessoa que tinha a visão estratégica, de por onde seguia o caminho revolucionário, onde deveriam ser concentrados os nossos esforços, tudo isso”, recorda.

O corpo do líder guerrilheiro foi enterrado pela repressão num caixão de quarta classe na ala reservada aos miseráveis do Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. Seus restos mortais só foram transferidos de volta a Salvador, ao Cemitério Quinta dos Lázaros, em 1979. O reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro sobre seu assassinato só viria em 1996. A anistia post mortem, em 2012.

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Apesar das tramóias da repressão, de uma ditadura duradoura, de uma anistia apaziguante e uma transição silenciante, Marighella insiste em ressurgir. Nas últimas décadas, em filmes como Marighellla, retrato falado do guerrilheiro (2001), Batismo de Sangue (2006), no documentário Marighella (2012), de Isa Grinspum, e no filme de mesmo nome, dirigido por Wagner Moura, e que enfim estreia nos cinemas; em livros como Carlos Marighella – o Homem por Trás do Mito (1999), Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo (2012), e a coletânea de textos Chamamento ao povo brasileiro (2019); em músicas como Mil faces de um homem leal (Racionais MC’s, 2014), Um Comunista (Caetano Veloso, 2015), Carlos e Tereza (El Efecto, 2018) e Terceiro mundo (CESRV, FLEEZUS & FEBEM, 2020).

Soma-se a esse crescente movimento de produções culturais sobre a vida do baiano, nesta sexta-feira (5), a música Pretos de classe como Marighella, parceria entre os rappers são-carlenses Primitivo e THC das Ruas e o funkeiro paulistano Camarada Janderson. A música, lançada no momento em que os 52 anos de morte do guerrilheiro são lembrados, segue a premissa de relacionar a figura histórica de Marighella com as lutas concretas de hoje. “Não é que cada parte da música seja sobre um período da vida dele, mas cada parte da música traz alguma questão específica; começa falando da história dele até chegar na parte do Janderson, que já é completamente ficcional. A gente tentou ir por esse caminho, e acho que essa questão de trazer Marighella para nossa realidade, nós tentamos fazer ao máximo, inclusive tentando não universalizar um único Marighella, fazer um recorte único. É até uma escolha para trazer mais para o público do Rap”, diz Primitivo, de 25 anos, que divide seu tempo entre o Rap, a militância política e o trabalho como desenvolvedor de softwares.

Morador do Jaraguá, distrito periférico do noroeste de São Paulo, o MC Janderson, de 22 anos, relembra da importância que uma dessas produções recentes – o clipe Mil faces de um homem leal – teve na sua formação política. “Eu conheci o Marighella justamente com o clipe do Racionais. Em 2012, quando foi lançado, eu tinha 13 anos. Existiam duas lan houses aqui na quebrada, que era o lugar onde a gente acessava a internet quando nem todo mundo tinha acesso tão facilitado. Antes disso lembro que um rapaz chamado Gustavo, que até hoje canta Rap, já tinha falado que tinha um cara foda no Brasil chamado Marighella, mas eu pouco quis saber até os Racionais falarem”, lembra. A história se repetiu no bairro Cidade Aracy, periferia de São Carlos, com THC das Ruas. “Falei ‘pô, general? Quem é esse mano?’. Me identifiquei de primeira. Foi contagiante à primeira vista. Teve o rolê da Marielle, o golpe, foi um monte de neurose na mente e eu decidi saber mais sobre ele e me organizar. A figura do Marighella, eu acho que traz isso pra mim: ‘vou me espelhar nesse mano porque nele consigo ver quem eu sou’”.

Cinco décadas após a morte do guerrilheiro e sete anos depois da homenagem dos Racionais MC’s, Pretos de classe como Marighella (prod. Gorfo / AK16) é mais uma prova de que os homens de Fleury não conseguiram conter o exemplo de Marighella no caixão de plástico em que tentaram esconder seu corpo. Cada vez mais, como disse sua viúva e companheira de luta Clara Charf, seu exemplo vive: “Eu tenho sofrido ao mesmo tempo dores e alegrias. Dores porque é impossível não ter dor em saber que a gente perdeu uma figura tão maravilhosa, não só pro Brasil, mas que serviu de exemplo para a América Latina e pro mundo, que foi o Marighella. Mas ao lado disso tem também os jovens de hoje. Eu acho fantástico que toda vez que um jovem aparece protestando, eles mesmo dizem: ‘eu sou como Marighella, eu queria ser como Marighella’. E eu acho que todo lutador pode ser um Marighella: depende da continuidade, da firmeza da luta que ele queira fazer.”