Cinco anos sem Fidel?

Nos últimos dois anos, um falatório incendiário foi lançado nas redes sociais e na mídia internacional, tendo como alvo a memória de Fidel. Por Rosa Miriam Elizalde | Globetrotter – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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Fidel Castro morreu há cinco anos, mas sinto que décadas se passaram em Cuba desde 25 de novembro de 2016. Trump chegou, e passou lentamente com seu rosário de sanções que foram sentidas piores do que nunca por causa da pandemia. Biden veio com sua corte de pusilânimes, cambaleando todos os dias com ameaças veladas ou diretas, sem se atrever a cumprir suas tímidas promessas eleitorais.

Em cinco anos, principalmente nos últimos dois anos, um falatório incendiário foi lançado nas redes sociais e na mídia internacional, cujo alvo não é apenas o governo cubano. Eles queriam destruir Fidel Castro. Desde que a morte do líder cubano se tornou conhecida, centenas de homenagens foram feitas ao redor do mundo, mas, simultaneamente, um bombardeio de calúnias foi lançado contra sua memória para tentar transformar em ruínas o projeto nacional, popular e democrático da Revolução que ele liderou.

Para apresentá-lo como o símbolo da derrota e do fracasso, ele é mostrado como um idealista solitário que conduziu Cuba à ruína. Todas as suas ações (reais ou inventadas) são carregadas de negatividade e perversidade para torná-lo o vilão do filme e, portanto, digno de qualquer ultraje. Há quem se escuse, cinicamente, na desmistificação.

Mas nada disso é suficiente para amassar o símbolo. A verborragia dos profissionais do ódio e desmistificadores acaba alimentando a figura do homem que liderou a luta armada na Sierra Maestra, que pôs o peito nu a enfrentar balas e furacões, que comandou a guerra internacionalista na África, que sobreviveu a 637 ataques e que sempre foi visto pelos cubanos na primeira linha de batalha contra a injustiça, o egoísmo e o individualismo. Fidel opôs-se à tolice e à arrogância, confrontando-as com humor ou com saídas que desmentem a caricatura torta que fazem dele. Eu sei.

Lembro-me perfeitamente da coletiva de imprensa realizada em Havana, em abril de 1990, com os ecos da dissolução da União Soviética como pano de fundo e enquanto Washington já tinha “o guardanapo para almoçar na ilha com garfo e faca”, como escreveu Eduardo Galeano então. Fidel advertiu os jornalistas que um ataque a Cuba repetiria o feito de Numancia, a cidade ibérica que resistiu ao ataque dos romanos incultos mas poderosos em 146 a.C, e que preferiu se imolar a se render.

Qualquer cubano entendia, disse ele, por que aquela gente resistiu em entregar ao império sua língua, seus deuses, seus modos de vida, seus campos e suas cidades. Por virtudes e defeitos eles preferiram, em qualquer caso, sem hesitação, os seus próprios. Um jornalista espanhol perguntou como era possível que Fidel convocasse o povo para o holocausto. “Se seus ancestrais pensassem como você, agora você estaria me perguntando em francês”, respondeu o líder revolucionário.

Para Fidel, a ideia numantina nunca foi fanatismo ou nacionalismo suicida. Enquanto esse diálogo ocorria, um laboratório científico cubano produzia e tentava comercializar a primeira vacina contra a meningite tipo B, que havia sido o principal problema de saúde das crianças da ilha e matava 85 mil pessoas todos os anos no mundo. O governo dos Estados Unidos queria a droga, mas se recusou a pagar um único centavo ao governo de Havana e impôs a troca por comida. A pesquisadora principal, Conchita Campa, se surpreendeu com a resposta de Fidel quando teve que lhe dar a notícia: “As crianças que vão ser salvas nos Estados Unidos não são culpadas de tamanha arrogância. Claro que vamos trocar por comida”. Assim chegaram as primeiras galinhas gringas que os cubanos comeram após o bloqueio naval imposto por John F. Kennedy em 1961.

Se sente como se o tempo tivesse se alargado e tudo acontecesse de novo simultaneamente. A Revolução de 1959, a hostilidade dos Estados Unidos, os iniciáticos anos 60 e os mais inflexíveis anos 70, os estáveis ​​anos 80, os insuportáveis ​​anos 90 após a queda soviética e as dificuldades da vida cotidiana. Passamos pelo lado mais difícil do bloqueio e da ameaça de uma invasão militar, como a de Playa Girón. Passamos pela ilha fechada e pela ilha aberta ao turismo. Pelas filas, pela doença e pelas vacinas. Pelo terrorista e celebridade de Miami, e pela Miami invisível dos migrantes que querem a normalidade para se reunir com suas famílias. Passamos todos esses cinco anos, mas há algo que aconteceu pela primeira vez. Fidel começou a estar diferente. Ainda assim, está e será.