Bolsonaro no PL, Mendonça no STF

Filiação de Bolsonaro ao PL e chegada de Mendonça ao STF não consolidam ainda grandes avanços para um presidente altamente impopular. Por Pedro Marin | Revista Opera

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O presidente Jair Bolsonaro é homenageado com a Medalha Mérito Legislativo, durante sessão solene na Câmara dos Deputados. (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

“Seja bem-vindo ao PL. Seja bem-vindo a 2022″. Foi assim que o presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, acolheu Jair Bolsonaro durante a cerimônia oficial de filiação do presidente à sigla. A referência a 2022 não é leviana: a princípio, a ida de Bolsonaro ao partido do Centrão fortifica o presidente para as eleições do ano que vem, em um momento em que a chegada de Moro à disputa o ameaça. Mas, mais importante do que aquilo que Bolsonaro ganha com a filiação – tempo de TV para a disputa, recursos para a campanha, apoio garantido dos 42 deputados do partido na Câmara e das duas cadeiras no Senado para fazer tudo o que precisa até 2022 –, é aquilo que o Partido Liberal ganha.

Para todos os efeitos, o PL precisa de um candidato popular que concorra, não necessariamente de um que vença. No esteio da candidatura de Bolsonaro à reeleição, e da ida de uma multidão de membros do governo e bolsonaristas ao partido, o PL aumentará suas bancadas no Legislativo (virtù fundamental ao partido fundamentalmente fisiológico) e possivelmente até nos Executivos estaduais (atualmente o partido só conta com um governador, Cláudio Castro, no Rio de Janeiro).

Os efeitos da filiação, para Bolsonaro, ainda são limitados – o presidente não está politicamente morto, e se torna improvável que desista da candidatura, mas está longe de compensar sua impopularidade com um acordo de bastidores. O passo indispensável é conseguir acomodar os interesses do PL com o de outras siglas, como PP, União Brasil,  Republicanos e NOVO, que, apesar dos acenos do presidente durante a cerimônia de filiação, conservam a independência para compor com outros candidatos em 2022.

Demonstrativa dessa curiosa situação foi a aprovação ontem (1), pelo Senado, do nome de André Mendonça para o STF. “Terrivelmente evangélico”, Mendonça fez uma longa via crúcis de falsos testemunhos para conseguir seus votos; conversou nos bastidores com os senadores e, na sua sabatina, adotou a postura de um candidato técnico e desprendido do presidente, pessoalmente religioso mas respeitador da laicidade e da Constituição. Logo após a aprovação de seu nome, por 47 votos a 32 (eram necessários 41), mudou o tom e declarou que sua chegada ao Supremo é “um passo para um homem, um salto para os evangélicos”, pelo qual deu “glória a Deus”. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”, teria dito Jesus em frente ao templo de Jerusalém, pouco após a expulsão dos vendilhões. Quanta glória dada no exemplo.

Certamente contribuiu para a atardada aprovação de Mendonça a filiação de Bolsonaro ao PL, mas é precisamente o fato da votação ter sido tão apertada – foi a pior dentre todos os atuais integrantes da corte – que revela uma situação ainda tensionada para Bolsonaro no Legislativo, apesar da oficialização do casamento com o Centrão. Mendonça poderá ser importante para algumas pautas futuras no STF, por exemplo para reverter as votações a favor do lava-jatismo (que pode sempre ser ferramenta útil para alterar o rumo de eleições e hoje se encontra nas cordas da corte, continuamente derrotado em votações apertadas) e poderia ser aproveitado em numa tentativa de melhorar as relações do presidente com o tribunal. Efetivamente, no entanto, mais uma cadeira no STF não é coisa tão valiosa para o candidato Bolsonaro, e a dívida dos ministros do Supremo com aqueles que os apontaram é sempre transitória. 

Terrivelmente evangélico, que seja. Terrível é que a votação secreta de ontem, como é rito nesse tipo de matéria, garanta a vaga a Mendonça no STF por vindouros 27 anos: uma decisão que se estende por um quarto de século, tomada nas sombras e sobre os homens que interpretarão a legalidade, sem que se possa saber sequer quem a apoiou ou reprovou; um Supremo e um Senado terrivelmente oligárquicos para o novo ministro de Bolsonaro.