Geovanni Atarihuana: “No Equador, Departamento de Estado dos EUA tem linha direta com Lasso”

Em entrevista à Revista Opera, Geovanni Atarihuana fala sobre o passado da luta no Equador, as posições em disputa nas últimas eleições, a crise do correísmo e o futuro das ruas que, segundo ele, devem voltar a se movimentar muito em breve. Por Pedro Marin | Revista Opera

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O diretor nacional da Unidade Popular do Equador e ex-vice-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, Geovanni Atarihuana. São Paulo, 16 de novembro de 2021. (Foto: Pedro Marin / Revista Opera)

O Equador parece viver em uma contínua crise política. Das revoltas do final dos anos 90 e começo dos 2000, que derrubaram três presidentes, o país pareceu retornar a um mar mais calmo quando mergulhou na Maré Rosa latino-americana, com Rafael Correa como seu representante. O jovem líder, no entanto, deixou o governo em uma situação difícil, exilado na Bélgica e tendo como sucessor Lenín Moreno, que não tardou em trair suas bases e aplicar, com unhas e dentes, o receituário neoliberal que a sua Revolução Cidadã tanto teria combatido. Em outubro de 2019, ainda sob o governo Moreno, uma gigantesca insurreição abalou o país por semanas, fazendo renascer os odores daqueles anos 90 em que presidentes eram forçados a deixar o país às pressas – Moreno não chegou a tanto, mas mudou a sede do governo, de Quito para Guayaquil.

A partir da crise da Covid-19, a situação só piorou. Vivendo uma onda contínua de ajustes fiscais patrocinados pelo FMI, os cadáveres equatorianos chegaram a ficar nas ruas, esperando por quem os recolhesse: um retrato ao mesmo tempo metafórico e real de um país submetido ao Fundo Monetário Internacional e à dolarização. Em 2021, em eleições tensionadas, o banqueiro Guillermo Lasso foi eleito, e passou a governar o país com o mesmo ânimo de seu antecessor, isto é; para os financistas. Mas mais uma vez o ciclo equatoriano se repetiu: de uma popularidade imensa pela rapidez na vacinação, Lasso passou a ser pressionado por uma crise multidimensional, que inclui uma crise na segurança pública, greves e massacres prisionais, a aparição nos Pandora Papers de investimentos seus em paraísos fiscais, a inconformidade do povo com a debilitada situação econômica e um impasse político na Assembleia Nacional, que inclui a possibilidade de uma paradoxal destituição mútua.

Enfim, no dia 18 de outubro, o mandatário equatoriano decretou um estado de exceção e trocou o ministro da Defesa, o ex-comandante da Marinha Fernando Donoso, pelo general aposentado do Exército Luis Hernández. Os militares ocuparam as ruas para impedir que o povo continuasse a fazê-lo e, desde então, o país vive no embaraço dessa sua memória; entre presidentes destituídos e dólares, militares e manifestações, tiros e traições.

Para desembaraçar um pouco a situação equatoriana, a Revista Opera conversou, no dia 16 de novembro, com o diretor nacional da Unidade Popular do Equador e ex-vice-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral, Geovanni Atarihuana, durante uma breve passagem sua por São Paulo. Na entrevista a seguir, Geovanni fala sobre o passado do país, as posições em disputa nas últimas eleições, a crise do correísmo e o futuro das ruas que, segundo ele, devem voltar a se movimentar muito em breve.

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Revista Opera: Antes de tudo gostaria que se apresentasse, e que nos explicasse o que é a Unidade Popular, quando e para que nasceu, e qual é a relação dela com o MPD e com o PCMLE.

Geovanni Atarihuana: A Unidade Popular é um partido de esquerda revolucionário com registro eleitoral no Conselho Nacional. Foi fundada em 27 de setembro de 2014. Nós somos a continuidade histórica do Movimento Popular Democrático (MPD), que por essa época teve sua vigência legal arbitrariamente suspensa pelo governo de Rafael Correa. Em uma convenção decidimos seguir com a luta e abrir o partido a novos setores; e ele foi nomeado Unidade Popular (UP).

Nós nos propusemos a legalizar o partido, para o que seria necessário a assinatura de 1.5% dos eleitores – cerca de 200 mil assinaturas. Alcançamos 500 mil assinaturas e, em um ano, conseguimos a legalização da Unidade Popular. Partimos das bases ideológicas, princípios, trajetória e base social do que foi o MPD, de lideranças como Jaime Hurtado, e obviamente, neste processo, ajustamos o programa para dar resposta a problemas atuais, como os temas da plurinacionalidade, a defesa do meio ambiente, os temas LGTBI, a partir de uma visão sempre de esquerda, pelo socialismo. E nós definimos como meta incorporar especialmente a juventude.

Em 2018 a Justiça nos deu razão sobre o processo contra o MPD, e a personalidade jurídica do movimento foi restituída. Nós já tínhamos crescido como Unidade Popular, com novos contingentes em várias províncias, e, claro, fizemos um processo de debate – alguns diziam para mantermos o MPD, outros a UP, etc. Nós então realizamos um congresso de fusão, a partir do qual deixamos de ser movimento político e passamos a ser partido; um partido maior e mais forte, a partir de julho de 2019.

Quanto aos companheiros do Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador, temos organizações da mesma tendência; vários dos camaradas do PCMLE contribuem com a Unidade Popular, mas o PCMLE é um partido seleto, com militância secreta. Coincidimos basicamente na definição estratégica – e portanto também tática. 

Nosso partido está organizado nas 24 províncias do Equador, temos estrutura entre os imigrantes nos Estados Unidos, Espanha e Itália, além de algumas prefeituras e vereadores. Nos consideramos um partido de ação política permanente, muito ligado aos setores sindicais, especialmente aos sindicatos de professores, ao movimento estudantil e camponês. Participamos, é claro, na disputa de ideias políticas, e como uma alternativa eleitoral. Na nossa concepção, nossa principal tarefa nesta etapa é unir o povo para ser governo.

No Equador hoje consideramos que existe uma tendência democrática, popular e de esquerda muito forte, que se expressou na resistência pela esquerda ao governo Correa, e que nessas eleições de 2021 irrompeu com uma força considerável: Yaku Pérez, o candidato que apoiamos, teve cerca de 20% dos votos. Ele representa o movimento indígena, mas vai mais longe. Em um contexto no qual se rompeu a polarização que veio existindo nos últimos 15 anos entre o projeto do correísmo – o chamado progressismo, que para nós foi um projeto de modernização do capital e renegociação da dependência – e a direita neoliberal. Em outubro de 2019 houve uma mudança na correlação de forças, com a resistência ao paquetazo de Lenín Moreno – que vinha do correísmo mas foi cooptado pela direita e aplicou as determinações do FMI. Houve uma explosão social, uma revolta indígena e popular, que foi vitoriosa, e que acendeu a faísca em toda a América Latina. Esse acontecimento é um ponto de inflexão, porque irrompe no cenário político um ator distinto tanto do correísmo quanto do neoliberalismo. Algo que se expressou nas ruas, com um programa antineoliberal, e dois anos depois – com uma pandemia no meio – foi capaz de construir um projeto que teve o apoio de 20% da população.

Isso foi para nós muito importante, porque demonstrou que um candidato como Yaku, um indígena, lutador social e defensor da natureza, com essa via popular… Nós dizemos que chegou ao segundo turno. Houve um problema de fraude aí, e o candidato que hoje é presidente, o candidato da banca, chegou ao segundo turno. Muito provavelmente, se não houvesse fraude, no segundo turno Yaku era presidente. A direita ganha a presidência, mas isso não significa uma direitização do eleitorado. Basta ver a composição da Assembleia Nacional: o governo tem doze, apenas doze deputados próprios em uma Assembleia de 137. Com outras forças abertamente neoliberais, não chegam a 30. Entre 2017 e 2021, a direita neoliberal em suas duas candidaturas teve 45% do eleitorado. Ou seja, a oposição ao correísmo como projeto político foi capitalizada pelo neoliberalismo em 2017. 

Então, Lasso é presidente porque consegue, no segundo turno, capitalizar o desgaste frente ao projeto de Correa. Embora Correa não fosse candidato, evidentemente era quem estava nos bastidores. Lasso, no segundo turno, assume muitas das propostas de esquerda – entrada nas universidades, rejeição ao fundo monetário, liberdades, defesa contra a mineração – e capitaliza, digamos, o anticorreísmo que boa parte da população lia como um projeto corrupto – Correa está condenado – e como um projeto autoritário. Paradoxalmente, os presos e criminalizados no correísmo não foram banqueiros ou empresários, mas mais de 800 líderes indígenas, sindicais, de esquerda, sobre os quais foi aplicada a figura do terrorismo, como em 2010. Nós, por exemplo, no nosso partido temos 25 condenados, dos quais 15 estiveram na prisão durante um, dois anos por se manifestarem contra a mineração, por defenderem a água… A presidente do Sindicato de Professores foi inicialmente condenada a oito anos por ataque terrorista, e no fim, oito anos depois, foi declarada inocente.

Lasso capitalizou esse cansaço na população, mas não era um cheque em branco para a aplicação do modelo neoliberal. É por isso que, para nós, é muito importante essa erupção de uma tendência que tem respaldo eleitoral. O partido Pachakuti, que é uma força dessa tendência, tem um grande bloco que dirige a Assembleia Nacional – com muitas dificuldades, mas está lá –, é uma tendência que tem uma proposta programática e que tem muito poder de mobilização.

O governo de Moreno não poderia ter sido pior, terminou com 5% de apoio, nos custou milhares de mortos pela Covid, pela magnitude o Equador está entre os cinco países proporcionalmente mais afetados pela Covid. Moreno pagou com antecedência a dívida externa enquanto as pessoas morriam em Guayaquil, fez acertos corruptos com os hospitais, com insumos para os hospitais, e começou seu ajuste neoliberal. Moreno só não caiu por conta do confinamento, as dificuldades da pandemia, e porque logo viriam as eleições. Foi tão incompetente que os únicos que conseguiu vacinar foi ele próprio e sua família. Então Lasso tomou posse em um contexto de muita expectativa, de que as coisas mudariam –a crises no Equador está muito dura, bastante similar ao Brasil; milhões passam fome, um milhão de empregos foram perdidos em plena pandemia. 3 em cada 4 não têm emprego pleno no país; o salário mínimo é de cerca de 400 dólares, mas a cesta básica custa nacionalmente 712 dólares e em Quito chega a 740 dólares, isso com um ingresso médio oficial – a maioria está abaixo dele agora, está subempregado e trabalha de forma informal – de cerca de 300 dólares. Então aí está uma situação onde se acumula o descontentamento, os setores médios foram praticamente pulverizados e obviamente, nesta situação, os banqueiros recuperaram seus ganhos de maneira extraordinária. Os pequenos empresários, os comerciantes, o setor agrícola, não conseguem pagar suas dívidas… Há um dado de que 5 em cada 10 famílias se endividaram durante a pandemia, porque perderam o trabalho, etc. Dessas 5, quatro delas hoje não podem pagar, estão asfixiadas.

Guillermo Lasso teve um êxito grande na vacinação. No primeiro mês, tinha 70% de aprovação. Como disse, logo no começo do governo, havia uma grande expectativa… mas agora já se vão seis meses e ele não resolveu os problemas do povo, que está vacinado mas tem fome; está vacinado e é assaltado – os níveis de insegurança são muito altos. Mas muitas das promessas de campanha de Lasso imediatamente foram arquivadas. Por exemplo: ele disse que estava de acordo com o livre ingresso às universidades. Obviamente, é um tema de infraestrutura, de orçamento, de políticas. Depois ele disse que não, que foi mal compreendido, que só queria mudar o nome do exame nacional. Muitos jovens e seus pais votaram por Lasso. Outro tema: os produtores de arroz. Foi assinado um compromisso de preços de sustentação para eles, que teriam pagos, por uma saca de duzentos quilos, 45 dólares. Lasso assinou esse acordo, durante a campanha: agora estão pagando aos produtores 24, 25 dólares. Esse novo setor na luta social, no dia seguinte, começou a travar as estradas. Lasso também disse que baixaria as taxas de juros, que com a dolarização são as mais altas do mundo, e a única coisa que fez foi fazer um pedido para seus colegas banqueiros – porque ele é um banqueiro –, que eles tomassem em conta essa necessidade. Obviamente, não o farão. E em meio a tudo isso manteve a política de ajuste de Moreno. Em cinco meses, ele subiu o preço da gasolina seis vezes.

Por isso foi se acumulando uma situação, houve mobilizações, as forças foram se somando e no meio disso, em setembro estourou o segundo massacre prisional. Foi um dos maiores da América Latina, com 118 ou mais mortos. Isso tem levantado o tema da insegurança no país. Há muitos assassinatos, o que não era comum no Equador; muitos roubos com motocicletas, etc. E o governo decretou o estado de exceção, com a ideia de militarizar o país para combater a insegurança. Mas na realidade era uma cobertura para enfrentar os protestos que vinham crescendo. Recentemente, em uma imagem muito dantesca, se vê o presidente em um jantar celebrando o aniversário dos Marines norte-americanos, enquanto os presos – se comunicando por Whatsapp – pedem ajuda aos familiares; “vão nos matar”, “estão entrando”, “nos ajudem”, alguns se despedindo de seus familiares. O governo não faz absolutamente nada por sete horas… e morrem 68. Então com essa situação, Lasso passou de 70% de aprovação para 28%. Não tem uma maioria sólida na Assembleia, e mesmo assim tentou passar uma mega lei. A Constituição diz que só poderia propor uma lei com um tema, mas fez essa lei incluindo reforma tributária, reforma laboral, algumas questões sobre investimento, privatizações…

Revista Opera: Diminuição de taxas para nacionalização de investimentos…

Geovanni Atarihuana: Sim, exatamente. E queria urgência: em um mês queria que a Assembleia aprovasse 500, 400 artigos. Houve resistência social e a Assembleia disse não. Ali ele ameaçou usar a morte cruzada, a dissolução da Assembleia, consulta popular. Além disso, aparece o tema dos Pandora Papers.

O debate é se haverá destituição ou não – creio que não chegará a isso. Porque se a Assembleia destituir o presidente, a Assembleia também é destituída. Ou seja, um empate, a morte cruzada. O tema dos Pandora Papers: não se trata do debate sobre se Lasso nacionalizou suas propriedades no exterior a tempo de ser candidato ou não; para o conjunto da população, trata-se dele admitir que tem empresas offshore desde 1991, que sua fortuna está em paraísos fiscais. No imaginário popular fica a pergunta: como ele quer trazer os investimentos estrangeiros, se ele leva o dinheiro para fora? Por que oculta? Como ele vai ir atrás dos grandes evasores fiscais?

Nós, na esquerda, vínhamos sustentando isso. Um equivalente a 8% do PIB, segundo a CEPAL, são evadidos em impostos pelos grandes grupos empresariais, é muito, é o dobro do que o FMI nos empresta. Ele disse que combateria isso, mas como vai combater os evasores se ele mesmo é um evasor?

E isso em um país de emigrantes. Perceba que nós recebemos quase 5% do PIB de remessas enviadas pela classe trabalhadora equatoriana que vive nos Estados Unidos e Europa. É mais dinheiro do que os ingressos petroleiros. Enquanto isso, o banqueiro Lasso e a oligarquia fazem fortunas no Equador e levam para outro lado.

Então nesse momento há uma polarização que não é presidente contra Assembleia, mas sim de um governo e seu projeto de ajuste neoliberal frente ao povo, que pede soluções e o movimento social que tomou as ruas, e que é a principal oposição ao governo, que expressa uma tendência. Lasso tentou dizer que havia uma conspiração, um triunvirato formado por Jaime Nebot à direita, o correísmo, que é a principal força legislativa que tem um discurso anti-neoliberal, mas que tentou um pacto de governabilidade com Lasso no início, e que incluiria até Leonidas Iza [líder do CONAIE], como expressão do movimento indígena e, portanto, do povo nas ruas. Ou seja: as revoltas prisionais são parte da conspiração; o povo contra o aumento dos combustíveis é a conspiração; se a Assembleia não passa essa lei, é a conspiração.

A crise ainda não chegou ao fundo no quesito econômico, nem no político. Não se descarta a emergência de uma revolta social porque passarão as festas de fim de ano e há uma parte do povo que passou do descontentamento para a mobilização, dentro do Coletivo Unitário, onde está a FUT (Frente Unitária dos Trabalhadores), a CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), a Frente Popular. E o contexto não ajuda o governo, porque o acordo de Moreno e de Lasso com o FMI era subir o IVA (Imposto sobre Valor Agregado), por exemplo. Mas eles sabem que esse ano houve revoltas na Colômbia por conta da mesma proposta, e o povo equatoriano tem isso faz dois anos. Então não é tão fácil. Há setores direitistas nas Forças Armadas… Lasso não rompeu com os chineses, de fato, a vacina ele conseguiu com a China. Correa não rompeu com os EUA, era um mimado dos EUA, mas é evidente que agora o Departamento de Estado tem uma linha direta com Lasso, nesse contexto regional – Castillo no Peru, eventualmente Petro na Colômbia, o Piñera indo  embora… Então Lasso comemora na festa dos Marines ianques em Guayaquil [risos].

Revista Opera: E com Blinken, que estava no Equador quando Lasso anunciou a troca de seu ministro da Defesa e o estado de exceção.

Geovanni Atarihuana: Lasso falou, na Espanha, sobre a necessidade de um “Plan Ecuador”, em referência ao Plan Colombia, pedindo aos EUA e à Europa que o ajudem, porque é evidente que há um desenvolvimento do narcotráfico, dos cartéis mexicanos, etc. Mas as Forças Armadas – ou uma parte das Forças Armadas – não quer embarcar em uma guerra ao estilo mexicano ou colombiano. Esse é um problema – acaba de renunciar o chefe do Comando Conjunto. Então temos um governo debilitado, desgastando-se, um povo que quer solução, que passa fome. Uma parte desse povo tem organização, referências, tem memória histórica de luta, e por isso creio que haverá muito movimento nos próximos meses. 

Revista Opera: Esse tema, dos militares, é muito caro para nós no Brasil, especialmente para nós, da revista, que estamos em cima dessa questão. Numa entrevista sua para a revista Rupturas, durante as eleições de 2017, você disse que naquele momento, entre o primeiro e o segundo turno, houve uma mudança no Alto Comando das Forças Armadas; ou seja, Moreno avançava como candidato no primeiro turno e, quando passou ao segundo turno, o comando das Forças mudou. Em 2019, durante as manifestações, já durante o governo Moreno, o presidente deixou Quito e foi para Guayaquil, onde posou em algumas fotos com o Alto Comando, militarizou a cidade e agora, de novo, Lasso põe os militares nas ruas. Troca o ministro da Defesa a princípio e depois o Comandante do Comando Conjunto. No Brasil ressurgiu o debate sobre o papel político das Forças Armadas, algo que não se falava mais desde a redemocratização. Que avaliação você faz sobre o papel político das Forças Armadas hoje no Equador? Tendo em conta inclusive que, ao contrário de nós, vocês tiveram um conflito como o de Cenepa, mais próximo temporalmente, e fenômenos como aquele militar que ascendeu à presidência, Lucio…

Geovanni Atarihuana: Lucio Gutiérrez, o Chávez falido [risos]. Apoiado por nós, e pelo Pachakuti. Veja, as Forças Armadas, é claro, em um país capitalista sua tarefa é sustentar o sistema, evidentemente. No caso equatoriano, nos últimos trinta ou quarenta anos, nós tivemos em 70 a ditadura, mas foi uma “ditabranda”, não foi ao estilo do Cone Sul…

Revista Opera: Sim, esse é um aspecto, porque o caso das Forças Armadas do Equador me parece muito estranho se compararmos por exemplo com a Bolívia.

Geovanni Atarihuana: Sim, sim, foi uma ditabranda, nós dizemos, porque sabemos o que ocorreu no Chile, o que ocorreu aqui no Brasil. E mais: o governo militar de 1971, creio, se denominava governo nacionalista revolucionário das Forças Armadas, que coincidiu com o boom petroleiro e teve um papel de modernização progressista na sociedade – eletrificou o pais, o país entrou para a OPEP, tínhamos pulsões nacionalistas na primeira etapa. Depois, foi substituído por um triunvirato mal ajustado. Mas este tema é interessante porque, ao menos na última etapa, as Forças Armadas equatorianas não se prestaram a reprimir o povo a sangue e fogo. Veja que tivemos a revolta de 1997 que derrubou Abdalá Bucaram; a de 2000, que derrubou Jamil Mahuad; e a de 2005, na qual caiu Gutiérrez. E em todas essas não houve ação dos militares para reprimir com sangue. E houve vários levantamentos, greves gerais. A Marinha sempre teve vínculos maiores com os norte-americanos, e são muito vinculados com a direita em Guayaquil e com o negócio petroleiro. Então não digo que sejam Forças Armadas populares, mas são Forças Armadas que em vários momentos da história, durante levantamentos, não se prestaram a esse papel – e não é que não tenham lhes dado essa ordem. Agora mesmo, em outubro de 2019, durante o levantamento, que deve ser, pela duração e magnitude, um dos maiores da história do país; foram 13 dias em todo o país, Quito sitiada. A repressão, que foi uma das maiores da história do país – 11 assassinados, cerca de 80 pessoas que perderam os olhos, mais de 1500 detenções e abusos – partiu toda das mãos da polícia, da polícia. Quando o Exército foi mobilizado, havia ordens, mas você vai ver em vídeos militares que baixam as armas, inclusive vários caminhões militares são capturados, retidos pelos manifestantes no campo, houve até, perto de Quito, uma queima de tanquetas dos militares.

Revista Opera: Lembro inclusive de um militar que foi sequestrado pela CONAIE.

Geovanni Atarihuana: Sim! Agora mesmo [houve outro caso]. Duas semanas atrás capturaram um militar e exerceram o que se chama de justiça popular. Obviamente isso rompe o esquema da institucionalidade… E agora vão ser julgados.

Quando houve a derrubada de Mahuad, a direita colocou que era necessário “meter fogo”, e os militares se negaram. Agora também, em várias unidades [há essa atitude], porque, além de tudo, é um país muito pequeno; os oficiais médios, a tropa em geral… São seus vizinhos, seu parentes os que estavam ali nas ruas. Então há que se tomar isso em conta. Não significa menosprezar o caráter repressivo que finalmente, como instituição, têm. A penetração dos norte-americanos é de longa data também. Lembre-se que houve o bombardeio de Angostura [Operación Fénix, em 2008], onde a Colômbia bombardeou o Equador para matar [o guerrilheiro das FARC] Raúl Reyes. O chefe de Inteligência, que mais do que se reportar ao Alto Comando, se reportava à CIA, apagou os radares. Então essa relação eles estão tentando reconstruir.

A força da esquerda e a Constituinte proibiu a presença de bases militares estrangeiras no país e, portanto, foi retirada a base de Manta, que permanecia no país sob a desculpa do combate ao narcotráfico. Como tem crescido o narcotráfico, cada vez mais a costa equatoriana é, digamos, a ponta de lança para enviar a mercadoria via aérea e via submarinos aos EUA. O discurso da direita feito naquele momento era de que a base de Manta era necessária, e eles trabalharam por isso. Por isso agora esse anúncio sobre um Plan Ecuador, que por enquanto é um anúncio. Recentemente o Secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, esteve no Equador para dar apoio a Lasso. 

Correa também negociou com as Forças Armadas, fez um trabalho de neutralização, de criar lealdades, mas não como na Venezuela, onde houve um trabalho ideológico, com as Forças Armadas Bolivarianas e muito mais. Basicamente comprou lealdades em função de entregar, por exemplo, o controle de determinadas áreas de petróleo para a Marinha, ou fazer compras militares de aviões – por exemplo, um chefe da Força Aérea denunciou que não deviam comprar tais e tais helicópteros e terminou morto. O resto do Alto Comando negociou.

Revista Opera: Bom, você disse que o correísmo é hoje a principal força legislativa, em que pese ter perdido as eleições para o Executivo. Na primeira eleição de Rafael Correa, em 2005, a Unidade Popular – então como MPD – apoiou seu nome no segundo turno e durante as discussões por uma nova Constituição, em 2007, também apoiou, mas vocês romperam com o partido de Correa em 2008.

Geovanni Atarihuana: Não, em 2010.

Revista Opera: Somente em 2010…

Geovanni Atarihuana: Sim, nós chamamos o voto por Correa em 2009, como apoio crítico.

Revista Opera: Ah, sim. E essa situação de oposição ao correísmo, em 2017, os levou a votar por Lasso. Naturalmente há uma ironia, porque um correísta poderia notar que agora vocês estão lutando contra Lasso, mas vocês também poderia responder: “bom, e vocês votaram por Moreno”. Uma confusão [risos].

Geovanni Atarihuana: Claro [risos]. No Equador há muita confusão.

Revista Opera: E nas últimas eleições vocês apoiaram o candidato do Pachakuti, Yaku Pérez, que você classificou como uma manifestação da revolta de 2019, mas ele também deu declarações bem à direita quanto a Maduro, Dilma, Kirchner, falou da manutenção da dolarização e outras coisas. Queria saber, primeiro, qual é o balanço que vocês fazem do processo do correísmo, da chamada Revolução Cidadã, e como avaliam essas contradições na luta de classes equatoriana no momento, coisas como Yaku Pérez e as próprias contradições dentro do CONAIE.

Geovanni Atarihuana: Veja, de fato o Equador é um país muito complexo. Nos anos 80 e 90, a esquerda resistiu e combateu o neoliberalismo com muita força. Trata-se de um dos países onde o neoliberalismo teve menos êxito nas privatizações. Ganhamos um plebiscito em 1995 e derrubamos três governos neoliberais. Essa acumulação se transformou em proposta política e a esquerda, em 2000, derrubou, nas ruas, o presidente Mahuad, que deixou o país. Em 2002, o Pachakuti e o MPD, apoiando o coronel insurrecto Lucio Gutiérrez, ganhou as eleições. Mas Lucio foi uma fraude. Em seis meses se transformou em melhor amigo dos Estados Unidos, foi cooptado. Nós tínhamos um ministro que rompeu. Mas era uma mostra de que a tendência de esquerda, democrática, tinha um espaço. Logo cai Gutiérrez e temos uma crise política.

Com as debilidades do Pachakuti e do MPD, houve a irrupção do Correa como um candidato que assumiu o discurso da esquerda, dos movimentos sociais, que era muito jovem e fazia um manejo muito bom da comunicação política. Capitalizou esse tema. Ele ganha, passa ao segundo turno e obviamente, entre Álvaro Noboa e Correa – este com um discurso de esquerda, com posições à esquerda – tínhamos que apoiá-lo. Na primeira etapa, Correa passa ao tema da Constituinte e começa a cumprir essas posições. É um processo que avança até 2008, até a aprovação da Constituição. Se olharmos a Constituição, há muitos avanços: direito da natureza, plurinacionalidade, o tema do direito dos trabalhadores, o regime econômico. Deixa algumas portas abertas à privatização, que hoje estão sendo utilizadas, e que Correa começou a utilizar. Em todo caso, Correa, com sua capacidade política, com a Constituição, começou programas sociais, e teve uma vantagem: a questão do preço do petróleo, que o permitiu, digamos, fazer rodoviais, programas sociais, etc., e conseguiu incorporar um importante setor nesse projeto. Inclusive ele no poder levou o mote do “socialismo do século XXI”.

Mas a partir da aprovação da constituinte começa a haver um giro econômico. Ele nunca rompe com os Estados Unidos em termos de soberania. O mais grave é a eliminação da Base de Manta, mas isso foi fruto da luta social e nós praticamente obrigamos, na constituinte, que isso fosse feito. Ele começa uma renegociação da dependência com a China e com a Rússia. E em 2009 já começa toda a renegociação das questões das empresas telefônicas e das petroleiras, e abre o extrativismo mineiro – particularmente com a China mas também há empresas canadenses e uma ou outra norte-americana. Ali começa uma cooptação do poder do Estado, onde não há revolução, porque não se afetam os grandes interesses; se você olhar aos ganhos dos banqueiros e dos grupos monopolistas do país, os dez anos de governo Correa são os em que mais ganharam e houve mais concentração. Não houve revolução. Tampouco era cidadã, porque na sua visão, ele falava que não era necessário “movimento social”, criticava isso como corporativismo: então não é necessário, por exemplo, um sindicato dos professores; “eu resolvo, eu sou o caudilho”.

Então esse estilo autoritário, que se entrega ao capital estrangeiro, começa a ter contradições com o campo: particularmente com o setor agropecuário e indígena. Termina com a autonomia das universidades, o sistema educativo deixa de ser democrático… É simbólico. Os professores não podem falar, não podem falar os estudantes, e se cria um caldo para que, digamos, um cenário de silêncio fosse criado – um cenário que inclusive colabora com a agressão contra milhares de jovens e o tema da violência sexual. Nos últimos cinco anos de Correa há um cenário de cinco ou seis mil casos de abuso sexual, porque a educação não é mais da comunidade, mas sim um quartel, onde o professor não pode falar nada.

Então, para nós, o governo de Correa representou um projeto modernizante do capital, relacionado aos capitais internacionais. Obviamente, com muita corrupção: perceba que tivemos a maior bonança petroleira da história do país, e a dívida externa triplicou. Muitas hidrelétricas, estamos endividados. Nós apoiamos, no começo, uma auditoria sobre toda a dívida dos neoliberais, onde se demonstrava que a dívida era ilegítima, e a Constituição que apoiamos dizia que, constatando a ilegitimidade, poderíamos denunciar a dívida. Esse passo nunca foi dado. Enquanto isso, a dívida com a China se multiplicou por dez, com altas taxas de juros. Temos a venda de petróleo fechada com a China e a Indonésia até 2023. Mudaram a dependência, firmaram o tratado de comércio com a Europa. 

Nós em 2009 chamamos um voto crítico, porque havia elementos da mineração, por exemplo. E a ruptura se produz com a questão da água, o rompimento do controle comunitário da água, e a intervenção na avaliação dos docentes. Aí o correísmo começa a falar da esquerda infantil, dos sindicalistas, e monta o velho discurso de direita sobre nós, sobre os sindicatos, com um adicional: Correa era o personagem de maior credibilidade do país nesses anos. Todos os sábados, na televisão, nos atacava; o MPD, o movimento indígena, os ecologistas. Todos postos no mesmo saco da direita, “os que se opõe ao progresso”, “os atrasa-povos”, e começa a perseguição.

Nesta resistência há mobilizações muito importantes, pela água, fundamentalmente, mas também sobre a mineração, a educação. E chega o momento em que os preços do petróleo caem, e aí há uma mudança. Primeiro, um Correa mais autoritário. A base social do correísmo migra dos setores urbanos e da serra, mais politizados e democráticos, para ser uma base, em 2013, dos setores mais pauperizados da costa, que historicamente votavam pelo populismo, pela direita, por um líder forte e pelas dádivas. Manabí por exemplo é uma província que inclusive agora vota por Correa. Então o balanço geral é que no final Correa, que havia rompido com o Fundo Monetário Internacional, em 2014 volta ao FMI, e todas as medidas que hoje Moreno e Lasso estão colocando são anunciadas por Correa em 2016. Concessões, a venda de hidrelétricas, do Banco do Pacífico, a revisão do preço dos combustíveis… é Correa quem anuncia. E isso com a questão da reeleição indefinida. Em 2015 há uma confluência da oposição nas ruas; a CONAIE, a Frente Popular, e também a direita, que se somam contra a reeleição. Essa luta Correa perde. Não pode mais ser reeleito; abre mão da reforma constitucional. E por isso vem Moreno, que era a “cara boa” do correísmo, por ser cadeirante, etc. Um homem amável, etc. Mas não era da confiança de Correa – o homem de Correa era Glas, que foi vice de Moreno.

Nesse contexto, nas eleições de 2017, nós levantamos no primeiro turno uma aliança do centro até a esquerda com Paco Moncayo, do Izquierda Democrática.

Revista Opera: Que também era um militar, não?

Geovanni Atarihuana: Sim, foi o herói máximo da Guerra do Cenepa, e prefeito de Quito. Foi alguém que se negou quando convocaram os militares a reprimir o povo. Mas na campanha os consultores o convenceram de que não devia se confrontar com Correa, que o povo estava cansado da confrontação. Lasso confrontou, e apesar de ser um banqueiro capitalizou, no primeiro turno, inclusive por parte da esquerda, o cansaço de muita gente, que dizia “vou votar nesse porque é o segundo, e Correa há que sair”. Na base do voto útil, de que o correísmo queria ficar com o Estado, os corruptos, autoritarismo, etc. Então passa ao segundo turno Lasso e Moreno. Nesse contexto entendemos que era um plebiscito, discutimos muito se chamávamos o voto contra Moreno – era uma opção, simplesmente dizer isso, “voto contra Moreno” – ou dizer que isso significa votar por Lasso. Boa parte da base social da esquerda já tinha votado no primeiro turno em Lasso. Apesar de ser um banqueiro. Porque do outro lado estava o ditador, o prepotente, o que havia perseguido, o corrupto, etc. Então fomos a uma coletiva de imprensa em que dissemos: não compartilhamos com o programa de Lasso, estamos contra esse programa, mas isso é um plebiscito, ou segue o correísmo, que é um projeto antipopular, corrupto, etc, ou se vota em Lasso. E Lasso também assumiu um discurso sintonizado com isso, porque a base social não estava por Lasso, mas contra Correa. O governo Moreno entra deslegitimado, e se produz um contexto no qual muitos diziam que Moreno já tinha a traição preparada. Diziam que não podíamos fazer o jogo da direita, como agora a direita diz que não devemos lutar contra Lasso porque estamos fazendo o jogo do correísmo. E houve momentos muitos graves do correísmo, a repressão que se judicializou, os condenados, os sentenciados, a destruição do sindicato dos professores – ao final foi ilegalizado, tomaram seus locais. Havia quatro centrais autônomas e o correísmo criou outras quatro, paralisaram o movimento. Especialmente os trabalhadores das empresas estratégicas, de petróleo e eletricidade, foram neutralizados. E onde mais êxito tiveram foi na desmobilização dos estudantes, particularmente os universitários. E o mais complexo é que, para uma parte do povo, Correa era a esquerda, o socialismo – o socialismo que não resolveu seus problemas, que os perseguiu, o socialismo que é corrupto, etc., e claro que a corrente da direita aproveitou muito isso. Soma-se a isso que no Equador há muitos venezuelanos, que pedem ajuda nas ruas, estão buscando trabalho. Isso provoca a reação, sendo o Equador um país de emigrantes, que estão nos roubando o trabalho, tudo isso. Há muita solidariedade também, mas eles vêm da fronteira da Colômbia, e o Equador vê pela televisão ou vê os venezuelanos em seu bairro, e pensam “estão fugindo do socialismo”. Esse é um ponto. 

Bom, o correísmo tem um voto duro. Se expressou no primeiro turno de 2021, Andrés Arauz teve 32%, sendo oposição a Moreno, mas isso expressa um limite. No segundo turno Arauz quis esconder Correa, e Lasso utilizou isso, e o povo votou majoritariamente por ele – ganhou com dez pontos de vantagem quase. Agora há uma crise no correísmo.

Quanto a Yaku, é um personagem que vem da esquerda. O conhecemos na luta e na resistência ao correísmo, na luta na defesa da água e contra a mineração, onde foi muito consequente. Esteve preso. O programa que apresentou foi um programa à esquerda, sem dúvida alguma. Disputou as internas com Leonidas Iza, que hoje é presidente da CONAIE. Leonidas é de uma visão mais marxista; não diz publicamente, mas o tema da luta de classes, etc. 

Mas é claro, durante a campanha ou no debate o correísmo pegava as declarações de Yaku de 2017, que dizia que preferia um banqueiro a um ditador, mas no contexto de 2017. Nós, se nos perguntam sobre a Venezuela, dizemos que não queremos ser como a Venezuela, como está a Venezuela. Criticamos o governo de Maduro. Claro, falamos da soberania dos povos, não à invasão, etc. Yaku demarca um pouco mais forte com Maduro. Quando houve o golpe direitista na Bolívia, condenamos o golpe, mas assinalamos os limites do MAS e de Evo Morales. Mas nesta ordem. Yaku, em uma entrevista, pôs primeiro a questão de que o irmão Evo se equivocou, e não condenou o golpe. Então, na propaganda é muito útil – dizer que Yaku apoiou o golpe, etc. Mas não, Yaku não chega a isso. Ele se define, sim, como “uma esquerda moderna, atual, ecologista, feminista”, uma “terceira via”. Agora ele deixou o Pachakuti, no contexto em que o Pachakuti – que tem muitas debilidades ideológicas – chegou a um acordo com Lasso e hoje dirige a Assembleia Nacional.

Nós não defendemos a Assembleia, interagimos com os deputados do Pachakuti, que estão junto aos estudantes, os sindicatos, com todas as lutas os setores mais consequentes do Pachakuti estão, mas não é possível defender a assembleia. Então é uma crise… O correísmo está em reconstrução. É a força mais importante da Assembleia, mas não tem mobilização social, não têm nem nunca tiveram um partido mobilizado. Não têm rua. E isso é um problema agora. Obviamente, manejam na Assembleia um discurso antineoliberal. Mas em todo caso estão se reconstruindo porque mudaram o nome do partido, agora se chama Revolução Cidadã, e puseram à frente dele uma ex-deputada, uma ex-ministra relativamente jovem, Marcela Aguiñaga. Mas que tem um discurso menos de esquerda, e mais progressista-democrático, diz que “aqui o problema não é de esquerda ou direita, é de país”. Mas qual é o tema? Que o correísmo sempre foi Correa. Não é como o PT, que tem uma base sindical. O correísmo aproveitou um líder jovem, carismático, o acúmulo da esquerda e, uma vez no poder, foi criado o correísmo. A diferença do progressismo do correísmo é que eles não lograram se tornar nem movimento social nem partido, quase tudo é o líder. Muito exitoso em comunicação política, em manejo de Estado, etc. Por outro lado na Venezuela há organização. Na Bolívia há organização social, o MAS. O kirchnerismo tem mobilização. O correísmo não, se criou como aparato dentro aparato governamental.