Do Pegasus ao Blue Wolf: como o experimento de “segurança” de Israel na Palestina tornou-se global

Israel tem avançado como exportadora de tecnologia de "segurança" em todas as partes do mundo porque antes a utiliza e testa na Palestina. Por Ramzy Baroud | ramzybaroud.net – Tradução de André Marques para a Revista Opera

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Um militar israelense faz um treinamento com o drone Skylark no deserto de Negev. (Foto: Cpl. Zev Marmorstein / IDF)

A revelação, feita há alguns anos, de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) conduziu um processo de vigilância em massa de milhões de norte-americanos reacendeu a discussão sobre as más condutas dos governos e suas violações dos direitos humanos e leis de privacidade.

Até recentemente, no entanto, Israel foi poupada das devidas críticas, não apenas por seus métodos ilegais de espionagem dos palestinos, mas também por ser o criador de muitas das tecnologias que agora estão sendo severamente criticadas por grupos de direitos humanos ao redor do mundo. 

Mesmo no ápice de diversas controvérsias envolvendo vigilância governamental em 2013, Israel permaneceu nas margens, apesar do fato de que Tel Aviv, mais do qualquer outro governo no mundo, utiliza perfilamento racial, vigilância em massa e numerosas técnicas de espionagem para sustentar sua ocupação militar da Palestina. 

Em Gaza, dois milhões de palestinos estão vivendo sob um bloqueio israelense. Eles estão cercados por muros, cercas elétricas, barreiras subterrâneas, navios da marinha e multidões de franco-atiradores. Dos céus, os tannaana, a gíria árabe que os palestinos usam para drones não tripulados, assistem e gravam a tudo. Por vezes esses drones armados são usados para explodir qualquer coisa tida como suspeita de uma perspectiva de “segurança” israelense. Ademais, todo palestino que deseja sair ou retornar para Gaza – e poucos têm esse privilégio – é sujeitado às mais severas medidas de “segurança”, envolvendo várias inteligências governamentais e verificações militares sem fim. Isso é aplicado tanto para uma criança palestina quanto para uma mulher com uma doença terminal.  

Na Cisjordânia os “experimentos” de segurança israelense tomam muitas outras formas. Enquanto o objetivo israelense é confinar as pessoas em Gaza, sua intenção é controlar o cotidiano dos palestinos na Cisjordânia e na Jerusalém Oriental. Além do Muro do Apartheid de 1,660 quilômetros de comprimento na Cisjordânia, há muitos outros muros, cercas, trincheiras e vários outros tipos de barreiras que visam fragmentar as comunidades palestinas na Cisjordânia. Essas comunidades isoladas só estão conectadas por um elaborado sistema de postos de controle militar israelenses, muitos deles permanentes, além de outros que são erigidos ou desmantelados dependendo dos objetivos de “segurança” do dia.  

Muita da vigilância ocorre diariamente nestes postos de controle israelenses. Enquanto Israel utiliza o conveniente termo de “segurança” para justificar suas práticas contra os palestinos, segurança verdadeiramente tem pouco a ver com o que acontece nesses postos de controle. Muitos palestinos morreram, muitas mães deram à luz ou perderam seus recém-nascidos enquanto esperavam pela liberação de segurança israelense. É um tormento diário, e os palestinos estão sujeitos a isso porque eles são participantes involuntários de um experimento israelense muito lucrativo.

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Felizmente, as notícias das práticas anti-democráticas de Israel estão se tornando cada vez mais conhecidas. No dia 8 de novembro, o Washington Post revelou uma operação de vigilância em massa israelense, que utiliza a tecnologia “Blue Wolf” para criar uma base de dados massiva de todos os palestinos.

Essa medida adicional dá aos soldados a chance de, usando suas próprias câmeras, tirarem fotos de quantos palestinos forem possíveis e “combiná-las a uma base de dados de imagens tão extensa que um ex-soldado descreveu-a como o ‘Facebook para palestinos’ secreto do Exército.”

Nós sabemos muito pouco sobre esse novo “Facebook para palestinos” além do que foi revelado nas notícias. No entanto, já é sabido que soldados israelenses competem para tirar mais fotos de faces palestinas, porque aqueles com o maior número de fotos poderiam potencialmente receber certas recompensas, cuja natureza permanece incerta. 

Enquanto a história da “Blue Wolf” está recebendo alguma atenção na mídia internacional, ela não é novidade alguma aos palestinos. Ser um palestino vivendo sob ocupação é carregar múltiplas permissões e cartões magnéticos, passar por várias autorizações, ter uma foto sua tirada regularmente, ter seus movimentos monitorados, estar pronto para responder qualquer questão sobre seus amigos, sua família, colegas de trabalho e conhecidos. Quando isso não for prático porque, digamos, você vive sob cerco em Gaza, então o trabalho é confiado a drones não tripulados que escaneiam céu, terra e mar.

A razão pela qual a “Blue Wolf” está recebendo alguma tração na mídia é o fato de Israel ter sido recentemente implicada em uma das maiores operações de espionagem do mundo. 

O “Pegasus” é um tipo de malware que espiona iPhones e dispositivos Android para extrair fotos, mensagens, e-mails e gravar chamadas. Dezenas de milhares de pessoas ao redor do mundo, muitos deles ativistas proeminentes, jornalistas, oficiais, empresários e similares, foram vítimas dessa tecnologia. Sem surpresas, o Pegasus é produzido pela firma de tecnologia israelense, o NSO Group, cujos produtos são intimamente envolvidos no monitoramento e na espionagem dos palestinos, como foi confirmado pelos Front Line Defenders baseados em Dublin e como foi reportado no New York Times de 8 de novembro. 

Infelizmente as práticas ilegais e antidemocráticas israelenses tornaram-se alvo de condenação internacional quando as vítimas foram personalidades de alto-nível, como o presidente francês Emmanuel Macron e outros. Quando palestinos estavam no outro lado da espionagem israelense, sofrendo vigilância e perfilamento racial, a história não parecia digna de ser reportada. 

O pior é que, por muitos anos, Israel promoveu sua sinistra “tecnologia de segurança” para o resto do mundo como “testada em campo”, significando que elas foram usadas contra palestinos na ocupação. Tal declaração não só causou surpresa, mas a marca “testada e utilizada” permitiu que Israel se tornasse o oitavo maior exportador de armas do mundo. As exportações de segurança israelenses são agora utilizadas em muitas partes do mundo. Elas podem ser encontradas em aeroportos norte-americanos e europeus, na fronteira dos EUA com o México, nas mãos de várias inteligências do mundo, nas águas territoriais da União Europeia – principalmente para interceptar refugiados de guerra e aqueles que buscam asilo. 

Cobrir as práticas inumanas e ilegais de Israel contra os palestinos provou ser uma responsabilidade para as próprias pessoas que justificaram as ações de Israel em nome da segurança, incluindo Washington. No dia 3 de novembro, o governo Joe Biden decidiu pôr em uma lista-negra o NSO Group israelense por agir “contrariamente à segurança nacional ou interesses da política externa dos Estados Unidos.” Essa é uma medida apropriada, é claro, mas que não endereça as violações israelenses que estão acontecendo contra o povo palestino. 

A verdade é que, enquanto Israel manter sua ocupação militar da Palestina, e enquanto a ocupação militar israelense continuar a ver os palestinos como sujeitos de um “experimento de segurança” em massa, o Oriente Médio – na verdade, o mundo todo – continuará a pagar o preço.