Economia de guerra sem guerra: a Colômbia de Uribe

Na Colômbia, o Uribismo desenvolveu e consolidou um modelo guerrista de governo baseado em austeridade para o povo e farra para as armas. Por Nicolás Oliva | CELAG

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(Foto: Policía Nacional de los colombianos)

A Colômbia vive sob uma economia de guerra sem guerra. O sistema midiático a alimenta dia a dia. Os meios de comunicação não param de falar de combate ao inimigo interno para atemorizar e legitimar as grandes quantidades de pesos destinados à “guerra”. O Uribismo consolidou com êxito esse modelo por quase duas décadas, e conseguiu desviar a atenção das graves carências sociais que vive o povo colombiano. Não obstante, as grandes manifestações de 2019, 2020 e 2021 acabam de colocar em cheque o modelo de suposta estabilidade.

A sociedade demanda mudanças, mas a estrutura tecnocrática do Estado e a academia seguem ancoradas ao equilíbrio fiscal, à redução da dívida e ao Estado mínimo. A carapaça intelectual da burguesia colombiana e bogotana é incapaz de ajustar-se ao novo momento. A estabilidade macroeconômica (baixa inflação, déficit zero e crescimento do produto) segue sendo a única forma de entender a política econômica. Enquanto intelectuais, tecnocratas e meios de comunicação alimentam o medo a uma outra economia, uma que se construa de baixo para cima, a classe trabalhadora sente que o modelo atual chegou a um limite. Apesar do descontentamento da maioria da população, as soluções propostas pelos think tanks colombianos estão longe de responder às terríveis condições de vida, e põem a esquerda a um passo da Casa de Nariño, sede do governo colombiano.

É que a Colômbia e seus economistas vivem um paradoxo permanente: há mais de 30 anos buscam o equilíbrio fiscal, mas a dívida pública não para de crescer. Apesar das leis de responsabilidade fiscal e do equilíbrio orçamentário, paradoxalmente, a dívida pública entre 1994 e 2019 se multiplicou por três, já igualando a média da América Latina (painel A, Figura 1).

Dívida pública e gasto militar na Colômbia e América Latina. Quadro A: dívida pública. Quadro B: gasto militar. (Gráfico: CELAG)

Este aumento da dívida não corresponde ao enxugamento do Estado que se apregoa. Por quê? As prioridades de gastos estão invertidas. A austeridade é um senso comum para o gasto social, mas nunca foi para os planos armamentistas. O gasto militar alcançou a impressionante cifra de 11% do PIB em 2018, três vezes mais que a média da América Latina (Painel B, Figura 1). Entre 1990 e 2006 passou de 9% a 13% do PIB, coincidindo com o maior crescimento da dívida pública, que passou de 14% a 30% do PIB no mesmo período. Se o gasto militar colombiano tivesse sido igual à média latino-americana, em somente doze anos o país teria economizado mais que um Produto Interno Bruto. O orçamento em defesa e polícia passou de 24 a 35 trilhões de pesos entre 2012 e 2020 (um aumento de 50%). Se esses gastos tivessem sido congelados em 2012, em 2021 o país teria os recursos necessários para construir uma linha de metrô em Bogotá.

O modelo é garantido sob a ideia de que o gasto em segurança é necessário para reduzir o narcotráfico e os grupos violentos. Os dados mostram que não é bem assim. A economia de guerra do Uribismo não conseguiu conter a violência nem o narcotráfico. Segundo informações da Controladoria da nação, na Colômbia os hectares de cultivo de coca se multiplicaram por quatro (entre 2012 e 2018), os furtos cresceram cinco vezes e as lesões corporais se multiplicaram três vezes entre 2004 e 2018 (Figura 2).

Cultivo de coca, furtos e lesões corporais na Colômbia. (Gráfico: CELAG)

Há duas Colômbias, uma na rua e outra nas manchetes. Há dois modelos fiscais: austeridade para o povo, farra para as armas.