A queda do muro de Berlim e a pilhagem neoliberal do lado oriental

A queda do muro de Berlim, propagada sempre como um processo de "democratização", significou a completa pilhagem das riquezas orientais. Por Santiago Mayor | Notas Periodismo Popular – Tradução de Ana Flávia da Cruz para a Revista Opera

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(Foto: Raphaël Thiémard)

Após a Segunda Guerra Mundial, as potências aliadas (EUA, Reino Unido, França e União Soviética) dividiram a derrotada Alemanha em dois países: um ocidental com economia de mercado; e outro oriental e socialista. Por sua vez, Berlim, a capital que se encontrava dentro do Estado comunista, também foi partida em duas, com o mesmo critério, e em 1961 foi construído o famoso muro que materializou essa separação.

Em 1989, o muro foi derrubado pelo povo oriental que exigia uma democratização do país. No entanto, a “revolução pacífica” realizada pela população da República Democrática Alemã (RDA) foi arrebatada por políticos e burgueses ocidentais que não pensaram duas vezes antes de arrasar o país daqueles que chamavam de seus compatriotas.

Segundo uma pesquisa da revista Der Spiegel – a mais importante da Alemanha – em dezembro de 1989, 71% da população oriental não queria uma unificação com a República Federal (RFA), mas sim a RDA socialista e democrática pela qual vinham lutando havia anos. Apesar disso, a interferência da Alemanha Ocidental foi imediata e brutal. A tal ponto que Egon Bahr, ex ministro social-democrata do lado ocidental, qualificou as eleições legislativas de março de 1990 na RDA (as primeiras pluripartidárias) como as “mais sujas que observei na minha vida”.

Apenas alguns meses depois, como sinalizaram Rachel Knaebel e Pierre Rimbert em um artigo do Le Monde, a República Federal “anexou um Estado soberano, liquidou por completo sua economia e suas instituições e implementou o regime capitalista liberal”. Além da história oficial, não houve qualquer “reunificação”. Em 1990, Wolfgang Schäuble, ministro do Interior da RFA, disse: “Estimados amigos, trata-se do ingresso da RDA na República Federal; não é a unificação de dois Estados iguais”.

Ao invés de votar uma nova Constituição na Alemanha unificada, conforme a Lei Fundamental da RFA, foi imposta uma anexação com base em uma disposição discutível que havia sido utilizada em 1957 para integrar o território do Sarre, no sudoeste da Alemanha, ao lado ocidental. Um primeiro passo para garantir a anexação (e vencer as eleições de março de 1990) foi anunciar a unificação monetária. O marco ocidental valia 4,4 marcos orientais, então a medida foi bem recebida no Leste. Porém, o contrato tinha uma contrapartida.

Em maio de 1990, o “governo do Leste” controlado pelo lado Ocidental firmou um acordo no qual se estabeleceu que “a união econômica se baseia na economia social de mercado enquanto ordem econômica comum das duas partes contratantes”. Especificava a imposição da “propriedade privada, da competição, da liberdade de preços e da livre e fundamental circulação de mão de obra, capitais, bens e serviços”. Além disso, estabelecia que estavam eliminados “os fundamentos até então socialistas” da RDA.

Todavia, o que veio imediatamente depois foi uma alta de preços de 300% e 400%, e as empresas orientais perderam repentinamente toda a competitividade diante da invasão dos produtos ocidentais. Perderam o mercado interno e também o do bloco socialista. Karl Otto Pöhl, presidente do Banco Central da Alemanha Ocidental, declarou que a RDA foi submetida a “um remédio cavalar que nenhuma economia estaria em condições de suportar”.

Em agosto de 1990, a produção industrial da RDA caiu 51,9%, e ao fim de 1991, menos 70% em relação ao ano anterior. O desemprego subiu de apenas 7.500 pessoas em janeiro de 1990 para 1,4 milhões em janeiro de 1992. Nenhum outro país ex-comunista obteve números tão ruins.

A face visível dessa destruição foi a Treuhand, abreviação de Treuhandanstalt. Essa instituição, criada em 1° de março de 1990, foi a ferramenta de conversão da ex-RDA ao capitalismo. A entidade se converteu em proprietária, de um dia para o outro, de 8.000 empresas, 32 mil estabelecimentos – de siderúrgicas a armazéns e cinemas de rua – que representavam 57% do mercado imobiliário da RDA. Passou a ser o maior conglomerado do mundo, e manejava os destinos de 4,1 milhões de trabalhadores (45% da população economicamente ativa do país). No momento de sua dissolução em dezembro de 1994, ela havia privatizado tudo e destruído 2,5 milhões de postos de trabalho.

Capitais privados da RFA compraram 85% dos bens que a Treuhand possuía, enquanto que os alemães orientais adquiriram apenas 6%. Foi “a maior destruição de capital produtivo em tempos de paz”, segundo a última ministra da Economia da RDA, Christa Luft.

A Treuhand não havia sido criada para privatizar a economia: os opositores do regime comunista a constituíram com o objetivo de proteger “os direitos dos cidadãos alemães orientais sobre o patrimônio do povo da RDA”. A intervenção ocidental mudou os planos.

Seu principal objetivo foi eliminar toda competência que pudesse atentar contra os interesses dos grupos empresariais da Alemanha Ocidental. E embora a economia oriental estivesse estagnada, possuía algumas empresas emblemáticas. Uma delas era a fábrica de câmeras fotográficas Pentacon, em Dresden, que empregava 5.700 pessoas e exportava seu modelo Praktica para vários países ocidentais. Ela foi encerrada pela Treuhand em 2 de outubro de 1990, um dia antes da anexação. Também foi liquidada a rentável companhia aérea Interflug para ceder todo o mercado à Lufthansa. Em 1990, a Treuhand reuniu em uma só entidade todas as minas de potássio e as cedeu ao competidor do lado ocidental, a empresa K+S, que decidiu encerrar imediatamente suas atividades.

Os desfalques da Treuhand foram tantos e tão intensos que foi criado um termo específico para nomeá-los: Vereinigungskriminalität (“delinquência da unificação”). Em 1998, uma comissão parlamentar estimou o roubo entre 3 e 6 bilhões de marcos. Em 1996, o ex-prefeito de Hamburgo, Henning Voscherau (social-democrata), sustentou que: “Na realidade, os cinco anos de ‘construção do Oriente’ representaram o maior programa de enriquecimento da história para os alemães do Ocidente”