Guerra na Ucrânia: rupturas na Rússia, mudança global?

Guerra na Ucrânia parece apontar a uma transição, da globalização ao isolacionismo nacional, e uma passagem da fantasiosa cooperação internacional à divisão do mundo em blocos. Por Pedro Marin | Revista Opera

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Soldados ucranianos realizam treinamento junto a militares norte-americanos para alcançar a interoperabilidade para a entrada na OTAN no Centro de Treinamento de Combates de Yaroviv, em 30 de janeiro de 2018. (Foto: Sgt. Alexander Rector / U.S. Army)

Ao final de meu último artigo sobre a situação na Ucrânia, relembrei que a guerra continua sendo a política por outros meios. Falta dizer, em concordância com a premissa, que a guerra não se desenvolve só nas frentes de batalha, mas também na retaguarda; e que os recursos que ela envolve nunca são resumíveis à pólvora. À medida que a guerra se desenrola na Ucrânia, com o presidente Volodymyr Zelensky, em Kiev, tentando fazer frente ao avanço russo, a situação interna na Rússia se torna também uma trincheira.

De Barcelona, Stephen Burgen fazia uma pergunta no The Guardian: “Podem as sanções deixar os super iates dos oligarcas ancorados na Espanha?”. O articulista lembra que os barcos dos homens mais ricos da Rússia, ancorados na Espanha, poderiam ficar sem acesso combustível ou tripulação a depender do avanço das sanções internacionais contra a Rússia. Evidentemente, as embarcações são apenas um símbolo do que poderia acontecer com o fluxo de capitais no sistema financeiro global: enormes máquinas feitas para a navegação pelo mundo impossibilitadas de navegar. Dos problemas que a burguesia russa poderia enfrentar, o menor deles, naturalmente.

Em um pronunciamento para grandes empresários privados, dirigentes de empresas estatais e oligarcas na última quarta-feira (24), o presidente russo Vladimir Putin reforçou, sobre as “operações militares especiais” contra a Ucrânia anunciadas um dia antes, que “a coisa mais importante é deixar claro: o que está acontecendo é uma medida necessária. Eles simplesmente não deixaram outra opção. Os riscos na esfera da segurança foram de tal ordem que era impossível respondê-los por outros meios. Todas as tentativas [de fazê-lo] foram nulas e vazias”. O presidente, que pediu que os empresários fossem compreensivos e que trabalhassem em conjunto com o governo para procurar ferramentas que mantenham a produção, os empregos e a economia funcionando, naturalmente apresentou um tom muito mais defensivo e brando do que aquele adotado nos pronunciamentos televisivos – como quem, em meio a uma reunião de descontentes, tivesse de justificar suas ações.

Àquela altura, as primeiras sanções internacionais já eram discutidas e anunciadas pelo Ocidente. O mercado de ações russo já havia caído para os níveis mais baixos desde 2016 e o rublo atingia uma baixa histórica, com um euro valendo 101 rublos e o dólar sendo trocado a 89.9 rublos (uma semana antes, valiam respectivamente 86,57 e 77,39 rublos).

Essas primeiras sanções, no entanto, tinham um impacto limitado. Mas já era previsível que, muito em breve, a situação se tornaria mais complicada. “Os negócios russos terão de trabalhar em condições difíceis, tomando em conta as restrições de vários tipos”, disse durante a reunião o presidente da União de Industriais e Empresários da Rússia, Alexander Shokhin. “As novas sanções serão muito mais duras que as restrições anteriores. Elas afetarão muitos setores: o setor financeiro, indústrias extrativas, o abastecimento de equipamentos tecnológicos, certos tipos de commodities e componentes, e cadeias de suprimento, transporte e logísticas serão interrompidas […] As companhias russas terão que trabalhar de forma mais vigorosa e eficiente para garantir a operação regular de seus investimentos, prevenindo o corte de empregos, escassez, demandas excessivas e aumentos de preços”.

O problema com o qual europeus e norte-americanos se confrontavam na discussão sobre a aplicação de sanções contra a Rússia é que, se adotassem sanções muito localizadas e brandas, o efeito sobre os russos seria limitado; no entanto, em se adotando sanções muito amplas e duras, elas não feririam só a economia russa, mas implicariam em caos no sistema financeiro internacional e se voltariam também contra suas próprias economias. O paradoxo: infligir altos custos aos russos implicaria em altos custos para eles mesmos.

Fundamental salientar que esse sofrimento econômico “mutuamente assegurado” não se daria só em termos de exportações russas para a Europa – tal qual o gás – ou investimentos russos fora do país. Perigaria uma desorganização grande do sistema financeiro internacional. Por essas razões, muitos analistas (este incluso) mantiveram-se mais ou menos céticos sobre a possibilidade do Ocidente escalar radicalmente suas sanções econômicas, especificamente no que tange a um bloqueio da Rússia do sistema SWIFT (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais). O ceticismo acabou.

Na noite de ontem (26) Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canadá anunciaram um novo pacotes de sanções econômicas contra a Rússia, que incluem o congelamento de 630 bilhões de dólares em reservas internacionais do Banco Central da Rússia, o corte de alguns bancos russos do sistema SWIFT e medidas para corroer o valor do rublo. O anúncio prevê também o fim dos “passaportes de ouro” para russos (passaportes assegurados nos países europeus para os super ricos), bem como a identificação de indivíduos e organizações em diversos países que “apoiem a guerra contra a Ucrânia”.

O sistema SWIFT, fundado em 1973, é um sistema de mensagens que dá a mais de 11 mil instituições financeiras de todo o mundo a possibilidade de realizarem transferências, ordens de compra e vendas de ativos com outras instituições financeiras internacionais. A presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, ao anunciar as medidas, declarou que isso “impedirá [os bancos afetados] de conduzirem a maior parte de suas transações financeiras mundialmente e, de forma eficiente, bloquear as exportações e importações russas”. Em resumo, os países Ocidentais decidiram aguentar o ricocheteio de um disparo econômico contra a Rússia.

A medida tende a aumentar a pressão da burguesia russa sobre Putin, ao mesmo tempo em que os possíveis e prováveis problemas econômicos também atingirão a popularidade do líder russo. É dizer: muitos outros discursos em salões de descontentes, muitos outros descontentes incrédulos frente aos discursos. Abre-se a possibilidade de um enfraquecimento na retaguarda russa, que se soma, neste momento, aos problemas estratégicos na linha de frente: o avanço de tropas russas sobre Kiev aparentemente enfrenta resistência de milícias civis, e mesmo que alcance a derrubada do mandatário ucraniano Volodymyr Zelensky – o que é o final provável desta trama – e a subsequente ascensão de um governo provisório mais simpático à Rússia, pode dar lugar a uma situação militar de contínua instabilidade, com combates contra forças irregulares ucranianas mobilizadas a partir da Polônia. Parte do que pode ser o que chamei de uma vitória a pequeno prazo que se converte em derrota a médio prazo, esse cenário hipotético obrigaria Putin a manter, em algum nível, uma presença militar no oeste ucraniano – com todos os custos que isso implica, políticos e econômicos. Os governos da Alemanha, França e Holanda já anunciaram, afinal, que enviarão mais armas ao país.

Relativamente bloqueada dos meios financeiros convencionais, a Rússia tenderá ao uso de ferramentas alternativas (como as criptomoedas) para que o isolamento financeiro e o bloqueio a importações e exportações não sejam tão efetivos como quer Ursula von der Leyen; mais ou menos isolados do Ocidente, os russos terão de expandir sua relação com a China e com outros países não alinhados ao pacto ocidental.

Quanto a este último ponto, há de se dar a dimensão devida. O que testemunhamos, com a guerra na Ucrânia e as ações europeias e norte-americanas, é o fortalecimento de uma tendência que já vinha se afirmando a partir da pandemia da Covid-19: uma transição da globalização ao isolacionismo nacional e uma passagem da fantasiosa cooperação internacional (pois submetida aos EUA) à divisão do mundo em blocos (provavelmente não muitos, mas dois; o retorno à lógica amigo-inimigo nas relações entre as nações).

Produto da guerra atual e gérmen de novas guerras, esta arquitetura inevitavelmente se abaterá sobre a América Latina e sobre nosso País. Neste cenário, que será de qualquer governo brasileiro (ou latino-americano) que busque, por exemplo, revitalizar a participação em um bloco como o BRICS? Quão ativa e altiva poderá ser a política externa de um Brasil que, como no lamento mexicano, se encontra tão longe de Deus e tão próximo do império? Sob este céu, quão profundamente as garras da águia americana assentirão beliscar as veias abertas da América Latina? Em um livro em que busquei denunciar a volta dos militares brasileiros (o Partido Fardado) ao Brasil, lembrei que as mudanças na geopolítica mundial hoje podem fazer ressoar aas palavras de Theodore Roosevelt em 1904, quando da proclamação do Corolário à Doutrina Monroe: “Falhas crônicas, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços da sociedade civilizada podem, na América, ou em outro lugar, requerer a intervenção de alguma nação civilizada, e no Hemisfério Ocidental a aderência dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que de forma relutante, em casos flagrantes de tais falhas ou impotências, a exercer um papel de poder policial internacional.” Anotei logo após: “Na impossibilidade de, no condomínio brasileiro, levar a cabo intervenção de uma nação civilizada, resta (ou sobra?) a intervenção de nossos próprios ‘homens civilizados’: os inquilinos de farda.” Sem dúvidas um fato curioso que o vice-presidente Hamilton Mourão tenha dado declarações tão duras sobre a situação na Ucrânia e contra a Rússia na última quinta-feira: “Se o mundo ocidental simplesmente deixar que a Ucrânia caia por terra, o próximo será a Moldávia, depois os Estados bálticos e assim sucessivamente, igual à Alemanha hitlerista no fim dos anos 30”, disse. De fato, como lembrou Mourão, “a História ora se repete como farsa, ora como tragédia.” E, tragicamente, o general acena com sua disposição em repensar o mundo a partir da farsa das “fronteiras ideológicas” no século 21, candidatando-se, talvez, a defensor regional do “mundo cristão Ocidental”, tal como propôs seu companheiro de farda e patente, o general Golbery.