O dia da esquerda

Há 35 anos Fidel e Maradona começaram uma amizade. Ambos saíram de baixo e alcançaram o topo do mundo. Hoje compartilham da eternidade. Por Hernán Aisenberg | – Tradução de Gideão Gabriel para a Revista Opera

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Diego Maradona exibe tatuagem com o rosto de Fidel Castro ao ex-líder cubano. (Foto: Reprodução)

Existem acasos na história que são complicados de explicar, ainda mais para quem, como a gente, não é religioso. Por exemplo, Gardel e Rodrigo [Alejandro] morreram na data de 24 de junho, ambos em acidente, retornando de uma apresentação. Os dois eram referências de gêneros musicais de origem popular, chegaram a triunfar ultrapassando as barreiras de classe e transformaram-se em ícones ao perder a vida em pleno auge.

Em 26 de julho, no mesmo dia que San Martín e Bolívar encontravam-se em Guayaquil para coroar um processo revolucionário em prol de toda América Latina no século XIX, em Cuba surgiu um movimento revolucionário que se tornaria uma estrela guia para as revoluções continentais do século XX. Nessa mesma data, na Argentina, saia da vida para entrar para história uma das mulheres que mais transformou a realidade do povo argentino. Casualidade ou causalidade? Astros, acaso ou destino? O que haverá por trás de semelhantes coincidências de datas?

Esta mesma pergunta sem respostas leva-nos diretamente ao dia 25 de novembro, dia em que o mundo veria partir o seu melhor cérebro e ao seu melhor pé (ou perna). Ambos não tinham somente a coincidência em pensar e chutar com a esquerda, senão que sentiam também o coração à esquerda. Por distintos motivos e distintas circunstâncias, os dois desafiaram e driblaram a morte várias vezes e terminaram encontrando a eternidade no mesmo dia, como se tivessem planejado isso.

Era uma relação de filiação adotiva em que cada um cumpria sua parte. Diego difundia as ideias da ilha, com suas tatuagens, com seus protestos, com seus embates políticos. Do outro lado, Fidel e Cuba cuidaram do Pelusa em seus piores momentos, reabilitaram-no, deram-lhe abrigo e cuidados, em seu momento como viciado, quando ninguém lhe abriu as portas.

A vida tinha cruzado a ambos por acaso e a morte uniu-os novamente. São possíveis tantas casualidades? Diego conheceu Che Guevara através do profe Fernando Signorini, justamente no momento em que começava a entender a desigualdade. O pibe de Fiorito, que via sua mãe deixar de jantar para alimentar os filhos, já jogava e morava na Europa em grandes mansões, carros de luxo e uma vida de exageros.

Quando, porém, el Barrilete Cósmico começava a perder noção de suas bases, chegou Napoli e o converteu de vez no representante dos pobres. Enfrentou o norte italiano, rico, racista e xenofóbico que o odiava por defender com unhas e dentes a identidade napolitana. Começou sua guerra contra a FIFA pelos direitos dos jogadores e organizou um sindicato internacional de futebolistas, mas foi logo depois de sua consagração mundial no México que recebeu o convite especial para conhecer o sujeito que seria sua inspiração. A partir desse momento adotaram-se de forma recíproca como pai e filho. 

O primeiro encontro entre os dois foi precisamente em 1986. O comandante Castro ia fazer 30 anos à frente da revolução cubana, porém não tinha perdido sua essência de pessoa simples. Ficou impressionado quando em um jantar reservado Maradona contou-lhe que o segredo para bater um pênalti era fitar firmemente o goleiro para desmoralizá-lo, mostrando-se confiante. “Então Diego, sério que você não olha a bola no momento da cobrança de pênalti?”, respondeu surpreso. 

Diego, com apenas 26 anos de idade, tinha tocado o céu com as mãos e lutado com intrepidez contra seus próprios fantasmas para manter os pés no chão. Nesse momento, talvez a única pessoa no mundo que o pudesse entender era precisamente o Comandante, que apesar de estar no auge desde antes de Diego ter nascido, também tinha podido realizar seus sonhos e também teve de lidar muito jovem com a conquista da glória.

É que os feitos de Fidel da mesma forma começaram no terrão, na dificuldade, no exílio. Contudo foi em outro 25 de novembro que ele embarcou literal e metaforicamente na realização de seus ideais, em 25 de novembro de 1956.  Zarpou do México no iate Granma, com mais de 82 tripulantes determinados a acabar com a ditadura de Batista e conduzir o futuro do povo cubano para acabar com fome, o analfabetismo, a dominação e a opressão. Fidel tinha apenas 30 anos e já era o líder dessa embarcação, o capitão de seu time, o Comandante. 

No entanto, o Fidel que recebeu Maradona em sua casa em 1986 já tinha o dobro da idade daquele que havia atravessado o mar do Caribe com seus sonhos, que tinha passado três anos em conflitos na serra, que tinha vencido militar e culturalmente e tinha feito uma revolução que seguia vigente quando todas as outras começavam a cair. O desafio do Castro sexagenário era manter viva a ideia de um futuro melhor. Ninguém melhor que Maradona para dar-lhe aquela esperança.    

A partir disso, acompanharam-se mutuamente, apoiaram-se até nos momentos mais críticos. Diego Armando fez  tatuagens de Fidel e Che, enfrentou a Bush, deu todo seu apoio aos sócios e amigos de Cuba como Chávez, Evo, Lula e inclusive o Kirchnerismo. Fidel lutou com el Pibe de Oro contra seus vícios, contra as drogas, contra a fama, contra o monstro do menemismo e do capitalismo com que convivia na camisa dez. Ajudou-o a ser um pai melhor para suas filhas, a reencontrar-se com seus outros filhos, a não trocar nunca de lado e manter-se firme a suas origens. 

Depois de 30 anos de amizade e com 90 anos de idade, Fidel deu adeus ao mundo dos vivos, deixando uma ferida difícil de sarar em Diego e nos povos da América Latina. Depois chegaram Trump, Macri e Bolsonaro; o golpe contra Evo, a destituição de Dilma e a prisão para Lula; o coronavírus, o confinamento e uma crise de ritmo galopante a nível mundial. Tudo é um pouco mais triste desde aquele 25 de novembro de 2016. Contudo, no ano passado, a ferida abriu-se de tal forma que nunca mais ia cicatrizar. 

O último drible, a última jogada tinha chegado no mesmo dia do último discurso, do último adeus. A viagem tinha terminado para ambos no mesmo dia que Fidel iniciou sua viagem com Che no México. Talvez aquela amizade tão popular, tão nossa, tão necessária, esteja seguindo em algum lugar. Talvez tenham se juntado ao encontro Che, Evita e Chávez. 

Tomara que essa força, esses sonhos e esse desejo de realizá-los permaneçam na memória popular. Enquanto isso, aqui resta somente recordá-los, admirá-los e homenageá-los declarando o dia 25 de novembro como o Dia Internacional da Esquerda.