Ucrânia: Rússia, EUA e os custos da guerra

Em entrevista à Opera, o economista Gabriel Galípolo trata dos efeitos financeiros, a nível global, das sanções anunciadas contra a Rússia no contexto da guerra da Ucrânia. Por Pedro Marin | Revista Opera

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Na noite do último sábado (26), Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canadá anunciaram um novo pacote de sanções econômicas contra a Rússia, em resposta à invasão à Ucrânia. O anúncio incluiu o congelamento de 630 bilhões de dólares em reservas internacionais do gigante euroasiático, o corte de alguns bancos russos do sistema SWIFT e medidas para corroer o valor do rublo, dentre outras. Ao contrário das primeiras sanções, as anunciadas neste novo pacote tinham o potencial de atingir duramente a economia russa: na segunda-feira (28), os efeitos foram sentidos, com uma queda de 30% no valor do rublo em relação a sexta-feira anterior (25).

As medidas colocam na mesa três fatores novos na crise: primeiro, a possibilidade de um enfraquecimento na retaguarda russa, isto é, a possibilidade de crises internas em um momento em que ela combate alhures; segundo, a possibilidade de um grande rearranjo dos mercados financeiros internacionais; terceiro, a tendência, já vista durante a pandemia, a um fortalecimento do isolacionismo e a divisão do mundo em blocos.

Para tratar dos efeitos financeiros e econômicos das sanções, na Rússia, nos Estados Unidos, no Brasil e a nível do sistema financeiro global, a Revista Opera conversou com o economista Gabriel Galípolo, mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e co-autor, ao lado de Luiz Gonzaga Belluzo, de “A Escassez na Abundância Capitalista” (Contracorrente, 2019). Gabriel foi também chefe de assessoria econômica da Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo em 2007, diretor da Unidade de Estruturação de Projetos da Secretaria de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, presidente do Banco Fator de 2017 a 2021 e é sócio-diretor da Galípolo Consultoria. A entrevista segue na íntegra:

Revista Opera Antes de tudo gostaria que explicasse o que é o sistema SWIFT e, acima de tudo, como ele funciona na prática. Uma boa parte das pessoas já ouviu que trata-se de um sistema de transações de mensagens entre os bancos. Qual seria o impacto previsto da retirada de alguns bancos russos – aparentemente os maiores – desse sistema?

Gabriel Galípolo – Para as pessoas o mais fácil de compreender é esse exemplo que você acabou de comentar. O sistema financeiro é esse sistema que se comunica por troca de dinheiro; as mensagens trocadas são dinheiro. A tentativa de excluir a Rússia ou sufocá-la, afastando ela do sistema global foi primeiro penalizando a “língua” que se fala nesse sistema, ou seja: primeiro foi penalizada a possibilidade de se negociar em rublos, que é a moeda russa. Isso já sugere uma primeira sutileza para se analisar, que é que não foi uma penalização, por exemplo, que poderia ocorrer, de dizer “você não vai mais poder comercializar petróleo russo”, um veto à compra ou à venda de petróleo ou gás russo. Se tomou um cuidado, sabendo da interdependência que existe do Ocidente e especialmente da Europa no mercado de gás, de não proibir a comercialização do produto, e sim a comercialização da moeda – o que envolveria fazer uma triangulação com outro tipo de moeda, dificultando e encarecendo o processo para a Rússia.

Ato contínuo, além de proibir a “língua”, que é a moeda, se excluiu do sistema, que é o SWIFT. Uma comparação simples seria um aplicativo desses que usamos para troca de mensagens, e fosse impedido que esses bancos usassem esse aplicativo para se comunicar com os demais. Do ponto de vista tecnológico não há um grande segredo; dado que o sistema financeiro é um grande sistema de lançamento de créditos e débitos, essa é a forma como você envia recursos de um país para outro, seja para pagar e receber por bens, seja por serviços. Se você der uma consultoria ou se vender soja, vai ser via um SWIFT que o recebimento ou pagamento será feito. A dificuldade não está na questão tecnológica – e por isso gosto de usar o exemplo do aplicativo de mensagens, alguém pode inventar um outro aplicativo de conversa, não é um grande segredo tecnológico –, mas todo mundo quer estar naquele em que está todo mundo. Porque a intenção dele é justamente integrar, para integrar todo mundo tem de estar ali. Então a possibilidade de marginalização envolve essa ideia de tirar o ator do sistema onde ocorre a maior parte dessas trocas de valores. Na tentativa de explicar o sistema de compensações que é o SWIFT, de remessas de recursos, acho que o melhor exemplo é esse.

E aí temos uma dificuldade que não é só para os bancos russos, a grande questão que talvez esteja sendo mais difícil nós encontrarmos na cobertura de imprensa tradicional: é óbvio que os bancos russos sofrem muito [com as sanções], mas se pegarmos o dia seguinte à invasão à Ucrânia, as maiores quedas que nós observamos nas bolsas europeias estavam nos bancos alemães e franceses. Porque para além da relação comercial existente entre os países – seja de energia ou de commodities agrícolas, por exemplo – há ativos transnacionais, ou seja, os canais de mercado financeiro estavam listando grandes bancos alemães tendo quedas de 10% ou bancos tendo queda de 12%, e listando qual era o tamanho da exposição, em bilhões de dólares, que cada um desses bancos tinha na Rússia. Então a ideia de cortar a possibilidade de usar o SWIFT não afeta só bancos russos, porque muitas vezes esses bancos russos são contrapartes de bancos que estão na Europa ou nos Estados Unidos e em vários outros países.

Talvez, dialeticamente, o grande êxito ou trunfo que o processo de globalização apresenta,  que foi incorporar no mercado global aquelas economias que estavam à margem, à época economistas comunistas (URSS e China), mas nesta incorporação se gerou uma tal interdependência entre as economias que agora, na forma em que eu enxergo, as sanções sofrem um “trade off”, ou seja, quanto mais você quiser preservar o Ocidente dos efeitos das sanções, menos eficientes elas serão em gerar a coerção que se pretende gerar. E, inversamente, quanto mais elas forem efetivas na coerção, mais elas arrastam o Ocidente junto nesses temas. Então se antigamente, na Guerra Fria, havia um problema de escaladas de animosidades militares que poderiam arrastar o mundo, esse mesmo problema hoje se reflete do ponto de vista econômico: se as animosidades econômicas escalam, elas têm um poder hoje de arrastar o mundo. Por isso está sendo tão cuidadosa e se tem tido tanto esforço para que se possa fazer um tipo de intervenção “cirúrgica”, como se está dizendo. Mas como me parece estar sendo demonstrado, isso é muito complexo, porque estamos falando de um sistema que, por mais redundante que possa parecer, funciona da seguinte forma: quando se impacta esse sistema se tem impactos sistêmicos.

Revista Opera – Você falou um pouco dessa “destruição mutuamente assegurada” no sistema financeiro. E em relação à Rússia? Tem se falado, primeiro, que a Rússia tem uma dependência menor no sistema SWIFT a nível interno – transações de cartão de crédito, etc. – mas para a questão de exportações e importações me parece que ela está sendo excluída do chamado mundo Ocidental. E nesse sentido alguns falam na questão das criptomoedas. Na sua avaliação como a Rússia pode e deve tentar lidar com essa questão da exclusão?

Gabriel Galípolo – Primeiro em relação às criptomoedas. Está se consolidando uma ideia de que o nome mais adequado seriam criptoativos, não criptomoedas, porque faltam a eles – aos criptoativos – as características próprias de uma moeda. Que envolvem desde a questão de haver um Estado soberano chancelando esse ativo até o que nós chamamos de um prêmio pela renúncia à liquidez – que quando você pega um dinheiro emprestado haja a necessidade de pagar juros –, ou até uma preferência à liquidez, uma preferência a esse tipo de ativo no momento de crise: quando nós vemos as crises, o que acontece é que a preferência pela liquidez sobe, ou seja, as pessoas correm para uma moeda mais segura no mercado internacional ou, dentro do país, para a própria moeda. Aquilo que se prometia muito em relação aos criptoativos não está ocorrendo: que seriam ativos descorrelacionados e que em momentos de crise eles não sofreriam tanto. O que nós assistimos nesse período recente, inclusive de ameaça, prévia ao início da guerra, da invasão russa à Ucrânia, foram os criptoativos perdendo valor e o ouro, como sempre, ganhando valor.

Então imagino que os criptoativos podem se apresentar como uma alternativa para as pessoas físicas que, na Rússia, estão com medo de uma corrida bancária, e pensam em ter algum tipo de ativo que tenha um valor no mercado internacional para que eles possam receber em outra moeda. Agora, para o país em si, acho mais difícil: é mais complexo que ele consiga negociar no mercado internacional por meio desses criptoativos. Nesse caso acho que a solução passará mais por relações bilaterais. A Rússia já vinha reduzindo significativamente, desde 2014, com o incidente da Crimeia, a participação que ela tinha, tanto na sua pauta de exportação e comércio internacional, quanto nas suas reservas internacionais, a dependência em dólares. Ou seja: já era um processo de preparação, sabendo que poderia acontecer alguma coisa nesse sentido. Se pegarmos por exemplo 2014, quase que 40% das relações comerciais da Rússia eram transacionadas em dólares. Hoje isso está entre 15% e 20%, que é o mesmo patamar que está em yuan ou renminbi, a moeda chinesa. Então houve uma migração para que, cada vez mais, houvesse uma correlação de transações em moeda chinesa, em detrimento do dólar. Ainda que esse conflito se encerre de maneira rápida, acho que o produto final dele é empurrar a Rússia para mais perto da China, e que essa carta da hegemonia do dólar – que é a carta que está sendo jogada agora – acabe gerando como efeito uma indução à Rússia procurar algum tipo de proteção, diversificando e gravitando cada vez mais próximo da China. Porque a China hoje (28) reafirmou que está contra as sanções, que ela rejeita as sanções que foram feitas; dias antes do início da guerra houve um documento emitido conjuntamente entre a China e a Rússia dizendo que eles tinham uma aliança de caráter geral; e se pegarmos também o dia em que as primeiras sanções foram anunciadas pelo Biden, um jornalista perguntou para ele como a China se comportaria, se a China aceitaria as sanções também. Ao que Biden responde: “eu não estou preparado para responder essa pergunta”.

E aí voltamos ao tema anterior: se tentar fazer sanções contra a Rússia é muito complicado, dado o nível de integração, contra a China é praticamente impossível. Hoje não se consegue impor sanções econômicas à China, dado o nível de participação que ela tem na economia global e no comércio mundial, que hoje supera a Alemanha e os Estados Unidos, sendo o grande polo de manufatura do mundo. Então não há como impor sanções econômicas à China. E aí há um binômio “interessante” para essa aliança, porque a Rússia se apresenta como um país contra o qual não é possível escalar completamente do ponto de vista bélico – dada a sua relevância bélica – e a China sendo um país contra o qual não é possível escalar as sanções econômicas, dada a relevância econômica que ela tem. Vale ressaltar também que a China hoje tem um orçamento militar, segundo os últimos dados, quatro vezes superior ao da Rússia; então a China também vem crescendo em termos de se tornar uma potência bélica.

Revista Opera – Há um outro elemento dessas sanções anunciadas contra a Rússia, que foi o congelamento de 630 bilhões de dólares em reservas internacionais do Banco Central da Rússia. Hoje (28) estamos vendo um derretimento da moeda russa, do valor do rublo – até o momento estava em 30% essa queda em relação à última sexta-feira (25) – e a Rússia como resposta a isso aumentou sua taxa de juros, de 9,5% para 20%. Como você vê esse elemento do congelamento e do aumento da taxa de juros?

Gabriel Galípolo – Subir a taxa de juros é obviamente uma tentativa de aumentar o prêmio para quem continuar segurando suas posições na moeda doméstica, no rublo – um processo que assistimos muito no Brasil, que para tentar conter a desvalorização cambial aumenta o prêmio para quem detém moeda doméstica. Também foram feitas medidas que induzem a uma ideia de tentar restringir as remessas em divisas internacionais para outros países, ou seja, uma espécie de centralização do câmbio para tentar conter [a desvalorização]. Do ponto de vista interno, a grande preocupação que o Banco Central russo tem hoje é o que a gente chama de corrida bancária, porque todo banco, por mais saudável que seja, não resiste a uma corrida bancária, por todos os bancos funcionarem em déficit permanente de liquidez. Um banco é uma instituição que funciona alavancada sob esse conceito de que ele não tem liquidez para todo seu passivo. Então se todo mundo reclamar conversão do passivo dele em dinheiro, simplesmente não vai existir. O primeiro passo então é tentar conter uma corrida bancária interna.

Revista Opera – A corrida bancária seria o movimento das pessoas tentarem sacar dinheiro.

Gabriel Galípolo – Isso: eu acho que meu banco vai quebrar, logo eu quero me antecipar a isso e sacar todo meu dinheiro. Só que no momento em que você corre para o banco, achando que isso vai acontecer… Se todo mundo fizer isso, o banco quebra mesmo, porque por definição o banco é uma instituição que alavanca em mais ou menos 12,5 vezes o patrimônio dele, segundo as regras do Acordo de Basileia. Ou seja, ele sempre está ilíquido: se todo mundo quiser sacar seus depósitos à vista, não vai haver aquele dinheiro. As pessoas às vezes buscam se antecipar nesse movimento e, na tentativa de se antecipar, promovem o efeito contra o qual estão tentando se defender. Claro, é perigoso se todo mundo fizer isso, mas eu acho que quanto a isso a autoridade monetária russa tem mais ferramentas para se defender – em casos extremos, declarar feriado bancário, fazer ela mesma uma oferta de liquidez e reduzir compulsório, etc.

Do ponto de vista das reservas internacionais é onde há menos margem de manobra. E aí há duas dimensões: por um lado algo que tenho visto muita gente falar, que é que quando se tem reservas em dólares ou em ouro, isso não significa ninguém tendo notas de dólar e barras de ouro em um cofre. Você tem direitos a isso contra esses países. E o que esses países estão dizendo é: eu vou congelar esses direitos a conversão que você teria, e não vou negociar os seus dólares aqui comigo. O que nos induziria a dizer que a Rússia só vai ter disponível o que nós chamamos de reservas tangíveis; ouro, as exportações em petróleo. E também, na minha concepção, o que ela tem hoje em moeda chinesa: ou seja, se a China disser que continua negociando…

Tive alguns debates com colegas economistas que diziam que as sanções inviabilizariam todas as reservas russas, que as congelaram todas. Não, hoje (28) inclusive a União Europeia informou que imagina ter conseguido congelar um pouco mais da metade das reservas russas. Porque a parte das reservas que estiver em moedas de outros países que não acompanharam as sanções, e também em bens tangíveis, como o ouro, a Rússia vai conseguir usar. Isso tira um grande instrumento de defesa para controle do câmbio no caso da Rússia. As reservas são muito importantes no sentido de oferecerem uma segurança ao país, no sentido de que se ele precisar fazer importações, terá condições de honrar tais importações; e se por acaso sofrer algum tipo de ataque especulativo contra sua moeda, terá condição – fazendo uma metáfora com a questão bélica – de ter condições de ter armas que desencorajam esse tipo de enfrentamento. O que eu acho que machuca a Rússia, de fato a coloca em uma posição de adversidade, um custo elevado. Se pelo lado bélico, diferente das invasões e guerras norte-americanas que tinham um custo logístico mais alto porque tinha que cruzar o oceano, a Rússia tem um custo menor por estar fazendo uma invasão em um país que é vizinho, do ponto de vista financeiro isso está impondo outros custos à Rússia, que são significativos.

Mas eu volto ao meu samba de uma nota só: de novo, é um sinal que me parece que vai alertar, para diversos países, como aquilo que nós chamávamos de um instrumento de hegemonia, o dólar, se revela inclusive de um ponto de vista para além do comercial: a extensão do comercial para o que é um projeto de hegemon também está ali dentro [do dólar]. Ou seja, quais são os riscos de eu ser um país que detém reservas exclusivamente em dólar, ainda que o dólar seja a moeda de reserva internacional?

Revista Opera – Quanto a esse samba de uma nota só, muita gente viu essas sanções e falou em um “início do fim da hegemonia do dólar”. Mas me parece que há algo dialético aí também, porque efetivamente se pode “dividir o mundo” em uma zona do dólar e uma outra zona, mas a máquina de imprimir dólar continua se autovalorizando e exportando dívida para outros países. Como você vê esse jogo entre o dólar “perdendo hegemonia” mas, talvez, ganhando mais importância?

Gabriel Galípolo – Eu acho que você foi muito feliz nisso do movimento dialético, porque às vezes queremos olhar sempre numa mão única e perdemos uma das dimensões. Acho que o ponto é esse que você colocou. 

Para falar de um ponto de inflexão, se podemos chamar assim, quanto à hegemonia do dólar: se a gente olhar a este processo que pode enfraquecer o dólar agora, com a entrada da Rússia na Ucrânia, que pode aproximar e ser um catalizador de um bloco comercial e financeiro que negocia menos em dólar e mais em torno da moeda chinesa, isso me remete muito ao que aconteceu no final dos 60 e começo dos anos 70 – cheguei a escrever sobre isso com o professor Belluzo –, que foi quando há um conflito entre a União Soviética e a China que, numa tentativa de repelir o que o Mao chamou de assédios da União Soviética, faz um ataque preventivo; a União Soviética manda um milhão de soldados, o tiro sai pela culatra e aí um representante da União Soviética vai dar uma explicação ao Kissinger, que achava super estranho que aquilo estivesse acontecendo em plena Guerra Fria, e ele acaba percebendo uma oportunidade de um realinhamento entre Moscou, Pequim e Washington, porque o Mao estava completamente cercado: pela União Soviética, com um projeto hegemônico ali do lado; o Japão, um adversário absolutamente secular; a Índia; e os Estados Unidos permanecendo no Sudeste Asiático, no Vietnã. Ou seja: Mao numa situação muito complicada, e aquele ponto de inflexão vai galgando para uma aproximação, que envolve depois a entrada da China no GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), na Organização Mundial do Comércio (OMC), a saída das empresas norte-americanas para a China. O pretexto do Clinton é que aquilo seria para que as empresas norte-americanas pudessem acessar o maior mercado consumidor do mundo, por conta do tamanho da população, quando na verdade o que se queria era produzir barato na China para, de lá, exportar para os grandes mercados consumidores, na Europa Ocidental e Estados Unidos.

Para quê fiz essa longa digressão? Porque hoje, passados 50 anos, nós olhamos e dizemos: “aquele foi um ponto de inflexão”. Mas passaram-se 50 anos. Eu acho que essa fala sobre a ameaça à hegemonia do dólar passa mais por uma possibilidade de que se isso vier a se desdobrar dessa maneira, com certeza esse momento será um desses “pontos de inflexão” com o qual vamos contar a história. Porque hoje não existe essa ameaça, de nenhuma maneira, ao que é a hegemonia do dólar.

Esse não é um processo que começa agora. Me parece que já vinha acontecendo quando dos acordos do TPP, que é o Tratado do Pacífico; os EUA antes tinham uma importância, e quando começa a lógica do Trump de uma economia mais protecionista isso vai deixando um vácuo, e a China vai ocupando esse vácuo. Os BRICS, também, com a ideia de fazer negociações e crédito dependendo cada vez menos do dólar, etc. Então há um movimento gradual, mas contínuo, de redução da importância do dólar nessas transações, e a China como o centro desse outro polo gravitacional. É um movimento gradual ainda a ser observado. Muita gente diz: à China não interessa esse movimento, porque pode provocar a valorização de sua moeda e, ao valorizar sua moeda, isso retiraria competitividade da China sobre os produtos que ela exporta, acabando com seu grande trunfo. Esse é um problema que remete ao que aconteceu no imediato pós-Primeira Guerra Mundial. Que foi o momento em que a Inglaterra tentou voltar ao padrão-ouro, entendendo que para continuar como hegemon e sustentar a Pax Britânica, ela teria de ter uma moeda forte. Então ela volta para o padrão-ouro. Keynes escreve um artigo chamado “As consequências econômicas do Mr. Churchill”, no qual ele critica o Churchill porque, ao voltar para o padrão-ouro, ele aprecia o câmbio da moeda inglesa – e era o que faltava para que os EUA, Alemanha, Itália e Japão entrassem na segunda revolução industrial, tirando a vantagem competitiva que a Inglaterra tinha.

Esse não me parece ser um problema que aflige os chineses. Os chineses têm um câmbio flutuante de mentira; não têm nenhum tipo de timidez em determinar e atuar na taxa de câmbio deles. Me parece que aflige menos os chineses. Então acho a lógica de dois blocos totalmente separados vai ser difícil vermos, porque já existe um nível de dependência – não só de commodities agrícolas e energia da Rússia, mas tudo de que se possa imaginar dos chineses. O que vejo acontecendo é mais uma relativização, um enfraquecimento, do dólar; porque realmente esse nível de integração que surgiu entre as economias gera uma certa entropia, para pegar algo emprestado da física. Vai ser muito difícil essa pasta voltar para dentro do tubo de pasta de dente, ou essa salsicha voltar a ser porco. Ainda que eu ache que nós possamos ver também um recrudescimento da preferência pela produção doméstica, porque nós estamos vindo de uma pandemia que sinalizou isso – os riscos de tanta dependência na produção de vacinas, máscaras, luvas – junto a choques de ofertas – porque há quatro anos ter cadeias produtivas altamente interligadas, com sistemas de estoque just in time (isso é, poucos estoques) era um grande sinal de eficiência, e de repente virou uma grande reverberação de choques: falha um elo da cadeia, a cadeia inteira colapsa e vemos processos de inflação. E agora essa situação em que penalizações geram limitações, tanto para quem quer fazer as penalizações quanto para quem está sendo penalizado com as sanções. Então acho que podemos ver um recrudescimento no sentido da produção doméstica, mas mesmo assim, creio que termos uma regressão nesse nível de integração vai ser muito difícil.

Revista Opera – Também em relação ao dólar, há essa questão da alta de inflação nos Estados Unidos. Me parece que, bom, neste jogo esquisito, na prática são uma máquina de imprimir dólar; isso tem um efeito inflacionário interno, no entanto uma inflação que, justamente pelo caráter hegemônico do dólar, toma um caráter meio fictício em última instância. Como você vê essa inflação neste cenário dos EUA? Como isso pode escalar ou não escalar nessa conjuntura?

Gabriel Galípolo – Eu vou cair nesse mesmo efeito que você colocou, mas por um caminho diferente. O que é interessante é que desde 2008 o Banco Central norte-americano vem imprimindo dinheiro, realmente desesperadamente; para dar um número, quando começa a crise de 2008 havia mais ou menos 900 bilhões de dólares em ativos no ativo do Banco Central dos EUA, o FED. Do começo da crise de 2008 até a pandemia, esse número foi para 4,7 trilhões. Quando começa a pandemia isso vai ultrapassar 8,5 trilhões. Ou seja, foi feito um volume absurdo; o FED compra entre 120 e 140 bilhões de dólares em ativos por mês, todos os meses. Para fazer o que? No mercado são muito necessárias essas posições contrárias, ou seja, para alguém vender é necessário alguém querendo comprar e vice-versa. Quando todo mundo se polariza em uma única posição – por isso Marx entendeu tão bem o mercado, ele precisa da contradição para funcionar –, quando a contradição é eliminada, ele colapsa, porque todos querem vender e falta o outro polo: cadê o cara que quer comprar? Até então as autoridades monetárias utilizavam a taxa de juros para induzir a divisão das posições, daquilo que Keynes chamava de altistas e baixistas. A partir de 2008 a crise foi tamanha que o FED passou a desempenhar esse papel: falou “deixa que eu compro”. Para sancionar os preços e garantir que eles não despenquem. Apesar disso, não vimos inflação nesse período; com toda essa emissão absurda de moeda não houve inflação. De 2008 até o começo da pandemia. E isso não aconteceu só nos Estados Unidos: se somarmos os EUA, Europa, Japão e China, foram mais de 31 trilhões de dólares em ativos que essas autoridades monetárias jogaram no mercado. Então a quantidade de moeda não gerou inflação pelo seguinte: essa liquidez ficou empoçada no mercado financeiro. Ela serviu para inflacionar os ativos financeiros, então foi muito bom para o mercado financeiro, mas como esse dinheiro não chegou no bolso das pessoas de carne e osso, não gerou demanda nem consumo, e portanto não gerou inflação. 

E aí tínhamos uma espiral doida: como a economia não andava, o banco central jogava mais liquidez e baixava mais juros; aí os preços no mercado financeiro aumentavam, e a economia não andava, com pessoas tendo três ou quatro empregos para tentar se sustentar sem haver crescimento da massa de renda e salário. Essa foi a espiral que aconteceu. Mas aí veio a pandemia e colocou essa situação dificílima que você desenhou, que é: temos uma posição do que chamamos de flexibilização monetária, ou quantitative easing, bem expansionista, bem lá à frente, imprimindo essa quantidade de dinheiro e com juros baixos; mas uma inflação que não é exatamente de demanda, mas sim desses choques de oferta, das integrações das cadeias produtivas de oferta que colapsaram. E aí surge um grande dilema – é muito curioso quando vemos a Bloomberg, um veículo não exatamente de esquerda, questionando o FED e dizendo: como vocês querem combater uma inflação que não é de demanda subindo o juros? Lá há esse questionamento sobre a elevação dos juros, diferente da cobertura que nós temos aqui no Brasil. Então é uma situação muito difícil. Porque antes já era muito complexo fazer uma reduzida nessa posição de flexibilização monetária, na expectativa de que uma política fiscal iria chegar para ajudar a recuperação da economia, isto é, um Plano Biden da vida, com investimento em infraestrutura e transferência de renda, iria jogar dinheiro na economia real e se poderia tirar um pouco da monetária. Um movimento delicado, porque envolve ameaçar o preço dos ativos financeiros e entender como seria essa reação. O Jerome Powell, que é presidente do FED, vinha anunciando tudo isso de maneira muito gradual, com muito cuidado, porque havia uma inflação, mas ele não queria matar a recuperação econômica simultaneamente. Agora, na quinta-feira e sexta, a palavra que mais ouvi na cobertura internacional foi estagflação [estagnação econômica com inflação constante], porque o que se imagina é que, com a guerra e as sanções, o que estamos assistindo vai ter um crescimento mais difícil e com preços mais altos. Esse é o tipo de situação que coloca a autoridade monetária na situação mais difícil, porque é aquela lógica em que o remédio que é dado, ou que é o que se tem pra dar, talvez tenha mais efeitos colaterais nocivos ao paciente do que benefícios que ele gera em combater o mal com o qual o paciente sofre. 

Talvez – e isso pode ser uma torcida minha – assim como nós assistimos à flexibilização monetária dos últimos anos funcionar como a ida do homem à lua para desacreditar o terraplanismo [risos], ou seja, para desacreditar as teorias monetaristas, a teoria daqueles que acreditavam que nada pode ser feito – porque uma vez que se pode fazer isso para salvar o mercado financeiro, por que não pode para salvar as pessoas que estão precisando? –; assim como essa flexibilização serviu para isso, talvez nós tenhamos agora as autoridades monetárias numa situação tão difícil que elas terão de pensar em políticas alternativas para combater uma inflação que não é de demanda. Políticas nas quais, escapando ao que nós vemos no Brasil há tanto tempo, o ônus de tentar combater a inflação não seja pago com mais desemprego, menos salário, menos renda, etc. Que a gente tente encontrar remédios que enderecem esse tipo de doença específica, esse tipo de característica de inflação. Porque hoje a realidade que a gente tem, especialmente quando olhamos para autoridades monetárias como a do Brasil, é: para quem só tem martelo, tudo é prego. Ou seja, ele só tem um remédio e portanto fica receitando aquilo.

A situação então é muito mais complexa, a situação para a autoridade monetária é bem difícil, mas talvez isso permita nos libertar de amarras sob as quais nós estamos há muito tempo, no sentido do que é uma boa política monetária, do que os economistas dizem ou o que a economia infelizmente virou. A economia virou quase que um discurso de dominação para restringir as alternativas que se apresentam para a vontade democrática: virou um discurso para interditar o que é possível ser feito. Talvez seja possível superar isso através das dificuldades – uma visão talvez otimista minha [risos].

Revista Opera – A última pergunta é em relação à posição do Brasil nesse cenário. Porque por um lado a situação trágica da dependência do Brasil nós vemos que é multifacetada: se apostou no agro, que depende por um lado de fertilizantes russos – dependência que aparentemente é muito grande – e por outro lado nós estamos completamente dependentes também do dólar, isto é, o Brasil está na “zona de influência” norte-americana e é difícil termos uma posição muito independente em relação a isso. Como você vê os efeitos dessa guerra, dessa invasão e das sanções subsequentes aqui no Brasil?

Gabriel Galípolo – Há dois recortes: um mais estrutural, outro conjuntural. O estrutural passa por isso que comentamos na questão anterior, que é: estamos presos em uma armadilha há muito tempo; usamos um programa de estabilização monetária com âncora cambial – ou seja, uma estabilização por uma sombra de dolarização dentro da nossa economia, o que reforça o seu ponto sobre estarmos na área de influência do dólar. E aí quando a gente saiu dessa âncora cambial, da paridade cambial, nós saímos para um programa de metas de inflação que, se olharmos nos últimos anos, nunca funcionou na prática como funciona um sistema clássico de metas de inflação, onde a inflação decorre ou se apresenta como um sinal de uma economia excessivamente aquecida, com uma demanda crescendo à frente da oferta e que, portanto, exige a elevação da taxa de juros. O que a gente assiste geralmente é: mesmo com a economia desaquecida acontece alguma coisa no cenário internacional ou nacional que promove a desvalorização da nossa moeda perante o dólar, desvalorização essa que se reflete em inflação, seja pela participação dos produtos importados dentro da nossa economia, seja porque existem vários outros serviços e contratos cuja variação da correção monetária foi dolarizada. Um exemplo: aluguéis. Quem vive de aluguel sabe que quando o dólar dispara, o IGP (Índice Geral de Preço) também dispara, e quem aluga sofre. Então esse processo gerou uma meta de inflação que é algo como uma prótese, que substitui a âncora cambial: toda vez que o câmbio começa a desgarrar muito, o dólar começa a desgarrar muito, isso promove inflação, e a gente sobe taxa de juros não para combater uma demanda, mas, pelo contrário – normalmente temos uma demanda que está terrível, muito baixa –, para aumentar o prêmio de quem detém no seu “portfólio” posições em reais, para ver se essa alta na taxa de juros convence o sujeito a ficar em posições em reais e portanto conter a desvalorização cambial. É quase que o estrangulamento externo do Caio Prado em outro patamar; num patamar de circulação financeira que gera o estrangulamento. Então esse é um ponto de enfrentamento que vamos ter que encarar, que remete àquela nossa colocação anterior: ter outras ferramentas para enfrentar uma inflação que não é devido à demanda. Para que quando o País tenha 30 milhões de pessoas desocupadas, 12 milhões de desempregados, e a menor renda desde que começou a medida do IBGE, não se tenha que tirar uma taxa de juros de 2% para 10% ou 12%, mesmo com a renda lá embaixo. Esse é um ponto estrutural que precisamos enfrentar, estamos presos nessa armadilha há muito tempo, há três décadas.

Do outro lado tem o conjuntural. O que acabou de acontecer do ponto de vista conjuntural é: quando começou essa sinalização de que haveria uma elevação da taxa de juros nos Estados Unidos porque vinha uma política fiscal para ajudar o crescimento, e com tal política do Biden as pessoas iam ter renda e, com renda, a inflação não ia continuar tão baixa por muito tempo – e com mais inflação a política monetária não ia poder continuar tão frouxa, como estava –; o que nós chamamos de “taxa juros futuras”, que são as projeções que o mercado faz sobre o que vai acontecer com a taxa de juros norte-americana, começaram a subir. E aí se o prêmio de um título norte-americano sobe, por arbitragem o nosso acaba subindo também – porque o cara vai lá buscar mais prêmio e é necessário aumentar o nosso prêmio para manter a “distância relativa”. Isso provocou a desvalorização da nossa moeda e a elevação do juros. Se pegássemos no ano passado, ou um pouco antes, a taxa de juros de curto prazo estava a 2% e a de longo prazo estava a 6%; agora estamos com uma taxa de juros de curto prazo a 10% e uma de longo prazo de 11,5%. Então subimos muito essa taxa de juros no período de um ano.

O que isso provocou? No mundo, um elemento que eles chamam de rotation trade – o mercado gosta de dar nome bonito para essas coisas, é uma negociação de rotação. O que significa isso? Durante todo este período a economia foi um ambiente que permitiu florescer várias dessas empresas tech, essas plataformas, que são intensivas em capital – muitas se aproveitam do cara ser empregado, estar plugado naquilo, sem ser um empregado formal – mas que são empresas que queimam muito caixa, que dão grandes prejuízos. Tem duas falas muito simbólicas disso. Uma é a do Jeff Bezos [dono da Amazon] que dizia: “a sua necessidade de ter lucro é a minha vantagem competitiva”. E outra, do criador do PayPal, que dizia: “competição é para losers, competição é para perdedores. Eu quero é ser um monopólio.” Então a lógica que estava por trás é: conseguir ter prejuízos sucessivos e ter gastos – queimar dinheiro, nós dizemos, queimar caixa – para ganhar fatias de mercado a tal ponto que, no final, eu sou o vencedor e levo tudo. Vou levar um share, uma participação tão grande do mercado, que vou matar minha concorrência. Essas empresas faziam rodadas de captação de investimentos sucessivas, e são empresas que queimam muito capital. Num cenário de juros mais altos fica muito mais adversa a condição para essas empresas, porque elas vão ter mais restrições de acesso a esse capital; vai estar mais caro para ela conseguir continuar queimando capital. E aí o mercado começou a se antecipar em relação a isso, saindo das empresas tech. Mas o mercado sai, é preciso ir para algum lugar esse dinheiro, porque o dinheiro está queimando na mão do gestor. O que o mercado fez? Pensou: o que está inflacionado em função desses choques que estão vindo da pandemia? Commodities. E começaram a procurar ações de commodities. Esse rotation é a rotação, de sair de tech e ir pra commodities.

O Brasil tem na sua Bolsa uma participação grande de setor de commodities, muito grande. Petróleo, minério, entre outros. Isso já gera, imediatamente, uma atração de recursos para o Brasil. Além disso, nós tivemos o fato do Brasil ter sido o primeiro e o mais intenso na elevação da taxa de juros, de 2% para algo em torno de 10%. Em nenhum país foi tão rápida e tão intensa a subida da taxa de juros. Isso provocou um juros real do Brasil que é o maior do mundo, de novo. Um prêmio, de novo, para quem está aqui. E o cara que vem de fora ganha duas vezes, ele faz uma operação que chamamos de carry trade. Porque ele ganha nos juros e na apreciação cambial. Ele comprou reais, o real se aprecia em relação ao dólar, e ainda ganha no juros real: ganhou duas vezes. Este foi o movimento que, junto com a ideia, muito difundida, de que o mercado internacional vê o Lula com bons olhos, melhor do que o Bolsonaro, provocou essa valorização do real: que bate 5 reais por dólar no dia no qual, na madrugada, ocorre o início da guerra. Então o real vinha se valorizando, e a Bolsa brasileira vinha performando melhor do que as bolsas de outros países emergentes, por causa dessa condição, de juros altos e negociação rotativa com apreciação cambial do real.

Como enxergo daqui para frente? Apesar da guerra colocar mais dificuldades, talvez o Brasil continue se beneficiando de um cenário de commodities. Apesar de termos esse déficit, essa dependência de fertilizantes que, se somarmos Bielorússia e Rússia, praticamente 50% do potássio usado no agronegócio vem de lá. Então temos uma restrição por ali, um gargalo. Mas a leitura do mercado financeiro ainda é: países como o Brasil devem sofrer uma apreciação de sua moeda pelos benefícios que ele tem na sua posição no mercado de commodities, que vai valorizar. Eu acho que precisaria ter uma mitigação, por exemplo, da questão do preço do barril do petróleo. Se ele subir para 150 ou 120 dólares, a política da Petrobrás – que já é difícil ser sustentada hoje em termos de popularidade para qualquer governante – também passa a ganhar um foco de crítica grande se não for encontrada uma solução. Mas hoje há uma visão conjuntural do mercado ainda benéfica ao Brasil. Até a gente ver o que o FED, nos EUA, vai fazer. Hoje a leitura do mercado quanto ao FED é “positiva”, por essa coisa estranha que a crise de 2008 produziu, que é que notícia ruim vira notícia boa. Em que sentido? Como agora a economia vai andar menos, o FED vai fazer um ajuste menor, não vai subir tanto os juros. Então a discussão sobre se subiria 0,5% ou 0,25%, hoje o mercado deu como certo que subirá 0,25%, ou seja, que na situação atual não é possível dar uma pancada de 0,5%. É quase como se fosse um paciente que se viciou nas drogas que são dadas para ele; ele sente uma recaída e diz “bom, vão me dar aquela coisa de novo e vou ficar bem”. Ele ficou viciado nos psicotrópicos; o mercado hoje é esse paciente viciado: quando ele sente que piorou, pensa que vai voltar o remédio.

Então hoje existe uma leitura conjuntural benéfica ao Brasil, pela posição de commodities, juros real alto e que o juros lá fora não vai subir tanto em função das complexidades da guerra.