Colômbia, aliado não-OTAN dos EUA, gendarme para a região

Em meio ao eventual início de uma nova guerra fria e à ameaça permanente de uma terceira guerra mundial, a ingerência da OTAN aumenta na Colômbia. Por Álvaro Verzi Rangel | CELAE – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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O presidente da Colômbia, Ivan Duque, junto ao Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, durante coletiva de imprensa na sede da OTAN, em outubro de 2018. (Foto: OTAN)

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, informou na última quinta-feira (10) ao seu homólogo colombiano Iván Duque sua intenção de tornar a Colômbia um aliado principal não-OTAN (MNNA), um status especial que implica privilégios econômicos e militares para a Colômbia e ameaça a intervenção em qualquer incidente de fronteira com a Venezuela.

Com esta designação oficial, a Colômbia, parceira global da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) desde 2017 e principal aliada dos Estados Unidos na América Latina, fortalecerá sua associação bilateral e multilateral com Washington. Na Colômbia, o maior produtor mundial de coca, operam sete bases militares dos EUA. De acordo com uma lei de meados da década de 1980, o presidente deve informar o Congresso 30 dias antes de formalizar a decisão.

A presença em Bogotá de Victoria Nuland, subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos Estados Unidos – junto de outros altos funcionários do Pentágono e da Direção Nacional de Inteligência, Daniel Erikson e Jon Stainbrook –, revelou há poucos dias a preocupação de Washington com a vitória anunciada do centro-esquerda no país.

Uma vitória da coalizão liderada por Gustavo Petro nas sucessivas eleições legislativas e presidenciais colocaria em risco o apoio recebido até agora pelos governos de direita e de extrema-direita às políticas e planos de Washington na América Latina.

“Estamos preocupados onde quer que a Rússia apoie regimes autoritários e eles estão fazendo isso em muitas partes deste hemisfério, não apenas na Venezuela, mas também em Cuba e na Nicarágua. Estamos particularmente preocupados com o aumento da influência russa ao longo da fronteira e o potencial de que isso possa estar alimentando atores malignos e outros atores que não estão apenas ativos na Venezuela, mas talvez tentando minar a soberania e a independência da Colômbia”, disse Nuland em Bogotá.

“O que a Rússia está fazendo exatamente ali, e, mais importante, o que os EUA podem fazer, juntos da Colômbia, para endurecer essas fronteiras e garantir que qualquer atividade negativa permaneça do lado venezuelano?” enfatizou Nuland.

O presidente de extrema direita Iván Duque – que perdeu toda a popularidade, mas não a vergonha – anunciou então que compartilhará informações de segurança nacional com o governo dos EUA “onde qualquer influência ou tentativa de influência estrangeira no processo eleitoral possa ser identificada”.

Bogotá é uma peça chave na política desenhada durante o governo Donald Trump para a mudança de governo na Venezuela, que combina sanções, duplo poder e pressão militar do flanco fronteiriço.

Em meio ao eventual início de uma nova guerra fria e à ameaça permanente de uma terceira guerra mundial, a ingerência da OTAN foi aumentando, à medida que os termos iniciais de entrada foram estendidos em 2021 para treinamento militar, interoperabilidade e segurança marítima, enquanto a Colômbia ofereceu sua experiência em “contrainsurgência” e desminagem, vínculos que permitiram que empresas militares e mercenárias privadas prosperassem no país sul-americano.

Embora o MNNA não contemple uma cláusula de defesa mútua, como ocorre com os membros da OTAN, ele concede ao país designado uma série de vantagens militares e financeiras que outros países não possuem. Mas, sobretudo, representa um claro sinal de proximidade nas relações bilaterais e de dependência dos militares.

“Tenho orgulho de anunciar que vamos declarar a Colômbia como um dos principais aliados não-OTAN. Este é o reconhecimento da estreita relação que existe entre nossos países e temos muita sorte de estar aqui juntos conversando sobre diferentes assuntos”, disse Biden ao final da primeira reunião formal que teve com Duque.

“A declaração da Colômbia como país aliado estratégico não membro da OTAN é histórica para nós. Isso significa celebrar este bicentenário do relacionamento bilateral, levando-o ao ponto mais alto de nossa história”, comentou o ainda presidente colombiano.

Duque se absteve de comentar o recente encontro entre altos funcionários dos Estados Unidos e da Venezuela, e disse apenas que a posição da Colômbia é apoiar a transição democrática no país vizinho, uma reafirmação, nas entrelinhas, do rompimento das relações entre Colômbia e Venezuela.

Mas afirmou que atualmente a Colômbia tem mais capacidade de fornecer hidrocarbonetos aos Estados Unidos do que a Venezuela.

“Hoje estamos produzindo mais de 890 mil barris [de petróleo] e podemos – muito em breve – chegar a um milhão de barris por dia”, disse o presidente. Explicou que o país tem conseguido desenvolver novos projetos offshore “onde há um investimento significativo com a Occidental Petroleum Corporation, na Bacia do Permiano (Texas), onde estamos produzindo cerca de 50.000 barris por dia e podemos aumentar para 150.000; tudo isso para dizer que a Colômbia é um ator que pode contribuir muito mais e pode estar representando 3% do petróleo que os Estados Unidos importam, e o que pode ser aumentado, aumentaremos”.

“Queremos reiterar que a próxima Cúpula das Américas será uma oportunidade para celebrar a iniciativa de construir um mundo melhor, de gerar mais investimentos e empregos que ajudem a dissuadir as pressões migratórias no Hemisfério. Queremos ser referência para outros países da América Latina”, acrescentou Duque.

Na quarta-feira (9), os senadores democratas Bob Menéndez e Tim Kaine apresentaram um projeto de lei para designar a Colômbia como um grande aliado não-OTAN. Até agora, os Estados Unidos tinham 17 países considerados grandes aliados não-OTAN, incluindo Brasil e Argentina.

Durante o encontro, eles também falaram sobre os desafios migratórios, uma questão que Biden considerou que não pode ser resolvida por uma única nação ou resolvida em uma única fronteira: “Temos que trabalhar juntos”. Os EUA querem assinar uma declaração regional sobre proteção à migração em junho em Los Angeles, durante a Cúpula das Américas.

Sobre a cúpula, Duque disse que vai ser “uma grande oportunidade para abraçar a causa de ‘reconstruir um mundo melhor’”, parafraseando o lema da agenda doméstica de Biden, “Reconstruir Melhor” (Build Back Better). Duque lembrou que esta causa visa “aumentar o investimento, as oportunidades de emprego e permitir que o comércio e o investimento gerem empregos”.

Sobre a relação entre a Colômbia e os países membros da OTAN, comentou que se ofereceu para prestar assessoria, especialmente às nações que fazem fronteira com a Ucrânia, sobre gestão migratória, com base na experiência de atender os mais de 1,8 milhão de venezuelanos.

Em relação à pandemia, Duque agradeceu aos EUA a doação de dois milhões de vacinas adicionais ao seu país, que “serão usadas para responder às necessidades de muitos dos migrantes no seu país”.

O que significa ser um aliado não membro?

São 17 países no mundo que obtiveram o status de aliados não-membros, o que mostra a solidez nas relações dessas nações com as políticas e interesses dos Estados Unidos. Aliados não pertencentes à OTAN, como Israel, foram beneficiários de acesso privilegiado ao material de guerra dos EUA e à transferência de tecnologia. O Catar foi o 16º país, incluído no início deste ano pelo presidente Biden.

Aliados não-OTAN podem participar de projetos cooperativos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, como programas antiterroristas, acesso a material de guerra dos EUA, obter empréstimos de equipamentos e materiais para pesquisa, ter privilégios nos procedimentos de compra de tecnologia espacial e de equipamentos de defesa.

Da mesma forma, a participação em programas antiterroristas, prioridade na entrega dos excedentes militares dos EUA que o país adquira, empréstimos de equipamentos e materiais para projetos de pesquisa, acesso à tecnologia aeroespacial e treinamento recíproco. Também dá o poder para que o país possa armazenar elementos militares dos EUA, que fazem parte de sua reserva de guerra.

Eles também podem acessar permissões para que corporações nacionais licitem certos contratos do Departamento de Defesa para reparo e manutenção de equipamentos dos EUA fora do território estadunidense.