A fome ameaça a Ásia Central enquanto a guerra na Ucrânia se desenrola

As preocupações sobre a fome e a revoltas resultantes do conflito na Ucrânia e da pandemia são um alerta para que os países busquem encontrar soluções locais e regionais. Por Vijay Prashad | Globetrotter – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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Nurzhan Toktomambetova, de 33 anos, mãe de três filhos em seu bairro no distrito de At-Bashin, na província de Naryn, Quirguistão. (Foto: Rena Effendi / ONU Mulheres)

No dia 16 de março deste ano, o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, fez seu pronunciamento anual sobre o Estado da Nação em Nur Sultã, capital do país. A maior parte do discurso de Tokayev tratou das reformas políticas realizadas no Cazaquistão ou que ele planeja realizar, depois de prometê-las em resposta à agitação política e os protestos de janeiro contra o governo cazaque. Ele também tratou do impacto da guerra russo-ucraniana sobre o Cazaquistão, e apontou o aumento de preços dos alimentos e a volatilidade da moeda como algumas das consequências econômicas preocupantes que o país enfrenta em decorrência deste conflito.

O pronunciamento de Tokayev foi feito quatro dias antes do feriado do Noruz, um festival anual celebrado pelos povos no cinturão que vai das terras curdas até o Quirguistão, e que caiu em 20 de março. Os lares por todo o Cazaquistão estavam se preparando para a celebração, apesar do fato de que a inflação no preço da comida – que antecedia a intervenção russa na Ucrânia e as consequentes sanções ocidentais impostas ao Kremlin – já havia abafado o clima das festividades do país; em meados de março, o Banco Nacional do Cazaquistão havia informado que os preços de produtos alimentícios como panificados, cereais, vegetais e laticínios – componentes importantes de uma refeição do Noruz – haviam aumentado em 10%.

“O Cazaquistão está enfrentando dificuldades econômicas e financeiras sem precedentes em nossa história moderna, em função do escalar da situação geopolítica”, disse o presidente Tokayev. As “duras sanções” impostas à Rússia pelo Ocidente já estão impactando a economia global, declarou ele, dizendo ainda que “a incerteza e a turbulência nos mercados globais estão crescendo, e as cadeias de produção e comércio estão colapsando”. Inflação nos preços da comida e turbulência financeira – resultantes tanto das sanções ocidentais à Rússia quanto da integração das economias nacionais – dispararam os alarmes e aumentaram a urgência para que esses problemas sejam resolvidos em países da Ásia Central como o Cazaquistão.

Fome e miséria

Tokayev passou parte de seu discurso tratando da inflação nos preços da energia e comida. Ele falou sobre a necessidade de o governo fiscalizar a produção de equipamentos agrícolas, fertilizantes, combustível e estoques de sementes. As declarações de Tokayev não são uma novidade. Outros líderes de governos na Ásia Central também expressaram a necessidade de que seus governos entrem na arena da produção alimentar, já que tanto os lockdowns pela Covid-19 quanto a atual guerra russa na Ucrânia demonstraram as enormes vulnerabilidades da cadeia alimentar global, exacerbadas pela privatização da produção alimentar.

Os preços de alimentos na União Econômica Eurasiana (EAEU) – que inclui Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Rússia – continuam a subir em função do conflito russo-ucraniano, superando os preços mundiais dos alimentos. “Fortemente dependentes em importações da Rússia”, esses países enfrentam agora um banimento temporário nas exportações de trigo e açúcar da Rússia, devido ao conflito.

Em 11 de março, o Programa Alimentar Mundial da ONU (PMA) publicou um relatório tratando das “Implicações do conflito na Ucrânia à segurança alimentar”. O conflito, diz o PMA, “surge em um momento de necessidades humanitárias sem precedentes, à medida que um anel de fogo circunda a terra com choques climáticos, e os conflitos, a Covid-19 e a inflação levam milhões para mais perto da inanição”. A Rússia e a Ucrânia “suprem 30% do trigo e 20% do milho dos mercados globais”, de acordo com o relatório, e esses dois países também são responsáveis por ¾ do fornecimento global de girassol e ⅓ da cevada. Enquanto isso, os portos do Mar Negro estão em grande parte inativos desde que a Rússia bloqueou as exportações a partir desses pontos em função da guerra. Isso fez com que “[uma] estimativa de 13,5 milhões de toneladas de trigo e 16 milhões de toneladas de milho” ficassem “congeladas nesses dois países”, já que esses grãos não podem ser transportados para fora da região. O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação atingiu “um novo recorde histórico em fevereiro”.

O presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura, Gilbert F. Houngbo, alertou que a continuação da guerra russo-ucraniana “será catastrófica para o mundo inteiro, particularmente para as pessoas que já sofrem para manter suas famílias alimentadas”, de acordo com um relatório da ONU. “Essa área do Mar Negro tem um papel fundamental no sistema global de alimentos, exportando ao menos 12% das calorias alimentares comercializadas no mundo”, disse Houngbo.

Um dos maiores problemas da globalização tem sido o fato de que as vulnerabilidades em uma parte do mundo quase imediatamente impactam outras partes. Em 2010, secas na China, Rússia e Ucrânia aumentaram o preço dos grãos, “estimulando” a Primavera Árabe. Ideias sobre “segurança alimentar”, uma frase usada por Tokayev durante seu discurso, estão em voga desde a primeira Conferência Alimentar Mundial em 1974; durante o encontro em Roma, os estados-membros das Nações Unidas refletiram sobre a situação de fome no Bangladesh, apelando por medidas que garantissem a estabilidade internacional dos preços de alimentos e para que os governos fossem responsáveis pela abolição da fome em seus respectivos países. A atual situação de inflação e instabilidade dos preços de alimentos na cadeia de commodities global trouxe de volta à tona a necessidade de garantir um aumento na produção doméstica e local, ao invés de depender de produtores distantes e mercados internacionais instáveis.

Produção alimentar doméstica

Em outubro do ano passado, o Escritório de Relatórios Analíticos da Ásia Central (CABAR) fez um encontro com especialistas sobre o problema da produção alimentar na região. Nurlan Atakanov, do Programa de Nutrição e Segurança Alimentar do Quirguistão, disse que os produtores locais não eram capazes de produzir trigo de alta-qualidade “por conta das limitadas áreas de cultivo e condições climáticas”. O país dele importa ⅓ de seu trigo do Cazaquistão. Daulet Assylbekov, um especialista cazaque que é analista sênior da BLM Group, disse que as colheitas de trigo no Cazaquistão caíram em 30% por conta das restrições da pandemia. Essas restrições impactaram os preços dos alimentos em toda a Ásia Central.

A produção de trigo do Tajiquistão é atualmente de 2700-3000 quilos por hectare, consideravelmente menor do que a colheita na região russa de Rostov, de 6700-7000 quilos por hectare, de acordo com o CABAR. O economista Khojimahmad Umarov disse durante o encontro que se o Tajiquistão tivesse acesso a fertilizantes minerais e orgânicos, e melhorasse seu conhecimento técnico agrícola, as colheitas poderiam aumentar para 9000 quilos por hectare. Mas a agricultura tem sido negligenciada, e países como o Tajiquistão têm sido encorajados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) a importar alimentos e exportar algodão e alumínio.

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O ministério da Agricultura do Uzbequistão agora instou seus agricultores a aumentar a produção de trigo, de 6,6 milhões de toneladas de grãos em 2021 para 7,6 milhões de toneladas este ano, bem como a aumentar a produção doméstica de açúcar para atender à demanda interna do país apesar da proibição temporária das exportações pela Rússia; o Uzbequistão tradicionalmente depende do trigo russo e do açúcar brasileiro.

Como o Uzbequistão, o governo da República do Quirguistão importa açúcar, óleo vegetal e trigo todos os anos de outros países, e a atual guerra Rússia-Ucrânia pode resultar em uma sombria situação em termos de garantir a segurança alimentar e conter a inflação dos preços dos alimentos no país. No começo da guerra na Ucrânia, os lares mais pobres do Quirguistão – o segundo país mais pobre da Ásia Central, depois do Tajiquistão – estavam comprometendo 65% da sua renda familiar em alimentação; a atual situação inflacionária será catastrófica para eles. O gabinete de ministros da República do Quirguistão, liderado por Akylbek Japarov, realizou um encontro emergencial com empresas de processamento de comida em Bisqueque para discutir como aumentar a produção alimentar e prevenir o aumento dos níveis de inanição no país.

No Fórum Diplomático de Antália, líderes dos países da Ásia Central pediram não só o cessar das hostilidades na Ucrânia, mas também uma integração regional de seus países com o Sul Asiático. O ministro de Relações Exteriores do Uzbequistão, Abdulaziz Kamilov, disse que seu país está pronto para fazer a ponte e unir essas áreas. O veredito geral entre os países centro-asiáticos é que uma maior auto-suficiência é importante – particularmente na produção alimentar – mas que o regionalismo também precisa se acentuar. Um dos problemas enfrentados para uma integração regional na Ásia Central é que as opções para o transporte de mercadorias de um país para o outro são muito ruins – o trigo do Cazaquistão viaja de trem para a República do Quirguistão e depois é transferido para caminhões, que têm de viajar por difíceis estradas montanhosas. O regionalismo não é só um conceito. Ele teria que ser realizado por meio da criação de plantas de processamento alimentar, melhores sistemas de transporte e regras de comércio fronteiriço mais simples.

A pandemia da Covid-19 e a guerra da Rússia na Ucrânia alertaram os governos da Ásia Central a terem mais atenção com a questão da segurança alimentar. O que o FMI diz sobre a liberalização das cadeias de comida faz pouco sentido nestes dias. As preocupações em relação à fome e a revoltas resultantes do conflito russo-ucraniano e da pandemia são um bom alerta para que os países busquem encontrar soluções sustentáveis locais e regionais, e para que resolvam os problemas que têm sido parte do tecido social, econômico e político da Ásia Central por décadas.