As potências coloniais não pedem perdão

Recepções da Coroa Britânica são muitas vezes conhecidas por seu glamour e simpatia. Certamente William e Kate não esperavam protestos nos três países caribenhos, nem de serem lembrados de quão terrível era o colonialismo britânico e a escravidão a que submeteu milhões de pessoas. Por Pedro Brieger | CLAE – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Robbie Dale)

Há quem pense que o colonialismo pertence somente aos livros de história, ou que seja apenas um fato do passado, de séculos atrás. Se equivocam. Não só porque ainda existam enclaves coloniais em diferentes pontos do planeta, mas também porque suas consequências são sentidas ainda hoje. Portanto, fazem parte do presente; também na América Latina e no Caribe. No Caribe, o problema é mais do que latente, porque ali vivem os descendentes do tráfico de escravos e escravas que os britânicos trouxeram à força do continente africano.

A recente viagem ao Caribe do casal real britânico formado pelo príncipe William e a duquesa Kate mostra claramente o que a história colonial representa. O casal decidiu visitar Belize, Jamaica e Bahamas, três países do chamado Commonwealth, a comunidade de nações que mantêm seu vínculo com a coroa britânica por terem sido, justamente, colônias britânicas. Como se pouco ou nada se importassem com o que sentem no Caribe, escolheram a data da turnê para comemorar o Jubileu de Platina da rainha Elizabeth II, que subiu ao trono em 1952, há 70 anos.

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Recepções oficiais para membros da Coroa Britânica são muitas vezes conhecidas por seu glamour e simpatia. Certamente William e Kate não esperavam protestos nos três países, nem de serem lembrados de quão terrível era o colonialismo britânico e a escravidão a que submeteu milhões de pessoas.

Em Belize tiveram que cancelar uma visita a uma plantação de cacau, e ao chegar na Jamaica receberam uma lista de 60 motivos pelos quais pedir desculpas pela escravidão e iniciar um processo de reparação. Por outro lado, mais de 100 personalidades jamaicanas assinaram uma carta aberta ao príncipe, para lembrá-lo de que não tinham nada a comemorar pela chegada da rainha ao trono em 1952. Além disso, lembraram que seus ancestrais haviam perpetrado a pior violação dos direitos da história humana, e que a rainha nada vez contra o tratamento desumano do legado da escravidão nas plantações.

Na carta, ressaltavam ainda que em poucos meses a Jamaica celebrará “60 anos de libertação da dominação colonial britânica”, reivindicando “os combatentes da liberdade que lutaram com bravura contra a tirânica dominação britânica e seus abomináveis abusos contra os direitos humanos”. Vale lembrar que os protestos atuais se dão no marco das demandas que, há anos, os governos do Caribe fazem ao Reino Unido, exigindo reparações pelo dano causado durante séculos – demanda que Ralph Gonsalves, primeiro-ministro de San Vicente e Granadinas, levou à Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em fevereiro deste ano, na catedral St. Michael em Barbados, David Comissiong, embaixador do país na CARICOM, lembrou que no século 19 o governo britânico foi tão perverso que calculou os valores que os proprietários de escravos perderam com a abolição da escravidão em algumas região, sem por um momento pensar naqueles que a sofreram.

Tampouco lamentaram os povos destruídos na África pelo colonialismo europeu, nem os milhões de mortos, torturados, estuprados e usados no trabalho escravo. Comissiong sustentou ainda que os primeiros campos de concentração não foram os implementados pelos nazistas, mas sim pelos britânicos, em Barbados e na Jamaica, já em 1600.

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Os países da CARICOM pedem à coroa britânica uma série de reparações pelos crimes cometidos no Caribe. Mas, antes de tudo, demandam um pedido público de desculpas. Dificilmente a coroa pedirá perdão. Sua soberba imperial segue em pé.