Porquê os homens de Davos amam a “Grande História”

Narrativas históricas baseadas em conceitos como “espécie humana” são populares entre os bilionários de Davos porque escondem suas responsabilidades e poder. Por Richard King | The Bloody Crossroads – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Sebastian Derungs / Fórum Econômico Mundial)

Num primeiro olhar, o livro “Origens”, de David Christian, não parece o tipo de obra que demande uma análise política. Com o subtítulo “Uma Grande História de tudo”, imagino que a obra vá parecer, à maioria dos leitores, uma versão maior e menos divertida de livros como “Breve História de quase tudo” de Bill Bryson – um livro para o não-especialista interessado, senão para o diletante desavergonhado. Seu autor, um acadêmico australiano, é o tipo de divulgador capaz de comunicar conceitos complexos com uma energia e entusiasmo que beiram o espetáculo. Sua palestra de 2011 “A História de nosso mundo em 18 minutos”, no TED, foi vista mais de oito milhões de vezes. Não há dúvidas de que, no futuro, ela será aproveitada em uma série de TV ou um documentário da Netflix. Abra espaço, Prof. Neil Degrasse Tyson.

Diferentemente do espaço e do tempo, no entanto, os livros não aparecem ex nihilo, e a história de como esse livro em particular veio a existir é interessante. Um livro, é claro, deve ser julgado por seu conteúdo, não pelas circunstâncias de sua concepção. Ainda assim, os eventos que levaram à publicação da obra de Christian, que pretende ser uma história da humanidade contada a partir de uma perspectiva universal e fornecer à nossa espécie em apuros um mito novo e globalizante, me parece inseparável de suas teses. Qual é a história da origem do “Origens”?

Passando pela criação dos átomos e moléculas, pela vida inteligente e pela imprensa, tudo começou com Bill Gates. Em 2008, o bilionário do setor tecnológico estava se exercitando em sua esteira particular enquanto assistia a uma série chamada Grande História, cujo título remetia à abordagem histórica da qual o professor Christian – à época lecionando na Universidade de San Diego – havia sido pioneiro; uma abordagem que combina diversas disciplinas, das ciências humanas às naturais, e que começa não com a agricultura ou a invenção da escrita, como na história tradicional, mas pela criação do próprio universo. Impressionado com a ambição e o escopo da abordagem, Gates decidiu entrar em contato com Christian e lhe dar 10 milhões de dólares para desenvolver um curso para estudantes do ensino médio. O curso resultante, chamado The Big Story Project, é essencialmente um embrião do livro “Origens”.

Gates não foi o único ricaço impressionado pelo conceito de Grande História. Em 2015, Christian foi convidado para falar no encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, e seu discurso (introduzido por Al Gore) parece ter despertado um entusiasmo pelas abordagens históricas de longa duração. Nos últimos anos, tem havido muita discussão entre os frequentadores assíduos de Davos sobre o novo conceito de Antropoceno – uma designação geológica que descreve o efeito profundo que a espécie humana teve sobre o planeta, colocada em questão, na maior parte das vezes, em debates sobre as mudanças climáticas antropogênicas. Em 2016, Davos estava alvoroçada com as notícias de que a Comissão Internacional de Estratigrafia estava considerando uma recomendação para tornar a designação oficial, enquanto em 2017 o diretor executivo do Stockholm Resilience Centre, Johan Rockström, era convidado para fazer uma apresentação intitulada “Além do Antropoceno”. O entusiasmo se estendeu até à decoração de Davos. Em 2017, o encontro contou com a instalação de Tomas Saraceno, Aerocene, cujo propósito, de acordo com o artista, era propor uma nova época pós-Antropoceno, “onde juntos nós podemos aprender como flutuar e viver no ar, para alcançar uma colaboração ética junto ao meio ambiente”.

A obra “Origens”, portanto, não apareceu em um vácuo cultural. Para adaptar uma das metáforas favoritas do autor – a história da Cachinho Dourados e os Três Ursos – ela emergiu em um momento em que as condições para o seu acolhimento estavam “perfeitos” – ao menos entre certos círculos de influência. A questão é: o que há na Grande História que apela de forma tão poderosa a estes círculos? Por que a elite global está tão empolgada com essa nova historiografia?

Bem, antes de tudo, ela é tranquilizadoramente global. Trocando o microscópio pelo telescópio, a Grande História parte de um ponto de uma escala baseada num ponto de vista de espécie para o desenvolvimento humano, o que de fato deve ser tranquilizante quando a classe econômica à qual você pertence está enquadrada pela desigualdade massiva, o colapso econômico e ambiental e uma série de outros males planetários. Não estou sendo brincalhão. A Grande História, em suas várias formas, necessariamente obscurece muitos dos embaraçosos detalhes em favor de uma perspectiva panorâmica. Se referindo à “narrativa do Antropoceno” e como ela opera ideologicamente no debate sobre as mudanças climáticas, Andreas Malm e Alf Hornborg fazem um bom resumo da questão:

“A narrativa do Antropoceno pinta a humanidade como uma espécie ascendendo ao poder sobre o resto do sistema terrestre. No crucial campo das mudanças climáticas, isso inclui desde a combustão de combustíveis fósseis até possibilidades adquiridas durante a evolução humana, notadamente a capacidade de manipular o fogo. Mas a economia de combustíveis fósseis não foi criada nem é sustentada pela humanidade em geral […] As máquinas a vapor não foram adotadas por alguns deputados natos da espécie humana: pela natureza da ordem social das coisas, elas só podiam ser instaladas pelos donos dos meios de produção. Uma pequena minoria até na Inglaterra, essa classe de pessoas compreendia uma fração infinitesimal da população de Homo Sapiens no início do século 19 […] Os capitalistas em uma pequena esquina do mundo Ocidental investiram no vapor, lançando a pedra fundamental para a economia fóssil: em nenhum momento a espécie humana votou, se posicionou, marchou em uníssono ou exerceu qualquer tipo de autoridade compartilhada sobre o seu próprio destino e o destino do sistema terrestre.”

Mesmo que os frequentadores de Davos tivessem um desejo genuíno de combater as mudanças climáticas e a degradação ambiental de forma mais geral, é improvável que eles se apeguem a uma narrativa que aponte para a devastação causada por um sistema baseado no crescimento sem fim. Mas com seu foco sobre a espécie como um todo (e portanto em ninguém em particular) a narrativa do Antropoceno contorna esse problema. Como Malm argumenta em outro artigo: “As ciências, política e discursos sobre o clima são constantemente ocultadas na narrativa do Antropoceno: pensamento de espécie, ataque à humanidade, autoflagelação coletiva indiferenciada, apelo à população geral de consumidores para consertar seus caminhos e outras piruetas ideológicas que servem apenas para esconder os dirigentes”.

O mesmo ponto poderia ser feito sobre o foco universal de David Christian e seu “Origens”, que é similarmente instrumental em seu desejo de incutir uma ‘consciência global’ que possa ser usada na luta contra as mudanças climáticas. Sua ideia central é que o universo em geral, e as sociedades humanas em particular, se desenvolveram através de certos “limiares” que levaram a uma complexidade cada vez maior – frente a uma tendência geral à entropia que nos atingirá todos. Christian identifica oito “limiares” que levaram a humanidade à atual conjuntura: a criação da matéria por meio do Big Bang; a formação das estrelas e galáxias; a ascensão da complexidade química; a formação da Terra e do sistema solar; a emergência da vida na Terra; o surgimento do Homo sapiens; o desenvolvimento da agricultura; e a dramática e possivelmente catastrófica chegada do mundo moderno, ou Antropoceno. Por mais fascinante que possa ser pensar sobre o desenvolvimento da vida humana nestes termos, o efeito de tal narrativa é aglutinar a história humana e a natural de tal forma que a primeira é “naturalizada”. Em certo sentido, a ideia de que os humanos evoluíram de outros animais, que se desenvolveram a partir de formas rudimentares de vida, que por sua vez são compostas de moléculas e átomos, que foram formadas após o Big Bang, é tautologia: quem está argumentando o contrário, a não ser criacionistas e outros excêntricos? Mas insistir que a história humana seja vista como parte desse processo mais amplo é algo completamente diferente, e nada tão isento de valores quanto Christian faz parecer.

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Para ser honesto, Christian não é um determinista. Ele sabe que o que chama de “aprendizagem coletiva” diferencia os humanos de outras espécies: que nosso conhecimento é acumulado ao longo de gerações, resultando no fato de que não estamos mais à mercê da natureza e podemos optar por diferentes versões do futuro. Mas se esse é o caso – e eu creio que sim – então qual é o sentido da narrativa da Grande História, tirando o fornecimento de um pouco de inspiração? Uma história verdadeiramente instrumental não iria destacar a “origem” da humanidade, mas as formas nas quais a exploração da natureza e as perigosas desigualdades são mapeadas em um sistema baseado em trabalho assalariado, lucro, propriedade e crescimento perpétuo. A admiração de Christian, ao estilo de Carl Sagan, é comovente e sincera. Mas sua crença de que tal postura será política e economicamente efetiva não convence.

É também, ao que parece, uma causa de leve tensão entre Christian e seu principal patrono, Bill Gates. Considere, por exemplo, esta passagem reveladora da crítica laudatória de Gates sobre o “Origens”, publicada em seu site, gatesnotes.com: “O livro termina com um capítulo sobre o sentido para o qual a humanidade – e o universo – estão se encaminhando. David é mais pessimista sobre o futuro do que eu. Ele fica um pouco preso ao atual mal-estar econômico e político que está acontecendo no Ocidente, e eu gostaria que ele falasse mais sobre o papel que a inovação desempenhará na prevenção dos piores efeitos das mudanças climáticas.”

Ou seja: a única ocasião em que a tese de Christian se aproxima de problemas políticos e econômicos é aquela que o bilionário rechaça. Sem dúvida, as “inovações” que Gates acredita que nos livrarão das mudanças climáticas são de natureza decididamente apolítica.

Nas palavras da pedagoga Diane Ravitch, uma das mais estridentes críticas de Gates: “Quando penso sobre a História, penso sobre diferentes perspectivas, pontos de vistas conflitantes. Me pergunto como Bill Gates trataria o tema dos barões gatunos. Me indago sobre como ele lidaria com questões de extremos, como riqueza e pobreza.” Baseando-se explicitamente nas ideias da teoria da complexidade – uma espécie de ciência da computação que explica como a complexidade aumenta ao longo do tempo – a Grande História necessariamente obscurece tais questões de distribuição e poder de uma forma que sem dúvida é atraente para Gates. De fato, a própria linguagem da Grande História é implicitamente lisonjeira dos bilionários e seus análogos. Em “Origens”, a evolução do cérebro humano sob pressões sociais é explicada em termos de “tarefas computacionais cuja complexidade aumenta exponencialmente à medida que os grupos crescem”, enquanto o próprio Big Bang é descrito em termos retirados das ciências da computação: o cosmos, escreve Christian, “se auto-inicializou“. Desde que o historiador conservador Niall Ferguson descreveu os seis “aplicativos incríveis” da civilização Ocidental (competição, ciência, democracia proprietária, ciência moderna, a sociedade de consumo e a ética de trabalho protestante, caso você esteja interessado), não houve nunca uma metáfora que tão claramente identificasse os “gurus” do Vale do Silício com o progresso da humanidade.

E isso, sem dúvidas, é o ponto fundamental da Grande História: o fato de que, ao tornar o crescimento de complexidade a medida do desenvolvimento humano, ela obscurece os aspectos ideológico desse processo desesperadamente desigual e torna o desenvolvimento que ainda está por acontecer idêntico à “complexidade” que Gates e seus amigos do Vale do Silício efetivamente privatizaram em busca de lucros. No ar rarefeito de Davos-Klosters, a “história de origem” do Prof. Christian torna-se uma história para a elite global – uma história universal para os Mestres do Universo.

Marx e Engels exageraram quando disseram que toda a História era a história da luta de classes; mas eles entenderam que a História humana era um local de conflito e exploração – que os humanos, embora limitados por sua natureza material, também eram únicos em sua capacidade de recriar as condições de sua própria reprodução. Nos últimos tempos, e graças em grande parte a escritoras como Naomi Klein, vimos como a exploração do trabalho humano e o meio ambiente fazem parte do mesmo processo de desenvolvimento capitalista, e que o desafio existencial que enfrentamos é uma questão não apenas de tecnologia, mas de economia política. Nesse sentido, essas histórias panorâmicas me parecem um salto gigantesco para trás. A última coisa de que precisamos é uma história de origem na qual os homens de Davos possam se apresentar como os agentes do progresso de nossa espécie.