Nem lembrança, nem reparação: os vestígios da violência imperialista do Japão

O Japão e suas modernas empresas capitalistas estão marcadas por uma grave história de opressão e exploração colonial contra outras nações asiáticas. Mas essa história tem sido ignorada, graças à hegemonia da extrema-direita no país. Por Eduardo García Granado | El Salto – Tradução de Caio Sousa para a Revista Opera

0
1202
Estátua homenageia "mulher de conforto" em Hong Kong. (Foto: Yatyiebaiman SIIO)

A Segunda Guerra Mundial levou a humanidade a níveis de violência sem precedentes. A ligação entre o Estado e os grandes capitalistas se expressou em sua forma mais violenta através de um conflito entre os diferentes exércitos dos Estados líderes do capitalismo mundial. Os grandes dirigentes da máquina militar desses países apertaram a mão do grande capital nacional; eles eram, por assim dizer, dois lados da mesma moeda. A honra e os privilégios dentro da burocracia estatal motivaram os membros de uma liderança militar que era a ponta de lança dos projetos expansionistas de um punhado de empresas que acumulavam capital com o único propósito de acumulá-lo em maior proporção.

A exploração econômica das colônias

O contexto do expansionismo japonês no século XX foi marcado pela necessidade de acesso a recursos naturais e mão de obra barata, semi-escrava ou escrava, para garantir a competitividade do capitalismo nacional. À medida que o Japão ultrapassou a Coreia na década de 1930 e ocupou a Manchúria, a Indochina e a costa leste da China, a violência e o grau de exploração da maior parte das populações “úteis” para a produção se intensificaram. Nesse processo, é claro, estavam envolvidas as grandes famílias japonesas que possuíam os grandes monopólios, ou zaibatsu. A enorme extração de lucros assegurada pelo domínio violento do Estado japonês sobre as colônias favoreceu o crescimento que os zaibatsu necessitavam para a competição intercapitalista; o Império, por sua vez, exigia a capacidade produtiva dessas gigantescas empresas. A concessão de contratos de exploração da terra e dos trabalhadores, bem como a repressão aos movimentos trabalhistas e de independência, eram condições insuperáveis para empresas como Mitsubishi, Yasuda ou Nissan.

No Japão, os grandes monopólios ocuparam uma clara posição de liderança na guerra. Eles podem não ter tomado decisões técnicas no campo de batalha, mas desempenharam um papel central no processo de tomada de decisões políticas, incluindo aquelas que tinham a ver diretamente com a condução da guerra; na verdade, ocupavam cargos centrais no gabinete, compartilhando (e disputando) o poder real com burocratas e líderes militares. Tendo uma posição vantajosa na definição da política econômica em tempo de guerra, eles puderam fazer valer seus interesses na exportação de capitais. A expansão em áreas como a de munição foi reflexo de seu rápido desenvolvimento.

As exigências empresariais no âmbito da política imperialista estavam presentes bem antes da Segunda Guerra Mundial. O Império Japonês, desde os primeiros passos de sua expansão no Leste Asiático, facilitou a violência industrial das grandes famílias do país. As necessidades particulares de cada zaibatsu, dos grandes capitalistas como classe dominante do Japão e do Império, em geral justificavam esses processos. Empresas como Mitsubishi ou Mitsui têm atrás de si décadas de trabalho forçado a que submeteram centenas de milhares de trabalhadores coreanos e de outras nações asiáticas.

O massacre de Nanjing, as “mulheres de companhia” e a violência cultural

Em seu impulso imperialista, o Japão deixou uma marca inapagável em muitos territórios asiáticos na forma de episódios aterrorizantes, muitas vezes marcados por uma crueldade insolente. Isso é bem conhecido na cidade chinesa de Nanjing. Lá, todos os anos é lembrado o que o imperialismo japonês significou para a vida de um enorme número de seres humanos. O Massacre de Nanjing, um dos eventos mais importantes da ocupação japonesa do leste da China, ilustrou até que ponto o Sankō Sakusen (algo como “matar tudo, saquear tudo, destruir tudo”) operava nas lógicas militares japonesas. A historiografia chinesa estima em 300 mil o número de pessoas que foram mortas durante as semanas em que durou o massacre.

O Massacre de Nanjing, como qualquer episódio histórico, está imerso em uma disputa de narrativas; especialmente no espaço político do Japão, onde o revisionismo histórico de cunho negacionista é protagonista. Há quem, como Masahiro Yamamoto, busque deshistoricizar e despolitizar o caso. Se tratava, em sua visão, de um mero punhado de lunáticos. Para outros como Shintaro Ishihara, o evento foi, em termos gerais, uma mentira anti-japonesa. Este último poderia passar por um usuário desagradável do Twitter ou um militante exaltado de alguma organização de extrema-direita, não fosse o fato de ter sido o governador de Tóquio de 1999 a 2012. Sobre a ligação entre nacionalismo japonês, política institucional, relações exteriores e postulados revisionistas negacionistas – quando não racistas – este artigo aprofundará um pouco mais.

 Leia também – As tensões entre Japão e Rússia sobre as ilhas no Pacífico resultarão em guerra? 

Por sua vez as “mulheres de conforto” ocupam, sem dúvida, um dos lugares mais vis na longa lista de infames violências do imperialismo japonês. Meninas, adolescentes e mulheres foram sequestradas e isoladas em locais de reclusão por anos para serem sistematicamente estupradas por membros do exército imperial.

Na Coreia, China, Filipinas, Tailândia, Vietnã e outros territórios que sofreram a ocupação japonesa, as histórias dessas jovens ainda ressoam no dias de hoje. A maioria delas não está mais viva hoje; outra parte é idosa.

Esses locais de detenção abrigavam dezenas de milhares de mulheres. As estimativas variam de 20 mil a 400 mil. Seja como for, à medida que as tropas imperialistas avançavam, as mulheres eram compradas, enganadas e sequestradas para serem levadas aos centros de detenção. Assim, os avanços militares operavam uma espécie de “substituição” das mulheres, renovando as vítimas em consonância com o desenvolvimento da ocupação dos territórios. Este pesadelo não viu seu fim até o fim da Segunda Guerra Mundial, que trouxe consigo a derrota total do Japão. E, embora como explice a pesquisadora Maria del Pilar Álvarez, a libertação “não pôde libertá-las do trauma que vivenciaram”, os esforços de memória ajudam a dignificar a figura histórica de dezenas de milhares de mulheres com uma história ancorada décadas atrás.

É claro que a violência exercida pelo Exército Imperial contra a população civil foi muito além dos limites destes dois casos apresentados. Seria inviável, no tempo e no espaço, coletar mesmo como uma aproximação de todos os acontecimentos aterrorizantes que deixou para trás em seu caminho pelo continente asiático. Merece atenção, por ir um passo além, a violência cultural. Na Coreia, mas também em outros países, o Japão tentou realizar seu processo assimilacionista. Seja da posição supremacista – a “raça japonesa” era superior (considerada, por alguns, ariana) e deveria “civilizar” a Ásia – ou daquela que considerava a existência de ancestrais comuns – e, consequentemente, colocava a tarefa histórica de replicar seu modelo (capitalista, desenvolvido) no resto da região, especialmente na Coréia – o Império intensificou seus esforços assimilacionistas na década de 1930.

Coincidindo com uma demanda crescente de produção no contexto do pré-guerra, o impulso expansionista se fortaleceu nos níveis étnico, linguístico, religioso e cultural. Na península coreana, as diferentes teorias assimilacionistas foram úteis para justificar a obrigatoriedade do xintoísmo como religião nacional. Com Kazushige Ugaki como Governador Geral da Coreia (1931-1936), as horas de ensino da língua, história e ética japonesas aumentaram, os oficiais foram forçados a participar de cerimônias xintoístas e foram forçados a adorar divindades japonesas (em suas próprias casas!), entre outras práticas. Com Minami Jiro (1936-1942), que o sucedeu nos anos mais difíceis do conflito, a eliminação total da identidade coreana tornou-se a política cultural central da colônia. Os nomes nativos foram substituídos por “equivalentes” japoneses, a língua do Império foi instalada como a única língua oficial e o coreano foi removido dos currículos educacionais. Essas e outras restrições tiveram um alcance legal real: aqueles que não as cumpriram sofreram repressão e limitações a tal ponto que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 84% dos coreanos havia aderido às práticas e modos japoneses.

Negacionismo e recusa política para pedir perdão

Ainda assim, as desculpas e o reconhecimento das vítimas não são comuns na política japonesa. O nacionalismo nipônico, intimamente ligado a posições que revisam de acordo com seu interesse sua história imperial sob uma perspectiva de negação, desempenha um papel importante em espaços de poder político como grandes empresas, partidos políticos, instituições educacionais ou a burocracia estatal. As iniciativas em prol da memória e da reparação chegam aos poucos e, quando chegam, são insuficientes e recebem a rejeição interna dos grupos da direita nacionalista. Quando, como líder do Partido Socialista, Tomiichi Murayama foi primeiro-ministro (1994-1996), foi proposta a criação de um Fundo da Mulher Asiática. O Fundo incluiu uma carta de desculpas, assistência médica e compensação financeira; foi rejeitado por organizações sul-coreanas. O motivo foi que essa proposta, a mais profunda que saiu do Estado japonês, nem mesmo obrigou o país a levar os responsáveis à justiça.

Os setores mais reacionários do Japão, defensores de posições racistas e contrários a qualquer tipo de compensação histórica – às vezes até relutantes em reconhecer os fatos ou sua culpa – entrincheiram-se em organizações políticas como o Partido Liberal Democrático (PLD). Com mais da metade dos deputados na Câmara dos Deputados e ocupando o cargo de primeiro-ministro desde 2012, a direita nacionalista é o espaço político mais importante do Japão. Tal capacidade diretiva, evidentemente, exclui uma solução diplomática a médio prazo. Além disso, o debate sobre as responsabilidades históricas do Estado japonês é, consequentemente, profundamente enviesado para a direita, de modo que parte da oposição se encontra em posições instáveis ​​no que diz respeito à reparação.

As disputas diplomáticas entre o Estado japonês e os Estados de nações que já sofreram com a violência imperial costumam ser notícia. Em fevereiro deste mesmo ano, o Japão solicitou que uma série de minas de prata e ouro fossem declaradas Patrimônio da Humanidade. Cerca de 780 mil coreanos foram forçados a trabalhar nessas minas durante os anos de domínio colonial japonês sobre a Península. A iniciativa partiu dos setores mais duros do PLD e por impulso do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe. Empresas como a Mitsubishi foram denunciadas nas últimas décadas por famílias cujos membros idosos foram empregados nas mesmas empresas como mão de obra escrava ou semi-escrava. A resposta das camadas diretivas têm sido frequentemente negativas; sob a proteção de um Estado que legitima e difunde narrativas revisionistas e de negação, as grandes famílias do país, muitas das quais se beneficiam das vantagens competitivas de ter tido uma força de trabalho colonial, encobrem seu passado e fogem da responsabilidade que memória e verdade lhes atribuem.