Sobre o centro

Buscar desesperadamente o “centro” é cometer um erro epistemológico imperdoável: assumir que se governa um país, mas que o povo vive em outro. Por Alfredo Serrano Mancilla | CELAG – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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15.03.2022 - Lula e Alckmin se encontram em evento promovido pelo Grupo Prerrogativas, em 15/12/2021, em homenagem ao ex-presidente Lula, no Restaurante Figueira Rubayat, em São Paulo. Lú Alckmin e Rosangela da Silva, a Janja, estiveram presentes. (Foto: Ricardo Stuckert)

O Centro não existe.

Esta poderia ser uma das conclusões tiradas dos resultados eleitorais em muitos países da América Latina.

Uma vez me contaram uma piada (muito ruim) sobre a importância relativa que poderia ter o valor médio em alguns casos onde predominam valores extremos. Se você sai para comer carne com um amigo vegetariano, e você come um quilo de um bom assado, mas seu amigo não come absolutamente nada, então a média nos dirá que cada um comeu meio quilo de carne.

Em conclusão: há de saber usar as estatísticas direito. E não abusar delas sem sentido. Nem sempre a média é estatisticamente significativa.

Com o “Centro” ocorre algo parecido.

Em política, e em particular no campo eleitoral, se abusa do conceito de “Centro”, como se este existisse por uma questão aritmética. Justamente como se se tratasse de uma posição ideológica média, que está na metade do caminho entre um extremo e outro. No entanto, essa posição não é habitual na América Latina.

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Por quê? Em grande medida, por três razões.

  1. No que se refere à economia, os países da região têm distribuições das condições de vida e de ingresso com um alto grau de polarização. Quer dizer, muitos com pouco e poucos com muito. Isso implica que a média está muito distante do mediano, o que desafiaria a hipótese da existência de um eleitor típico, representante da sociedade.

Dito de um modo mais coloquial: não há eleitor “centrado” porque o “Centro” é a consequência de uma função estatística que não corresponde à realidade.

Se interpela uma sociedade que não existe. Se fala de uma classe média como majoritária quando o que há é uma maioria que está empobrecida.

  1. O que [George] Lakoff chama de biconceitualidade. Há gente que pensa ideologicamente de uma maneira em um assunto e de outra frente a um assunto distinto. Se pode ser progressista, a favor de mais e melhor Estado em matéria de saúde pública, mas conservador em termos de velar pela segurança nas ruas. Isso não implica de nenhum modo que existe uma “pessoa de Centro”. Uma não tem nada a ver com a outra. Se trata do fato de que uma mesma pessoa pode utilizar um sistema moral em um âmbito e outro sistema moral em outro.

E, portanto, devemos saber interpelar o sistema de valores progressista em vez de falar com uma “moderação” ilusória.

  1. O fato dos cidadãos estarem distanciados e dissociados dos debates recorrentes por parte de certa classe política não significa que sejam de “Centro”. Nem que esses cidadãos estejam despolitizados.

Em cada assunto, cotidianamente, o povo se posiciona. Com clareza e veemência. Ou alguém sabe o que seria “ser de Centro” em temas como aborto, o abuso de encargos bancários, a insegurança dos cidadãos, os preços altos dos alimentos, os salários baixos, a falta de saúde e educação, os problemas dos cortes de luz, a corrupção, etc.?

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O novo progressismo latino-americano enfrenta o seguinte desafio: não cair na ideia de um “Centro” como o espaço predominante. Porque se aceita isso – como defendem as “usinas centristas fanáticas”, como as chama Stiglitz – cometeríamos um erro epistemológico imperdoável: assumir que se governa um país, mas que o povo vive em outro.

Neste sentido, quem não se equivoca é o presidente Manuel López Obrador no México; conseguiu uma votação histórica em 2018 sem acudir ao Centro e polarizando contra um modelo caduco e injusto. E ainda mantém sua imagem positiva sem necessidade disso. Na Bolívia, tanto com Evo e agora com Luis Arce, o mesmo: a eterna tentativa de Centro de Carlos Mesa sempre ficou longe de atingir a maioria. No Peru, as opções de Centro não passaram para o segundo turno (nem Guzmán, nem Forsyth, nem De Soto). No Chile tampouco (nem Parisi nem Provoste). No Equador, a mesma coisa (nem Hervás nem Yaku). E na Colômbia, o Centro por La Esperanza foi o espaço político menos votado na consulta ocorrida no mês de março. Gustavo Petro, pelo contrário, sem buscar o Centro, conseguiu uma votação recorde para a esquerda com uma proposta clara. E ainda segue sendo o grande favorito para ganhar a próxima eleição presidencial.

Este fenômeno poderia servir como advertência para o que pode acontecer no Brasil – nas eleições presidenciais de outubro – e também na Argentina, no próximo ano. Ou seja, cair na armadilha de querer buscar um Centro que não existe.